Archive for agosto, 2009

onze de fevereiro de mil novecentos e dezessete

[sáb] 29 de agosto de 2009

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que “viver significa tomar partido”. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes. A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica. A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam. A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero. Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento. Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

Antonio Gramsci

Florestan Fernandes

[sex] 28 de agosto de 2009

Vídeo sobre o Sociólogo Brasileiro Florestan Fernandes.

Artigos de Miriam Limoeiro Cardoso sobre FF:

1. Para uma história da sociologia no Brasil: a obra sociológica de Florestan Fernandes. Algumas questões preliminares.

2. Capitalismo dependente, Autocracia burguesa e Revolução Social em Florestan Fernandes.

contra el golpe militar, la lucha popular ya! abajo el fascismo!

[qua] 26 de agosto de 2009

contragolpe-popular

Llamamiento a la Acción Mundial contra el Golpe de Estado en Honduras

En Frente Nacional contra el Golpe de Estado, hace un llamado a todas las organizaciones y personas solidarias y comprometidas con la democracia en el Mundo, para que se sumen a la protesta contra la dictadura instaurada por la oligarquía hondureña en complicidad con los sectores internacionales más conservadores y fascistas.

El día 28 de agosto se realizarán en embajadas de los Estados Unidos al rededor del mundo, plantones de protesta con los siguientes objetivos:

1. Manifestar el rechazo de la humanidad al golpe de Estado militar llevado a cabo en Honduras el día 28 de junio de 2009.

2. Exigir el inmediato retorno a la institucionalidad democrática del país, que incluye la restitución incondicional del Presidente legítimo Manuel Zelaya Rosales.

3. Exigir el castigo a los violadores de los derechos humanos.

4. Denunciar el apoyo y la complicidad de organismos de inteligencia nortemearicanos en el Golpe.

5. Exigir de la presidencia de Estados Unidos, una posición contundente en contra de la dictadura de Micheletti. Que incluye la interrupción inmediata de todo tipo de cooperación Militar, diplomática y económica.

Tegucigalpa 24 de agosto de 2009

svietit

[ter] 25 de agosto de 2009

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal a das gerações passadas- é um dos fenômenos mais característicos e lúgrubes do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Eric Robsbawm

NO LIXO CINZA DO UNIVERSO AO CAMARADAS FUTUROS
e outros textos

Começou assim, no domingo talvez, enquanto caminha sobre as nuvens e o concreto: “meu corpo anda febril“. Pensei, logo, um pouco mais adiante, no camarada da LEF¹ e em seu epitáfio mais eloqüente, que transcrevo a parte final,  “estou em chamas”.

Há um bom tempo não vislumbrava esse tom passionado autonomo a um objeto em particular. Não há algo ou alguém, como motor imediato desta ambiente que pouco a pouco se colore.  É misto in flux de um horizonte futuro a  necessidades vitais neste presente… são os recortes radicais e profundos, os necessários desnudamentos, o  romper desta estéril estrutura num lento enraízar-se… é algo como a opção contida no “slogan” do “poeta e do sol, que luzindo” “no lixo cinza do universo” dá o tom mínimo para nossa constituição substancial… E nada menos! Sem exceção!

Por estes dias de caminha sola, escolha consciente e firme, apesar da dor mutuamente provocada, entre multidões, persisto (…) nesta humilde e honesta vontade de superar limitações profundas.  E tenho gaguejando, suado frio, errado… Bastante! Mas vou firme. Lembro-me de uma percepção, e sua respectiva expressão, que aos poucos, ao longo destes últimos vinte e poucos anos, foi ficando clara… Quando fico só, em espírito, mesmo tendo fisicamente todos aos meu lado, quando fico só, sem o calor do povo e os braços de luta da camaragem, adoeço substancialmente!!

