Archive for setembro, 2009

mensagem à poesia

[qua] 30 de setembro de 2009

um presente de alexandra bandoli

Mensagem à poesia

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem… – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso…
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se…
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “O encontro do cotidiano”

mensagem a rubem braga

[qua] 30 de setembro de 2009

Mensagem a Rubem Braga

Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade
; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se agüenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo. Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento. Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que têm havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo-sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.

in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “O encontro do cotidiano”

to live outside the law you must be honest

[sáb] 26 de setembro de 2009

Well, your railroad gate, you know I just can’t jump it / Sometimes it gets so hard, you see / I’m just sitting here beating on my trumpet / With all these promises you left for me / But where are you tonight, sweet Marie? // Well, I waited for you when I was half sick / Yes, I waited for you when you hated me /  Well, I waited for you inside of the frozen traffic / When you knew I had some other place to be / Now, where are you tonight, sweet Marie? // Well, anybody can be just like me, obviously / But then, now again, not too many can be like you, fortunately. //  Well, six white horses that you did promise / Were fin’lly delivered down to the penitentiary / But to live outside the law, you must be honest / I know you always say that you agree / But where are you tonight, sweet Marie? / Well, I don’t know how it happened //  But the river-boat captain, he knows my fate /  But ev’rybody else, even yourself / They’re just gonna have to wait. //  Well, I got the fever down in my pockets / The Persian drunkard, he follows me / Yes, I can take him to your house but I can’t unlock it / You see, you forgot to leave me with the key / Oh, where are you tonight, sweet Marie? //  Now, I been in jail when all my mail showed / That a man can’t give his address out to bad company / And now I stand here lookin’ at your yellow railroad /  In the ruins of your balcony / Wond’ring where you are tonight, sweet Marie. // Absolutely Sweet Marie / Bob Dylan

.

.

.

aprendi hoje um pouco mais sobre nossas diferenças… de onde parte caio prado junior e de onde vem florestan fernandes. e sobre essas despedidas e caixas de bombons para outros dias. foi um bom sábado juntos.


pescaria (canoeiro)

[sex] 18 de setembro de 2009

ontem [aniversário de mª izabel. e pensar que só fazem 3(5) anos]. E dando um passo de cada vez no cambio de pequenas-imensas coisas… senti o pó da terra em minha carne. E que saudade… destas pedaladas estava. Pouco foi o percurso, pequeno o cerro pedregoso, mas avistei o mar lá de longe. E lá de cima senti o mato em minhas narinas e o canto dos pássaros no meio de tudo que era verde e animal. Me senti inteiro, cheio de vitalidade. Eta! Saudade que eu estava dessa bicicleta e dessa ilha. E sentindo/intuindo/pensando sobre o homem que me torno e das limitações que me saltam aos olhos… e do que cabe a mim aprender ensinando e do que cabe a ti pequena aprender me ensinando…  Só o tempo dirá nessa lida de ser homem, filho, irmão, pai, companheiro…

Falas de ontem e de hoje que me arderam no peito feito um nó que engasga e é díficil traduzir sem lágrimar : / “a criança tem que nascer dentro do coração” /  “homens que não puderam se constituir… se tornarem seres humanos” / “atos de sobrevivência” / …

E agora para finalizar… num lembrar de 2006. para florir… Ao som de Nação Zumbi:

lá vem o homem da gravata florida / meu deus do céu… que gravata mais linda / que gravata sensacional / olha os detalhes da gravata… / que combinação de côres / que perfeição tropical / olha que rosa lindo / azul turquesa se desfolhando / sob os singelos cravos / e as margaridas, margaridas /  de amores com jasmim / isso não é só uma gravata / essa gravata é o relatório / de harmonia de coisas belas / é um jardim suspenso / dependurado no pescoço / de um homem simpático e feliz / feliz, feliz porque… com aquela gravata /qualquer homem feio, qualquer homem feio / vira príncipe, simpático, simpático, simpático / porque… com aquela gravata / êle é esperado e bem chegado / é adorado em qualquer lugar / por onde ele passa nascem flores e amores / com uma gravata florida singela / como essa, linda de viver / até eu, até eu, até eu, até eu, até eu… / JORGE BEN.

E algumas aquisições destes dias:

Jorge Ben - A Tábua de Esmeralda (1974)

Jorge BenA Tábua de Esmeralda (1974).

EstudandoOSamba-image008

Tom Zé – Estudando o Samba (1976)

CaymmiCancoesPraieiras-BACK

Dorival Caymmi – Canções Praieiras (1954)

CaymmiCancoesPraieiras-FRONT

“Não parece coisa feita por gente: parece o canto das coisas em si.” Arnaldo Antunes.

