the sociological imagination

2009, setembro 13, domingo

MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1965. p. 11-20

(…)

1

A imaginação sociológica capacita seu possuidor a compreender o cenário histórico mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima e para a carreira exterior de numerosos indivíduos. Permite-lhe levar em conta como os indivíduos, na agitação de sua experiência diária, adquirem freqüentemente uma consciência falsa de suas posições sociais. Dentro dessa agitação, busca-se a estrutura da sociedade moderna, e dentro dessa estrutura são formuladas as psicologias de diferentes homens e mulheres. Através disso, a ansiedade pessoal dos indivíduos é focalizada sobre fatos explícitos e a indiferença pelo público se transforma em participação nas questões públicas.

O primeiro fruto dessa imaginação – e a primeira lição da ciência social que a incorpora – é a idéia de que o indivíduo só pode compreender sua própria experiência e avaliar seu próprio destino localizando-se dentro de seu período; só pode conhecer suas possibilidades na vida tornando-se cônscio das possibilidades de todas as pessoas, nas mesmas circunstâncias em que ele. Sob muitos aspectos, é uma lição terrível; sob muitos outros, magnífica. Não conhecemos os limites da capacidade que tem o homem de realizar esforços supremos ou degradar-se voluntariamente, de agonia ou exultação, de brutalidade que traz prazer ou de deleite da razão. Mas em nossa época chegamos a saber que os limites da “natureza humana” são assustadoramente amplos. Chegamos a saber que todo indivíduo vive, de uma geração até a seguinte, numa determinada sociedade; que vive uma biografia, e que vive dentro de uma seqüência histórica. E pelo fato de viver, contribui, por menos que seja, para o condicionamento dessa sociedade e para o curso de sua história, ao mesmo tempo em que é condicionado pela sociedade e pelo seu processo histórico.

A imaginação sociológica nos permite compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade. Essa a sua tarefa e a sua promessa. A marca da análise social clássica é o reconhecimento delas (…). É a marca do que há de melhor nos estudos contemporâneos do homem e da sociedade.

Nenhum estudo social que não volte ao problema da biografia, da história e de suas interligações dentro de uma sociedade completou a sua jornada intelectual. Quaisquer que sejam os problemas específicos dos analistas sociais clássicos, por mais limitadas ou amplas as características da realidade social que examinaram, os que tiveram consciência imaginativa das possibilidades de seu trabalho formularam repetida e coerentemente três séries de perguntas:

  1. Qual a estrutura dessa sociedade como um todo? Quais seus componentes essenciais, e como se correlacionam? Como difere de outras variedades de ordem social? Dentro dela, qual o sentido de qualquer característica particular para a sua continuação e para a sua transformação?
  2. Qual a posição dessa sociedade na história humana? Qual a mecânica que a faz modificar-se? Qual é seu lugar no desenvolvimento da humanidade como um todo, e, que sentido tem para esse desenvolvimento? (…)
  3. Que variedades de homens predominam nessa sociedade e nesse período? E que variedades irão predominar? De que formas são selecionadas, formadas, liberadas e reprimidas, tornadas sensíveis ou impermeáveis? Que tipos de “natureza humana”, se revelam na conduta e caráter que observamos nessa sociedade, nesse período? E qual é o sentido que para a “natureza humana” tem cada uma das características da sociedade que examinamos?

Seja o objeto do exame uma grande potência, ou uma passageira moda literária, uma família, uma prisão, um credo – são essas as perguntas que os melhores analistas sociais formularam. São os centros intelectuais dos estudos clássicos do homem na sociedade – e são perguntas formuladas inevitavelmente por qualquer espírito que possua uma imaginação sociológica. Pois essa imaginação é a capacidade de passar de uma perspectiva a outra – da política para a psicológica; do exame de uma única família para a análise comparativa dos orçamentos nacionais do mundo; da escola teológica para a estrutura militar; de considerações de uma indústria petrolífera para estudos da poesia contemporânea. É a capacidade de ir das mais impessoais e remotas transformações para as características mais íntimas do ser humano – e ver as relações entre as duas. (…)

