Archive for dezembro, 2009

para descansar do "mundo paralelo"

[qui] 31 de dezembro de 2009

acordamos tarde. tu não vai embora, anoitecemos juntos [e isto é bonito]. livres e vermelhos para o novo ano, para a vida toda!

umas de tuas segunda casa

[qua] 30 de dezembro de 2009

termino a leitura de memórias do esquecimento. passo o dia com as crianças.  brinco de ler poemas dos becos de goyaz e histórias mais à minha pequena cora coralina, ou carol carolina, heteronômio de uma linda moça feiticeira no alto de seus quatro anos.

e depois de horas, de tantos telefonemas sem sucesso, falamos tu e eu.

***

e no fim da tarde, à Beira d’Água um balanço, uma cerveja, um beijo, um pastel berbigão e tudo é mais bonito nesse sambaqui que tanto tu e eu amamos.

“(…) yo muy serio voy remando muy adentro sonrío, creo que he visto una luz al otro lado del río (…)”

ioio

[ter] 29 de dezembro de 2009

dia de terapia.

7h50. acordo, miro o mundo pela janela do teu quarto.

8h00. ioio ganha casa.

9h30. passeamos pela grama verde, eu e meus pais, sob o gosto de ilex paraguariensis. sinto-me familiar.

12h30. ritual feito [me desafaço das palavras e sinto o que vivo – “existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio…” Dostoiévski]. há fé, e um caldo de cana… sinto vontade de presentear todos. meu peito arde. tu me arde demais.

lágrimas negras

[seg] 28 de dezembro de 2009

raiou o dia, no rádio otto e julieta cantam jorge mautner e nelson jacobina, e nossos corpos ainda vivos, rosa morena, não pararam de sambar.

dormiremos o dia, à noite vamos passear pela freguesia.

e tu, iaia, encontrou ioio no caminho.

moreno samba

[seg] 28 de dezembro de 2009

meu amor voltando do samba, meio bêbado, fez alarde no portão, me arrancou o pijama, e beijou meu coração.

memórias do esquecimento

[dom] 27 de dezembro de 2009

Vamos ser francos? Isto aqui ‘tá quente demais! Suor em demasia… Encharcado mesmo diante do mar negro. São 01 h 55 min., apenas começo um texto que não sei bem ao certo onde irá parar e, de fato, conterá [mas preciso escrever, me sinto só, destes momentos de solidão escolhida, própria, cultivada etc]. Os livros ainda permanecem bagunçados sobre a mesa ou estante ou cama, igual algumas peças de roupa e outras coisas tantas… Tudo ao avesso. Não sou fiel, não posso ser fiel ao ponte de lhe contar como vai a vida nestes últimos meses e porque tudo anda há tempos desta forma, como se estivesse à moscas ou ao limbo. Apenas, mediocre e melancolicamente, tento uma razoável descrição do absurdo ou de uma certa dor recorrida [buscada e achada]. Continuo suando, como se houverá me banhado em instantes; e de fato, precisarei antes de adormecer um banho. Pensei em compor uma lista, mas adio dia pós dia, adio agora. Mas se fosse seria talvez algo como… – me canso rápido destas coisas.

Capitulo VII

Descalço no Banquete

Quem quer passar além do bojador tem que passar além da dor. Fernando Pessoa

1.

Como naqueles acessos de fúria, em que o louco esperneia e berra, mas oculta as loucuras mais profundas, subitamente o quartel tem um acesso de legalidade e descobrem que, pela lei, eu tenho direito a prisão especial. Voltam a me aplicar o “Doutor Volts”, mas – “por ser advogado, jornalista e professor universitário” – no 20º dia sou transferido para uma cela ampla no piso superior, com cama e banheiro com chuveiro elétrico. Para quem dispõe apenas de um colchão de palha no cimento e um buraco no chão como sanitário, um progresso. O major tem um olhar voluptuoso quando me dá a notícia: “Você vai se deitar nos lençóis perfurmados pela Frida e pela Dulce e vai sonhar com as mulheres”.

