Archive for dezembro, 2013

la democracia…

[seg] 30 de dezembro de 2013

Cousas:

Fiz o enterro. Ela morreu. Não se sabe a hora e nem a causa. Fazia um calor dos infernos. As moscas negras contrastavam com seus pelos brancos. E seus olhos mortos não viam a tristeza dentro de mim.

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Um documentário – Mais documentário.

800px-Sócrates_-_Democracia_Corintiana

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« (…) A superioridade de Rosa Luxemburgo sobre Kaustky, Hilferding e outros marxistas-positivistas é que ela não procura excluir o marxismo do campo de aplicação do materialismo histórico (« princípio da carruagem »); de forma explícita e resoluta, ela afirma seu caráter de classe e seus limites históricos: em uma palavra, ela não hesita em aplicar o marxismo a si mesmo. Os pensadores burgueses, escreve la com ironia, procurando em vão desde muito tempo um meio de superar o marxismo, não se aperceberam que o único meio verdadeiro se acha no seio da própria doutrina marxista: « Histórica até o fim, ela não pretende ter senão uma validade limitada no tempo. Dialética até o final, ela carrega em si mesma o germe seguro de seu próprio declínio ». A teoria de Marx corresponde a um período determinado de desenvolvimento econômico e político: « a passagem da etapa capitalista à etapa socialista da humanidade ». É apenas na medida em que esta etapa for superada, e as classes sociais desaparecerem, que se poderá ir além do horizonte intelectual representado pelo marxismo, até esta ciência geral humana da sociedade que estava em questão em sua polêmica contra Bernstein.» pp. 145-146. As aventuras de Karl Marx… Michael Löwy.

aventuras-de-karl-marx-contra-o-barao-de-munchhausen-as

por que você compra livros?

[dom] 29 de dezembro de 2013

Dois pontos: * Por que eu compro livros? ** Caetano é gostoso demais.

Começando pela trilha sonora… Caetano é gostoso demais, mas como eu sou meio de lua, cheio dos tocs, capaz de passar um ano ouvindo somente um cantautor ou meses no repeat de uma música apenas… Além de minha formação cultural no seio da classe trabalhadora ouvidora de radiolas A.M. (Amplitude Modulation) recheada de sertanejos, pagodes e músicas bregas a la mass media… Mas como ávido sou por cousas novas e belas, e na interação com essa juventude, filhota da middle class, universitária, que vou aos poucos aprendendo a conhecer coisas novas e interessantes… Assim, vez por todas, resolvi baixar todos do caetano [e viva a rede torrente] e agora vou degustando aos poucos… muita coisa já ouvira nestes anos passados, conhecia e gostava… mas assim, vendo o conjunto da obra, a trajetória… muita coisa linda, de apaixonar.

Mas depois que Dona Izabel e Dona Luiza (brincando cá em casa – ocupando os pseudo-cômodos quarto-sala sem móveis – e tendo que aturar caetano no volume máximo) cansarem-se (e ensaiaram até uma revolta) de transa (1972), araça azul (1972) e qualquer coisa (1975). Passei para cê (2006) e onqotô (2005) em parceria com José Miguel Wisnik.

Enfim, é o resumo da ópera, o que faço diariamente… Leio, ouço caetano, dou uma de acompanhante para a terceira idade (dona maria, a vó) e adulto pseudo-responsável pelas meninas (filha e sobrinha) por parte da noite, afinal eu sou o único adulto que não trabalha nesta família-comunidade… O vagão vagal de trinta e poucos anos desempregado.

Mas o que motivou este texto foi uma email contendo uma promoção da Cosac Naify… Uma promoção de livros e a minha dureza miserável… Comprar livros é um vício. E livros por R$ 20,00 são tentadores. Escolhi dez. E na hora de comprar/pagar veio a questão profunda: Por que eu compro livros?! Esperarei até amanhã… Vou meditar.

E neste ano, reduzindo o cinema e, principalmente, a tevê do inicio do ano tenho lido mais – este era o objetivo. Tenho dedicado umas duas horas de leitura diárias – é pouco – e ando as voltas com dois livros:

victorsergeO Ano I da Revolução Russa – Victor Serge (que comprei em 2008) e barãomunchhausenAs aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (que li em 2006, na graduação e agora faço uma releitura). Já deixei enfileirados os próximos trinta que irei devorar…

E lembrei que em julho eu fiz uma lista e daqueles ali, conclui apenas um até agora. Sendo que alguns eu parei logo depois e outros quase terminei… Terminarei nestas férias oxalá. E fazendo um inventário, neste ano li apenas quatro livros de cabo a rabo (Angústia de Graciliano Ramos; A mulher desiludida de Simone Beauvoir; Os 1o dias que abalaram o mundo de John Reed; e História concisa da filosofia – de Sócrates a Derrida, por Derek Johnson). Estou a terminar mais quatro (sendo que dois deles eu comecei em 2012). Mas enfim, as leituras para preparar as aulas tomam tempo e são fragmentárias… Preciso construir um sistema mais disciplinado que me permita ler, estudar, preparar aulas e ainda conseguir ler no mínimo dois livros por mês. E se se entrasse nesse ritmo ainda levaria uns cinco anos para ler todos os que já tenho… comprar dez livros seria no mínimo mais um ano de leituras… Talvez esteja chegando a hora de não comprar mais nada e vender todos. Só eu e meu esqueleto…

claro-escuro epistemológico

[sáb] 28 de dezembro de 2013

dois pontos para um dia todo: caetano e companhia pela tarde (cê e onqotô, das série «re»descobertas sonoras). michael löwy e companhia pela manhã e tarde (das «re»leituras diárias).

