Archive for março, 2008

meu verso é sangue

[seg] 31 de março de 2008

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

Eu faço versos como quem morre..
Manuel Bandeira.

lição de gato siamês

[sáb] 29 de março de 2008

na reunião de planejamento… a leitura compulsiva.

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo).

Lição de gato siamês. Ferreira Gullar

Entreter-se:
À vida falta uma parte
-seria o lado de fora-
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa
e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem reposta.
À vida falta uma porta.

Ferreira Gullar

Nós, Latinos-Americanos somos todos irmãos…
Mas não porque tenhamos a mesma mãe e o mesmo pai: temos é o mesmo parceiro que nos trai.

Somos todos irmãos não porque dividamos o mesmo teto e a mesma mesa: divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos não porque tenhamos o mesmo berço, o mesmo sobrenome: temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.

Somos todos irmãos não porque seja o mesmo sangue que no corpo levamos: o que é o mesmo é o modo como o derramamos.
.
Ferreira Gullar

Ferro e arquitetura

[sáb] 29 de março de 2008

“São nossos candangos a desabar dos andaimes que sustentam as montadoras abarrotadas de robots.
(…)
E não há dúvida possível: nosso desenho de arquitetura (que não é o unico possível) continua a ser instrumento da extração da mais-valia nos canteiros – mais-valia que emigra, sob várias formas, para alimentar os lucros dos setores ‘avançados'”.

Sérgio Ferro

no guarda-roupas os velhos disfarces deste estúpido sistema.

[qui] 27 de março de 2008

O Sistema divorcia a emoção do pensamento como divorcia o sexo do amor, a vida íntima da vida pública, o passado do presente. Se o passado não tem nada para dizer ao presente, a história pode permanecer adormecida, sem incomodar, no guarda-roupas onde o sistema guarda seus velhos disfarces.

Eduardo Galeano

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