f[altou digitar o resto e por o número da página]

cortar o tempo

[sáb] 26 de dezembro de 2009

Quem teve a idéia / de cortar o tempo em fatias, / a que se deu o nome de ano, / foi um indivíduo genial! / Industrializou a esperança, / fazendo-a funcionar / no limite da exaustão. // Doze meses é suficiente para qualquer ser humano / se cansar e entregar os pontos. // Aí entra o milagre da renovação / e tudo começa outra vez, / Com outro número / e outra vontade de  acreditar / que daqui para diante vai ser diferente. // (Carlos Drummond de Andrade)

de c.z.

ps: mas não é drummond.

bichinho

[sex] 25 de dezembro de 2009

o natal foi como se fosse algo triste. algo quase bêbado e solitário como uma garrafa de vinho tinto.

só palpitou acelerado quando aqueles dois olhinhos portão adentro bateram na porta repletos de coisas tão bonitas pra contar que dava frio na barriga!

ah! bichinho (como carinho da bahia).

como estão vocês?

[qua] 23 de dezembro de 2009

Eu não posso admitir que continuemos cantando assim: “Eu quero o mesmo inferno/ A mesma cela de prisão – a falta de futuro / Eu quero a mesma humilhação – a falta de futuro /Eu quero o mesmo inferno / A mesma cela de prisão – a falta de futuro / O mesmo desespero…”.

Colo abaixo alguns recortes feitos [ou melhor dizendo, digitados] da leitura de ontem e hoje [é! voltei a trabalhar na conclusão do projeto de pesquisa, enfim, retomando as leituras e a organização das fontes]. Há um duplo em ter como material de trabalho a memória daqueles que lutaram pela liberdade, coletada atráves de depoimentos.

Ter acesso, em primeira mão, a depoimentos de companheiros e camaradas de luta deste momento tão tenebroso que foi a Ditadura Civil-Militar no Brasil é uma grande oportunidade [e isto é profundo e humanizante] de conhecer substancialmente minha própria história [e entender melhor a lógica, e as manifestações de opressão e dominação da barbárie capitalista]. Mas, há também este sentimento de revolta contra toda essa barbárie que houve, e que este sujeitos que ousaram lutar pagaram… E certa perplexidade em saber que milhões de pessoas desconhecem que tal barbárie existiu sob suas [nossas] cabeças, e mais, que a tortura, a alienação, as violações sistemáticas dos direitos humanos fundamentais e básicos de milhões de pessoas não é coisa só de ontem, é sim, coisa de hoje. Ocorre diariamente.

É esse engasgo, um misto de revolta  contra a estupidez e tirania desta corja assassina, e uma profunda dor pelos que tombaram ou foram mutilados e por nós que seguimos amputados de parte de nós, e um desejo intenso de mudar tudo isto para que os humanos de amanhã não sintam tanto desespero. É esta busca por saber quem sou, de onde venho, quem é meu povo, quais minhas raízes… E por que sinto tanta dor, que me faz querer conhecer mais… saber mais, transformar lucidamente mais! Ter Futuro!!!!!!! Há braços!

Leia!

Introdução.

Não hás de ver, Marília, o medo escrito, o medo perturbado que infunde o vil delito.
Tomáz Antônio Gonzaga
poeta e ‘inconfidente’ mineiro, preso, torturado e condenado ao degredo na África.

Memórias do Esquecimento – Os Segredos dos Porões da Ditadura

Primeiras Visões.

……….Os beijos que te dou não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma do mais profundo de ti, sim, mas vêm daquele meu ego morto que só contigo renasceu. Pouco me ri e muito mais sofri neste tempo todo. São 30 anos que esperei para escrever e contar. Lutei com a necessidade de dizer e a absoluta impossibilidade de escrever. A cada dia, adiei o que iria escrever ontem. A idéia vinha à memória, mas, logo, logo, se esvaía naquele cansaço imenso que me fazia deixar tudo para amanhã e jamais recomeçar.