Caetano Veloso “Minhas Lágrimas”

Tão Pequeno — Caetano Veloso e José Miguel Wisnick

e abaixo excertos sobre as aventuras de karl marx contra o barão de münchhausen – compreendendo as páginas 114-130 abordando a relação entre ideologia e ciência sob uma perspectiva de marxista.

O marxismo ou o desafio do «princípio da carruagem»

(…) Enquanto visão de mundo, o marxismo é uma utopia revolucionária – no sentido em que precisamos anteriormente: a utopia é toda Weltanschauung que aspira a um estado de coisas ainda inexistente – mas nos Estados pós-capitalismo ele assume um caráter ideológico (o estalinismo); procuraremos examinar as implicações cognitivas destas duas possiblidades.

Ideologia e ciência segundo Marx

(…) Mais tarde, no Prefácio à Contribuição à crítica da economia política (1859), ele emprega uma significação mais ampla do termo: «as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, as formas ideológicas sob as quais os homens tomam consciência deste conflito e o levam até o fim».

(…) Como Marx concebia a contradição – ou articulação – entre ciência e ideologia no conhecimento social? Em que medida considerava a obra de seus predecessores ( e especialmente dos economistas clássicos ) como científica e/ou ideológica? A fórmula de « corte epistemológico entre ciência e ideologia » corresponderia à maneira pela qual o próprio Marx compreendia a inovação radical de sua obra? Estas questões delimitam um certo campo teórico que procuraremos explorar e que nos parece constitutivo da visão marxista da relação entre sociedade e conhecimento.

Em nossa opinião, é em algumas passagens do Dezoito Brumário que se encontra a definição marxista mais precisa, mais concreta e mais fértil das ideologias e das visões de mundo enquanto expressão de uma classe social determinada ( o conceito utilizado por Marx é o de « superestrutura » ). Trata-se de célebre parágrafo que analisa a relação entre representantes do partido democrático e sua classe, a pequena burguesia. Examinemos algumas das ideias que Marx sugere – explícita ou implicitamente – nesse texto de uma surpreendente riqueza.

a) É a classe que « cria e forma » as visões sociais de mundo ( « superestruturas »), mas estas são sistematizadas e desenvolvidas por seus « representantes políticos e literários », isto é, seus ideólogos ( ou utopistas ). A visão social de mundo (ideológica ou utópica) com seus diversos componentes corresponde não somente aos interesses materiais de classe mas também à sua situação social – conceito mais amplo, que permite superar a tentativa reducionista que relaciona as ideologias apenas ao « interesse » ( economicamente definido ).

b) Os intelectuais são relativamente autônomos com relação à classe. Eles podem ser separados dela por um « abismo » social e cultural; sua « situação pessoal » não deve ser de todo necessariamente a mesma que aquela da classe que ele representa. O que os faz representantes desta classe é a ideologia ( ou utopia ) que eles produzem.

c) O que define uma ideologia ( ou utopia ) não é esta ou aquela ideia isolada, tomada em si própria, este ou aquele conteúdo doutrinário, mas uma certa « forma de pensar », uma certa problemática, um certo horizonte intelectual ( « limites da razão »). De outro lado, a ideologia não é necessariamente uma mentira deliberada; ela pode comportar ( e comporta geralmente ) uma parte importante de ilusões e de auto-ilusões.

(…) A primeira observação que se impõe é a seguinte: o caráter « de classe » de um escrito de economia política não é, em si, uma indicação suficiente de seu valor, ou de sua ausência de valor, científico. Mais concretamente, para Marx a obra de um economista pode ser fundamentada sobre certas pressuposições ideológicas burguesas e ter, contudo, uma grande importância científica. Em outros termos: a problemática da autonomia relativa da ciência é, nos escritos de Marx, um complemento essencial (em geral implícito) à sua crítica das limitações ideológicas da economia política.

É nesta ótica que é necessário compreender a célebre distinção entre « clássicos » e « vulgares » que atravessa o conjunto de seus trabalhos econômicos e que define, no interior de uma mesma perspectiva burguesia, um polo autenticamente científico e um polo superficial e apologético ( desprovido de valor do ponto de vista do conhecimento ) (…).

Como explicar esta diferença capital, do ponto de vista da profundidade e da qualidade científica, entre economistas que se situam apesar de tudo no mesmo horizonte ideológico, em uma mesma « posição de classe »? Acham-se em Marx dois tipos de explicação bastante diversas para esta clivagem. Uma é de caráter primordialmente psicológico e moral (…) Entretanto, esta explicação não é senão uma aspecto de uma análise de conjunto mais profunda e mais rigorosa do problema, aspecto que seria falso e enganoso isolar de seu contexto global.

Isso nos conduz ao segundo tipo de explicação avançada por Marx para dar conta da diferença científica entre os « clássicos » e os « vulgares », explicação que reabilita o materialismo histórico. Trata-se de uma análise que relaciona o desenvolvimento da economia política e o desenvolvimento da da luta de classes; ela não é contraditória com a análise psicológica, mas a supera e a integra como um momento subordinado.

