fragmentos de um ensaio sendo devorado… ou outro tema, ou eu mesmo sobre os estados

[dom] 2 de novembro de 2008

Fim. O verbo manifesta a necessidade objetiva.

Objetiva é a subjetiva necessidade do corpo (cheio e vazio de gente) em movimento

***

Sentiu a boca noite afora roçando o corpo. O sopro leve e a nuca – Atravessou a madrugada exalando o gosto da falta. Foi homem, quando já caía a noite e assim fez versos caminhando… Berrava outras coisas, em silêncio.

Entre o instante d’antes da chuva grossa e o desta janela de vidro, tu, criatura, secaste teus pêlos como se nada houvesse, como se o gotejo encharcante sobre o telhado não fosse evidente ou este o teor alcoólico em seus olhos não embaralhasse, e agora:

Um café? Um café! Pelo gosto das palavras. Tudo é frio e aquoso, pensamos. Teu corpo é branco e quente… E dentro da chuva, és sozinho… És a mão espalmada como anteparo às gotas que se coagulam, e deformam-se… Corpo afora tornam-se, tu e tudo, corredeiras no barro rente aos pés e o aroma airado impregna-se em suas cavidades num misto de umidade e gozo. É como o pó, o saibro, em dias terrosos engasgando na garganta, ou como agora – tudo é água, é a vida desaguando céu abaixo:  a terra, o ar são águas… O horizonte, o mar, a chuva… São tudo águas. Que vontade de ser água… A gota permanente dentro dos olhos.

A mesma mão à face, querendo enxergar um palmo à frente, desvencilha-se do que as pálpebras e as sobrancelhas já não podem, não podem contra o tempo – seu corpo vai encharcado. É dia claro neste momento, só lhe falta abrigo e um corpo quente onde depositar-se (na ante-sala não há vãos). Já não há os bancos das paradas de ônibus e nem o porta-mala de lata fria e de cortante conforto – seu corpo desfalecido acompanhou os caminhos dos seus, e mesmo lhe faltando espaço, o ventre nu do mundo lhe manteve vivo, lhe manteve dormente… Rastejou pela horas e invadiu a janela cerrada buscando o instante de apaziguar sua exaustão.

.

Aspirando alguma sensação de desconforto e ânsia. Das duas ultimas três horas foi-se assim – gente na calçada sem marquise, papelão molhado e corpos – mendicantes – nus num misto de prazer e pus dentro dos olhos – coisa humana, pedaço de gente, ou o presente ausência.

Para e observa, a mesma mão áspera do bruto humano, que mal resiste ao sono necessário e, rouco, pensa… “Ah!  Se tu soubesses como sou tão…”. Cantavam os homens e mulheres hoje em plena madrugada num coro emocionado… misturam-se imagens e gostos.

A pele e o quenturão distante… Latente, terrivelmente latente e não satisfeito… Lembra-te quando caminhavas e desgostoso de tua cintura seguir descadente no samba? teu passo quase duro na roda, o teu gosto de cana e a vontade quente de ser cintura e braços. Pensas na terra vermelha. Pensas… sente o café, a palavra e adormece.

Noite afora caminhaste conversando sobre besteiras com outros noturnos. Recebeste indicações de caminhos e sentimentos, te puseste no porta-mala a recordar todas as noites não sambadas, todas as noites onde o teu cheiro não foi outro, não foi mistura quente, não foi corpo exausto… sendo devorado pela loucura embriagante. Vai, vertigem.
Se seus olhos… como se o tempo ainda tivesse passando. Chove há dias lá fora e faltam-lhe bocas e saliva para dizer e pernas, ombros, sexo… Concha salgada sugando palavras. Só o estômago condensa num embrulho duro que nada deixa ficar ou numa fome compulsiva… A não-fome e tudo agora ao mesmo tempo.

Levantas da cama vazia cheia de corpos vestidos e nus. Secas seus pelos como se nada houvesse, como se o gotejar sobre as telhas ainda existisse… Só os pássaros denunciam o dia novo e a permanente condição: És sozinho, e tua complementariedade vai no movimento. As palavras ganham sentido quando habitam a vida. E ontem, quando domador do fogo foste ao meio do círculo com os palhaços, riste da condição, foste com todos, feliz. Homem enorme, braços abertos ao futuro. Começo.

Uma resposta to “fragmentos de um ensaio sendo devorado… ou outro tema, ou eu mesmo sobre os estados”

  1. cassiana Says:

    li e li de novo e de novo… gosto desse jeito, exposto… é bom…
    beijo

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