salta lenin el atlas [budapesti]

[seg] 27 de julho de 2009

Gostaria de iniciar esta conferência com duas perguntas que me parecem cruciais: 1) em que consiste, exatamente, a arte de traduzir?; e 2) seria a poesia traduzível? Antes de respondê-las, porém, conviria tecer aqui umas tantas considerações que, de certa forma, já envolvem uma espécie de resposta. Os vocábulos “traduzir”, “tradutor” e “tradução” têm sua origem no latim traducere ou transducere, ou traductio e traductor, que possuíam sentido diverso, mas continham a ideia fundamental de “fazer passar, pôr em outro lugar”. Essas raízes são as mesmas que se encontram no francês, no espanhol e no italiano. Em nossa, língua, além dos termos “traduzir”, “tradução” e “tradutor”, encontramos ainda “trasladar”, “transladador” e “trasladação”, como está registrado na edição de 1813 do velho Dicionário Moraes, com o mesmo sentido e idêntica origem dos equivalentes em língua inglesa: transfero, transfers, transtuli e transfere. Tais vocábulos chegaram por intermédio do francês arcaico translater àquele idiota, no qual tinham o sentido de “conduzir, levar através de”, ou seja, “transferir”, que ainda hoje se emprega para designar a transferência de um bispo de seu bispado. E veja-se que translator, translatoris já existam em latim com a acepção de “aquele que leva para outro lugar”. Apenas em alemão a origem não é latina, mas o significado fundamente é o mesmo: o prefixo über (“além, noutra parte”) + setzen (“pôr, colocar”).

Como se pode ver, em todos esses casos o sentido capital é o de “transferir, transportar”, isto é, “levar de um ponto para outro”, e daí “passar de uma língua para outra”, que é, ao fim de contas, “traduzir”. Cabe agora dar uma resposta àquela primeira pergunta: em que consiste, exatamente, a arte de traduzir? Vou me valer neste passo das definições e conceitos que Abgar Renault, um de nossos mais notáveis tradutores de poesia, reuniu na “Introdução” que escreveu à sua obra Poesia: tradução e versão (Rio de Janeiro, Record, 1994). Vale a pena recordar que muitos desses conceitos e definições tratam de traduções literárias, algumas especificamente da tradução de poesia. E observe-se que alguns dos autores aqui citados emitem opiniões sobre o valor e a possibilidade, que chegam a negar, da tradução. Vejamos então que opiniões contraditórias são estas.

Comecemos por Dante Alighieri: “Nada que seja harmonizado pelo vínculo das Musas pode ser passado do que lhe é próprio para outra língua sem destruir toda a sua doçura.” Em seguida, Cervantes: “A tradução de uma língua para outra é como olhar pelo avesso de uma tapeçaria flamenga.” Mais adiante, Samuel Johnson: “A poesia não pode ser traduzida. Um tradutor tem que ser como o autor do original: não lhe cabe superá-lo.” Já Horácio nos diz: “Como bom tradutor, não traduzirás palavra por palavra.” Em seu ceticismo, sentencia Wilhelm von Humboldt: “Toda tradução parece-me simplesmente uma tentativa de levar a cabo uma tarefa impossível.” O poeta romântico inglês Shelley o endossa: “Transportar de uma língua para outra criações de um poeta equivale a lançar uma violeta num cadinho para descobrir o princípio formal de sua cor e de seu odor.” Mas Goethe dele discorda quando afirma: “Diga-se o que quiser da inexatidão da tradução, ela continua sendo uma das ocupações mais importantes e dignas de todos os assuntos mundiais.” Mais exigente, John Conington pondera: “Uma tradução deve esforçar-se não só por dizer o que disse o autor no original, mas também como o disse.” Joseph Hilaire Belloc, por sua vez, aconselha: “Leia o original de modo cabal; transporte para a sua língua o efeito produzido em seu espírito; confira-o com o original para aproximar-se mais dele sem sacrificar sua pureza.” E Croce, finalmente, observa: “Traduções não-estéticas são simples comentários. Há uma relativa possibilidade de traduções, não como reproduções, mas como produção de expressões similares. Uma boa tradução tem valor original como uma obra de arte.”