É no Posfácio à segunda edição alemã de O Capital (1873) que Marx formula de forma mais precisa esta explicação:

« Na medida em que é burguesa… a economia política não pode continuar sendo uma ciência senão quando a luta de classes permanece latente ou não se manifesta senão por fenômenos isolados. Tomemos a Inglaterra, o período onde esta não havia ainda se desenvolvido, e é também este o período clássico da economia política ». Pelo contrário, após 1830, « na França e na Inglaterra a burguesia se apodera do poder político. Desde então, na teoria como na prática, a luta de classes reveste-se de formas mais e mais acentuadas, mais e mais ameaçadoras. Ela faz soar a hora da economia burguesa científica » (…)

Se nós retornamos à distinção marxista entre os clássicos e os vulgares, percebemos, portanto, que a explicação psicológica que ele avança (…) reconduz a uma explicação sociológica que ele desenvolve em outro lugar. As duas explicações não são contraditórias: mas é o social que esclarece e explica o psicológico. (…)

Evidentemente, há uma dose considerável de simplificação nesta análise de Marx ( que não deveria ser extrapolada de seu contexto histórico); mas a pesquisa metodológica, a forma rigorosa e ousada de ligar o desenvolvimento da economia política à marcha da história social, nos parece fundamental para dar conta da concepção marxista da dialética ciência/ideologia e de sua relação com a luta de classes.

Marx não ignorava que a sucessão cronológica das duas etapas da burguesia não era a única explicação social da oposição entre clássicos e vulgares; ela podia também se relacionar – especial no caso de Malthus, que é contemporâneo de Ricardo – à clivagens entre classes ou frações de classes no seio das camadas sociais dominantes. (…) Se os escritos de Ricardo são científicos, como poderiam estar ao mesmo tempo carregados de ideologia burguesa? (…) A constatação principal que se extrai daí é esta: apesar de sua boa-fé, de sua imparcialidade, de sua honestidade, de seu amor à verdade, a economia política clássica é burguesa, e sua ideologia de classe impõe limites à cientificidade. (…)

Trata-se, como o enfatizava o Dezoito Brumário, de um sistema de ilusões e atitudes, de uma certa forma de pensar, de uma certa problemática e de um certo horizonte intelectual ( aspectos inseparáveis que se condicionam reciprocamente, momentos diversos de uma mesma totalidade ideológica ).

É antes de tudo pela problemática que a ideologia ( burguesa ) se manifesta no terreno do conhecimento científico entre os clássicos. Realmente, a problemática, isto é, o sistema de questões, define o campo cognitivo de uma ciência. Ora, Ricardo e os clássicos não colocaram certas questões – que são para Marx essenciais.

Os clássicos descobriram que o valor era a expressão do tempo de trabalho, mas eles jamais se colocaram a questão de saber por que o trabalho tomava a forma de valor de objeto produzido. Por qual razão eles jamais levantaram esta questãos? De acordo com Marx, porque para eles « esta forma que demonstra claramente que ela pertence a uma sociedade na qual a produção domina o homem e não o homem a produção era para sua consciência burguesa uma necessidade tão evidentemente natural quanto o próprio trabalho produtivo ». Tocamos aqui uma clivagem decisiva, que expõe a diferença essencial entre a economia política e Marx: « a economia política clássica/científica é burguesa sobretudo porque para ela a produção burguesa é a produção em geral. Uma forma específica, historicamente dada, da produção – o capitalismo – é considerada por ela como absoluta, eterna, a-histórica, natural, e as contradições do modo de produção capitalista são explicadas como contradições naturais da produção enquanto tal ».

Isso nos conduz ao conceito de horizonte intelectual que se articula diretamente com o conceito de problemática, e que constitui em nossa opinião uma das imagens mais férteis e mais interessantes do campo teórico marxista que exploramos aqui ( mesmo que ele não tenha sido de maneira alguma desenvolvido). Este conceito nos permite localizar, de forma mais precisa, o papel da ideologia na constituição de um saber científico: ela lhe circunscreve os limites.

(…)

Sem dúvida alguma, estamos aqui diante de um conceito de ideologia que não tem nada a ver com a mentira, a falsificação ou a mistificação: não é vontade de conhecer a verdade por parte dos clássicos que está colocada em questão, mas a possibilidade de conhecê-la, a partir de sua problemática e no quadro de seu horizonte de classe. Isso não impede que, no interior destes limites, sua busca possa produzir conhecimento científicos importantes: a ideologia burguesa não implica a negação de toda ciência, mas a exigência de barreiras que restringem o campo de visibilidade cognitiva.

A respeito de certas ideias de Ricardo e de seus discípulos, Marx comenta: « Isto é o nível mais elevado que se pode atingir a partir do ponto de vista (Standpunkt) capitalista ». Existe assim, segundo ele, uma espécie de máximo de conhecimento possível além do qual sua ideologia de classe não permite à economia política burguesa chegar.

Horizonte, perspectiva, ponto de vista, campo de visibilidade: estas metáforas óticas não devem evidentemente ser compreendidas em um sentido literal; simplesmente elas permitem colocar em evidência que o conhecimento, o saber (« a visão ») estão estreitamente ligados à posição social (« altura ») do observador científico.