……….Tornei-me um esquizofrênico da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante.
……….Tendo tudo para contar, sempre quis esquecer. Por que lembrar o major torturador, os interrogatórios dias e noites adentro? Por que trazer de volta aquele sabor metálico do choque elétrico na gengiva, que me ficou na boca meses a fio? Por que lembrar a prisão em Brasília ou no Rio de Janeiro ou nos quartéis em Juiz de Fora? Para que recordar aquelas reuniões intermináveis, em que debatíamos na ansiedade e nos aproximávamos uns aos outros como irmãos que brigam, se irritam e se odeiam na fraternidade do perigo? (…) Agora, quando roço a tua pele e no silêncio te sinto estremecer, me pergunto para que evocar o exílio, aqueles longos dez anos em que fomos os ‘banidos’, algo extravagante que nos obrigava a vagar pelo mundo sem jamais poder voltar à pátria e ouvir teus sussurros ou descobrir teus olhos verdes-azuis ao sol do lugar onde nasci.
……….Eu me lembro tanto de tanto ou de tudo que, talvez por isso, tentei esquecer. Quanto te amo, este amor enfurecido de beijos e abraços ocupa todo o espaço da memória e, só então, vivo tranqüilo e em paz. Sim, minha amada, o que os meus olhos viram às vezes tenho vontade de cegar.
Esquecer? Impossível, pois o que eu vi caiu também sobre mim, e o corpo ou a alma sofridos não podem evitar que a mente esqueça ou que a mente lembre. Sou um demente escravo da mente.
Rima? Rima, sim, e até poder ser uma rima, mas não é uma solução. A unica solução é não esquecer.
E por não esquecer te conto, minha amada. Como um grito te conto. Ouve e lê. (p. 13-15)

(Capítulo I. O Exílio no sonho)


Quando secar o rio da minha infância, secará toda dor.
Frei Tito de Alencar Lima


1.
……….Ao longo dos meus dez anos de exílio, um sonho acompanhou-me de tempos em tempos, intermitente. Repetia-se sempre igual, com pequenas variantes. Meu sexo saía do corpo, caía-me nas mãos como parafuso solto. E, como parafuso de carne vermelha, eu voltava a parafusá-lo, encaixando-o entre minhas pernas, um palmo abaixo do umbigo, no seu lugar de sempre (…) Mais terrível que o pesadelo era o levantar-se com ele, na dúvida, naquela frações de segundo entreabertas entre a noite e o amanhecer, sem saber se fora apenas sonho mesmo ou o despertar de uma realidade cloroformizada pela vida (…)


2.
……….Tudo se fazia em silêncio. Nenhum grito, meu, nenhum balbuciar de sonâmbulo. Só muita angústia. Meu sonho repetiria no silêncio a balbúrdia, os gritos e o alarido daqueles dias no quartel do Exército da rua Barão de Mesquita, no Rio?
……….Na manivela da máquina de choque elétrico o major F. girava forte e esbugalhava os olhos, à espera do meu grito. E eu não conseguia gritar. A respiração se cortava, travando a língua. Só uns segundos depois, com a manivela rodando, os fios enrolados nos meus dedos ou nas orelhas, sentia meus gritos, mas quase só eu mesmo me ouvia.
……….Gritava como quem se afoga no seco, em uivos curtos, cortados pelo uivo seguinte. Na madrugada, o sargento Thimóteo enrolou-me os fios no pênis. Girou girou girou girou a manivela. Eu uivei e caí no chão. Não tive a sensação de que o meu sexo se queimava ou se despedaçava. Era como se o amputasse sem bisturi e sem anestesia. Talvez num puxão.
……….Horas depois, numa pausa do choque elétrico, toquei-me as cuecas para ter certeza de que tudo em mim continuava intacto e no lugar de sempre. (p. 19-21)


(Capítulo III. Os Mendigos)


Vamos embora logo. Não temos nada que levar, a não ser nosso destino.
Gláuber Rocha. “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”