À parte o ceticismo de alguns e a boa vontade de outros, a primeira exigência que se deve fazer a um tradutor de poesia é a de que ele seja um poeta, pois somente assim poderá enfrentar os desafios técnicos específicos desse gênero literário, como os do ritmo, da estrutura sintático-verbal, dos esquemas métricos e rímicos, da linguagem metalógica, do jogo de imagens e metáforas e de todos os outros elementos que constituem a retórica poética. Isto não quer dizer, necessariamente, que a tradução de poesia seja mais difícil que a dos textos em prosa, que têm também sua especificidade e suas armadilhas próprias. Lembro aqui a dificuldade que devem ter enfrentado os tradutores de Joyce ou Guimarães Rosa, para ficar apenas com estes dois. Mas há uma outra exigência, e não menos crucial: a do duplo domínio do idioma para o qual se irá realizar a tradução e do idioma em que se encontra escrito o texto a ser traduzido. São as assim designadas, respectivamente, língua de chegada e língua de partida. Talvez o erro capital neste ponto seja o fato de que, de um modo geral, saber o tradutor o seu próprio idioma nacional é considerado com o devido apreço, muito embora seja verdade que a ninguém é concedido o miraculoso privilégio de bem conhecer uma língua estrangeira sem conhecer a sua própria. Aliás, pelas oportunidades e confrontos vocabulares e sintáticos que oferece, a tradução transforma-se num veículo de notável eficácia para o conhecimento da própria língua nacional. E aqui caberia relembrar o que disse Goethe sobre o assunto: “Wer nur eine Sprache Kennt, Kennt nichts. Eine Sprache ist ein neur Geist.” Em bom português: “Quem sabe somente uma língua nada sabe. Uma língua é um novo espírito.”

Outra questão a ser abordada na tradução de poesia reside no fato de que, ao lidar com duas línguas, o tradutor está mais sujeito do que qualquer outro intelectual a contaminar-se e a contaminar o idioma para o qual está fazendo a tradução. Essa contaminação, ou estranhamento, pode ocorrer, sem dúvida, entre a língua do tradutor e qualquer outra com a qual esteja lidando, mas, nos tempos que correm, o idioma que envolve mais desafios é o inglês, por ser o veículo de expressão universal em razão de vários motivos, entre os quais o fato de ser a língua nacional de povos muito poderosos do ponto de vista cultural, literário, econômico, científico e tecnológico. Além de sua intrínseca e difusa polissemia, as palavras inglesas de origem latina enganam mais do que as outras exatamente por se assemelharem às da nossa língua procedentes da mesma fonte e que, em geral, não guardam nenhuma identidade de sentido entre si. São conhecidas com faux amis. Mas outra família muito numerosa de “falsos amigos” nada tem a ver com a língua latina: são apenas palavras que enganam amiúde por seu aspecto morfológico falsamente português.

Problema também delicado na tradução de poesia é o da literalidade, que não deve ser confundida com aquilo que costumamos definir como tradução isotópica. Se partirmos do princípio de que não há ― e não pode haver ― traduções estritamente literais, pois não apenas a forma, mas também, e principalmente, o conteúdo são irredutíveis a um traslado literal para outra língua, concluiremos que toda tradução é uma busca de equivalências entre aquilo que escreveu o homo faber no original e aquilo que resgatou o homo ludens em sua tradução, ou seja, aquele que nos serve a poesia “alheia”. A rigor e sem exagero, a tradução exige esforço mais extenso e intenso do que a criação propriamente dita, sobretudo quando se trata do traslado de textos poéticos, nos quais, além de todas as especificidades a que já aludimos, resta ainda ao tradutor o desafio de interpretar o pensamento do autor, sem falar nos problemas de atmosfera poética, que é necessário recriar em outra língua, e, intimamente vinculado a estes, o da escolha do vocabulário, pois há palavras que podem suscitar uma sugestão poética em determinada língua e em outra, não, caso se trate de uma tradução literal. É nesse resgate de equivalências que reside o mérito de qualquer tradução. E pode-se dizer até que a maior virtude de qualquer espécie de tradução é não dar nunca a impressão de que o foi.

