o tempo em que ele era capaz de andar dez milhas para apreciar uma boa armadura

[dom] 1 de setembro de 2013

hoje encontrei papéis de 2000. como eu era tão tolo e infantil. não mudei quase nada. entre a estupidez apaixonada e problemática do momento juvenil alterno com momentos senis de apatia e indiferença. estou mais velho que todos os velhos deste mundo – enrodilhado nas minhas minúsculas seguranças imobilizadoras. na vitrola, ouço mordida, beirut e manel. hoje mais manel que qualquer outra coisa. e minha visão periférica vê vultos, coisas se deslocando no ambiente. por vezes levo sustos, fico apreensivo, e quando busco identificar o que seria, percebo que são apenas meus olhos atraiçoando-me. meus olhos fingem. o ambiente é sempre vazio.

[e suprimi um bocado de texto que escrevi por aqui pois entendi que muitas vezes sem perceber meu umbigo fica maior que o universo. e isto é triste. inventar devaneios não adianta. é sempre apenas um solidário medo de se ir…].

citações da leitura diária [andré me soa familiar]:

“Durante o dia todo pensei em André e, por momentos, qualquer coisa vacilava em minha cabeça. Como quando se recebe um choque no crânio, que a visão fica turva e que o mundo aparece em duas imagens, com alturas diferentes, sem se poder situar a de cima e a debaixo. As duas imagens que eu tinha de André, a do passado e a do presente não se ajustavam. Algo estava errado. Este instante mentia: não era ele, não era eu, essa história se desenrolava em outro lugar. Ou então, o passado era miragem, eu me enganara sobre André. Nem uma coisa nem outra, eu me dizia quando via claro. A verdade é que ele tinha mudado. Envelhecido. Não dava mais muita importância às coisas. (…) Antes, ele não teria manobrado às minhas costas, não me teria mentido. Sua sensibilidade, sua moral, se embotaram. Vai prosseguir nessa descida? Cada vez mais indiferente… Eu não quero. Eles chamam indulgência, sabedoria, a essa inércia do coração: é a morte que se instala. “ p. 33-34. A mulher desiludida. Simone Beauvoir.

Passado o primeiro espanto eu me senti leve. A vida a dois exige decisões. “A que hora a refeição? O que desejaria comer?” Os projetos se formulam. Na solidão, os atos se sucedem sem premeditação, é repousante. Eu me levantava tarde, ficava enrodilhada na mornidão das cobertas, tentando apanhar em seu voo fiapos de meus sonhos. (…) Entre minhas horas de trabalho, vadiava.”  p. 42. A mulher desiludida. Simone Beauvoir.

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drão.

(Manel – 10 milles per veure una bona armadura)

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