E com calma, controlando a ansiedade, sigamos, sentindo esse friozinho, esse vento mariño que toma o ambiente a partir dos vãos, das brechas,  vamos com cunhas, martelos e foices, vamos de espírito agitado, locomotiva, tecendo a propaganda na surdina e no alarde geral! Plasmando na labuta a disciplina coerente e dedicada…

¹ Lieve Front

***

“(…) Por isso, acredito que esse “trabalho de conscientização intelectual” não é destituído de interesse cultural e político. A grande barreira à mudança social procede, inequivocadamente, do cerceamento conservador. Todavia, o pensamento e o comportamento conservadores não se sustentam por si próprios. Eles também são uma resposta histórica à situação e às suas exigências dinâmicas, nos limites de uma sociedade capitalista dependente e subdesenvolvida. A inércia cultural, o isolamento das massas e a apatia política forjam a sua continuidade, sob diferentes roupagens e como uma espécie e fatalidade, pois acabam engendrando o único poder capaz de manifestar-se, de atuar e de “resolver problemas”. Não há como combatê-los e destruí-los sem um esclarecimento prévio dos espíritos, dos que são potencialmente inconformistas e dos que apenas contam como os “condenados do sistema”, mas não sabem como identificar e extinguir a espoliação que sofrem de maneira cruel e permanente. Todos, inclusive os conservadores, “esclarecidos” ou “obnubilados”, precisam tomar consciência do que é o poder conservador no Brasil, quanto ele nos custa, em sacríficios humanos, em iniquidades sociais, econômicas e culturais, em incapacidade de integração e de autonomia nacional, devastação de recursos materiais e humanos, em perversão do patriotismo e em solapamento do nacionalismo, em farisaísmo crônico e em constante participação atrasada do “progresso”, em comercialização das relações de dependência em face do exterior, pela qual se negociam, em troca de nada ou quase nada, as futuras gerações e o porvir da Nação etc. Não temos de converter o “poder conservador” em bode expiatório, para esclarecer o que ele representa, econômica, sociocultural e politicamente, como fator de perpetuação e de revitalização das relações de dependência e do subdesenvolvimento, de intensificação e de agravamento das iniquidades humanas ou de irradiação e de multiplicação das tensões políticas. O impasse histórico crônico, do qual o Brasil não saiu nem com a abolição, nem com a industrialização e a “revolução liberal”, nem com a “aceleração do desenvolvimento”, constitui um impasse do poder conservador. Ele impede que a revolução nacional brasileira se adapte ao padrão da ordem legal vigente e aos ritmos da ordem social competitiva, válida apenas nas relações comerciais. Enquanto ele permanece intocável e soberano, o Brasil será uma grande nação de terceira ordem, com fumos de potência internacional, mas uma republiqueta comandada autocraticamente por pequenas elites egoísticas e hipocritas.
Portante, aceitei os prós e os contras de tarefas intelectuais que me pareciam secundárias e aleatórias (e o são perante o que eu devia e queria fazer como e enquanto sociólogo), porque me situei na posição intelectual dos que solicitavam a minha contribuição. Ele não me queriam ouvir especificamente como “sociólogo” e, ainda menos, em condição política, como “socialista”. Pretendiam ouvir um intelectual de formação sociológica, que falasse leal e fracamente, que discutisse sem ambiguidades e subterfúgios os problemas que nos afligem, como eles se apresentam no aqui e no agora – e dentro de limites nos quais as soluções podem ser procuradas e alcançadas na própria ordem social competitiva. Tanto como sociólogo, quanto como socialista, sei que essa expectativa possui graves inconsistências. Ela própria nasce de mistificações insanáveis. Não obstante, um povo tem o direito de buscar maior segurança e felicidade sem romper todas as barreiras que separam a vida da morte. Uma revolução social não é matéria intelectualista. Enquanto as expectativas se encaminham numa direção moderada e equilibrada, na qual os esforços se concentram em indagações sobre o passado, o presente e o futuro, o intelectual cumpre responsavelmente as suas funções atendendo às inquietações nas formas em que eles se manifestam. Com o tempo as inquietações progrediam por si próprias, se difundem e se robustecem: o que é semente, em um dia é árvore, em outro. Não se pode começar pela colheta dos frutos. A impaciência intelectualista gera belos sacríficios. Contudo ela também provoca confusões e carnificinas inúteis, onde e quando o povo não se impõe como agente válido da história e como uma fonte inexpugnável de alternativas contrárias ao despotismo do poder conservador”
. p. 12-13
Florestan Fernandes. Trecho do Prefácio do Livro Universidade Brasileira: Reforma ou revolução?