 


carta de david émile durkheim a marcel israel mauss¹

[qua] 16 de setembro de 2009

edição experimental. número um. dias de ausência e faltas. de leituras outras. de nuvens de chumbo. e entre alguns fragmentos de leitura de hoje, desde o manual de etnografia de marcel mauss; ao da espiral do tempo do ama; até a orientação à criação e funcionamento de grupos estudantis de extensão universitária… encerrei o dia com mais uma aula teoria antropológica pela metade.

e da pesquisa curta, na rede, para ver se encontrava o trecho do texto lido para colar aqui… encontrei, isto², e mais algumas coisas:

“(…) Você tem uma falta total de modéstia. Você não recua diante de nenhuma tarefa; você se crê adequado para todas, mesmo para aquelas para as quais é perfeitamente inadequado” (1906)³.

***

¹ Pensei em chamar este tópico de manual de etnografia, posteriormente em front populaire. Mas o dado, acima, expressa bem, enquanto síntese, para além de Mauss, e do que é evidente… (é! há entrelinhas, sempre!).

² MAUSS, Marcel. Manuel d’ethnographie. 1926.

³ DURKHEIM, D. Émile. Carta à Marcel Mauss. 1906. In: FOURNIER, Marcel. Marcel Mauss e a Dádiva de Si. Conferência proferida na 16a reunião nacional da ANPOCS. Caxambu, outubro de 1992.

emaranhado

[seg] 14 de setembro de 2009

exercício (ou alguns idéias para serem desenvolvidas):

emaranhado. a voz insensata narra o corte. mas, intuindo, a razão, fia-se na meada destes fios, emaranhados, para desatar-se.

a retina cansada busca o horizonte…

pela noite de luzes levo nuvens de chumbo.

***

a aula (sobre organização escolar):

APPLE, Michael W. Consumindo o outro; branquidade,¹ educação e batatas fritas baratas. In: COSTA, Marisa Vorraber (org.). Educação Básica na Virada do Século: Cultura, Política e Educação. 2º ed. São Paulo: Cortez, 2000, p. 25-43.

ARROYO, Miguel G. As relações sociais na escola e a formação do trabalhador. In: FERRETTI, C.J. et al. (Orgs). Trabalho, formação e currículo: para onde vai a escola? São Paulo: Xamã, 1999.

PRO dia nascer feliz. Produção de Flávio R. Tambellini e João Jardim. Rio de Janeiro: Copacabana Filmes, 2006. 1 DVD (88 min.): Colorido. Documentário.

FREJAT, Roberto e CAZUZA. Pro dia nascer feliz. In: CAZUZA, et. al. Barão Vermelho 2. Rio de Janeiro: Som Livre, 1983. 1 Disco Compacto (32 min. 40): Estéreo.

¹ Nota da tradutora: Como já o fez Tomaz Tadeu da Silva, ao revisar tradução de texto deste mesmo autor intitulado “Consumindo o outro – branquidade, educação e batatas fritas baratas”, em M. C. V. Costa (org.) Escola básica na virada do século: cultura, política e currículo, Porto Alegre, FACED/UFRGS, 1995, utilizo neste texto a palavra branquidade para traduzir o termo whiteness, como a “qualidade ou condição de ser branco”, conforme a versão eletrônica do dicionário Merriam Webster, em inglês. Para uma discussão das dificuldades que isto implica ver Nota do Revisor, à p. 10, na referida obra.

***

Abaixo… o que li hoje:

A DELINQUÊNCIA ACADÊMICA

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”. [1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge [2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

____________
* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)
[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma” à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.
[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