(…) Em grande parte, a visão autoconsciente que o homem contemporâneo tem de si, considerando-se pelo menos um forasteiro, quando não um estrangeiro permanente, baseia-se na compreensão da relatividade social e da capacidade transformadora da história. A imaginação sociológica é a forma mais frutífera dessa consciência. Usando-a, homens cujas mentalidades descreviam apenas uma série de órbitas limitadas passam a sentir-se como se subitamente acordassem numa casa que apenas aparentemente conheciam. Certo ou não, com freqüência passam a sentir que não podem proporcionar-se súmulas adequadas, análises coesas, orientações gerais. As decisões anteriores, que pareciam sólidas, passam a ser, então, como produtos de uma mente inexplicavelmente fechada. Sua capacidade de pensar volta a existir. Adquirem uma nova forma de pensar, experimentam uma transavaliação de valores: numa palavra, pela sua reflexão e pela sua sensibilidade, compreendem o sentido cultural das Ciências Sociais.

2

Talvez a distinção mais proveitosa usada pela imaginação sociológica seja a entre “as perturbações pessoais originadas no meio mais próximo” e “as questões públicas da estrutura social“. Essa distinção é um instrumento essencial da imaginação sociológica e uma característica de todo trabalho clássico na ciência social.

As perturbações ocorrem dentro do caráter do indivíduo e dentro do âmbito de suas relações imediatas com os outros; estão relacionadas com o seu eu e com as áreas limitadas da vida social; de que ele tem consciência direta e pessoal. Assim, a formulação e a resolução das perturbações se enquadram, adequadamente, no âmbito do indivíduo como entidade biográfica e dentro do alcance de seu meio imediato – o ambiente social que está aberto diretamente à sua experiência pessoal e, em certas proporções, à sua atividade consciente. Uma perturbação é um assunto privado: a pessoa sente que os valores por ela estimados estão ameaçados.

As questões relacionam-se com assuntos que transcendem esses ambientes locais do indivíduo e o alcance de sua vida íntima. Relacionam-se com a organização de muitos desses ambientes sob a forma de instituições de uma sociedade histórica como um todo, com as maneiras pelas quais os vários ambientes de pequena escala se confundem e se interpenetram, para formar a estrutura mais ampla da vida social e histórica. Uma questão é um assunto público: é um valor estimado pelo público que está ameaçado. Com freqüência, há um debate sobre o que esse valor realmente representa e sobre o que realmente o ameaça. O debate freqüentemente é impreciso, quando menos não seja porque é da própria natureza de uma questão que, ao contrário do que ocorre até mesmo com os problemas generalizados, não pode ser bem definida em termos dos ambientes imediatos e cotidianos do homem comum. A questão, na verdade, envolve quase sempre uma crise nas disposições institucionais e com freqüência também aquilo que os marxistas chamam de “contradições” ou “antagonismos”.

Nessas condições, consideremos o desemprego. Quando, numa cidade de cem mil habitantes, somente um homem está desempregado, isso é seu problema pessoal, e para sua solução examinamos adequadamente o caráter do homem, suas habilidades e suas oportunidades imediatas. Mas quando numa nação de 50 milhões de empregados, 15 milhões de homens não encontram trabalho, isso é uma questão pública, e não podemos esperar sua solução dentro da escala de oportunidades abertas às pessoas individualmente. A estrutura mesma das oportunidades entrou em colapso. Tanto a formulação exata o problema como a gama de soluções possíveis exigem que consideramos as instituições econômicas e políticas da sociedade e não apenas a situação pessoal e o caráter de um punhado de indivíduos.

Consideremos o casamento. No casamento, o homem e a mulher podem ter perturbações pessoais; mas quando a taxa de divórcios durante os primeiros quatro anos de casamento é de 250 para cada 1.000, isso mostra que existe uma questão estrutural relacionada com as instituições do casamento e, família, e outras, correlatas.