***

INTERVENÇÃO NUM DEBATE SOBRE OS MÉTODOS FORMAL E SOCIOLÓGICO¹

O partido colocou em pauta o problema da arte, e este debate é particularmente oportuno.
O problema do método formal não pode ser resolvido academicamente. Trata-se do problema da arte em geral, da Lef.
Os problemas da arte estão colocados atualmente no campo da execução prática, e a êles se liga a questão do método formal. O método formal e o método sociológico são a mesma coisa, e fora disso não existe nenhum método formal.
Não se pode contrapor o método sociológico ao formal, porque não são dois métodos, mas um só: o método formal continua o sociológico. Onde acaba a pergunta “por quê?” e surge o “como?”, termina a tarefa do método sociológico e em seu lugar surge o método formal, com tôdas as suas armas.
É assim em qualquer ramo da produção. Se a moda para êste ou aquêle modêlo de calçado pode ser explicada por razões sociais, para cosê-los é preciso habilidade, mestria, o conhecimento de determinados processos. É preciso conhecer o método de elaboração do material, o método de sua utilização. Tal conhecimento é indispensável também em arte, que é antes de mais nada um ofício, e é justamente para estudar êste ofício que o método formal nos é necessário.
O poeta orienta sózinho os seus canhões. No trabalho poético, o social e o formal estão unidos.
O companheiro marxista, que se dedica à arte, deve ter obrigatòriamente conhecimentos formais. Por outro lado, o companheiro formalista, que estuda o aspecto formal da arte, deve conhecer firmemente e ter em vista os fatôres sociais.
Pecam ambas as partes, quando separam um do outro. O juízo correto aparece ùnicamente quando se compreende sua relação mútua.
Eu tenho sempre prontas minhas objeções contra esta antítese contìnuamente formulada.
Uma obra não se torna revolucionária ùnicamente pela sua novidade formal. Uma série de fatos, o estudo de seu fundamento social, lhe imprime fôrça. Mas, a par do estudo sociológico, existe o estudo do aspecto formal.
Isto não contradiz o marxismo, mas sim a vulgarização do marxismo, e contra esta nós lutamos e continuaremos a lutar.(pp. 237-239)

NOTAS

¹ O debate ocorreu na Sala das Colunas da Casa dos Sindicatos, em Moscou, e a intervenção de Maiakóvski foi anotada por M. M. Korieniev, sendo publicada pela primeira vez no Volume 65 da série Herança Literária e republicada nas O.C., de onde a traduzi.
Estava em preparo então uma resolução do Comitê Central do Partido Comunista (b) da U.R.S.S. sôbre Literatura. Dez dias antes do debate, Maiakóvski participara de uma sessão da comissão literária do mesmo Comitê Central. Semelhantes discussões públicas, antes de uma revolução oficial do Partido, eram comuns no período que precedeu a implantação do stalinismo.
O período em questão, quando se preparava a resolução citada, foi de grande discussões sôbre a política do Partido em relação à arte e À literatura. V., por exemplo, Isaac Deutscher, O profeta desarmada, pp. 215-217.

Debates Literatura – boris schnaiderman A POÉTICA DE MAIAKÓVSKI. 1971.

reorganização

[seg] 24 de agosto de 2009

Estudantes se reúnem pela reorganização do Movimento Estudantil de Luta em SC

Cerca de 70 estudantes de diversas universidades de Santa Catarina, além de secundaristas, se reuniram nesse último sábado, dia 22 de Agosto, em Campos Novos/SC, para discutir a reorganização do movimento estudantil de luta. Este espaço surgiu da necessidade sentida pelos estudantes que não se vêem representados pelas atuais estruturas do movimento estudantil. Proposto a partir do Estágio Interdisciplinar de Vivência – EIV/2009, e sendo amplamente chamado no último Congresso da União Catarinense dos Estudantes, a proposta era debater e tirar bandeiras de luta que tivessem o potencial de unificar os estudantes do estado.