MAURÍCIO TRAGTENBERG

alguma antropologia

[seg] 14 de setembro de 2009
  • Mintz, Sydney W. 1959b “Labor and Sugar in Puerto Rico and in Jamaica, 1800-1850”. In Comparative Studies in Society and History 1(3): 273-281.
  • Mintz, Sidney W. 1960 Worker in the Cane: A Puerto Rican Life History. New Haven: Yale University Press.
  • Mintz, Sidney W. 1966 “The Caribbean as a Socio-Cultural Area”. In Cahiers d’Histoire Mondiale 9: 912-937.
  • Mintz, Sidney W. 1971 “Men, Women and Trade”. In Comparative Studies in Society and History 13(3): 247-269.
  • Mintz, Sidney W. 1973 “A Note on the Definition of Peasantries”. In Journal of Peasant Studies 1(1): 91-106.
  • Mintz, Sidney W. 1974a Caribbean Transformations. Chicago: Aldine.
  • Mintz, Sidney W. 1974b “The Rural Proletariat and the Problem of Rural Proletarian Consciousness”. In Journal of Peasant Studies 1(3): 291-325.
  • Mintz, Sidney W. 1977 “The So-Called World-System: Local Initiative and Local Response”. In Dialectical Anthropology 2(2):253-270.
  • Mintz, Sidney W. 1978 “Was the Plantation Slave a Proletarian?” In Review 2(1):81-98.
  • Fried, Morton H. 1969. Fabric of Chinese society; a study of the social life of a Chinese county seat. New York: Octagon Books.
  • Turner, Terence S. (1979). “Kinship, Household, and Community Scructure among the Kayapó; Maybury-Lewis, David (ed) The Gê and Bororo of Central Brazil: 179-214. Cambridge: Harvard University Press.
  • WOLF, Eric R. . Las luchas campesinas del siglo XX.. Mexico: Siglo Veintiuno, 1979.
  • WOLF, Eric R.; FELDMAN-BIANCO, Bela; RIBEIRO, Gustavo Lins . Antropologia e poder: contribuições de Eric R. Wolf ; organização e seleção Bela Feldman-Bianco e Gustavo Lins Ribeiro. Brasília: UnB; São Paulo (SP): Imprensa Oficial, UNICAMP, 2003. 376p. (Coleção Antropologia da política ) ISBN 8523007148 UnB
  • WOLF, Eric R. . Europa y la gente sin historia. Mexico, D.F.: Fondo de Cult. Economica, c1987. 600p. (Seccion de obras de historia ) ISBN 9681625994 (broch.)
  • WOLF, Eric R. . Europe and the people without history. Berkeley; Los Angeles: Univ. of California, c1982. 503p. ISBN 0520048989 (broch.)
  • WOLF, Eric R. . Sociedades camponesas. Rio de Janeiro (RJ): Zahar, 1970. 150p. (Curso de antropologia moderna )
  • WOLF, Eric R. . Sociedades camponesas. 2. ed. Rio de Janeiro (RJ): Zahar, 1976. 150p.
  • MEILLASSOUX, Claude. Antropologia da escravidão : o ventre de ferro e dinheiro. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1995. 297p ISBN 8571103127 : (broch.)
  • GODELIER, Maurice. Economia, fetichismo y religion en las sociedades primitivas.. Mexico: Siglo Veintiuno, 1978.
  • GODELIER, Maurice. Horizontes da antropologia. Lisboa: Edições 70, 1973. 379p.
  • GODELIER, Maurice. Racionalidad e irracionalidad en economia.. Mexico: Siglo Veintiuno, 1974.
  • GODELIER, Maurice. L’ideel et le materiel : pensee, economies, societes. Paris: Fayard, 1984. 348p. ISBN 2213 013365 (broch.)
  • GODELIER, Maurice. . Antropologia y economia.. Barcelona [Espanha]: Anagrama, 1974.
  • BLOCH, Maurice. . Analise marxistas y antropologia social.. Barcelona [Espanha]: Anagrama, 1977
  • BLOCH, Maurice. Ritual, history and power : selected papers in anthropology. London: The Athlone Press, 1989. 237p. (London school of economics monographs on social anthropology; 58) ISBN 0485120712 : (broch.)
  • STEWARD, Julian H. Native peoples of South America.. New York: McGraw-Hill Book, 1959.
  • SAHLINS, Marshall. Ilhas de história. Rio de Janeiro: Zahar, 1987. 218 p. (Antropologia social ) ISBN 8571101272
  • SAHLINS, Marshall David. Sociedades tribais. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 178p. (Curso de Antropologia Moderna )

do artesanato intelectual

[seg] 14 de setembro de 2009

C. Wright Mills. On intellectual craftsmanship. Appendix to The Sociological Imagination. Oxford University Press, 1959.

(…)

All this involves the taking of notes. You will have to acquire the habit of taking a large volume of notes from any worth-while book you read – although, I have to say, you may get better work out of yourself when you read really bad books. The first step in translating experience, either of other people’s writing, or of your own life, into the intellectual sphere, is to give it form. Merely to name an item of experience often invites you to explain it; the mere taking of a note from a book is often a prod to reflection. At the same time, of course, the taking of a note is a great aid in comprehending what you are reading.

