joão cabral de melo neto

2006, junho 20, terça-feira

download (2)Oquêi!,

Uma vez mais tentar! Em vão, um vão qualquer…

Se esbarrares comigo, e eu brincando de poesia, declamando p’ro vento, intentando ventura, enquanto outros olham-me como um louco, mais um…

Eu digo assim:

(como diz joão!)

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

João Cabral de Melo Neto
Morte e vida severina
Auto de Natal Pernambucano

4 Respostas to “joão cabral de melo neto”

  1. Carlos Pedro Says:

    observamos na obra “Morte e vida Severina” uma das maiores expressões do autor, tratando de maneira clara as relações existenciais entre o homem do sertão e sua realidade junto ao “cidadão” urbano que apresentam na esperança de um novo dia a expressão de um olhar diferente sobre a vida.

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  2. Julia Berois Caetano (Perla) Says:

    Me apasioné por “Morte e Vida Severina”, estoy con un preyecto teatral sobre su libro que compré en Florianópolis Hace unos 15 años. Agradezco vuestros valiosos datos que me han ayudado a interpretar. Nací en 1932, viví en Brazil 16 años desempeñándome como docente. Me dedico a escribir, pintar y teatrar, ahora en dirección de teatro. Amo Brazil y todo lo que de allí brote. Sin más, sumamente agradecida a la vida que me permitió meterme en vuestro mundo, mi pintura representa personajes nordestinos. Perla.

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  3. matias Says:

    hola abuela estoy feliz de visitar esta pagina y encontarme con tanta sabiduria como años de dedicaciòn espero continues con lo que mas te gusta besos Matias

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  4. julia Says:

    axei tri mas naum encontrei o q eu qria
    xau
    abrassosss

    bjuuu

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