Na parte da manhã foram debatidos temas fundamentais para compreender a realidade em que estamos inseridos e tirar encaminhamentos corretos. O professor Geraldo Barbosa, presidente da Associação dos Docentes do Ensino Superior de SC (ADESSC) auxiliou em temas como a história e a gênese do capitalismo, dando suporte a uma análise da atual crise do capital e servindo de balisa para compreender a situação de mercantilização do ensino superior em nosso país e em SC. Nessa ótica, a reestatização do Sistema Acafe foi o principal objeto de discussão, já que foram universidades criadas com dinheiro público, mas que passaram a cobrar mensalidades, sem prestar contas nem garantir a mínima democracia, através de joguetes da oligarquia catarinense. A luta pela sua reestatização foi vista como potencial para a reorganização do movimento estudantil e como expansão adequada do ensino superior, diferente do que atualmente ocorre com a UFSC e a UDESC, ambas abrindo vagas e cursos novos sem condições de garantir a qualidade.

Após um almoço preparado por companheiras do MST, o espaço da tarde proporcionou uma ampla discussão sobre a situação das universidades e encaminhamentos para a organização da luta. As táticas de rebaixamento/congelamento das mensalidades, a luta por um ensino crítico e pesquisa e extensão ligadas às necessidades do povo, a unidade com movimentos sociais e trabalhadores, a luta por concurso público nas universidades, por prestação de contas e democracia nas universidades fundacionais foram ligadas a estratégia de Reestatização do Sistema Acafe. Para tanto, os estudantes se propuseram a construir uma Campanha pela Reestatização do Sistema Acafe, que construa debates nas universidades buscando politizar e organizar o movimento em cada localidade que deve, a partir das lutas específicas, fazer a ligação com essa estratégia.

A compreensão do seminário foi também de que a reestatização deveria estar ligada a um projeto de universidade popular, que sirva de bastão na luta pela emancipação do povo e a construção de uma sociedade sem exploração.

Desse seminário saíra um manifesto e, como indicativo, ficou a realização de outro no próximo semestre, que buscará ser ainda mais amplo e representativo.

o cante a palo seco não é um cante a esmo: exige ser cantado com todo o ser aberto…

[dom] 23 de agosto de 2009

e é assim… um rapaz mais velho e sem telefone. um rapaz vindo do interior e sem dinheiro no banco. um rapaz latino americano e sem parentes importantes. enfim, apenas um rapaz ordinário e sem muitas pretensões além de revolucionar o mundo! um rapaz entre tantos e tantas compartilhando o mesmo ar e sem medo, de comunamente, buscar ir além de todo o silêncio!!

(…) e se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava… de olhos abertos lhe direi… amigo eu me desesperava… sei que  assim falando pensas que este desespero é moda em 73… mas ando mesmo descontente… desesperadamente eu grito em português… tenho 27 anos de sonho e de sangue e de américa de sul… com força deste destino um tango argentino me vai bem melhor que um blues…  sei que assim falando pensas que este desespero é moda em 73… e eu quero que este canto torto feito faca corte a carne de você (…)”

***

 