Your notes may turn out, as mine do, to be of two sorts: in reading certain very important books you try to grasp the structure of the writer’s argument, and take notes accordingly; but more frequently, and after a few years of independent work, rather than read entire books, you will very often read parts of many books from the point of view of some particular theme or topic in which you are interested and concerning which you have plans in your file. Therefore, you will take notes which do not fairly represent the books you read. You are using this particular idea, this particular fact, for the realisation of your own projects.

But how is this file – which so far must seem to you more like a curious sort of “literary” journal – used in intellectual production? The maintenance of such a file is intellectual production. It is a continually growing store of facts and ideas, from the most vague to the most finished. For example, the first thing I did upon deciding on a study of the elite was to make a crude outline based on a listing of the types of people that I wished to understand.

Just how and why I decided to do such a study may suggest one way in which one’s life experiences feed one’s intellectual work. I forget just when I became technically concerned with “stratification,” but I think it must have been on first reading Veblen. He had always seemed to me very loose, even vague, about his “business” and “industrial” employments, which are a kind of translation of Marx for the academic American public. At any rate, I wrote a book on labor organisations and labor leaders – a politically motivated task; then a book on the middle classes – a task primarily motivated by the desire to articulate my own experience in New York City since 1945. It was thereupon suggested by friends that I ought to round out a trilogy by writing a book on the upper classes. I think the possibility had been in my mind; I had read Balzac off and on especially during the ‘forties, and had been much taken with his selfappointed task of “covering” all the major classes and types in the society of the era he wished to make his own. I had also written a paper on “The Business Elite,” and had collected and arranged statistics about the careers of the top-most men in American politics since the Constitution. These two tasks were primarily inspired by seminar work in American history.

In doing these several articles and books and in preparing courses in stratification, there was of course a residue of ideas and facts about the upper classes. Especially in the study of social stratification is it difficult to avoid going beyond one’s immediate subject, because “the reality” of any one stratum is in large part its relations to the rest. Accordingly, I began to think of a book on the elite.

And yet that is not “really” how “the project” arose; what really happened is (1) that the idea and the plan came out of my files, for all projects with me begin and end with them, and books are simply organised releases from the continuous work that goes into them; (2) that after a while, the whole set of problems involved came to dominate me.

After making my crude outline I examined my entire file, not only those parts of it that obviously bore on my topic, but also those which seemed to have no relevance whatsoever. Imagination is often successfully invited by putting together hitherto isolated items, by finding unsuspected connections. I made new units in the file for this particular range of problems, which of course, led to new arrangements of other parts of the file.

As you re-arrange a filing system, you often find that you are, as it were, loosening your imagination. Apparently this occurs by means of your attempt to combine various ideas and notes on different topics. It is a sort of logic of combination, and “chance” sometimes plays a curiously large part in it. In a relaxed way, you try to engage your intellectual resources, as exemplified in the file, with the new themes.

In the present case, I also began to use my observations and daily experiences. I thought first of experiences I had had which bore upon elite problems, and then I went and talked with those who, I thought, might have experienced or considered the issues. As a matter of fact, I now began to alter the character of my routine so as to include in it (1) people who were among those whom I wanted to study, (2) people in close contact with them, and (3) people interested in them usually in some professional way.

I do not know the full social conditions of the best intellectual workmanship, but certainly surrounding oneself by a circle of people who will listen and talk – and at times they have to be imaginary characters – is one of them. At any rate I try to surround myself with all the relevant environment – social and intellectual – that I think might lead me into thinking well along the lines of my work. That is one meaning of my remarks above about the fusion of personal and intellectual life.

Good work in social science today is not, and usually cannot be, made up of one clearcut empirical “research.” It is, rather, composed of a good many studies which at key points anchor general statements about the shape and the trend of the subject. So the decision what are these anchor points? – cannot be made until existing materials are reworked and general hypothetical statements constructed.

Now, among “existing materials,” I found in the files three types relevant to my study of the elite: several theories having to do with the topic; materials already worked up by others as evidence for those theories; and materials already gathered and in various stages of accessible centralisation, but not yet made theoretically relevant. Only after completing a first draft of a theory with the aid of such existing materials as these can I efficiently locate my own pivotal assertions and hunches and design researches to test them – and maybe I will not have to, although of course I know I will later have to shuttle back and forth between existing materials and my own research. Any final statement must not only “cover the data” so far as the data are available and known to me, but must also in some way, positively or negatively, take into account the available theories. Sometimes this “taking into account” of an idea is easily done by a simple confrontation of the idea with overturning or supporting fact; sometimes a detailed analysis or qualification is needed. Sometimes I can arrange the available theories systematically as a range of choices, and so allow their range to organise the problem itself.1 But sometimes I allow such theories to come up only in my own arrangement, in quite various contexts. At any rate, in the book on the elite I had to take into account the work of such men as Mosca, Schumpeter, Veblen, Marx, Lasswell, Michel, Weber, and Pareto. (…)

the sociological imagination

[dom] 13 de setembro de 2009

MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1965. p. 11-20

(…)

