relatório sentimental e carta de intenções quando nada é justo e pouco é certo

[dom] 23 de janeiro de 2011

matheus regressou da primeira etapa do estágio de vivência… [participarei do próximo]. ainda bem que havia limpado a casa [esperando a visita da paula que disse que ia dar uma passada aqui, mas num veio]… e sabe, é bom ter companhia em casa. a casa vazia é triste… e entro aqui, nesta página em branco, sem saber ao certo o que escrever e porque escrever. e sei que gosto da minha privacidade, do meu tempo, todo meu de realizar e contemplar as coisas, e compartilhar a casa é um exercício interessante. já havia experimentado isto em outros momentos da minha vida, mas nunca na minha casa de fato. mas será esta minha casa de fato?!

ontem consegui acessar o número de vagas para act e só tem vinte. logo creio difícil uma vaga de imediato como professor… mas se for como no ano passado, até julho talvez aconteça. Isto tudo é o mesmo que ficar em suspensão, ou melhor, é o mesmo que: terei que encontrar uma forma de ganhar o pão, já que a bolsa encerra agora em fevereiro junto com a temporada, e quanto ao trabalho alienado já nem estou trampando todos os dias e isto é o mesmo que dizer que a grana diminuiu e os meus gastos mensais são altos. isto me deixou meio confuso e apreensivo… de onde vou tirar dinheiro de março em diante e pagar financiamento da casa, as contas de água e luz, internet, ônibus, alimentação etc. mas foda-se. é janeiro e as parcelas de fevereiro e março do financiamento, ao menos, tenho de onde tirar. e até março penso no que faço… essa minha mania de paralisar tudo e ficar na expectativa. isto é um tipo de conversa… deveria ser uma pessoa me ouvindo, tete-à-tete, e não estar escrito aqui. preciso agitar minha vida. no último mês é casa-trabalho e, raras vezes, uma escapa para um bar ou alguma atividade cultural… mas o grosso é casa-trabalho-casa. e no trabalho, me distraio, mas não é meu mundo. as pessoas me entediam rápido demais. é sempre a mesma rotina, o horizonte é curto demais para todos, ou abstrato e absurdo…

nestes últimos dias, e é bom pontuar – já devo ter feito isto aqui antes – para não esquecer, construí uma casa. a minha casa. 70m² no meio do mato. tenho projetos de construir uma bet [bacia de evapotranspiração para águas negras], um sistema de armazenamento das águas de chuva, um sistema simples de aquecimento da água através da energia solar… drenagem e tratamento das águas cinzas também. basicamente minha parte do terreno será de 15mX18m, cercado de mata nas extremidades sul, oeste e norte. na extremidade leste é a área dos meus pais e irmão e um caminho que dá acesso até rua. conclui, enfim, o curso de graduação e agora em fevereiro recebo o diploma [lembrar que tenho que escrever a carta solicitando permanência para concluir outra habilitação] e serei [ou sou] um professor desempregado. o contato com izabel, minha filha, tem sido mais pacífico – sem toda aquela carga emocional exigindo que eu seja o pai perfeito – e carinhoso. tenho aprendido a conhecê-la e respeitá-la, acho eu, um pouco mais. tenho tentado olhar com carinho os sentimentos aqui dentro.