Ricardo personifica o máximo de saber possível no seio da perspectiva burguesa na medida em que ele representa os setores mais revolucionários, mais avançados, mais progressistas da burguesia industrial. Isso significa que para Marx o progressismo é sempre o ponto de vista mais favorável ao conhecimento? (…)

Na realidade, Marx está longe de partilhar este tipo de evolucionismo reducionista ou de « progressimo » vulgar. Suas análises sobre certos economistas « passadistas », críticos do modo de produção industrial/capitalista, em especial Sismondi, o demonstram. Já no Manifesto comunista, criticando inteiramente os aspectos « reacionários » contidos na utopia do « socialismo pequeno-burguês », Marx e Engels não deixavam de reconhecer o valor de Sismondi que « analisou, com uma grande perspicácia, as contradições inerentes às condições modernas de produção ».

(…)

Retomando nossa metáfora ótica, poderíamos dizer que para Marx, Sismondi não representa um ponto de vista « mais elevado », um horizonte científico mais vasto que Ricardo, mas uma perspectiva diferente, um ângulo de observação distinto, assentado sobre uma posição de classe diferente, que lhe permite perceber toda uma dimensão da realidade social invisível a partir do observatório ricardiano – ao preço de uma cegueira sobre aspectos essenciais desta realidade perceptíveis no campo de visibilidade teórica da economia política clássica. Este jogo de claro-escuro epistemológico, esta dialética paradoxal entre utopia « reacionária », ideologia « progressista » e a ciência social – presentes em Marx como sugestão ou corolário implícito – indicam a necessidade de superar toda visão linear e evolucionista do desenvolvimento da ciência social e sua relação com o campo da luta de classes.

(…)

A partir de 1830, como vimos, abre-se um novo período. Em seu livro Miséria da filosofia (…) Marx acrescenta: « Mas à medida que a história avança e com ela a luta do proletariado se delineia mais claramente, eles (os socialistas e comunistas) não têm mais necessidade de procurar a ciência em seu espírito, mas apenas devem se dar conta do que se passa diante dos seus olhos e expressá-lo…. A partir deste momento, a ciência produzida pelo movimento histórico, e se associando a ele com plena consciência de causa, deixou de ser doutrinária: ela se tornou revolucionária ». Não há dúvida que Marx considerava a sua própria obra e de Engels como pertencente a esta ciência revolucionária que se associa às lutas do proletariado com plena consciência de causa. Mas é importante enfatizar que esta ciência foi, na sua opinião, « produzida pelo movimento histórico ». Em outras palavras, o que permitiu a Marx e Engels superar os limites do socialismo ricardiano e/ou « doutrinário » foi a nova etapa histórica da luta de lasses que começa a partir de 1830 – em particular, o avanço do movimento operário e de seu combate contra o capital.

No Posfácio de 1873, Marx expressa de forma mais concreta e explícita a posição de classe que reivindica para si: « Na medida em que esta crítica [da economia política burguesa – Michael Löwy] representa uma classe, esta não pode ser senão aquela cuja missão histórica é derrubada (umwälzung) do modo de produção capitalista e a abolição final das classes – o proletariado ». A expressão « na medida em que esta crítica representa uma classe » é altamente significativa: em nossa opinião, ela remete à problemática da autonomia relativa da ciência, isto é, Marx indica por isso que seu livro não deveria ser reduzido à dimensão « representação de classe », mesmo se ele reivindica para si, sem hesitação, um ponto de vista probletário.

Pode-se agora procurar resumir a concepção que tinha o próprio Marx da relação entre sua obra e a de seus predecessores: não um « corte epistemológico » entre « a ciência » e « os ideólogos », mas uma Aufhebung dialética que nega/conserva/supera os momentos anteriores. Mais precisamente, a clivagem com Ricardo é, ao mesmo tempo, uma radical ruptura de classe e uma separação/continuidade ao nível científico. Sobre o terreno das visões sociais de mundo, os dois são representantes de posições de classe rigorosamente contraditórias, mas do ponto de vista científico existe, ao mesmo tempo, uma diferença essencial e um encadeamento parcial entre elas. Enquanto «homem de ciência », Marx reconhece sua dívida para com Ricardo ( assim como para com Sismondi etc.), dívida que o corte de classes não aboliu ( a diferença com os socialistas ricardianos representou mais, como procuramos demonstrar, dois momentos diferentes na evolução do mesmo ponto de vista de classe). A démarche de Marx tem a grande vantagem de evitar os dois recifes onde o marxismo posterior encalhará ( bastante frequentemente ), com uma vontade e uma obstinação sempre renovadas: o reducionismo sociológico ( ou ideológico ou econômico ) que não percebeu os confrontos teóricos e científicos senão em termos de interesse de classe, e o positivismo vergonhoso, que pretende dissociar inteiramente o desenvolvimento da ciência social ( e o marxismo em particular ) da luta de classe e dos conflitos ideológicos.”

***

e um debate

http://ssociologos.com/2013/06/27/el-memorable-debate-entre-foucault-y-chomsky/

Debate Chomsky/Foucault La Naturaleza Humana: Justicia versus poder (completo español)

from behind the wall

[sex] 27 de dezembro de 2013

You don’t know me
Bet you’ll never get to know me

You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall

(…)

Triste, oh, quão dessemelhante

Ê, ô, galo canta

O galo cantou, camará

Ê, cocorocô, ô cocorocô, camará

Ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará 

nuvem negra e roja

[ter] 24 de dezembro de 2013

http://www.youtube.com/watch?v=RkzwNOTkGOs

http://www.youtube.com/watch?v=tT5htaK9DSQ ¹

http://www.youtube.com/watch?v=OTHsAeo66a0

http://www.youtube.com/watch?v=EkqXB8kumHY

[editado 29/01/2018] antes só haviam links… sem referências, nomes… categorias… e o ytb deu strike nos vídeos acima… lembro que dois eram… e os demais ???

