Archive for abril, 2008

afinam ou desafinam (…)

2008, abril 28, segunda-feira

“Vida muito esponjosa (…) o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia (…) Eu cá não madruguei em ser corajoso, isto é: coragem em mim era variável (…) Mas minha competência foi comprada a todos custos, caminhou com os pés da idade”.

“Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder”

“O Senhor… mire veja o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam (…) ”.

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

É tudo Guimarães Rosa. Recortado por aí.

para saber mais sobre guimarães rosa, e ler os fragmentos acima, na íntegra, acesse aqui:

Rota: O diabo, capiroto, que-diga, demo – p. 11Rota: O diabo, capiroto, que-diga, demo – p. 11

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

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sofá tem gosto do que mesmo?

2008, abril 26, sábado

três coisas* que não-preciso ‘notar aqui¹.

* o fragmento-poema [desaguado sob um chuveiro]. * in reflexão [sobre o estado nuvem do ser concreto na consciência de si processo e fragmento de trabalho abstrato e diário. * nos objetivos do fragmentário [aparentemente sempre nos transmutam e de essência o possível dialógo-grito em multidões finitas-infinito. o expor-se fragmento. a problemática].

I. sinto tanta ânsia
de mais…
que neste papel em branco, só,
não caberiam
as vozes
os muros
as consciências
os corpos em movimento!
a luta declarada!

II. depois, e é por bem dizer desta maneira, de uma semana e meia in(
constante)
conforme)
colocável)!

de coisa amorfa e indisposta!
o surto laborioso disposto e o criar coisas precárias e divertidas!

III. aqui: não excludente. registrável. objetivo à memória – do rosto, do aspecto, do odor, do desconforto, do angustiante, do particular contido em cada linha de cada fragmento poét… objetivo o ato público e essa substancialidade política em forma-conteúdo

[¹] mesmo que estes relatos contidos aqui sejam instável e por vezes, muitas, os quase delete².
[²] tem gosto³ de aço reluzente.
[³] brincando de labirinto. o gosto, em referência, aos estranhos e encantadores hábitos cognitivos de Parreiras Gomes.

cidade baixa, …

2008, abril 21, segunda-feira

Etnografia de botequim¹
21 Abril | 2008

21.IV.2008

José do Patrocínio, 788
Cidade Baixa, Porto Alegre.

O preço da ceva continua o mesmo
Os jovens gaúchos falam de suas verdades tão vividas
Segue pela noite a dentro a construção dialogada
Em certo momento, os sons e imagens misturam-se
Não ouço nada, exceto um barulho tremendo,
Não vejo nada, exceto cores que giram!

Etnografia de botequim¹ : fragmentos de poesias de uma noite de ritos e bebidas mágicas
ou (por uma Sociologia de Boteco²)
14³ fragmentos poéticos construídos neste embalo de uma noite em Porto Alegre

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número um

que é:
(palavra)
verdade
disparada

silêncio alto!
grita-se
– as palavras
cruzadas –
cismas

(intenta-se código)
disparo fogo em cruz.

grita alto!
o silêncio
cruzas
as
palavras,
crispas,

ah! se tudo fosse quase
tudo aquela palavra
que hora
diz hora
não…
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número dois

Sangra
no fogo
o sal
da brasa
carne

rola
no espeto
da vida
na vibração sônica
no processo químico-físico
no cozimento em brasa-fogo!

imagens.
discursos baratos
e não entendíveis.

morre o bicho de tédio vivo.
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resposta ao número dois

meu amigo pode se sentir preso
meu amigo pode sentir desprezo
meu amigo de desterro…
não tenhas medo
dos verborrágicos do insensato
talvez do que pode ser inato: eu digo não
presuma o que há de mágico
desnuda o que não seja estático e dinâmica
mas grite, olhe, cause dor
professe que deseje estranho
combata que lhe falte amor
e o que lhe seja terror, por favor
– declare guerra!
Alexandre Lima/Porto Alegre
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número três

solapa
fundo sonor(o) barulhento
escala         (t)
ora           ( l)
som        (a)
muito

(oi)
palavra inteligível

me perguntas algo?
o quê?
não sei?
sei sim!
então!
é não!
é você não…
(o)
código não-elástico (t)
texto-teste              (l)
ler um clássico ch(a)pado
eles falam muito

(oi)
palavra teleolegível
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número quatro

Começo a olhar para os cantos
cato os olhos possíveis
vago sozinho no salão cheio
de mesas – lotado de gente não calada
a doído pelos cantos…
olhar girando
copo semi-vazio
gente dispersa
reunida no salão.

eu, papel e um balcão!
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número cinco

até no século dezenove
um trabalhador organizado
lutava
em silêncio não segue o poema audível.

dança ela no caminho – isso em som.

até o século trinta e nove
um livre-trabalhador declama
o poema ilegível não existe

dança ela no caminho, isso em suspensão.

até qualquer século da casa nove
o módulo trabalha-dor
poema devora-se vivível.
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número seis

O movimento pegou o corpo,
no copo quase vazio – a pessoa
e o individuo – o olho se vai torto
O movimento pegou o corpo,
eu, bêbedo que fala e, não entendo,
escrevo pelo engraçado descrever-se
no tempo provocado de então!
O movimento pegou o corpo…
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número sete

bastante
balcão
cuspe pro ar
corpo curvilíneo
bêbado bastante
apoiado no balcão
lança o cuspe pro ar
e baba no corpo
curvilíneo que passa
bastante rápido
rente ao balcão barato
depois do cuspe do ar desabar
no corpo curvilíneo
balcão
copo
bastante
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número oito
(cidade baixa)

pelas ruas arborizadas
das esquinas centrais
e prediais
nos bares barulhentos
em esquinas diversas
e prediais
os bêbados, quase todos jovens,
discursam eloquentemente sobre
a noite de Porto Alegre
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número nove

quero comer-te
suculento pão
crocante e macia
passas assim rente a mim
que fome!
ah! ser degustado
esfomeado
devorador
deste gosto airado
fermento
e fogo
ânsia de comer!
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número dez

poema de embate
em campo noturno aberto
e extremamente barulhento
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número onze

alucinado
se retorce
todo!
inventa
poses
brinca com a cara
com o cabelo
com o cigarro na ponta dos dedos

na mesa do canto
muito bêbado
o bicho estranho
de canto se aguenta!
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número doze

papel sujo
conversa fiada
no balcão barato
do bar gaúcho.

a razão é
conversa barata
papel fiado
balcão sujo

o contra-ataque

um dia em terras
gaúchas – poemas
de papel e balcão

desafio
de discurso
e desvairação!
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número treze

não domino o código
bêbado
apenas bebo
este código líquido
amargo e suave!
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¹ sugestão do alexandre lima – cso ufrgs
² sugestão do marcus vinicius hulk – cso ufrgs
³ todos os números foram compulsivamente escritos por mim. exceto o resposta ao número dois.