1

A imaginação sociológica capacita seu possuidor a compreender o cenário histórico mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima e para a carreira exterior de numerosos indivíduos. Permite-lhe levar em conta como os indivíduos, na agitação de sua experiência diária, adquirem freqüentemente uma consciência falsa de suas posições sociais. Dentro dessa agitação, busca-se a estrutura da sociedade moderna, e dentro dessa estrutura são formuladas as psicologias de diferentes homens e mulheres. Através disso, a ansiedade pessoal dos indivíduos é focalizada sobre fatos explícitos e a indiferença pelo público se transforma em participação nas questões públicas.

O primeiro fruto dessa imaginação – e a primeira lição da ciência social que a incorpora – é a idéia de que o indivíduo só pode compreender sua própria experiência e avaliar seu próprio destino localizando-se dentro de seu período; só pode conhecer suas possibilidades na vida tornando-se cônscio das possibilidades de todas as pessoas, nas mesmas circunstâncias em que ele. Sob muitos aspectos, é uma lição terrível; sob muitos outros, magnífica. Não conhecemos os limites da capacidade que tem o homem de realizar esforços supremos ou degradar-se voluntariamente, de agonia ou exultação, de brutalidade que traz prazer ou de deleite da razão. Mas em nossa época chegamos a saber que os limites da “natureza humana” são assustadoramente amplos. Chegamos a saber que todo indivíduo vive, de uma geração até a seguinte, numa determinada sociedade; que vive uma biografia, e que vive dentro de uma seqüência histórica. E pelo fato de viver, contribui, por menos que seja, para o condicionamento dessa sociedade e para o curso de sua história, ao mesmo tempo em que é condicionado pela sociedade e pelo seu processo histórico.

A imaginação sociológica nos permite compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade. Essa a sua tarefa e a sua promessa. A marca da análise social clássica é o reconhecimento delas (…). É a marca do que há de melhor nos estudos contemporâneos do homem e da sociedade.

Nenhum estudo social que não volte ao problema da biografia, da história e de suas interligações dentro de uma sociedade completou a sua jornada intelectual. Quaisquer que sejam os problemas específicos dos analistas sociais clássicos, por mais limitadas ou amplas as características da realidade social que examinaram, os que tiveram consciência imaginativa das possibilidades de seu trabalho formularam repetida e coerentemente três séries de perguntas:

  1. Qual a estrutura dessa sociedade como um todo? Quais seus componentes essenciais, e como se correlacionam? Como difere de outras variedades de ordem social? Dentro dela, qual o sentido de qualquer característica particular para a sua continuação e para a sua transformação?
  2. Qual a posição dessa sociedade na história humana? Qual a mecânica que a faz modificar-se? Qual é seu lugar no desenvolvimento da humanidade como um todo, e, que sentido tem para esse desenvolvimento? (…)
  3. Que variedades de homens predominam nessa sociedade e nesse período? E que variedades irão predominar? De que formas são selecionadas, formadas, liberadas e reprimidas, tornadas sensíveis ou impermeáveis? Que tipos de “natureza humana”, se revelam na conduta e caráter que observamos nessa sociedade, nesse período? E qual é o sentido que para a “natureza humana” tem cada uma das características da sociedade que examinamos?

Seja o objeto do exame uma grande potência, ou uma passageira moda literária, uma família, uma prisão, um credo – são essas as perguntas que os melhores analistas sociais formularam. São os centros intelectuais dos estudos clássicos do homem na sociedade – e são perguntas formuladas inevitavelmente por qualquer espírito que possua uma imaginação sociológica. Pois essa imaginação é a capacidade de passar de uma perspectiva a outra – da política para a psicológica; do exame de uma única família para a análise comparativa dos orçamentos nacionais do mundo; da escola teológica para a estrutura militar; de considerações de uma indústria petrolífera para estudos da poesia contemporânea. É a capacidade de ir das mais impessoais e remotas transformações para as características mais íntimas do ser humano – e ver as relações entre as duas. (…)