Caetano Veloso – Transa 1972 Full Album¹

Djavan, Chico Buarque e Gal Costa – Nuvem Negra

passageiro…

[seg] 23 de dezembro de 2013

porque esta/va[ou] desorientado… que até renderia um inventário do por fazer [ as cotidianidades ] : os pratos de dias na pia por lavar, as roupas pela sala, pelo chão do quarto, por todos os lados… por lavar… o lixo [seco] acumulando-se… o lixo orgânico por se enterrar… os planos só em planos… nada anda. e nada – durmo pelos dias e afogo-me pelas madrugadas. ontem, e antes de ontem, escaneava todas as fotos antigas… e mergulhava em mares tumultuosos de alegrias e dores. talvez seja essa época tão oportuna para pensar e repensar e memorar e planear… mas algo me prende. dissipa-me a força do primeiro passo… e fico preso nesse laço [tão familiar/tão triste/tão estúpido].

tentei ler, ver um vídeo, um documentário, jogar paciência, mas nada.. tudo é tédio. os outros me entediam. eu sou o tédio. e a vontade é ir embora [tipo, mochila nas costas como naquela vez em que o meu coração estava partido com tudo e todos e não havia nenhum canto para esconder-me… cada dia era um dia novo, sem um lugar para voltar… contando com a solidariedade de poucos dispostos a me aceitar por um dia… por uma noite um teto e na manhã um tchau. e quando não haviam… era encontrar um abrigo para noite e lá sozinho me abandonar ao sono…  e agora é mais ou menos esse desconforto… vontade agora de dar adeus a tudo e todos, zerar tudo, amores e dores].

mas meu coração não está partido – ele está escondido em algum ponto aqui dentro – me sinto tão frio. me sinto tão perdido. me sinto como quinze anos atrás.

mas hoje eu tenho um canto/meu barraco/,

e até responsabilidades… econômicas, afetivas, familiares.

as vezes fico pensando… se não fosse izabel?! onde eu estaria?! o quão longe eu teria ido [porque quando ela veio e me arrancou a força do movimento que estava seguindo que era… ir, deixar pra trás todos os traumas familiares, essas pessoas paradas no tempo, me reinventar… aprender a ser diferente do que me causa(va) tanta dor e desconforto cá dentro. ela veio, e desde então tento aceitar este tempo, este estar por cá, cumprindo meu papel, minha cota parte, e contraditório é que me vejo no mesmo passo, parado no tempo, não me reinventado… guardando todo e qualquer sentimento, não expressando, resignando-me a sobreviver numa vida mais ou menos, ao lado de pessoas que talvez não tenham tido a escolha – suas amputações emocionais foram cedo demais¹]. e me pergunto… eu tenho escolha?

as vezes esse choque cotidiano com as próprias limitações… dá um desespero tão enorme que é bom nem olhar lá para dentro… porque quanto mais convivo neste ambiente, mas percebo que não sou tão diferente de minha família [que é quase uma anti-família]… tenho os mesmos medos, as mesmas travas, a mesma apatia, o mesmo abandono… a mesma secura. a mesma falta profunda.

e ouvindo a canção, que me permitiu este start, lembrei de algo que alguém uma vezes me disse [e confesso que aquilo rasgou meu coração… e pensando agora… foi o que eu passei a vida inteira ouvindo e me identificando]

(…)  Maybe one day you’ll understand why everything you touch surely dies (…).

como fazer diferente? como me desprender das amarras invisíveis? onde forjar a paciência e a coragem necessárias para ir além do primeiro passo? como voltar no tempo, mas não no tempo precisamente, e sim, naquele momento onde ele ousou ir além do que estava dado, do medo e do que haviam lhe estipulado – e que tragicamente teve que regressar… ficar para trás… e agora, me diz como voltar?!]

por agora me sinto em ruínas, e não me verás dizendo isto além destas letras.  keep you in the dark.

eficácia social da mensagem sociológica

[dom] 22 de dezembro de 2013

“Levar à consciência os mecanismos que tornam a vida dolorosa, inviável até, não é neutralizá-los; explicar as contradições não é resolvê-las. Mas, por mais cético que se possa ser sobre a eficácia social da mensagem sociológica, não se pode anular o efeito que ela pode exercer ao permitir aos que sofrem que descubram a possibilidade de atribuir o seu sofrimento a causas sociais e assim se sentirem desculpados; e fazendo conhecer amplamente a origem social, colectivamente oculta, da infelicidade sob todas as suas formas, inclusive as mais íntimas e as mais secretas.”
____________________________
Bourdieu, Pierre, A Miséria do mundo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2001, p. 735.

olho de peixe

[sáb] 21 de dezembro de 2013

meditando… meditando…  mediatando… sobre o que há no sótão.

acordei e senti um necessidade imperativa de anotar isso, mas o isso perdeu-se entre um lavar o rosto, escovar os dentes e o preparo do mate

o isso era mais ou menos isto cá: «a necessidade de confirmação/afirmação/reconhecimento (e uma pitada de vaidade) e ação de entrega/sincera, profunda (e diria até ingênua – pois toda entrega é total, sem ) ao vivido. sigo oscilando neste girar da moeda no ar e lá no final da história, quando tocar o solo, tornando-se húmus, saberemos se ela caiu de pé!».

