nossa poesia tem classe

[qui] 24 de janeiro de 2008

Nossa poesia tem classe (em homenagem ao MST)

Certa vez me disseram:
A poesia é para as coisas belas
não fala do sujo, do podre
do morto, do pobre,

do proletário com terra sob as unhas!

A poesia fala das flores
e dos vestidos rosados de delicadas donzelas
dos grandes campos verdes gramados
com vacas malhadas
dos grandes campos verdes,
da soja, do milho, da cana,
e bosques de pinheiros dos Alpes tropicais.

Fala das casas dos modernos senhores de engenho!

Mas eu, que nessa realidade não vejo beleza,
talvez não possa fazer poesia:
os senhores isso me disseram!
Eu, operário da favela e camponês sem terra,
não conheço a linguagem das gramáticas:
os senhores dizem que não sei falar

muito menos escrever com caneta tinteiro!

As vezes penso como eles,
os senhores dos grandes campos verdes.
O trabalho cotidiano me suga a alma!
Em alguns dias não há suficiente do alimento que eu mesmo plantei
para repor o suor roubado no canavial.
As vezes cansado, sugado, deixo o cotidiano seguir
E esqueço de criar com as palavras do povo,

dos heróis esquecidos de uma pátria explorada.

Levanto!
Lembro dos que vieram do mesmo povo que vim,
que com as marcas da chibata nas costas enfrentaram aos senhores
e aos generais.
Que levantaram colunas e marcharam contra as injustiças.
Que ergueram, com o rosto de graxa, o martelo operário

e usaram a mesma foice do canavial para romper as cercas do latifúndio.

Heróis que sentiram a dor de um povo
e pintaram de vermelho suas bandeiras
com o sangue dos que pela liberdade lutaram!
E se organizaram. Como se organizaram!
Com a coragem clandestina do partido comunista e das ligas camponesas
ergueram os sonhos de uma pátria livre
e do poder proletário e camponês:

Viva a revolução socialista!

Sequer a ditadura conteve o impulso voraz de uma classe.
Matou nossas mais belas flores, guerrilheiras,
mas esqueceu que elas tem sementes resistentes
e não param de germinar.
Talvez eu seja uma delas.

Sinto nas veias ainda o sangue dos Carlos: Prestes e Marighella!

Algumas sementes tornaram-se plantas fortes
e já floresceram.
Não temem os limites do latifúndio e a arma do capataz.
Ocupam as terras do povo, com cores alegres,
com a música que recorda nossos heróis esquecidos,
com a poesia feita com as mesmas mãos que seguram o facão.

Esperam a primavera gritando palavras de esperança:

Pátria Livre! Venceremos!

Otávio Dutra, Isla de la Juventud – Cuba
Janeiro de 2008.

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