(…) Em grande parte, a visão autoconsciente que o homem contemporâneo tem de si, considerando-se pelo menos um forasteiro, quando não um estrangeiro permanente, baseia-se na compreensão da relatividade social e da capacidade transformadora da história. A imaginação sociológica é a forma mais frutífera dessa consciência. Usando-a, homens cujas mentalidades descreviam apenas uma série de órbitas limitadas passam a sentir-se como se subitamente acordassem numa casa que apenas aparentemente conheciam. Certo ou não, com freqüência passam a sentir que não podem proporcionar-se súmulas adequadas, análises coesas, orientações gerais. As decisões anteriores, que pareciam sólidas, passam a ser, então, como produtos de uma mente inexplicavelmente fechada. Sua capacidade de pensar volta a existir. Adquirem uma nova forma de pensar, experimentam uma transavaliação de valores: numa palavra, pela sua reflexão e pela sua sensibilidade, compreendem o sentido cultural das Ciências Sociais.

2

Talvez a distinção mais proveitosa usada pela imaginação sociológica seja a entre “as perturbações pessoais originadas no meio mais próximo” e “as questões públicas da estrutura social“. Essa distinção é um instrumento essencial da imaginação sociológica e uma característica de todo trabalho clássico na ciência social.

As perturbações ocorrem dentro do caráter do indivíduo e dentro do âmbito de suas relações imediatas com os outros; estão relacionadas com o seu eu e com as áreas limitadas da vida social; de que ele tem consciência direta e pessoal. Assim, a formulação e a resolução das perturbações se enquadram, adequadamente, no âmbito do indivíduo como entidade biográfica e dentro do alcance de seu meio imediato – o ambiente social que está aberto diretamente à sua experiência pessoal e, em certas proporções, à sua atividade consciente. Uma perturbação é um assunto privado: a pessoa sente que os valores por ela estimados estão ameaçados.

As questões relacionam-se com assuntos que transcendem esses ambientes locais do indivíduo e o alcance de sua vida íntima. Relacionam-se com a organização de muitos desses ambientes sob a forma de instituições de uma sociedade histórica como um todo, com as maneiras pelas quais os vários ambientes de pequena escala se confundem e se interpenetram, para formar a estrutura mais ampla da vida social e histórica. Uma questão é um assunto público: é um valor estimado pelo público que está ameaçado. Com freqüência, há um debate sobre o que esse valor realmente representa e sobre o que realmente o ameaça. O debate freqüentemente é impreciso, quando menos não seja porque é da própria natureza de uma questão que, ao contrário do que ocorre até mesmo com os problemas generalizados, não pode ser bem definida em termos dos ambientes imediatos e cotidianos do homem comum. A questão, na verdade, envolve quase sempre uma crise nas disposições institucionais e com freqüência também aquilo que os marxistas chamam de “contradições” ou “antagonismos”.

Nessas condições, consideremos o desemprego. Quando, numa cidade de cem mil habitantes, somente um homem está desempregado, isso é seu problema pessoal, e para sua solução examinamos adequadamente o caráter do homem, suas habilidades e suas oportunidades imediatas. Mas quando numa nação de 50 milhões de empregados, 15 milhões de homens não encontram trabalho, isso é uma questão pública, e não podemos esperar sua solução dentro da escala de oportunidades abertas às pessoas individualmente. A estrutura mesma das oportunidades entrou em colapso. Tanto a formulação exata o problema como a gama de soluções possíveis exigem que consideramos as instituições econômicas e políticas da sociedade e não apenas a situação pessoal e o caráter de um punhado de indivíduos.

Consideremos o casamento. No casamento, o homem e a mulher podem ter perturbações pessoais; mas quando a taxa de divórcios durante os primeiros quatro anos de casamento é de 250 para cada 1.000, isso mostra que existe uma questão estrutural relacionada com as instituições do casamento e, família, e outras, correlatas.

Ou consideremos a metrópole – a horrível, bela, feia, magnífica cidade grande. Para muita gente da classe superior, a solução pessoal para o “problema da cidade” é ter um apartamento com garagem, no centro da cidade, e a 60 quilômetros uma casa projetada por Henry Hill, com jardim de Garrett Eckbo, em cem acres de terras particulares. Nesses dois ambientes perfeitamente controlados – com uma pequena criadagem em cada e um helicóptero particular para fazer a ligação – a maioria das pessoas poderá resolver muitos dos problemas dos contextos pessoais, causados pelas condições da cidade. Mas tudo isso, por mais esplêndido, não resolve as questões públicas que a realidade estrutural da cidade cria. Que fazer com essa maravilhosa monstruosidade? Dividi-la em unidades esparsas, combinando residência e trabalho? Renová-la tal como se encontra? Ou, depois de evacuada, dinamitá-la e construir novas cidades de acordo com novos planos, em novos lugares? Quais deveriam ser esses planos? E quem decide e quem põe em prática as decisões tomadas? São questões estruturais; para enfrentá-las e solucioná-las é necessário considerar as questões políticas e econômicas que afetam numerosos ambientes.