***

Outros pontos na pauta:

Formatura/Ritos de Passagem: Quinta-feira teve formatura. Fui nome de turma. Entreguei diploma para aluna. Reencontrei velhos colegas do ensino fundamental e recebi parabéns de país e abraços fraternos dxs alunxs – tudo isto é muito bom, faz um bem danado. Eu entendo o ritual de passagem, e seus efeitos sociais-psico-biológicos, mas não posso deixar de anotar o quanto tudo isto me traz aquela velha sensação de sentir-se estranho, deslocado, nestes ambientes sociais… Festas e festividades são rituais estranhos, exóticos… Nada familiares. Não me sinto confortável.

E isto vale para toda festa (das de aniversários às de natal/réveillon/afins). Cara estranho.

Trilha de Fundo: Lenine em «In Cité» e «Acústivo MTV».

«Se na cabeça do homem tem um porão / Onde moram o instinto e a repressão / (diz aí) /O que é que tem no sótão? // permanentemente, preso ao presente / o homem na redoma de vidro / em raros instantes / de alívio e deleite / ele descobre o véu / que esconde o desconhecido, / o desconhecido / como uma tomada à distância / uma grande angular / é como se nunca estivesse existido dúvida, / existido dúvida/ evidentemente a mente é como um baú / o homem é quem decide / o que nele guardar / mas a razão prevalece, / impõe seus limites/ e ele se permite esquecer de se lembrar, / esquecer de lembrar //é como se passasse a vida inteira / eternizando a miragem / é como o capuz negro / que cega o falcão selvagem, / o falcão selvagem // Se na cabeça do homem tem um porão / onde moram o instinto e a repressão / (diz aí) / o que tem no sótão? //Lenine.»

Citações (surgidas no desenvolvimento deste texto, e que são interessante mesmo que  eu ainda não tenha lido Goethe e Woolf):

Sometimes our fate resembles a fruit tree in winter. Who would think that those branches would turn green again and blossom, but we hope it, we know it. — Johann Wolfgang von Goethe

“To whom can I expose the urgency of my own passion?” — Virginia Woolf, The Waves

o atirador…

[sex] 20 de dezembro de 2013

Atire a primeira
Atire a segunda, iaiá
Até descarregar o tambor
Até apagar a luz de ioiô
Até nunca mais,
já vingou.

Atirador, quando compra vingança alheia
Tem que ter veneno na veia
Tem que saber andar num chão de navalha
Atirador tarda mas não falha
Atirador não tem dó quando atira
Atirador é dublê da ira
Ele só sabe o nome, só viu o retrato
Alma sebosa é mais barato.

Atire a primeira
Atire a segunda iaiá
Até descarregar o tambor
Até apagar a luz de ioiô
Até nunca mais, já vingou

LENINE.

 

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De ontem:

 

o ano um da revolução russa – excerto

[qui] 19 de dezembro de 2013

Das leituras… Grifos deste que vos escreve.

Abaixo seguem excertos extraídos entre páginas 135 e 139 do livro ‘O Ano 1 da Revolução Russa’ editado pela boitempo, do historiador e militante comunista, Victor Serge.

«REALISMO PROLETÁRIO E RETÓRICA ‘REVOLUCIONÁRIA’

[…] O realismo proletário se consolida nessas discussões frente a frente com o fraseado ‘revolucionário’ dos socialistas-revolucionários de esquerda, excelentes revolucionários pelo sincero desejo que têm de servir ao socialismo, por sua coragem e por sua probidade, porém, como toda a burguesia radical de que representam o elemento mais avançado, escravizados às grandes palavras a que se reduz a ideologia da democracia burguesa.

É incessante o apelo de Lenin à iniciativa das massas. A espontaneidade das massas lhe parece a condição necessária do êxito da ação organizada do partido. A 5 de novembro, assina um apelo à população, convocada a combater a sabotagem. A maioria do povo está conosco, nossa vitória é certa:

Camaradas, trabalhadores! Lembrem-se que são vocês mesmos que, a partir de agora, administram o Estado. Ninguém virá em seu socorro se vocês mesmos não se unirem, se vocês não tomarem em suas mãos todos os negócios do Estado […]. Reúnam-se em torno de seus sovietes. Consolidem-nos. Mãos à obra, de baixo para cima, sem esperar nenhum sinal. Instituam a ordem revolucionária mais severa, reprimam impiedosamente os excessos anárquicos dos bêbados, vadios, dos junkers contra-revolucionários, dos seguidores de Kornilov etc. Instituam o mais rigoroso controle de produção e o recenseamento dos produtos. Detenham e entreguem ao tribunal do povo revolucionário todo aquele que ouse prejudicar a causa do povo […].

Os camponeses são convocados a ‘tomar por si mesmos, no ato, a plenitude do poder’. Iniciativa, mais uma vez iniciativa, sempre iniciativa!, essa palavra de ordem que Lenin lança às massas em 5 de novembro, dez dias depois da insurreição vitoriosa.