Há uma outra questão sobre a qual eu gostaria de me deter aqui. Trata-se do papel histórico exercido pela tradução em certas literaturas, em especial a nossa, já que o leitor brasileiro é essencialmente monoglota. A literatura alemã, por exemplo, não seria o que é sem o Homero de Voss ou o Shakespeare de Schlegel. As traduções de Sêneca e Lucano desempenharam um papel fundamental na formação das línguas poéticas inglesa e espanhola. E as traduções do grego, do alemão e do inglês, realizadas por Chukovski, são a base da moderna literatura russa, que deve muito, ainda, ao Shakespeare de Pasternak. Em nossos dias, poetas de todas as nações competiram em traduzir Le cimetière marin, de Valéry, e não foram poucos os que traduziram, inclusive em nosso país, a poesia completa de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Leopardi, Eliot, Pound, Yeats, Montale, Ungaretti, Quasimodo, Saint-John Perse e Kaváfis, além de traduções ocasionais ou incompletas de vários outros poetas de língua estrangeira que compõem hoje o cânone da literatura ocidental. Entre nós, por exemplo, não se podem esquecer as monumentais traduções que se fizeram, durante as décadas de 1940 e 1950, de autores tão cruciais quanto Balzac, Proust, Virginia Woolf, Thomas Mann, Joyce, Fielding, Somerset Maugham, Dickens e tantos outros. Pode-se dizer assim que, no decurso dessas duas décadas, o grande volume de traduções dava consistência à vida literária e, além da receptividade no que toca aos livros brasileiros, assegurava a consolidação da indústria editorial. Sem essas traduções, assim como as que viriam depois, sobretudo a partir da década de 1980, o leitor brasileiro jamais poderia ter acesso aos clássicos da literatura ocidental.

E aqui chegamos à segunda questão que propusemos no início desta palestra. Seria a poesia traduzível? Para Manuel Bandeira, segundo penso o maior tradutor de poesia entre nós, não. Mas sua resposta envolve uma irônica contradição, pois Bandeira traduziu poesia praticamente durante toda a vida, tendo vertido para o nosso idioma poetas de várias línguas. A poesia é intraduzível na medida em que, como sublinha Dante Milano, tradutor exemplar de Dante Alighieri, Baudelaire e Mallarmé, “a linguagem de um poeta não pode ser trasladada a um outro idioma; pode-se traduzir o que ele quis dizer, mas não o que ele disse“. É claro que o que ele disse em sua língua irá perder-se na tradução para qualquer outra, o que estaria de acordo com um conceito do poeta inglês Robert Frost, segundo o qual a poesia “é tudo o que se perde na tradução”. E com ele concordariam, entre outros, Voltaire, Heine, Auden e Kaváfis. Auden, por exemplo, distingue muito claramente entre os elementos traduzíveis e intraduzíveis em poesia. Para ele, traduzíveis seriam os símiles e as metáforas, porque derivam não de hábitos verbais locais, mas de experiências sensoriais comuns a todos os homens”. E intraduzíveis haveriam de ser, por inseparáveis de sua expressão verbal, as associações de ideias que se estabelecem entre as palavras de som semelhante mas de significado diverso (homófonas) e, no caso dos poemas líricos, seu próprio sentido quando indissoluvelmente ligado “aos sons e valores rítmicos das palavras”.

Embora concorde com quase todas essas ponderações, e talvez com outras mais que porventura se façam, não consigo filiar-me àqueles que proclamam a sagrada intraduzibilidade dos textos poéticos. Penso até, servindo-me aqui de um paradoxo, que a poesia é traduzível justamente por não sê-lo. E sou de opinião que se poderá sempre traduzir, como quer Dante Milano, o que um poeta quis dizer. E o que significa isto? Significa, em termos genéricos, fazer com que ele consiga falar no idioma para o qual foi traduzido mediante uma trama de operações que privilegiem as correspondências sintático-verbais, que resgate a música das palavras e das ideias do autor traduzido e que, afinal, transmita a atmosfera e, mais do que isto, o espírito da obra que se trasladou para a língua. Os inimigos da tradução poética devem lembrar-se de que, diferentemente de um leitor que se põe a sonhar com o eventual sentido de uma palavra, o tradutor não opera no plano da ortonímia, e sim no da sinonímia, buscando menos a nomeação absoluta do que a nomeação aproximativa, razão pela qual o seu estatuto é, não o de criador, mas antes o de recriador. E a recriação ― ou transcrição, como pretendia Haroldo de Campos ― é a fórmula a que o linguista Roman Jakobson recorre para explicar o paradoxo da tradução poética, caracterizando-a nos termos de uma transposição interlingual, ou seja, de uma forma poética para outra. É nesse sentido de aproximação e de parentesco semântico-fonológico que deve presidir a operação de traduzir poesia.