queria ir para o chile, queria ir ao uruguai, queria ir à argentina… irei. este ano não vou ficar preso com os pés no chão, quero as asas soltas. vou avançar no meu espanhol capenga, vou voltar a estudar inglês… vou aproveitar as viagens acadêmicas… vou me permitir. sinto falta das festas universitárias. e vou voltar a militar no movimento… sinto muito falta disto, deste espírito coletivo de luta e aguerrimento, dessa fraternidade, dessa camaradagem tão necessária. não vou me deixar enlaçar por pensamentos tristes e frustantes. vou escrever meu livro porra… ou melhor, vou editá-lo porque ele já vai escrito há muito tempo. e vou concluir o projeto de pesquisa, e oxalá eu possa realizar um documentário em 2012 como tcc. e fazer outra graduação ou ir ao mestrado. para muitas pessoas coisas assim podem parecer tão simples e tão fáceis, mas para mim muitas vezes são questões impossíveis, como se fossem interditadas. como se eu não tivesse este direito… e isto é que mais preciso combater. esta opressão social e psicológica. esta violência. não sei quem lê isto, suspeito que algumas pessoas leiam, vez ou outra, algumas páginas, e muitos acessem por acaso uma ou outra informação… e no meio deste texto-desabafo-projeção-carta de metas para o futuro-presente… talvez eu conte um pouco mais de mim… escrever aqui, para mim, é terapêutico. ajuda a pensar e ponderar os sentimentos, ou melhor, as rotinas de sensações físico-psíquicas. estou de férias da terapia, que iniciei em novembro de 2009, após passar um ano muito difícil em 2009. muita instabilidade emocional. e fui até agora, dezembro de 2010. e foi uma das coisas mais importantes… perdi o fio da meada… re-li… queria dizer que sofri abuso sexual quando era criança, não foi em casa, era pessoa estranha e isto só consegui falar na terapia. não havia contado para ninguém. e isto sempre esteve presente em minha relações… a dificuldade da aproximação, de estabelecer o contato e permitir mantê-lo. sempre o sentimento de dualidade, de desejo ardente pela vida, pela arte, pela história, pela cultura, pelo povo e desejo angustiante de morte e fuga que me acompanha quase todos os dias… essa vontade de morrer já me deixou imóvel várias vezes em profunda depressão… talvez seja por isto que eu gostava de clarice, da legião. mas não vou falar mais… eu avancei um pouco nisto na terapia. hoje entendo a fobia social ou a sensação de desajustamento… são rotinas que construí na busca de defesa, mas que preciso romper. já não sou aquele garoto. sou um homem e tenho recursos necessários, e se não  os tenho, posso construí-los, para não me deixar embrutecer. e a conclusão que chego é que tenho fugido demais da vida, dos sentimentos, dos relacionamentos. vem na memória, uma fala da cris, que disse-me há um tempo atrás… quando conversamos sobre nossos relacionamentos com outras pessoas… e falávamos sobre os namoros e ela constatou que meus namoros não duravam. é. eu vivo fugindo. não só dos relacionamentos, mas de todos os projetos viáveis. ter a casa é uma conquista… é aceitar a vida, um pouco. é aceitar a família como ela é. é aceitar a filha como ela é. é aceitar o momento como ele é. é aceitar-me. e começar a dar um passo de cada vez, buscando atingir os projetos maiores logo ali na frente ou lá mais adiante… a casa é linda, o terreno é uma joia. minha família apesar de todos os transtornos emocionais e afetivos é uma boa família. e eu apesar de todo esse desejo de morte e de dor tenho uma luz enorme aqui e vou longe… e amanhã cedo, que essa força de agora, enquanto vomito este texto, esteja presente e me oriente e me fortaleça… paciência e coragem!

Desiderata «Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. Tanto quanto possível, sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam. Fale a sua verdade mansa e claramente, e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes: eles também têm a sua própria história. Evite as pessoas agressivas e transtornadas: elas afligem o nosso espírito. Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você. Viva intensamente o que já pode realizar, mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde: ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo. Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença. A virtude existirá sempre. Muita gente luta por altos ideais, em toda parte a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo. Não simule afeição nem seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva. Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas, seja compreensivo aos impulsos inovadores da juventude. Alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado e não se desespere com perigos imaginários: muitos temores nascem do cansaço e da solidão. À despeito de uma disciplina rigorosa seja gentil consigo mesmo. Assim como as estrelas e as árvores, você é filho do Universo, merece estar aqui, e, mesmo que você não possa perceber, o Universo segue cumprindo o seu destino. Esteja em paz com Deus, como quer que você O conceba. Quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações, da fatigante jornada pela vida, mantenha-se em paz com sua própria alma. Acima da falsidade, do desencanto e das agruras, o mundo ainda é bonito. Seja prudente e faça tudo para ser feliz.»Max Ehrmann

Uma resposta to “relatório sentimental e carta de intenções quando nada é justo e pouco é certo”

  1. Leonardo Pignataro Says:

    Eu li =)

    Adorei essa passagem, me disse muito:

    “Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você. ”

    Se me permite dizer, eis um ditado que minha Mãe me diz em tempos difíceis:

    “Viva um dia de cada vez”

    Fique em paz! Até qualquer dia!

    Curtir


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