AS CLASSES MÉDIAS DAS CIDADES E A REVOLUÇÃO

Dois grandes fatos gerais caracterizam os primeiros dias logo após a revolução.
1. As classes médias das cidades (o decreto sobre a terra satisfaz as classes médias do campo, que somente bem mais tarde irão se sublevar) aderem interamente à contra-revolução. São elas que lhe fornecem as forças vivas, os batalhões de choque. Nas batalhas de rua de Moscou e de Petrogrado, como nas encostas de Pulkovo, a burguesia certamente não se defende ela mesma, como também não dispõe de corpos organizados de mercenários. Quais são seus derradeiros defensores? Os oficiais, os cossacos – voltaremos a fala dos cossacos -, os alunos das escolas militares, a juventude das escolas superiores, os funcionários públicos, os empregadores de maior categoria, os técnicos, os intelectuais, os socialistas, todos gente de condição média, mais ou menos explorados, porém nitidamente privilegiados no seio da exploração e participantes da exploração. A inteligência técnica organizada, a uma só vez, a produção e a exploração; ela é, desse modo, levada a se identificar com o próprio sistema e a conceber o modo capitalista de produção como o único possível. A pequena-burguesia, instruída, remediada, mantida sob tutela pela burguesia, muitas vezes ameaçada de pauperização e, assim, próxima do proletariado – daí sua inclinação para o socialismo – é propensa às mais nefastas ilusões. Muito mais culta que o proletariado, muito mais numerosa e avançada do que a burguesia propriamente dita, julga-se convocada a dirigir a sociedade. As ilusões democráticas do último século, nascidas em parte desse estado de espírito, tem, por sua vez, contribuído para mantê-lo. O socialismo da pequena-burguesia é capitalista, consequentemente orientada para a defesa da velha ordem e da educação das massas, em conformidade com os interesses dos ricos; a mentalidade pequena burguesa tende a separar, sobretudo em política, a ação da palavra, sendo esta considerada um derivativo da ação, ou um substituto enganador da ação (recordem-se os ‘gestos simbólicos’ do radicalismo francês). Os melhores espíritos das classes médias russas simpáticas à revolução muito antes que esta se tornasse realidade julgavam necessário limitar-se a uma revolução que teria dado início a uma era de sábias reformas. A revolução proletária lhes parecia uma ascensão de bárbaros, uma queda na anarquia, uma profanação da ideia mesma de revolução. Esse ponto  de vista foi expresso vigorosamente por Máximo Górki, em suas ‘Considerações inatuais’, que publicadas pela Novaia Jizn. As classes médias queriam que a revolução burguesa instituísse em república democrática, em que elas fossem as classes dirigentes e em que o desenvolvimento capitalista prosseguisse sem entraves: concepção basante nítida nos mencheviques e nos socialistas-revolucionários que, naquele momento, foram os ideólogos mais clarividentes da pequena-burguesia.

Além disso, seu utopismo sentia-se chocado com a realidade da revolução: como era grande a diferença entre o idílio romântico sonhado por tantas vezes e a dura e sangrenta realidade! Habituados a viver em meio a realidade dura e sangrentas, a sofrer necessidades indisfarçadas, formados na escola da repressão e da guerra imperialista, os operários e os soldados tinha mentalidade totalmente diferente.

Às classes médias esclarecidas, a Revolução de Outubro parecia o golpe de força de um punhado de doutrinários fanáticos, apoiados por terrível movimento do população ignorante. Veremos que Górki emprega exatamente esses termos. O problema da guerra e da paz, atingido-as em seu patriotismo (o patriotismo é produto seu por excelência; o proletariado é internacionalista; a burguesia professa senão um patriotismo de negócios composto com um cosmopolitismo financeiro), do mesmo modo que atingia os revolucionários pequeno-burgueses em seu romantismo, aprofundou o fosso existente entre a revolução e aquilo a que se denominava erradamente – ‘a democracia’.

Prever antecipadamente que a democracia pequeno burguesa, toda ela, com a energia do desespero, cerraria fileiras ao lado da contra-revolução, a ponto de seguir os generais monarquistas, a ponto de sonhar com um Galliffet, a ponto de proceder a execuções em massa de insurretos – isso não era possível. E essa impossibilidade explica os erros de alguns bolcheviques: até os fuzilamentos do Kremlin, o Comitê Revolucionário Militar de Moscou parece haver nutrido a esperança de que os socialistas-revolucionários e os mencheviques não iriam muito longe contra a revolução operária: o erro da minoria do Comitê Central do PCR e do Conselho dos Comissários do Povo foi admitir a possibilidade de uma concentração socialista, isto é, de um retorno da pequena-burguesia socializante ao proletariado. Na verdade, a atitude contra-revolucionária das classes médias não era rigorosamente determinada por seus interesses de classe: percebemos hoje que eles teriam tido toda vantagem em submeter-se ao regime dos sovietes; sua pouca importância numérica, sua falta de homogeneidade e a formidável superioridade de organização, de valor moral e de pensamento do proletariado (o partido, o espírito de classe, o marxismo), a adesão das massas da pequena-burguesia rural à revolução, tudo as destinava a uma cruel derrota: pior do que isso, a um desbaratamento total; sua resistência, porém, devia tornar maior a ruína, devastar o país. Fossem elas um pouco mais clarividentes na avaliação das forças em presença e se teriam poupado – e poupado o país – de muitas calamidades. Sem dúvida, as classes médias não terão sempre essa atitude diante da revolução proletária; é bem provável que o poderio e o espírito de decisão do proletariado venham a conseguir, nas batalhas sociais do futuro, induzi-las a se manter neutras no início e, em seguida, a aderir a ele. Decididamente, elas acompanham e acompanharão os mais fortes; quando perceberem que as classes operária é a mais forte, elas acompanharão. Na Russia, em outubro de 1917, as classes médias se enganaram: a vitória do proletariado lhes pareceu impossível. Por muito tempo, não acreditaram nisso, esperando, dias após dia, semana após semana, o desmoronamento do bolchevismo. De fato, para crer na vitória de uma classe, que até então jamais havia vencido na História, que não tinha sequer experiência do poder, ou competência, ou riqueza, ou instituições próprias – exceto algumas formações de combate, seria preciso estar tão profundamente penetrado pela missão histórica do proletariado quando os bolcheviques o estavam; uma palavra, era preciso ser marxista revolucionário. A anulação desse móvel psicológico da atitude contra-revolucionária da pequena-burguesia russa é um dos importantes resultados históricos da Revolução de Outubro.