A tradução de poesia é também, sob certos aspectos, um proveitoso exercício de crítica paralela, pois a todo instante esse homo ludens em que consiste o tradutor ― ou o recriador, como aludimos há pouco – está diante do complexo e prismático problema da escolha, dessa escolha que se processa no plano do significado e do significante, o que envolve, como já se disse aqui, opções semânticas, fonéticas, morfológicas, sintáticas, prosódicas, rítmicas, métricas, rímicas, estróficas – enfim, um espectro ambíguo e infinito constituído pelas chamadas figuras de linguagem. E tudo isto se assemelha um pouco àquilo que poderíamos chamar de uma equação poética, o que nos lembra o paralelo proposto por Wittgenstein entre a tradução de poesia e a solução de problemas matemáticos. Diz ele: “Traduzir de uma língua para outra é uma tarefa matemática, e a tradução de um poema lírico, por exemplo, numa língua estrangeira, tem grande analogia com um problema matemático. Pode-se muito bem formular o problema de como traduzir (isto é, substituir) este jogo de palavras por um jogo de palavras equivalentes em outra língua, problema esse que poderá ser resolvido, embora não exista nenhum método sistemático de resolvê-lo.” Como observa José Paulo Paes. um dos mais notáveis tradutores de poesia em nosso país, a “relevância desse símile para uma teoria da tradução de poesia está em que o conceito de equação envolve as noções complementares de equivalência e correlação de valores”. Assim, “quando se concebe o poema como equação verbal, está-se apontando, creio eu, para uma correlação entre as semântica do significado e a semântica do significante cuja soma algébrica equivale à semântica global de todo o poema”.

Numa sociedade como a nossa, onde existem hoje apenas 12% de pessoas letradas, é preciso que se acredite no êxito da tradução poética, mesmo sabendo que ela não passa de uma operação de tangenciamento, pois será desse êxito que irá depender o conhecimento dos clássicos por parte do grande público, o qual, em sua esmagadora maioria, domina apenas – e precariamente – a sua própria língua. É preciso recorrer um pouco àquele conceito coleridgiano da suspension of disbelief, ou seja, abolir a descrença na impossibilidade de que a poesia possa ver venturosamente traduzida. Claro está que determinadas experiências de poetas que escreveram em outras línguas não podem ser reproduzidas no idioma de chegada. Os Four Quartets, de T.S. Eliot, por exemplo, são inspirados por experiências místicas cuja raiz o poeta acreditava ter descoberto em recordações ancestrais de sua raça inglesa. E experiências como estas não se podem repetir em nós, que pertencemos a outra língua e a outra cultura. São elas a rigor inimitáveis, e um homem de outra estirpe, de outros antecedentes históricos e de outras experiências pessoais não poderia chegar a fabricá-las, nem para si nem para os outros. Mas é aqui que intervém aquele homo ludens a que já nos referimos, e o ludus que ele pratica é o elemento de livre-arbítrio na poesia. Ludens, o poeta, nos impõe a sua poesia; ludens, o tradutor, nos impõe poesia alheia. E é esse alheio, carregado de estranhamento e de equivalências, que nos fará reviver em nossa língua boa parte daquilo que alguém nos quis dizer em outra.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Conferência pronunciada na Academia Brasileira de Letras em 7 de outubro de 2006. Integra o livro Cinzas do espólio (Record, 2009, 336 págs.), de Ivan Junqueira.

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Lejana
[Cuento. Texto completo]

Julio Cortázar

Diario de Alina Reyes

12 de enero

Anoche fue otra vez, yo tan cansada de pulseras y farándulas, de pink champagne y la cara de Renato Viñes, oh esa cara de foca balbuceante, de retrato de Dorian Gray a lo último. Me acosté con gusto a bombón de menta, al Boogie del Banco Rojo, a mamá bostezada y cenicienta (como queda ella a la vuelta de las fiestas, cenicienta y durmiéndose, pescado enormísimo y tan no ella.)