1.1. / Se diz a palo seco / o cante sem guitarra; / o cante sem; o cante; / o cante sem mais nada; / se diz a palo seco / a esse cante despido: /ao cante que se canta / sob o silêncio a pino. // 1.2. / O cante a palo seco / é o cante mais só: / é cantar num deserto / devassado de sol; / é o mesmo que cantar / num deserto sem sombra / em que a voz só dispõe / do que ela mesma ponha. // 1.3. / O cante a palo seco / é um cante desarmado: / só a lâmina da voz / sem a arma do braço; / que o cante a palo seco / sem tempero ou ajuda / tem de abrir o silêncio / com sua chama nua. // 1.4. / O cante a palo seco / não é um cante a esmo: / exige ser cantado / com todo o ser aberto; / é um cante que exige / o ser-se ao meio-dia, / que é quando a sombra foge / e não medra a magia. /// 2.1. / O silêncio é um metal / de epiderme gelada, / sempre incapaz das ondas / imediatas da água; / A pele do silêncio / pouca coisa arrepia: / o cante a palo seco / de diamante precisa. // 2.2. / Ou o silêncio é pesado, / é um líquido denso, / que jamais colabora / nem ajuda com ecos; /mais bem, esmaga o cante / e afoga-o, se indefeso: / a palo seco é um cante / submarino ao silêncio. // 2.3. / Ou o silêncio é levíssimo, / é líquido e sutil /que se ecoa nas frestas / que no cante sentiu; / o silêncio paciente / vagaroso se infiltra,  / apodrecendo o cante / de dentro, pela espinha. // 2.4. / Ou o silêncio é uma tela / que difícil se rasga / e que quando se rasga / não demora rasgada; / quando a voz cessa, a tela / se apressa em se emendar: / tela que fosse de água, / ou como tela de ar. /// 3.1.  / A palo seco é o cante / de todos mais lacônico, / mesmo quando pareça / estirar-se um quilômetro: / enfrentar o silêncio / assim despido e pouco / tem de forçosamente / deixar mais curto o fôlego. // 3.2. / A palo seco é o cante / de grito mais extremo: / tem de subir mais alto / que onde sobe o silêncio; / é cantar contra a queda, / é um cante para cima, / em que se há de subir / cortando, e contra a fibra. // 3.3. / A palo seco é o cante / de caminhar mais lento: / por ser a contra-pelo, / por ser a contra-vento; / é cante que caminha / com passo paciente: / o vento do silêncio / tem a fibra de dente.  // 3.4. / A palo seco é o cante  / que mostra mais soberba; / e que não se oferece: / que se toma ou se deixa; / cante que não se enfeita, / que tanto se lhe dá; / é cante que não canta, / cante que aí está. /// 4.1. / A palo seco canta / o pássaro sem bosque, / por exemplo: pousado / sobre um fio de cobre; / a palo seco canta / ainda melhor esse fio / quando sem qualquer pássaro / dá o seu assovio. // 4.2. / A palo seco cantam / a bigorna e o martelo, / o ferro sobre a pedra / o ferro contra o ferro; / a palo seco canta / aquele outro ferreiro: / o pássaro araponga / que inventa o próprio ferro. // 4.3. / A palo seco existem / situações e objetos: / Graciliano Ramos, / desenho de arquiteto, / as paredes caiadas, / a elegância dos pregos, / a cidade de Córdoba, / o arame dos insetos. // 4.4 /  Eis uns poucos exemplos / de ser a palo seco, / dos quais se retirar / higiene ou conselho: / não o de aceitar o seco / por resignadamente, / mas de empregar o seco / porque é mais contundente.  /// João Cabral de Melo Neto / Quaderna. In: Poesias Completas,1975, p.160

 

É tudo ilusão de ter passado

[sáb] 22 de agosto de 2009

(…) Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa (…)

Carlos Drummond de Andrade

esboço de hoje [em construção]

[qui] 20 de agosto de 2009

[Este texto está um limbo].

[fala a]

– e sigo cruzando as linhas de chegada ou de partida… Só sabe quem fica. Eu vou.

[fala b]

– De erro em erro um esboço, uma construção, um bloco, um hoje. E ao meio: “O que eu queria entender é: o que isto tudo, as coisas do mundo, tem haver com esta dor que levo no peito”.

[fala c]

– Ao início então! Era só sobre o ato encenado, e observado nuamente, por seres (des)conhecidos, aqueles que transitam na zona epidérmica.

[fala b]

– Para aqueles que recortam o coração, estas palavras talvez não sirvam.

[fala c]

– Era para dizer, moi, o ator, não adentro tua cena inexistente.

