sangue, espuma, chuva e mar.

[qui] 16 de dezembro de 2010

será que consigo não datar? será que estas palavras – só pelo fato de aqui existirem – negam o que elas buscam imitar  – ou traduzir, como queiras – ?!. descubro que não pontuo certo. porra. nem grafo correto, quanto mais pontuar. eu berro, mesmo quando é tudo silêncio. mas vamos lá. sem responder ou perguntar… só porque o existente é instrumental. e todos buscam, de sua forma e maneira, burlar a dor, estrutural, contida, e constituinte, de seus, nossos, peitos.

e sob duas garrafas, camaradas, de vinho, brindo, a la negra, a hilda e ana cristina cesar. e a tu, e a mim, e aos pássaros, e à chuva, e a esse dia vadio, e a toda poesia. e isto que me preenche… “todo sangue pode ser canção no vento”

NADA, esta espuma. // Por afrontamento do desejo / insisto na maldade de escrever / mas não sei se a deusa sobe à superfície / ou apenas me castiga com seus uivos. / Da amurada deste barco / quero tanto os seios da sereia. [ANA CRISTINA CÉSAR. A TEUS PÉS. p. 97]

I // Se for possível, manda-me dizer: / – É lua cheia. A casa está vazia – / Manda-me dizer, e o paraíso / Há de ficar mais perto, e mais recente / Me há de parecer teu rosto incerto. / Manda-me buscar se tens o dia / Tão longo como a noite. Se é verdade / Que sem mim só vês monotonia. / E se te lembras do brilho das marés / De alguns peixes rosados / Numas águas / E dos meus pés molhados, manda-me dizer: / – É lua nova – / E revestida de luz te volto a ver. [HILDA HILST. JÚBILO, MEMÓRIA, NOVICIADO DA PAIXÃO. p. 31]

II // Meu medo, meu terror, é se disseres: / Teu verso é raro, mas inoportuno. / Como se um punhado de cerejas / A ti te fosse dado / Logo depois de haveres engolido / Um punhado maior de framboesas. // E dirias que sim, que tu me lembras. / Mas que a lembrança das coisas, das amigas / É cotidiana em ti. Que não te enganas, / Que o amor do poeta é coisa vá. // Continuarias: há o trabalho, a casa / E fidalguias / Que serão para sempre preservadas. / Se és poeta, entendes. Casa é ilha. / E o teu amor é sempre travessia. // Meu medo, meu terror, será maior / Se eu a mim mesma me disser: / Preparo-me em silêncio. Em desamor. / E hoje mesmo começo a envelhecer. [HH. p. 32]

Dias de chuva, como este, me fazem levantar. Perceber a ilha. E desejo nadar… Nestes charcos profundos, nestas folhas molhadas, neste mar, ali, imenso, sem fim, e querer meu fim. Que só então é começo, é o risco, o rasgo, o rego, a vala, o sulco, a água que corre. Não ao encontro. Porque escorrer, vazar, desconter é ocorrer o próprio encontro da poesia em si. Que transborda, e penetra, e mergulha, e enlamaceia, e devora e alimenta isto tudo. E a falta que sinto. E a presença que sinto. Destas Parreiras – sabes? – , dos cachos ainda verdes, e de gosto de maduro vinho – este, o sangue que liberta o nosso sangue – e sou preso e sou livre e nado neste mar, neste dias de chuva. [Porque chove cá. E a casa é só. E eu ilha. e sinto. e ainda me justifico.]

V // Ah, se eu soubesse quem sou. / Se outro fosse o meu rosto. / Se minha vida-magia / Fosse a vida que seria / Vida melhor noutro rosto. // Ah, como eu queria cantar / De novo, como se nunca tivesse / De parar. Como se o sopro / Só soubesse de si mesmo / Através da tua boca // Como se a vida só entendesse / O viver / Morando no teu corpo, e a morte / Só em mim se fizesse morrer. [HH. p. 35]

E paro por aqui… Porque vou brincar na chuva. Porque quero e espero.

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