AS ‘LEIS DE GUERRA’ NÃO SE APLICAM À GUERRA CIVIL

2. Essas jornadas se caracterizam, também, pela forma de que, nelas se reveste a guerra civil. Os vermelhos, não sabendo ainda empregar repressões, praticamente ignorando a necessidade das repressões, propensos a se deixar enganar quanto à democracia socialista, mostram-se de uma deplorável mansidão. Comprarem-se as condições impostas pelo CRM vitorioso de Moscou ao Comitê de Salvação Pública e as que esse comitê branco, longe de ser vencedor, tentara impor ao CRM. Nessa caso, os brancos massacram os operários do Arsenal do Kremlin; naquele, os vermelhos libertam, condicionalmente, seu inimigo mortal, o general Krasnov. Aqui, os brancos conspiram para o restabelecimento implacável da ordem; ali, os vermelhos hesitam em suprimir a imprensa reacionária. A inexperiência era, seguramente, uma das causas profundas dessa perigosa mansidão dos vermelhos.

Em contraposição, a contra-revolução, logo de saída, empenhou-se a fundo, irrefletidamente. Não há dúvida de que a guerra civil só iria se tornar violenta com o passar do tempo, com a ajuda estrangeira; porém, desde 26 de outubro, a luta foi muito mais cruel que as guerras entre Estados diferentes. Estas geralmente se submetem a certas leis; existe um direito de guerra; na guerra entre classes, não existe direito, não há ‘convenções de Genebra‘, não há costumes cavalheirescos, não há não-beligerantes. A burguesia e a pequena-burguesia recorreram, de saída, à greve e à sabotagem de todas as empresas de utilidade pública, de todas as instituições, uma arma interdita pelos costumes de guerra. Em parte alguma, na Bélgica ou na França invadida, os técnicos se puseram em greve com a chegado do inimigo. A sabotagem foi uma tentativa de organizar a fome, isto é, de atingir a população operária, sem distinção entre combatentes e não-combatentes. A utilização feita do álcool é igualmente significativa. E toda a conspiração contra-revolucionária foi uma preparação para o terror branco.

O que aconteceu é que as guerras entre Estados são, habitualmente, guerras intestinas entre ricos, que professam uma mesma ética de classes, uma mesma concepção do direito. Tem sido mesmo muito forte, em certas épocas, a tendência de reduzir a arte da guerra a um jogo bastante convencional. A arte moderna da guerra data da Revolução Francesa que, opondo uma nação burguesa em armas ao exército das antigas monarquias, exércitos profissionais, baseados no recrutamento compulsório e nos mercenários, e comandados por nobres, anulou de um só golpe as convenções antiguadas de tática e de estratégia anteriores. Os europeus só se afastam das regras atuais da guerra com respeito a povo que consideram inferiores*; do mesmo modo, na guerra entre classes, as classes dirigentes, convencidas de estar defendendo a ‘civilização’ contra a ‘barbárie’ operária, acreditam que todos os meios são lícitos. Estão em jogo interesses demasiado grandes, todas as convenções são abolidas e como a ética – não existe uma ética humana, só existem éticas de classes ou de grupos sociais – deixa de exercer sobre os combatentes sua ação moderadora, as classes exploradas rebeladas são declaradas pela contra-revolução ‘indignas da humanidade’. Essas verdades podia ser entrevistas, nitidamente, ao final da primeira semana do regime dos sovietes. Veremos, mais adiante, o massacre dos prisioneiros torna-se regra na guerra civil, e os Estados capitalistas, durante muitos anos, tratarem a Rússia comunista como um país fora da lei.

nota de rodapé: * Os franceses, algumas vezes, durante a conquista da Argélia. Lembremo-nos também, os métodos de guerra e de dominação dos ingleses na Índia; o saque do palácio de Pequim pelas tropas europeias, em 1900; as atrocidades dos italianos na Tripolitania; dos franceses na Indochina e no Marrocos; dos britânicos no Sudão. Em nenhuma guerra dos tempos modernos os vencidos foram tratados com tanta ferocidade quanto os da Comuna de Paris, em 1871.»

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