tudo é mais aleatório do que imaginamos

[sex] 13 de maio de 2011

Após domingo me pus compulsivamente a ouvir e ver saramago falar. Ao passo que me encanto com sua lucidez quando expõe sua visão de mundo – que compartilho. Todavia talvez venha um pouco daí essa sensação de peso… Esse ar púmbleo que tenho sentido nesta semana. Mas voltando para o mote deste inicio de texto que era para falar sobre a memória e como  isto me fez pensar neste blogue cá. Tenho me desfeito de tanta coisa material que me ligava ao passado recente que penso que só me sobraram algumas camisetas, os livros, um ou outro email e este blogue – e chego a conclusão que o título tem todo o sentido: este blogue é um bloco de notas ou apontamentos, como queiram, deste tempo vivido porque muitas coisas já dissiparam-se no ar e só as reencontro na caverna da memória quando volto cá e reencontro-me outro em outros tempos. Este blogue é para isto, por enquanto. É para não esquecer de algumas coisas.

E por que publicar? Outro dia respondo.

Nessa semana: quinta, quarta, terça, segunda… dias iguais. Ou melhor… mais ou menos iguais. Dias sem cinema sem fazer comida sem sair de casa (exceto para trabalhar na quarta-feira a noite) em que mexo e remexo a terra  (fiz uma escada e um caminho, aterrei e plantei grama) em que durmo muito me alimento em excesso e com as marias (segunda foi a luisa, na terça a izabel e hoje só a vó mesmo).

A grana está curta porque todo o fundo que eu vinha acumulando acabei direcionando às contas da comunidade (porque no fim é isto que somos… uma comunidade familiar habitando o mesmo terreno e tendo responsabilidades mútuas). É, voltei a sentir esse sentimento de certo pertencimento, nos bons e maus momentos. Fiz até um cronograma e levantamento de materiais para a realização de um tratamento para águas cinzas e negras da casa três e da casa quatro (minha e de paulo; e de izabel e mãe dela). Veremos quando meu pai voltar se mantenho esse sentimento… porque parte de mim diz: mergulha e agita esse lugar, esse povo… e parte diz para não brigar, para ir embora e não sofrer. «não fale, não discuta, não se abra, não pertença»

Outro elemento que tem causado rebuliço é o comportamento de Izabel. Sinto uma agressividade nela muito grande. E me sinto atado em como ajuda-la. Minha tática adotada desde setembro era, e vem sendo, não exigir dela mudanças drásticas e dar mais abertura para o toque, para o lúdico, para encorajamento e reflexão. Que mesmo com toda agressividade e repulsa e ausência afetiva manifesta pelos demais desta comunidade ela é um sujeito belo, forte e capaz e que tem o direito de existir, ter gostos, ter voz etc. Mas observar como nos tratamos e como meu pai, minha avó, meu irmão, minha cunha, e até a mãe dela, tratam este bichinho me dá um nó, um aperto, uma tristeza… Um sentimento de impotência. Não sou o pai [legal], e se fosse? Eu teria forças para fazer diferente?

Porque estar neste local, nesta casa, me coloca no centro dessa comunidade de não-emancipação, de frustrações, sentimento anti-éticos, rancores, agressividades, incompreensões… e mesmo com todo o esforço para manter-me sereno e concentrado no que realmente posso cambiar sou atraído para o centro ou órbita de algum problema nosso. E se eu pudesse ser o pai será que eu conseguiria afasta-la deste horror todo? será que é possível escapar deste terror? Chego a conclusão que no pé que as coisas estão não. Se fosse, talvez. Mas assim não posso. Hoje o pai dela levou ela para passear… Fiquei feliz por isto. Mas sei que amanhã a ausência da mãe dela, a ausência desse pai esporádico, e que as acusações e pressões dos outros para cima dela e de minha mãe estarão presente e que todos (Izabel, eu, minha mãe) sentiremos este mal estar. Esta estupidez.

O fato é que esse bichinho está sempre pronto para briga e para malcriação e para a manipulação [que é fruto de uma falta de educação por parte do pai legal e da mãe e de certa forma minha também, enquanto pai biológico]. E nem nossos abraços e momentos lúdicos juntos destes últimos meses conseguiram desarma-la ainda – porque não posso e de fato nem tenho como suprir o que os outros deixam de dar. É, talvez esse fato de ter dois pais e uma mãe – não muito certa da cabeça – e um meio circundante não muito amigável não dê esse senso de pertencimento, essa capacidade de entrega e de orientação. E venha daí esse sentimento de agressividade na sua forma de comportar-se, de brincar, de dar e receber carinho e atenção.

Foi muito o que senti essa semana… Essa sensação de impotência. Que o terror caminha sempre aqui por perto. E que o horror levo no peito cheio de marcas e cicatrizes. E que somos todos tristes.

Esse foi o tom dessa semana: Recolher-me e estar longe de todos.

Hoje é sexta-feira treze de lua. e faz um frio danada nesta ilha.

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