uma outra estação

[seg] 25 de abril de 2011

¿vamos nos concentrar num caminho fácil daqui para frente, certo?

«não me diga como devo ser» mas foi assim: os olhos quase marejaram. e na garganta ficou um engasgo por não poder dizer… poderia passar horas ali tentando encontrar alguma hipótese retórica que justificasse ou validasse ou o que fosse para tentar reconstruir o aparente ‘tudo vai bem, mais ou menos’. «não acredito, nem vou julgar […] porque mentir é fácil demais» mas não dá mais: acabou. «eu sou a pátria que lhe esqueceu… o carrasco que lhe torturou… o general que lhe arrancou os olhos… o sangue inocente de todos os desaparecidos… o choque elétrico… e os gritos… parem por favor… isso dói». sai de lá atordoado, meio sem chão. era um

pobre coitado com os olhos quase marejados porque hoje, enfim, publicamente, alguém, com todos verbos concretos e cortes simbólicos arrancou-me mais um pedaço. abriu a porta, que eu não fora até então capaz de cerrar e me pôs para fora. disse, ele, vai pois tu já não nos serve mais. e nesse movimento arrancou de minhas mãos, ou imaginação, algo que era tão meu, dizendo de forma clara: se continuar em tuas mãos, tudo continuará morto. vai. porque isto tudo já não importa mais, já passou. te ocupes de outra coisa. e não apareça mais.

«de saber que nada é justo e pouco é certo, e que estamos destruindo o futuro e a maldade anda sempre aqui por perto […] um mundo onde a verdade é o avesso e a alegria já não tem mais endereço […] eu sou um pássaro, me trancam na gaiola, mas um dia eu consigo resistir e vou voar pelo caminho mais bonito». e me pergunto agora, algumas horas depois de rabiscar estar palavras acima e ouvindo estas canções de renato… eu simplesmente sai de lá sem chão não pela aspereza de como fui tratado mas pelo teor de verdade contido naquela avaliação mas também sai de lá sem chão porque sei que se parte é a crua verdade – os atrasos, as faltas, os trabalhos inconclusos, a inconstância, os abandonos, a não prestação de contas, etc. – também há coisas não ditas… há todo um esforço e crescimento humano e um trabalho, mesmo mínimo e precário, feito. quem correu atrás de cada um dos entrevistados? quem estudou quase que sozinho a maior parte do tempo? quem esteve presente em todas as entrevistas? quem entrevistou sozinho parte daquelas pessoas? «¿será que eu sou capaz de enfrentar o teu amor que me traz insegurança e verdade demais?» «que tivessem dito para você […] e não há nada de errado comigo não» … «nossa senhora do cerrado, protetora dos pedestres que atravessam o eixão as seis horas da tarde, fazei com que eu chegue são e salvo na casa da n… »

estou me desvencilhando de tantas coisas e continuo buscando um mínimo necessário e possível. um possível reencontro com algo que ainda não existe, uma saudade de algo não feito, uma outra espécie de coragem. qual? saberei.

E lá se vai um anos desde isto aqui: «Preciso aceitar que, quando alguém me parece estar se movendo muito devagar em determinada direção, é porque esta é sua única maneira de percorrer aquele caminho» Gibran Khalil Gibran

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E lá se vão alguns anos desde o dia 26 de fevereiro de 1989. Eram dez horas da manhã, mais ou menos, quando cruzei a ponte. tinha seis anos.

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