Quando a estrutura econômica é tal que provoca depressões, o problema do desemprego foge à solução pessoal. Na medida em que a guerra é inerente ao sistema do Estado-nação e à industrialização irregular do mundo, o indivíduo em seu ambiente limitado é impotente – com ou sem ajuda psiquiátrica – para resolver os problemas que esse sistema, ou fata de sistema, lhe cria. Na medida em que a família, como instituição, transforma as mulheres em adoráveis escravas e os homens em seus principais mantenedores e ao mesmo tempo dependentes, o problema de um casamento satisfatório continua a fugir a uma solução exclusivamente pessoal. Na medida em que a super desenvolvida megalópole e o superdesenvolvido automóvel são características intrínsecas da sociedade superdesenvolvida, as questões públicas da vida urbana não serão resolvidas pela engenhosidade pessoal e pela riqueza particular.

Aquilo que experimentamos em vários e específicos ambientes de pequena escala, já o observei, é com freqüência causado pelas modificações estruturais. Assim para compreender as modificações de muitos ambientes pessoais, temos necessidade de olhar além deles. E o número e variedade dessas modificações estruturais aumentam à medida que as instituições dentro das quais vivemos se tornam mais gerais e mais complicadamente ligadas entre si. Ter consciência da idéia de estrutura social e utiliza-lá com sensibilidade é ser capaz de identificar as ligações entre uma grande variedade de ambientes de pequena escala. Ser capaz de usar isso é possuir a imaginação sociológica.

3

Quais as principais questões públicas para a coletividade e as preocupações-chaves dos indivíduos em nossa época? Para formular as questões e as preocupações, devemos indagar quais os valores aceitos e que estão ameaçados, e quais os valores aceitos e mantidos pelas tendências características de nosso período. Tanto no caso da ameaça como do apoio, devemos indagar que contradições de estrutura mais destacadas podem existir na situação.

Quando as pessoas estimam certos valores e não sentem que sobre eles pesa qualquer ameaça, experimentam o bem-estar. Quando os estimam mas sentem que estão ameaçados, experimentam uma crise – seja como problema pessoal ou como questão pública. E se todos os seus valores estiverem em jogo, sentem a ameaça total do pânico.

Mas suponhamos que as pessoas não tenham consciência de valores aceitos nem de qualquer ameaça. Experimentam, então, a indiferença, que, se envolvê-los a todos, se transforma na apatia. Suponhamos, finalmente, que não tenham consciência de quaisquer valores estimados, mas ainda sintam agudamente uma ameaça. Experimentam, então, a inquietação, a ansiedade, que, se for bastante forte, torna-se uma doença mortal e não-específica.

Nossa época é uma época de inquietação e indiferença – ainda não formulados de modo a permitir que sobre elas se exerçam a razão e a sensibilidade. Ao invés de problemas – definidos em termos de valores e ameaças – há com frequencia a miséria da inquietação vaga; ao invés das questões explicitas, há com frequencia o sentimento desanimador de que algo não esta certo. Nem os valores ameaçados, nem aquilo que os ameça, foram formulados. Em suma, não foram formulados como problemas de ciência social.

Na década de 1930 eram poucas as dúvidas – exceto entre círculos econômicos iludidos de que havia uma questão ecoomica, constutindo também um conjunto de problemas pessoais. Nos argumentos sobre “a crise do capitalismo”, as formulações de Marx e muitas das reformulações de seu trabalho, não aceitas, provavelmente estabeleceram os principais termos da questão, e alguns homens chegaram a compreender seus problemas pessoais dentro desses termos. Os valores ameaçados eram vistos e estimados por todos; as contradições estruturais que os ameaçavam também pareciam evidentes, sendo experimentados de modo geral e profundo. Era uma idade política.

Mas os valores ameaçados na era posterior à Segunda Guerra Mundial não são, com freqüência, reconhecidos por todos como valores nem todos os julgam ameaçados. Muita inquietação pessoal deixa de encontrar formulação; e muito mal-estar publico e decisões de enorme relevância estrutural jamais chegam a constituir-se em questões públicas. Para os que aceitam valores herdados, como razão e liberdade, é a inquietação em si que constitui o problema; é a indiferença em si que constitui a questão. E essa condição de inquietação e indiferença é que constitui a característica mercante do nosso período.