[fala a]

– É da cena somente um vazio de palco com duas ou três dúzias de palavras penduradas e chovidamente esparsas… Lá um guarda-chuva dizendo pingos e azougues-do-brasil às charcos e trepadeiras.

[fala d]

– Vai, cadê, onde está o trapézio? Num salto daqui? Diante de ninguém? E se ninguém está… Cadê a voz cínica, aquela só tua e só para ti!?

[fala e]

– E deu medo?!

[fala a]

– Imóveis, projetos imaturos, era como se circulássemos como se houvesse um frio por fora de nossas barrigas, entende?!

[fala f]

– Não há nada seguro, nem podemos nos reunir e arquitetar… Desliga o aparelho. Perde o aparelho. Os números foram jogados em algum local. Ninguém atende ou entendeu o não sinal. Não há linha. Não há contato.

[trecho sem sentido…]

[fala desconhecida]

Fim. optar-se-á e o dia tal qual uma lacuna enorme de algo suspenso teimará. Necessitássemos, nós, paciência e bom humor para tolerar o terrível deshumor do mundo de hoje…

[tempo estranho]

[fala f]

– Ai, Tu, entrincheirado, há quanto tempo e com quantos olhos estás espiando? O que sabes dos nomes, dos endereços, dos sonhos, dos pedaços de carne… da CORDA bamba sobre a qual nos sustentamos?!

[fala c]

– Que nem tudo deva ser assim, e amanhã talvez…

[fala e]

– E morra o desejo de morte que te interdita da humanidade e eu não sinta na minha garganta o sangue dos meus, nem os meus sintam com dor e pranto o desaparecimento… e a presença na memória.

[fala b]

– (..) Que seja este nosso fim por um tempo, enquanto gesto a germinal semilla do amor pela liberdade!

[fala f]

– O mundo não para! A revolução não cessa! O espírito cria as condições concretas, e a si, objetivamente, partindo da concreticidade dialética!

[ninguém fala]

– EM ALGUM PONTO: Entendeu?

[fala b]

– Talvez Drummond tenha razão… há uma pedra. Vá ao poema, não buscando a si, mas ao poeta.

[fala do narrador]

– Aqui começa…

cada vez mais nós mesmos e menos o acaso…

[ter] 18 de agosto de 2009

Lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem
hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme
demorando-se vem
qual flor desconfiada
que vigia ao sol
sem perguntar-lhe nada
iluminando vem
as últimas janelas
lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem
já se vai aproximando
nunca tem pressa
vem com projetos
e sacos de sementes
com anjos maltratados
e fiéis andorinhas
devagar mas vem
sem fazer muito ruído
cuidando sobretudo
os sonhos proibidos
as recordações dormidas
e as recém-nascidas
lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia
com punhos com olheiras
com noites e com dias
com uma estrela pobre
sem nome ainda
lento mas vem
o futuro real
o mesmo que inventamos
nós mesmos e o acaso
cada vez mais nós mesmos
e menos o acaso

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem
lento mas vem
lento mas vem
lento mas vem

Mario Benedetti (1920 – 2009)

 

O mundo explodiu
Como a casca do ovo
Uns choram pelo velho
Outros saúdam o novo

Mauro Iasi

——–

“Quanto mais o conceito de cidadania se estreita com a redefinição dos processos decisórios (mais centrais e mais restritos), mais distantes ficam as pessoas de qualquer decisão sobre suas vidas. Esse é o sentido mais devastador da intransparência da globalização: impossibilitar a consciência histórica”

Fernando Ponte de Sousa

violentos e covardes

[seg] 17 de agosto de 2009
Violentos e covardes

Violentos e covardes

“Foto publicada pelo CMI Honduras. O membro da resistência já está rendido. Mesmo assim o policial o atinge com seu coturno. Isso tem um nome: covardia. A imagem ilustra perfeitamente o que acontece em Honduras. A população luta contra violentos covardes e covardes violentos”.

Celso Martins da Silveira Junior

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