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Prefácio Interessantíssimo (Trechos)

[sex] 7 de fevereiro de 2003

Prefácio Interessantíssimo (Trechos)

Leitor:
Está fundado o Desvairismo.
Este prefácio, apesar de interessante, inútel.
Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões.
Para quem me aceita são inúteis ambos.
Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados.
Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou.

Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita.
Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi.
Daí a razão deste Prefácio Interessantíssimo.

Aliás muito difícil nesta prosa
saber onde termina a blague,
onde principia a seriedade.
Nem eu sei…

“Este Alcorão nada mais é que uma embrulhada de sonhos confusos e incoerentes. Não é inspiração provinda de Deus, mas criada pelo autor. Maomé não é profeta, é um homem que faz versos. Que se apresente com algum sinal revelador do seu destino, como os antigos profeta.” Talvez digam de mim o que disseram do criador de Alá. Diferença cabal entre nós dois: Maomé apresentava-se como profeta; julguei mais conveniente apresentar-me como louco.

Você já leu São João Evangelista? Walt Whitman? Mallarmé? Verhaeren?
Perto de dez anos metrifiquei, rimei. Exemplo?

“Alguns leitores ao lerem estas frases (poesia citada) não compreenderam logo. Creio mesmo que é impossível compreender inteiramente à primeira leitura pensamentos assim esquematizados sem uma certa prática. Nem é nisso que um poeta pode queixar-se dos seus leitores. No que estes se tornam condenáveis é em não pensar que um autor que assina não escreve asnidades pelo simples prazer de experimentar tinta; e que, sob essa extravagância aparente havia um sentido porventura interessantíssimo, que havia qualquer coisa por compreender.” João Epstein.

Todo escritor acredita na valia do que escreve. Si mostra é por vaidade. Si não mostra é por vaidade também.

Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.

O ridículo é muitas vezes subjetivo. Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre. Criamo-lo para vestir com ele quem fere nosso orgulho, ignorância, esterilidade.

Um pouco de teoria? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente,
acrisolado num pensamento claro ou confuso,
cria frases que são versos inteiros,
sem prejuízo de medir tantas sílabas,
com acentuação determinada.
Entroncamento é sueto para os condenados da prisão alexandrina.
Há porém raro exemplo dele neste livro.
Uso de cachimbo…

A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer impecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que, somada a Lirismo, dá Poesia, não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece, caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos.

Que Arte não seja porém limpar versos de exageros coloridos. Exagero: símbolo sempre novo da vida como do sonho. Por ele vida e sonho se irmanaram. E, consciente, não é defeito, mas meio legítimo de expressão.

“O vento senta no ombro das tuas velas!” Shakespeare. Homero já escrevera que a terra mugia debaixo dos pés de homens e cavalos. Mas você deve saber que há milhões de exageros na obra dos mestres.

Já raciocinou sobre o chamado belo horrível, é pena. O belo horrível é uma escapatória criada pela dimensão da orelha de certo filósofos para justificar a atração exercida, em todos os tempos, pelo feio sobre os artistas. Não me venham dizer que o artista, reproduzindo o feio, o horrível, faz obra bela. Chamar de belo o que é feio, horrível, só porque está expressado com grandeza, comoção, arte, é desvirtuar ou desconhecer o conceito de beleza. Mas feio = pecado… Atrai. Anita Malfatti falava-me outro dia no encanto sempre novo do feio. Ora Anita Malfati ainda não leu Emílio Bayard: “O fim lógico dum quadro é ser agradável de ver. Todavia comprazem-se os artistas em exprimir o singular encanto da feiúra. O artista sublima tudo”.

Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório – questão de moda. Belo da natureza: imutável, o objetivo, natural – tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora consciente ( Rafael das Madonas, Rodin do Balzac, Beetjoven da Pastoral Machado de Assis do Brás Cubas), ora inconscientemente (a grande maioria), foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural. Outros infiram o que quiserem. Pouco me importa.

Nossos sentidos são frágeis. A percepções das coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias, ignorâncias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar, etc… Só idealmente podemos conhecer os objetos como os atos na sua inteireza bela ou feia. A arte que, mesmo tirando os seus temas do mundo objetivo, desenvolve-se em comparações afastadas, exageradas, sem exatidão aparente, ou indica os objetos, como um universal, sem delimitação qualificativa nenhuma, tem o poder de nos conduzir a essa idealização livre, musical. Esta idealização livre, subjetiva permite criar todo um ambiente de realidades ideais onde sentimentos, seres e coisas, belezas e defeitos se apresentam na sua plenitude heróica, que ultrapassa a defeituosas percepção dos sentidos. Não sei que futurismo pode existir em quem quase perfilha a concepção estética de Fichte. Fujamos da natureza! Só assim a arte não se ressentirá da ridícula fraqueza da fotografia… colorida.

A língua brasileira é das mais ricas e sonoras. E possui o admirabilíssimo “ão”.

Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal, musical da palavra em liberdade. Aliás: velha como Adão. Marinetti errou: fez dela um sistema. É apenas auxiliar poderosíssimo. Uso palavras em liberdade. Sinto que o meu copo é grande demais para mim, e ainda bebo no copo dos outros.

Por muitos anos procurei-me a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que ando à procura da originalidade, porque já descobri onde ela estava, pertence-me, é minha.

Quando uma das poesias deste livro foi publicada, muita gente me disse: “Não entendi”. Pessoas houve porém que confessaram: “Entendi, mas não senti”. Os meus amigos… percebi mais duma vez que sentiam, mas não entendiam. Evidentemente meu livro é bom.

Escritor de nome disse dos meus amigos e de mim que ou éramos gênios ou bestas. Acho que tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos, o anseio do farol. Si fôssemos tão carneiros a ponto de termos escola coletiva, esta seria por certo o “Farolismo”. Nosso desejo: indicaremos o caminho a seguir, bestas: náufragos por evitar.

Canto da minha maneira. Que me importa si me não entendem? Não tenho forças bastantes para me universalizar? Paciência. Como o vário alaúde que construí, me parto por essa selva selvagem da cidade. Como o homem primitivo cantarei a princípio só. Mas canto é agente simpático: faz renascer na alma dum outro predisposto ou apenas sinceramente curioso e livre, o mesmo estado lírico provocado em nós por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei de achar também algum, alguma que se embalarão à cadência libertária dos meus versos. Nesse momento: novo Anfião moreno e aixa-d’óculos, farei que as próprias pedras se reunam em muralhas à magia do meu cantar. E dentro dessas esconderemos nossa tribo.

Mas todo esse prefácio, com todo o disparate das teorias que contém, não vale coisíssima nenhuma. Quando escrevi “Paulicéia desvairada” não pensei em nada disto. Garanto porém que chorei, que cantei, que ri, que berrei… Eu vivo!

Aliás versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se, choram-se. Que não souber cantar não leia Paisagem n.º 1. Quem não souber urrar não leia Ode ao Burguês. Quem não souber rezar, não leia Religião. Desprezar: A Escalada. Sofrer: Colloque Sentimental. Perdoar: a cantiga do berço, um dos solos de Minha Loucura, das Enfibraturas do Ipiranga. Não continuo. Repugna-me dar a chave de meu livro. Quem for como eu tem essa chave.

E está acabada a escola poética “Desvairismo”.

Próximo livro fundarei outra.

E não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só.

Poderia ter citado Gorch Fock. Evitava o Prefácio Interessantíssimo. “Toda canção de liberdade vem do cárcere.”

O Prefácio Interessantíssimo da Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade

RODRIGUES, A. Medina (et al). Antologia da Literatura Brasileira: Textos Comentados. São Paulo: Marco, 1979. vol. 2, p. 28-32.

A noite confusa

[qua] 5 de fevereiro de 2003

Calor do caralho…

36º… E a previsão é de seguir assim até domingo…

# 1 Estou sufocando. Essa Agonia que me assaltou… Ah! Já senti tantas vezes isto… Esse desejo, esse medo, essa vontade, esse desespero…. Sufocando… Engolindo-me.

# 2 Tudo a que me proponho a fazer, todas as metas que traço… Atinjo. Mas em certas horas eu me sinto tão perdido… E certas coisas perdem o sentindo que talvez nunca vieram a ter…

Retalhos

[ter] 4 de fevereiro de 2003

Muito papo… Passa tempo… Há um comichão aqui me roendo por dentro…

Boa parte do tempo acho que ando fora da realidade… Mas então pergunto-me o que é a realidade?

Ando sentindo falta de algumas pessoas… Sei lá… Só pra falar besteiras… Talvez nem falar nada… Só estar!
Algumas pessoas… Meus amigos!

Em casa o futuro…

[seg] 3 de fevereiro de 2003

Em casa… Hoje começaram as minhas aulas aqui no CEntro Federal de Educação Tecnologica de SC – Floripa.

Descronometrando… Sei que nesse tempo, deixei minha barba crescer (cortei ontem), namorei, me separei, sai do emprego, briguei… tomei banho de piscina, de chuveiro, de mar, de chuva… Andei… Fiz planos e nada planejei…

Enfim comprei uma barraca… Mas não fui acampar ainda…. Beijei na boca… Escrevi muitos poemas… E não tenho idéia do que irei fazer daqui pra frente… Tudo esta em aberto… O futuro…

poesia de fevereiro

[sáb] 1 de fevereiro de 2003
O cão vadio à rua sai
preso à casa fica.

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sorrias
o olhar em qualquer direção
na rua, caminhando…
florescias
o olhar em qualquer coração
criatura, sonhando!

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meu amigo,
se acaso um dia
o dia for embora
porta à fora
digo-te
somos apenas
o que sentimos
apenas isto.

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salto para o alto
e o peso perde-se no ar
flutuando nos teus olhos de mariposa:
tua voz.
Pois de agora adiante
é assim
fluxo contínuo
incrédulo desatino
lavra derramada
suaves,
vertiginosamente
palpitamos
nus
no chão expostos.
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