Archive for janeiro, 2014

pré

[ter] 28 de janeiro de 2014

tenso. ansioso. expectativa.

let it be

[seg] 27 de janeiro de 2014

exceção [este texto é uma…]. talvez porque o povo voltou de suas viagens e todos estão cheios de novidades: são as dores e os humores d’outros de outros lugares e o povo que vai morrendo e parece que o mundo ali fora segue seu curso e eu cá – aparentemente  ilhado neste tempo parado, neste descanso passageiro – apenas observo a paisagem… dou um tempo. eu-recolhido-caracol…

relato – coisas importantes deste janeiro… plantei dois pés de garapuvu – não recordo o dia… a memória anda fraca. estou a ler coisas anarquistas, soviéticas e poéticas. mia couto também está a ser lido…

a última semana foi feita de estar mais só, nas minhas obras e escavações, leituras e solidão pacífica. na semana anterior foi um correr atrás de exames e documentos… ver gentes e esperar… esse meu janeiro passou assim, cheio de preparativos para o devir, desta semana agora. 29 é dia de exame médico na perícia médica do estado. é dia chave. ansioso estou.

mas isto não foi o estarte para este texto curto. é que de tempos em tempos eu faço umas releituras do passado disto cá… (janeiro de 2013, 2012, 2011, 2010… ) porque o tempo voa… porque os pés de ipês estão maiores do que eu já… porque os garapuvus estão crescendo… porque a família está morrendo… porque as crianças já estão grandes… e a minha barba deste tamanho. porque eu estou dando um tempo. e preciso anotar cá esta sensação, neste futuro diálogo – comigo mesmo lá na frente, noutro tempo, noutro lugar.

tânatos

[qua] 22 de janeiro de 2014

«Muito cedo, ele já aprendera o buraco que a linguagem deixa dentro de cada indivíduo.»

tempos atrás, a terapeuta sugeriu o filme ‘perfume, a história de um assassino’. eu já havia visto, e tentei ver novamente para ver se teria um lampejo sobre que raios ela me sugeriu este filme… vi partes, sou desorganizado… e neste ano lembrei do filme, e por acaso, hoje foi o dia de vê-lo. a frase acima e a análise sociológica de onde ela foi extraída são bem bacanas. e abaixo o poema de álvaro de campos – começo a conhecer-me. e concluindo estas poucas linhas, sinto que não há nada mais profundo em mim… e se há, não sei dizer. calo-me. fim.

«Começo a Conhecer-me. Não Existo

Começo a conhecer-me. Não existo. 
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, 
ou metade desse intervalo, porque também há vida … 
Sou isso, enfim … 
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. 
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. 
É um universo barato.

Álvaro de Campos, in ‘Poemas’
Heterônimo de Fernando Pessoa»

exercícios sob a trilha sonora vespertina

[qui] 16 de janeiro de 2014

DOS ELEFANTES

Não começar pelo que lhe é fácil. Lembre-se. Assim morrem os elefantes. Na tarde azul há um branco em forma de balão e o preto em forma de luto ou luta. Há toda uma solidão e um silêncio só. Há o sono acidentado e a dor cinzenta… Dor que um dia cairá tal qual a tempestade. E lá, onde for, longe do que é fácil, emerge no fio sonoro do trompete uma lembrança do que fora uma juventude ou sonhos verdes. E explode – sem poder iniciar – o poema vermelho, o desconforto agudo, o fim crônico. Solitário, como a ilusão tão real que este mundo azul é triste e seco. Seco é o som. É a orquestra em silêncio. Lá longe é tão cá dentro e é tão imenso como o nó da madeira e a dor do músculo esquerdo. Mas aquieta. Espera. Não começar pelo que é fácil… E vem em gritos, entra, atravessa, preenche todos os cantos com este som inteiro. Há tempo e tudo crescerá. Após a chuva cerrar e após o sol – que um dia chegará. E assim, repara o trilho sonoro que comporá o caminho que os teus pés e ouvidos farão. Orquestrarás o esquecimento… Morrerás, frente a frente, como todos os elefantes – imensos e terminais.

[nota – quando conclui isto hoje pela tarde lembrei disto aqui]

DO MAR

Não se caminha sobre o mar à tarde. Voa-se – como só os peixes sabem, refletidos, sobre os fragmentos estelares, estes milhares de brilhos solares, tão filhos do vento e dos meus olhos vespertinos.

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