Tudo isso é tão surpreendente que os observadores frequentemente interpretam tal conjuntura como uma transformação dos tipos mesmos de problemas que precisam, agora, ser formulados. Ouvimos dizer, com freqüência, que os problemas de nossa década , ou mesmo as crises de nosso período, passaram além do setor exterior da economia, e tem hoje relação com a qualidade da vida individual – a verdade, com a possiblidade de continuar havendo, dentro em breve, qualquer coisa que se possa chamar adequadamante de via individual. Não o trabalho infantil, mas as histórias em quadrinho, não a pobreza, mas o ócio em massa, são os centros de preocupação. Muitas grandes questões publicas bem como muitos problemas privados são descritos em termos “de psiquiatria” – frequentemente, numa tentativa patética de evitar as grandes questões e problemas da sociedade moderna. Tal formulação baseia, quase sempre, num estreitamento proviciano do interesses das sociedades ocidentais, ou mesmo dos Estados Unidos – que assim ignoram dois terços da humanidade, quase sempre, também, separa arbitrariamente a vida individual das grandes instituições dentro das quais ela se realiza, e que por vezes nela influem de forma mais prejudicial do que o âmbito intimo da infância.

Os problemas do ócio, por exemplo, não podem nem mesmo ser formulados sem consideramos os problemas do trabalho. As preocupações da familia com as histórias em quadrinhos não podem ser formuladas como problemas, sem consideramos a sorte da familia contemporânea em suas novas relações com as instituições mais recentes da estrutura social. Nem o lazer, nem a sua utilização debilitante, podem ser compreendidos como problemas, sem o reconhecimento das proporções em que o mal-estar e a indiferença hoje formam o clima social e pessoal da sociedade americana contemporânea. Nesse clima, nenhum problema da “vida privada” pode ser formulado e resolvido sem reconhecimento da crise de ambição que é parte da carreira mesma dos homens que trabalham na economia incorporada.

É certo, como os psicanilistas afirmam constantemente, que as pessoas experimentam, “cada vez mais, o sentimento de serem movidas por forças obscuras dentro de si mesmas e que são incapazes de definir”. Mas não é verdade, como afirmou Ernest Jones, que o “principal inimigo do homem e seu principal perigo são suas própria natureza desordenada e as forças sombrias comprimidas dentro dele. Pelo contrário: “o principal perigo do homem” está nas forças desregradas da propria sociedade contemporanea, com seus métodos de produção alienantes, suas técnicas envolventesde dominio público, sua anarquia internacional – numa palavra, suas transformações gerais da propria “natureza” do homem e das condições e objetivos de sua vida.

Hoje,  a principal tarefa intelectual e política do cientista social – pois as duas aqui coincidem – é deixar claros os elementos da inquietação e da indiferença contemporâneas. É a exigência central que lhe fazem outros trabalhadores culturais – os cientistas físicos, os artistas, a comunidade intelectual em geral. É devido a essa tarefa e a essas exigências, creio, que as Ciências Sociais se estão transformando no denominador comum de nosso período cultural, e a imaginação sociológica na qualidade intelectual que mais necessitamos.

(…)

mineral

[sáb] 12 de setembro de 2009

‘tá uma mistura. mineral. não sei por onde pôr as coisas que me acompanham!?

mas segue a estória rabisca em blocos… s o l  t   o    s

“enquanto tentavam sentir seus pesepelos no chão, na materialidade, tudo o que  suas vistas alcançavam eram nuvens.  nem os pés de flor-na-pele e tampouco os de choro-solto podia-se saber onde estavam e por onde iam. andaram, meio bobos, por ai, hoje.  feitos das substâncias das nuvens. ele chorava, só de olhar. ela sentia, só de ver…  e sem engasgo, só aflitude, um troço estranho destes… que tomam conta de tudo e o que é mineral expande e transborda, borra, afunda…  fica sem tamanho. fica assim, e ninguém suspeitará da nuvem grande passando vagarosamente por estas bandas?! e quando tudo ficar nítido? desanuviado? novamente será que só haverá pedra e sal”.

E da estória é aguardar. e ver para onde irão estes estranhos choro-solto e flor-na-pele quando  alcançarem no olhar as palavras¹ do camarada sol ao jovem poeta da Rosta.

¹¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!

(bлади́мир bлади́мировичi)

%d blogueiros gostam disto: