la tregua

[ter] 26 de outubro de 2010

na margem esquerda a trégua…

[texto ficcional-fragmento feminino]
porque o amor é isto. um pão. tu vinhas de um casamento. irias embora. não eras dali. eu tinha hora marcada. queria futuro. e assim como chegastes, levantei, e desci da lotação. não sei seu nome. apenas alguns fragmentos, e delirios sobre o mundo. está ali. linha por linha dizendo o que a cabeça não consegue pensar. o entrecruzar de sentimentos. de pernas e olhos. fugimos então de novos reencontros pois o peito arde. eu mulher, e ela entrou. pedia informação e tentava orientar-se. era toda desorientação, suas mãos, seus olhos, sua mala, seu corpo. sabia eu o gosto das lágrimas dela. eramos dois velhos amigos, ou ex-futuros amantes. pensei em como te encaixarias no meu quadril, como enroscarias nas minhas pernas grossas, e como sorverias-me. qual gosto teriam teus lábios. mas eu gozava em todas suas entradas, eu dava o que podia dar. meu prazer de despedida. e saia de mim um jato de despedida, amargo, cruel. pagou o tiquete e rolou a catraca. com grande dificuldade pelo seu excesso de bagagem. o cobrador quis ajudar, e esbocei um gesto que interrompeu-se no ar, já que não foi preciso. mas ela notou-me. não que eu fizera isto buscando sua atenção, foi apenas um gesto involuntário, um daqueles tiques culturais de cortesia. gosto de ler o que escrevi há um certo tempo. tudo isto me diz o quanto já não sou mais o mesmo ao passo que sou o mesmo. e desde a ultima vez que passeis horas beijando no portão até amanhecer não devorava ninguém. e tua pele negra colada à minha, dava-me o ar, que gostaria de encontrar mais vezes, de domínio e sedução. o mesmo tolo. o mesmo garoto buscando o desconhecido. naquela noite meu peito ardia e eu não a queria, e ela ali, me pedia um pouco mais de alguém que eu já não era. acompanhei-na até sua casa, transamos como um rito de despedida. havia uma certa paz em nosso diálogo, e um tumulto em nossos corpos. ela entendia-me, não aceitava, mas queria-me mais. te recordas quando ficamos horas sobre o cais, ao balanço do mar e nossos olhos refletiam-se enquanto o mundo evaporava. o mar refletia as estrelas de uma noite sem lua. e ela não sossegou e sentou-se ao meu lado. tinha um livro na mão. logo, de canto de olho, identiquei que era algo sobre a educação. educação e arte. eu devora adorno. ouvi sua voz buscar-me. eu aguçava seu desejo. “não aguentaria viajar mais sem perguntar-te, como podes ler assim?”. fomos bons amigos, trocamos impressões. eu estava bebado. bem alto, eu lembro, ou melhor. lembro pouco. brincavamos, provocativamente, nos tocando, apalpando-nos. e tu, tão branca estavas de vestido preto. senti teu lábios lançados sobre os meus e quando pisquei os olhos, três horas depois, estava no teu quarto deliciosamente nu sobre tua cama sendo devorado por ti. como é dificil gostar de você, tão silênciosa. como é dificil não gostar de você. sempre tive um olhar limitado quando se trata de coisas reais, e contraditoriamente, um olhar vasto nas coisas da imaginação. solitário. te entregavas aos meus olhos. traias alguém – como outras trairam outros enroscadas em mim. eu te traia em cada estocada. eu me reconhecia, aprendiz, e te amava mais.

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