1.
(…)
……….Durante anos no Brasil (até mesmo antes do terror do golpe militar de 1964) o choque elétrico foi utilizado pela polícia ‘normalmente’ contra os marginais e delinqüentes pobres, autores ou suspeitos de crimes comuns, para obter confissões ou informações. O choque elétrico sofisticado, com requintes de perversão, porém, só foi usado contra os presos políticos. O quartel da rua Barão de Mesquita foi o cenário em que eu vivi esse drama que se desenvolveu em forma progressiva. Começa na mão direita, e isso já bastaria como crueldade, pois o efeito recorre todo o corpo e o prisioneiro cai. Os pontapés e os gritos obrigam o preso a levantar-se e tudo recomeça. Aos poucos, surgem as variantes do sadismo: molham o chão para que o efeito se amplie da planta dos pés à cabeça, num tremor profundo, e, logo, ao cabo metálico chega ao rosto e ao encontro dos olhos, aos ouvidos, às gengivas e à língua. Na sala de torturas, o prisioneiro está sempre nu ou seminu (só de cuecas ou calcinhas) e isto, que em si mesmo já é uma humilhação, facilita o requinte maior do choque elétrico: nos homens, amarrar os fios no pênis, e nas mulheres, introduzir o cabo metálico na vagina. E em ambos, como alternativa final, o choque elétrico no ânus. (p. 37-39)


(Capítulo VI. Os Dois Exércitos)

Outros haverão de ter o que houvermos de perder.
Fernando Pessoa

2.
(…)
……….Agora, descarregam de novo sobre nós o ‘Doutor Volts’, aquela máquina em que sobressai uma inscrição em relevo, ‘Donated by the people of United Statese, logo abaixo, a insígnia da Aliança para o Progresso, com duas mãos entrelaçadas. (…) (p. 88)

5.
……….O major não tinha medo de orixá, mas, pelas dúvidas, poupou Ivan do choque elétrico e resolveu nele exercitar algo mais artesanal, o ‘telefone’, aquela série de pancadas secas (mais que tapa e menos que soco) dadas com a mão aberta sobre os ouvidos do prisioneiro. O ‘telefone’ entontece e, por instantes, nos deixa surdos e aparvalhados, com um redemoinho apitando nos ouvidos. Todos nós o experimentamos. Alguns ficaram com a audição diminuída; outros, definitivamente surdos, com lesão no tímpano.
……….Aquele ‘telefone’ aplicado em Ivan à nossa frente, porém, foi diferente de todos. (…) Ivan recebeu o primeiro golpe seco de longe, com o braço do torturador estendido. Os tapas continuaram, o torturador cada vez mais perto. mais perto, até encostar a cara na cara de Ivan, o corpo no corpo de Ivan, sempre lhe dando mais golpes, cada vez unindo mais o rosto com rosto, quase beijando a vítima, cheirando-lhe o pescoço, como se aquilo não fosse tortura, mas o êxtase do torturador estuprando o prisioneiro pelos ouvidos. (p. 93-94).

Memórias do Esquecimento. Os segredos dos porões da ditadura. Tavares, Flávio [edição revisada e ampliada] 5ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2005.

***

Ao som, no volume máximo, pelo avesso titãs (2003).

help me, get my feet back on the ground!

[ter] 22 de dezembro de 2009

dia de terapia

fiquei pensando em algo que pudesse traduzir o que girou pelo dia. o que estou pensando e qual o exercício necessário. vieram estas palavras: // […] but now these days are gone, i’m not so self assured / now i find i’ve changed my mind and opened up the doors […]. /// e algumas outras páginas escritas vão ficando guardados para quando forem possíveis. outras seguem em branca página, enquanto esta aqui confessa o inconfessável… apresento sintomas de melhora, se é que isto é possível, e se é que me entendes, e se é que há alguém que precise ou possa. Traduzindo, tem me feito bem acenos e sorrisos largos declarados pelos honestos amigos nestes dias.

e guardo o resto salvo em alguns rascunhos. [contradição] fim.

%d blogueiros gostam disto: