oops!

[qui] 5 de maio de 2011

Da série: uma reflexão e duas referências.

1. Oops!

Quando tudo couber numa mochila saberei que é hora de partir.

Até lá sigo rodeado de coisas e distante das gentes... Mas por estes dias resolvi [a muito custo, eu sei] desfazer-me destas coisas acumuladas. E não foi só uma caixa nãoforam várias. Ateei fogo em mim e senti meu corpo mais leve. Fiz uma chama enorme e queimei ali anos e mais anos gravados de textos [e emails e cadernos também] não lidos… A materialidade dos objetos perde-se no tempo [e para os amontoados de entulho que ainda ficam é necessário que de tempos em tempos nos desfaçamos posto o que fica é o que carrega-se cá no latido do peito e na calejada memória. Não é o objeto que me dá sentido. E sim, o que é sentido por mim. O sentido é este. Simples né!? Mas tão difícil de apreender.

Não é ter, e talvez nem seja ser talvez seja mais estar vivo e no exercício de nossas potências.

2. Dementes

«O verdadeiro charme das pessoas reside em quando elas perdem as estribeiras, quando não sabem muito bem em que ponto estão. Não são as pessoas que desmoronam, pelo contrário nunca desmoronam. Mas se não captar a pequena marca de loucura de alguém não podes gostar deste alguém. Não pode gostar dele. É exatamente este lado que interessa. E todos nós somos meio dementes. Se não captar o ponto de demência da pessoa, eu temo que aliás, fico feliz em constatar que o ponto de demência de alguém seja a fonte de seu charme. Portanto, vamos ao ‘G’!» Deleuze

3. Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

texto extraído do livro «Tempo e Contratempo», Edições O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 1954. pág. sem número. publicado com o pseudônimo de Vão Gogo. Tudo sobre Millôr Fernandes e sua obra em “Biografias” no sítio Releituras.com [de onde extraí esse texto de referência e essa poesia acima]

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