de vagar desde o dia da criação

[sáb] 24 de novembro de 2012

depois das 07:04 sinto como se precisasse me reinventar… recriar… fazer algo importante… fazer algo. [é que resolvi me guardar na estante nestes últimos anos como um livro velho e inacabado e esquecido, aguardando a hora de recomeçar a escrita… um limbo entre todas as projeções não realizadas e todas as precariedades cotidianas… um esconder a matéria atrás do véu da ilusão quando só há ideias… dualista, idealista, trágico, fugitivo da vida… mas é um vício tremendo  ao qual de tempos em tempos me rendo… me afastando… ficando distante… sem sal… sem poesia… e ai… como voltar?]

07:04. Acordo cedo. Tenho adormecido no sofá. E não quero mais ir à cama… Porque ontem foi um tédio, porque hoje tem muito trabalho necessário e acumulado sempre para a última hora do último dia possível, e porque amanhã é o futuro…

antes das 07:04 …

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

(…)

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

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ps: ao publicar isto, numa busca voltei por cá e aproveito e atualizo o link para o documentário de Miguel Faria Jr., do ano de 2005 sobre o Vinicius de Moraes. Lembro que a primeira vez que vi este documentário foi na ufsc, no auditório do ced, e se não falhe a memória no cine ced.

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