o cante a palo seco não é um cante a esmo: exige ser cantado com todo o ser aberto…

[dom] 23 de agosto de 2009

e é assim… um rapaz mais velho e sem telefone. um rapaz vindo do interior e sem dinheiro no banco. um rapaz latino americano e sem parentes importantes. enfim, apenas um rapaz ordinário e sem muitas pretensões além de revolucionar o mundo! um rapaz entre tantos e tantas compartilhando o mesmo ar e sem medo, de comunamente, buscar ir além de todo o silêncio!!

(…) e se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava… de olhos abertos lhe direi… amigo eu me desesperava… sei que  assim falando pensas que este desespero é moda em 73… mas ando mesmo descontente… desesperadamente eu grito em português… tenho 27 anos de sonho e de sangue e de américa de sul… com força deste destino um tango argentino me vai bem melhor que um blues…  sei que assim falando pensas que este desespero é moda em 73… e eu quero que este canto torto feito faca corte a carne de você (…)”

***

 

1.1. / Se diz a palo seco / o cante sem guitarra; / o cante sem; o cante; / o cante sem mais nada; / se diz a palo seco / a esse cante despido: /ao cante que se canta / sob o silêncio a pino. // 1.2. / O cante a palo seco / é o cante mais só: / é cantar num deserto / devassado de sol; / é o mesmo que cantar / num deserto sem sombra / em que a voz só dispõe / do que ela mesma ponha. // 1.3. / O cante a palo seco / é um cante desarmado: / só a lâmina da voz / sem a arma do braço; / que o cante a palo seco / sem tempero ou ajuda / tem de abrir o silêncio / com sua chama nua. // 1.4. / O cante a palo seco / não é um cante a esmo: / exige ser cantado / com todo o ser aberto; / é um cante que exige / o ser-se ao meio-dia, / que é quando a sombra foge / e não medra a magia. /// 2.1. / O silêncio é um metal / de epiderme gelada, / sempre incapaz das ondas / imediatas da água; / A pele do silêncio / pouca coisa arrepia: / o cante a palo seco / de diamante precisa. // 2.2. / Ou o silêncio é pesado, / é um líquido denso, / que jamais colabora / nem ajuda com ecos; /mais bem, esmaga o cante / e afoga-o, se indefeso: / a palo seco é um cante / submarino ao silêncio. // 2.3. / Ou o silêncio é levíssimo, / é líquido e sutil /que se ecoa nas frestas / que no cante sentiu; / o silêncio paciente / vagaroso se infiltra,  / apodrecendo o cante / de dentro, pela espinha. // 2.4. / Ou o silêncio é uma tela / que difícil se rasga / e que quando se rasga / não demora rasgada; / quando a voz cessa, a tela / se apressa em se emendar: / tela que fosse de água, / ou como tela de ar. /// 3.1.  / A palo seco é o cante / de todos mais lacônico, / mesmo quando pareça / estirar-se um quilômetro: / enfrentar o silêncio / assim despido e pouco / tem de forçosamente / deixar mais curto o fôlego. // 3.2. / A palo seco é o cante / de grito mais extremo: / tem de subir mais alto / que onde sobe o silêncio; / é cantar contra a queda, / é um cante para cima, / em que se há de subir / cortando, e contra a fibra. // 3.3. / A palo seco é o cante / de caminhar mais lento: / por ser a contra-pelo, / por ser a contra-vento; / é cante que caminha / com passo paciente: / o vento do silêncio / tem a fibra de dente.  // 3.4. / A palo seco é o cante  / que mostra mais soberba; / e que não se oferece: / que se toma ou se deixa; / cante que não se enfeita, / que tanto se lhe dá; / é cante que não canta, / cante que aí está. /// 4.1. / A palo seco canta / o pássaro sem bosque, / por exemplo: pousado / sobre um fio de cobre; / a palo seco canta / ainda melhor esse fio / quando sem qualquer pássaro / dá o seu assovio. // 4.2. / A palo seco cantam / a bigorna e o martelo, / o ferro sobre a pedra / o ferro contra o ferro; / a palo seco canta / aquele outro ferreiro: / o pássaro araponga / que inventa o próprio ferro. // 4.3. / A palo seco existem / situações e objetos: / Graciliano Ramos, / desenho de arquiteto, / as paredes caiadas, / a elegância dos pregos, / a cidade de Córdoba, / o arame dos insetos. // 4.4 /  Eis uns poucos exemplos / de ser a palo seco, / dos quais se retirar / higiene ou conselho: / não o de aceitar o seco / por resignadamente, / mas de empregar o seco / porque é mais contundente.  /// João Cabral de Melo Neto / Quaderna. In: Poesias Completas,1975, p.160

 

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