Nora que dice dormirse con luz, con bulla, entre las urgidas crónicas de su hermana a medio desvestir. Qué felices son, yo apago las luces y las manos, me desnudo a gritos de lo diurno y moviente, quiero dormir y soy una horrible campana resonando, una ola, la cadena que Rex arrastra toda la noche contra los ligustros. Now I lay me down to sleep… Tengo que repetir versos, o el sistema de buscar palabras con a, después con a y e, con las cinco vocales, con cuatro. Con dos y una consonante (ala, ola), con tres consonantes y una vocal (tras, gris) y otra vez versos, la luna bajó a la fragua con su polisón de nardos, el niño la mira mira, el niño la está mirando. Con tres y tres aslternadas, cábala, laguna, animal; Ulises, ráfaga, reposo.

Así paso horas: de cuatro, de tres y dos, y más tarde palindromas. Los fáciles, salta Lenin el Atlas; amigo, no gima; los más difíciles y hermosos, átate, demoniaco Caín o me delata; Anás usó tu auto Susana. O los preciosos anagramas: Salvador Dalí, Avida Dollars; Alina Reyes, es la reina y… Tan hermoso, éste, porque abre un camino, porque no concluye. Porque la reina y…

No, horrible. Horrible porque abre camino a esta que no es la reina, y que otra vez odio de noche. A esa que es Alina Reyes pero no la reina del anagrama; que será cualquier cosa, mendiga en Budapest, pupila de mala casa en Jujuy o sirvienta en Quetzaltenango, cualquier lado lejos y no reina. Pero sí Alina Reyes y por eso anoche fue otra vez, sentirla y el odio.

20 de enero

A veces sé que tiene frío, que sufre, que le pegan. Puedo solamente odiarla tanto, aborrecer las manos que la tiran al suelo y también a ella, a ella todavía más porque le pegan, porque soy yo y le pegan. Ah, no me desespera tanto cuando estoy durmiendo o corto un vestido o son las horas de recibo de mamá y yo sirvo el té a la señora de Regules o al chico de los Rivas. Entonces me importa menos, es un poco cosa personal, yo conmigo; la siento más dueña de su infortunio, lejos y sola pero dueña. Que sufra, que se hiele; yo aguanto desde aquí, y creo que entonces la ayudo un poco. Como hacer vendas para un soldado que todavía no ha sido herido y sentir eso de grato, que se le está aliviando desde antes, previsoramente.

Que sufra. Le doy un beso a la señora de Regules, el té al chico de los Rivas, y me reservo para resistir por dentro. Me digo: «Ahora estoy cruzando un puente helado, ahora la nieve me entra por los zapatos rotos». No es que sienta nada. Sé solamente que es así, que en algún lado cruzo un puente en el instante mismo (pero no sé si es el instante mismo) en que el chico de los Rivas me acepta el té y pone su mejor cara de tarado. Y aguanto bien porque estoy sola entre esas gentes sin sentido, y no me desespera tanto. Nora se quedó anoche como tonta, dijo: «¿Pero qué te pasa?». Le pasaba a aquella, a mí tan lejos. Algo horrible debió pasarle, le pegaban o se sentía enferma y justamente cuando Nora iba a cantar a Fauré y yo en el piano, mirándolo tan feliz a Luis María acodado en la cola que le hacía como un marco, él mirándome contento con cara de perrito, esperando oír los arpegios, los dos tan cerca y tan queriéndonos. Así es peor, cuando conozco algo nuevo sobre ella y justo estoy bailando con Luis María, besándolo o solamente cerca de Luis María. Porque a mí, a la lejana, no la quieren. Es la parte que no quieren y cómo no me va a desgarrar por dentro sentir que me pegan o la nieve me entra por los zapatos cuando Luis María baila conmigo y su mano en la cintura me va subiendo como un calor a mediodía, un sabor a naranjas fuertes o tacuaras chicoteadas, y a ella le pegan y es imposible resistir y entonces tengo que decirle a Luis María que no estoy bien, que es la humedad, humedad entre esa nieve que no siento, que no siento y me está entrando por los zapatos.