Ou consideremos a metrópole – a horrível, bela, feia, magnífica cidade grande. Para muita gente da classe superior, a solução pessoal para o “problema da cidade” é ter um apartamento com garagem, no centro da cidade, e a 60 quilômetros uma casa projetada por Henry Hill, com jardim de Garrett Eckbo, em cem acres de terras particulares. Nesses dois ambientes perfeitamente controlados – com uma pequena criadagem em cada e um helicóptero particular para fazer a ligação – a maioria das pessoas poderá resolver muitos dos problemas dos contextos pessoais, causados pelas condições da cidade. Mas tudo isso, por mais esplêndido, não resolve as questões públicas que a realidade estrutural da cidade cria. Que fazer com essa maravilhosa monstruosidade? Dividi-la em unidades esparsas, combinando residência e trabalho? Renová-la tal como se encontra? Ou, depois de evacuada, dinamitá-la e construir novas cidades de acordo com novos planos, em novos lugares? Quais deveriam ser esses planos? E quem decide e quem põe em prática as decisões tomadas? São questões estruturais; para enfrentá-las e solucioná-las é necessário considerar as questões políticas e econômicas que afetam numerosos ambientes.

Quando a estrutura econômica é tal que provoca depressões, o problema do desemprego foge à solução pessoal. Na medida em que a guerra é inerente ao sistema do Estado-nação e à industrialização irregular do mundo, o indivíduo em seu ambiente limitado é impotente – com ou sem ajuda psiquiátrica – para resolver os problemas que esse sistema, ou fata de sistema, lhe cria. Na medida em que a família, como instituição, transforma as mulheres em adoráveis escravas e os homens em seus principais mantenedores e ao mesmo tempo dependentes, o problema de um casamento satisfatório continua a fugir a uma solução exclusivamente pessoal. Na medida em que a super desenvolvida megalópole e o superdesenvolvido automóvel são características intrínsecas da sociedade superdesenvolvida, as questões públicas da vida urbana não serão resolvidas pela engenhosidade pessoal e pela riqueza particular.

Aquilo que experimentamos em vários e específicos ambientes de pequena escala, já o observei, é com freqüência causado pelas modificações estruturais. Assim para compreender as modificações de muitos ambientes pessoais, temos necessidade de olhar além deles. E o número e variedade dessas modificações estruturais aumentam à medida que as instituições dentro das quais vivemos se tornam mais gerais e mais complicadamente ligadas entre si. Ter consciência da idéia de estrutura social e utiliza-lá com sensibilidade é ser capaz de identificar as ligações entre uma grande variedade de ambientes de pequena escala. Ser capaz de usar isso é possuir a imaginação sociológica.

3

Quais as principais questões públicas para a coletividade e as preocupações-chaves dos indivíduos em nossa época? Para formular as questões e as preocupações, devemos indagar quais os valores aceitos e que estão ameaçados, e quais os valores aceitos e mantidos pelas tendências características de nosso período. Tanto no caso da ameaça como do apoio, devemos indagar que contradições de estrutura mais destacadas podem existir na situação.

Quando as pessoas estimam certos valores e não sentem que sobre eles pesa qualquer ameaça, experimentam o bem-estar. Quando os estimam mas sentem que estão ameaçados, experimentam uma crise – seja como problema pessoal ou como questão pública. E se todos os seus valores estiverem em jogo, sentem a ameaça total do pânico.

Mas suponhamos que as pessoas não tenham consciência de valores aceitos nem de qualquer ameaça. Experimentam, então, a indiferença, que, se envolvê-los a todos, se transforma na apatia. Suponhamos, finalmente, que não tenham consciência de quaisquer valores estimados, mas ainda sintam agudamente uma ameaça. Experimentam, então, a inquietação, a ansiedade, que, se for bastante forte, torna-se uma doença mortal e não-específica.

Nossa época é uma época de inquietação e indiferença – ainda não formulados de modo a permitir que sobre elas se exerçam a razão e a sensibilidade. Ao invés de problemas – definidos em termos de valores e ameaças – há com frequencia a miséria da inquietação vaga; ao invés das questões explicitas, há com frequencia o sentimento desanimador de que algo não esta certo. Nem os valores ameaçados, nem aquilo que os ameça, foram formulados. Em suma, não foram formulados como problemas de ciência social.

Na década de 1930 eram poucas as dúvidas – exceto entre círculos econômicos iludidos de que havia uma questão ecoomica, constutindo também um conjunto de problemas pessoais. Nos argumentos sobre “a crise do capitalismo”, as formulações de Marx e muitas das reformulações de seu trabalho, não aceitas, provavelmente estabeleceram os principais termos da questão, e alguns homens chegaram a compreender seus problemas pessoais dentro desses termos. Os valores ameaçados eram vistos e estimados por todos; as contradições estruturais que os ameaçavam também pareciam evidentes, sendo experimentados de modo geral e profundo. Era uma idade política.

Mas os valores ameaçados na era posterior à Segunda Guerra Mundial não são, com freqüência, reconhecidos por todos como valores nem todos os julgam ameaçados. Muita inquietação pessoal deixa de encontrar formulação; e muito mal-estar publico e decisões de enorme relevância estrutural jamais chegam a constituir-se em questões públicas. Para os que aceitam valores herdados, como razão e liberdade, é a inquietação em si que constitui o problema; é a indiferença em si que constitui a questão. E essa condição de inquietação e indiferença é que constitui a característica mercante do nosso período.

Tudo isso é tão surpreendente que os observadores frequentemente interpretam tal conjuntura como uma transformação dos tipos mesmos de problemas que precisam, agora, ser formulados. Ouvimos dizer, com freqüência, que os problemas de nossa década , ou mesmo as crises de nosso período, passaram além do setor exterior da economia, e tem hoje relação com a qualidade da vida individual – a verdade, com a possiblidade de continuar havendo, dentro em breve, qualquer coisa que se possa chamar adequadamante de via individual. Não o trabalho infantil, mas as histórias em quadrinho, não a pobreza, mas o ócio em massa, são os centros de preocupação. Muitas grandes questões publicas bem como muitos problemas privados são descritos em termos “de psiquiatria” – frequentemente, numa tentativa patética de evitar as grandes questões e problemas da sociedade moderna. Tal formulação baseia, quase sempre, num estreitamento proviciano do interesses das sociedades ocidentais, ou mesmo dos Estados Unidos – que assim ignoram dois terços da humanidade, quase sempre, também, separa arbitrariamente a vida individual das grandes instituições dentro das quais ela se realiza, e que por vezes nela influem de forma mais prejudicial do que o âmbito intimo da infância.

Os problemas do ócio, por exemplo, não podem nem mesmo ser formulados sem consideramos os problemas do trabalho. As preocupações da familia com as histórias em quadrinhos não podem ser formuladas como problemas, sem consideramos a sorte da familia contemporânea em suas novas relações com as instituições mais recentes da estrutura social. Nem o lazer, nem a sua utilização debilitante, podem ser compreendidos como problemas, sem o reconhecimento das proporções em que o mal-estar e a indiferença hoje formam o clima social e pessoal da sociedade americana contemporânea. Nesse clima, nenhum problema da “vida privada” pode ser formulado e resolvido sem reconhecimento da crise de ambição que é parte da carreira mesma dos homens que trabalham na economia incorporada.

É certo, como os psicanilistas afirmam constantemente, que as pessoas experimentam, “cada vez mais, o sentimento de serem movidas por forças obscuras dentro de si mesmas e que são incapazes de definir”. Mas não é verdade, como afirmou Ernest Jones, que o “principal inimigo do homem e seu principal perigo são suas própria natureza desordenada e as forças sombrias comprimidas dentro dele. Pelo contrário: “o principal perigo do homem” está nas forças desregradas da propria sociedade contemporanea, com seus métodos de produção alienantes, suas técnicas envolventesde dominio público, sua anarquia internacional – numa palavra, suas transformações gerais da propria “natureza” do homem e das condições e objetivos de sua vida.

583865Hoje,  a principal tarefa intelectual e política do cientista social – pois as duas aqui coincidem – é deixar claros os elementos da inquietação e da indiferença contemporâneas. É a exigência central que lhe fazem outros trabalhadores culturais – os cientistas físicos, os artistas, a comunidade intelectual em geral. É devido a essa tarefa e a essas exigências, creio, que as Ciências Sociais se estão transformando no denominador comum de nosso período cultural, e a imaginação sociológica na qualidade intelectual que mais necessitamos.

(…)

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