25 de enero

Claro, vino Nora a verme y fue la escena. «M’hijita, la última vez que te pido que me acompañes al piano. Hicimos un papelón». Qué sabía yo de papelones, la acompañé como pude, me acuerdo que la oía con sordina. Votre âme est un paysage choisi… pero me veía las manos entre las teclas y parecía que tocaban bien, que acompañaban honestamente a Nora. Luis María también me miró las manos, el pobrecito, yo creo que era porque no se animaba a mirarme la cara. Debo ponerme tan rara.

Pobre Norita, que la acompañe otra. (Esto parece cada vez más un castigo, ahora sólo me conozco allá cuando voy a ser feliz, cuando soy feliz, cuando Nora canta Fauré me conozco allá y no queda más que el odio).

Noche

A veces es ternura, una súbita y necesaria ternura hacia la que no es reina y anda por ahí. Me gustaría mandarle un telegrama, encomiendas, saber que sus hijos están bien o que no tiene hijos -porque yo creo que allá no tengo hijos- y necesita confortación, lástima, caramelos. Anoche me dormí confabulando mensajes, puntos de reunión. Estaré jueves stop espérame puente. ¿Qué puente? Idea que vuelve como vuelve Budapest donde habrá tanto puente y nieve que rezuma. Entonces me enderecé rígida en la cama y casi aúllo, casi corro a despertar a mamá, a morderla para que se despertara. Nada más que por pensar. Todavía no es fácil decirlo. Nada más que por pensar que yo podría irme ahora mismo a Budapest, si realmente se me antojara. O a Jujuy, a Quetzaltenango. (Volví a buscar estos nombres páginas atrás). No valen, igual sería decir Tres Arroyos, Kobe, Florida al cuatrocientos. Sólo queda Budapest porque allí es el frío, allí me pegan y me ultrajan. Allí (lo he soñado, no es más que un sueño, pero cómo adhiere y se insinúa hacia la vigilia) hay alguien que se llama Rod -o Erod, o Rodo- y él me pega y yo lo amo, no sé si lo amo pero me dejo pegar, eso vuelve de día en día, entonces es seguro que lo amo.

Más tarde

Mentira. Soñé a Rod o lo hice con una imagen cualquiera de sueño, ya usada y a tiro. No hay Rod, a mí me han de castigar allá, pero quién sabe si es un hombre, una madre furiosa, una soledad.

Ir a buscarme. Decirle a Luis María: «Casémonos y me llevas a Budapest, a un puente donde hay nieve y alguien». Yo digo: ¿y si estoy? (Porque todo lo pienso con la secreta ventaja de no querer creerlo a fondo. ¿Y si estoy?). Bueno, si estoy… Pero solamente loca, solamente… ¡Qué luna de miel!

28 de enero

Pensé una cosa curiosa. Hace tres días que no me viene nada de la lejana. Tal vez ahora no le pegan, o no pudo conseguir abrigo. Mandarle un telegrama, unas medias… Pensé una cosa curiosa. Llegaba a la terrible ciudad y era de tarde, tarde verdosa y ácuea como no son nunca las tardes si no se las ayuda pensándolas. Por el lado de la Dobrina Stana, en la perspectiva Skorda, caballos erizados de estalagmitas y polizontes rígidos, hogazas humeantes y flecos de viento ensoberbeciendo las ventanas Andar por la Dobrina con paso de turista, el mapa en el bolsillo de mi sastre azul (con ese frío y dejarme el abrigo en el Burglos), hasta una plaza contra el río, casi en encima del río tronante de hielos rotos y barcazas y algún martín pescador que allá se llamará sbunáia tjéno o algo peor.

Después de la plaza supuse que venía el puente. Lo pensé y no quise seguir. Era la tarde del concierto de Elsa Piaggio de Tarelli en el Odeón, me vestí sin ganas sospechando que después me esperaría el insomnio. Este pensar de noche, tan noche… Quién sabe si no me perdería. Una inventa nombres al viajar pensando, los recuerda en el momento: Dobrina Stana, sbunáia tjéno, Burglos. Pero no sé el nombre de la plaza, es como si de veras hubiera llegado a una plaza de Budapest y estuviera perdida por no saber su nombre; ahí donde un nombre es una plaza.

Ya voy, mamá. Llegaremos bien a tu Bach y a tu Brahms. Es un camino tan simple. Sin plaza, sin Burglos. Aquí nosotras, allá Elsa Piaggio. Qué triste haberme interrumpido, saber que estoy en una plaza (pero esto ya no es cierto, solamente lo pienso y eso es menos que nada). Y que al final de la plaza empieza el puente.

Noche

Empieza, sigue. Entre el final del concierto y el primer bis hallé su nombre y el camino. La plaza Vladas, el puente de los mercados. Por la plaza Vladas seguí hasta el nacimiento del puente, un poco andando y queriendo a veces quedarme en casas o vitrinas, en chicos abrigadísimos y fuentes con altos héroes de emblanquecidas pelerinas, Tadeo Alanko y Vladislas Néroy, bebedores de tokay y cimbalistas. Yo veía saludar a Elsa Piaggio entre un Chopin y otro Chopin, pobrecita, y de mi platea se salía abiertamente a la plaza, con la entrada del puente entre vastísimas columnas. Pero esto yo lo pensaba, ojo, lo mismo que anagramar es la reina y… en vez de Alina Reyes, o imaginarme a mamá en casa de los Suárez y no a mi lado. Es bueno no caer en la sonsera: eso es cosa mía, nada más que dárseme la gana, la real gana. Real porque Alina, vamos -No lo otro, no el sentirla tener frío o que la maltratan. Esto se me antoja y lo sigo por gusto, por saber adónde va, para enterarme si Luis María me lleva a Budapest, si nos casamos y le pido que me lleve a Budapest. Más fácil salir a buscar ese puente, salir en busca mía y encontrarme como ahora porque ya he andado la mitad del puente entre gritos y aplausos, entre «¡Álbeniz!» y más aplausos y «¡La polonesa!», como si esto tuviera sentido entre la nieve arriscada que me empuja con el viento por la espalda, manos de toalla de esponja llevándome por la cintura hacia el medio del puente.

(Es más cómodo hablar en presente. Esto era a las ocho, cuando Elsa Piaggio tocaba el tercer bis, creo que Julián Aguirre o Carlos Guastavino, algo con pasto y pajaritos). Pero me he vuelto canalla con el tiempo, ya no le tengo respeto. Me acuerdo que un día pensé: «Allá me pegan, allá la nieve me entra por los zapatos y esto lo sé en el momento, cuando me está ocurriendo allá yo lo sé al mismo tiempo. ¿Pero por qué al mismo tiempo? A lo mejor me llega tarde, a lo mejor no ha ocurrido todavía. A lo mejor le pegarán dentro de catorce años, o ya es una cruz y una cifra en el cementerio de Santa Úrsula. Y me parecía bonito, posible, tan idiota. Porque detrás de eso una siempre cae en el tiempo parejo. Si ahora ella estuviera realmente entrando en el puente, sé que lo sentiría ya mismo y desde aquí. Me acuerdo que me paré a mirar el río que estaba sonando y chicoteando. (Esto yo lo pensaba). Valía asomarse al parapeto del puente y sentir en las orejas la rotura del hielo ahí abajo. Valía quedarse un poco por la vista, un poco por el miedo que me venía de adentro -o era el desabrigo, la nevisca deshecha y mi tapado en el hotel-. Y después que yo soy modesta, soy una chica sin humos, pero vengan a decirme de otra que le haya pasado lo mismo, que viaje a Hungría en pleno Odeón. Eso le da frío a cualquiera, che, aquí o en Francia.

Pero mamá me tironeaba la manga, ya casi no había gente en la platea. Escribo hasta ahí, sin ganas de seguir acordándome de lo que pensé. Me va a hacer mal si sigo acordándome. Pero es cierto, cierto; pensé una cosa curiosa.

30 de enero

Pobre Luis María, qué idiota casarse conmigo. No sabe lo que se echa encima. O debajo, como dice Nora que posa de emancipada intelectual.

31 de enero

Iremos allá. Estuvo tan de acuerdo que casi grito. Sentí miedo, me pareció que él entra demasiado fácilmente en este juego. Y no sabe nada, es como el peoncito de dama que remata la partida sin sospecharlo. Peoncito Luis María, al lado de su reina. De la reina y –

7 de febrero

A curarse. No escribiré el final de lo que había pensado en el concierto. Anoche la sentí sufrir otra vez. Sé que allá me estarán pegando de nuevo. No puedo evitar saberlo, pero basta de crónica. Si me hubiese limitado a dejar constancia de eso por gusto, por desahogo… Era peor, un deseo de conocer al ir releyendo; de encontar claves en cada palabra tirada al papel después de tantas noches. Como cuando pensé la plaza, el río roto y los ruidos, y después… Pero no lo escribo, no lo escribiré ya nunca.

Ir allá a convencerme de que la soltería me dañaba, nada más que eso, tener veintisiete años y sin hombre. Ahora estará bien mi cachorro, mi bobo, basta de pensar, a ser al fin y para bien.

Y sin embargo, ya que cerraré este diario, porque una o se casa o escribe un diario, las dos cosas no marchan juntas -Ya ahora no me gusta salirme de él sin decir esto con alegría de esperanza, con esperanza de alegría. Vamos allá pero no ha de ser como lo pensé la noche del concierto. (Lo escribo, y basta de diario para bien mío.) En el puente la hallaré y nos miraremos. La noche del concierto yo sentía en las orejas la rotura del hielo ahí abajo. Y será la victoria de la reina sobre esa adherencia maligna, esa usurpación indebida y sorda. Se doblegará si realmente soy yo, se sumará a mi zona iluminada, más bella y cierta; con sólo ir a su lado y apoyarle una mano en el hombro.

*

Alina Reyes de Aráoz y su esposo llegaron a Budapest el 6 de abril y se alojaron en el Ritz. Eso era dos meses antes de su divorcio. En la tarde del segundo día Alina salió a conocer la ciudad y el deshielo. Como le gustaba caminar sola -era rápida y curiosa- anduvo por veinte lados buscando vagamente algo, pero sin proponérselo demasiado, dejando que el deseo escogiera y se expresara con bruscos arranques que la llevaban de una vidriera a otra, cambiando aceras y escaparates.

Llegó al puente y lo cruzó hasta el centro andando ahora con trabajo porque la nieve se oponía y del Danubio crece un viento de abajo, difícil, que engancha y hostiga. Sentía cómo la pollera se le pegaba a los muslos (no estaba bien abrigada) y de pronto un deseo de dar vuelta, de volverse a la ciudad conocida. En el centro del puente desolado la harapienta mujer de pelo negro y lacio esperaba con algo fijo y ávido en la cara sinuosa, en el pliegue de las manos un poco cerradas pero ya tendiéndose. Alina estuvo junto a ella repitiendo, ahora lo sabía, gestos y distancias como después de un ensayo general. Sin temor, liberándose al fin -lo creía con un salto terrible de júbilo y frío- estuvo junto a ella y alargó también las manos, negándose a pensar, y la mujer del puente se apretó contra su pecho y las dos se abrazaron rígidas y calladas en el puente, con el río trizado golpeando en los pilares.

A Alina le dolió el cierre de la cartera que la fuerza del abrazo le clavaba entre los senos con una laceración dulce, sostenible. Ceñía a la mujer delgadísima, sintiéndola entera y absoluta dentro de su abrazo, con un crecer de felicidad igual a un himno, a un soltarse de palomas, al río cantando. Cerró los ojos en la fusión total, rehuyendo las sensaciones de fuera, la luz crepuscular; repentinamente tan cansada, pero segura de su victoria, sin celebrarlo por tan suyo y por fin.

Le pareció que dulcemente una de las dos lloraba. Debía ser ella porque sintió mojadas las mejillas, y el pómulo mismo doliéndole como si tuviera allí un golpe. También el cuello, y de pronto los hombros, agobiados por fatigas incontables. Al abrir los ojos (tal vez gritaba ya) vio que se habían separado. Ahora sí gritó. De frío, porque la nieve le estaba entrando por los zapatos rotos, porque yéndose camino de la plaza iba Alina Reyes lindísima en su sastre gris, el pelo un poco suelto contra el viento, sin dar vuelta la cara y yéndose.

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