Archive for maio, 2014

titânico

2014, maio 28, quarta-feira

mais um dia daqueles que se dependesse só de mim teria eu passado o dia dormido e submerso na inércia. mas depois de uma noite mal dormida, ansiosa, e curta; contando com um pouco de solidariedade alheia para ir ao centro em um dia sem transporte coletivo – de justa e necessária greve dos rodoviários.

e mesmo o compromisso assumido ser apenas as dez horas da matina, optei por não abusar da hospitalidade e seguir, ir mais cedo, e também para ver se tomava coragem… se investia mais em mim. e foi uma caminhada longa de seis quilômetros, cabelos ao vento, e frio. mas aproveitei o frio, o sono, a fome, a ansiedade para pensar e repensar… andar oxigena o cérebro… espanta pensamentos tristes. assim, depois desta longa caminhada dei mais um passo em direção a um compromisso assumido em 2012 e que se encaminha para a reta final – voltar a ter um sorriso, voltar a sorrir como lá pelos sete anos de idade com todos os dentes na cara. e as nove já estava no centro e disposto a desembolsar mais de mil, e horas, e dias, para passo a passo, fragmento a fragmento, reconstruir meu corpo violado tantas vezes. e cumprindo o motor do dia, já as dez, o depoimento diante de uma comissão de inquérito administrativo promovida pelo estado contra professores foi tranquilo – e assim, a manha terminada – me restava a tarde. como a tarde seria ao implante dental, restava me entupir de medicamentos pré operatório, almoçar uma refeição que resultou na descoberta de um filé de peixe com coco ralado delicioso. e no fazer hora pelo centro, revirando sebos, um cortázar, algumas revistas e um clássico da sociologia. e lá nas quatorzes horas, uma micro-cirurgia – sou um homem titânico, já era, agora sou duplamente. e nessa sensação de conquista, estou gostando de mim hoje, por ter tido essa coragem, pequena para uns, uma passo enorme para mim. nesta necessidade cotidiana de reafirmação e construção de paciência e coragem, de um amor resiliente. talvez as minhas asas neste momento ainda estejam feridas um cadinho para alçar voo, mas isto de desistir é tão lugar comum, é tão cotidiano… que é isto que me mata, morto vivo. mas há dias em que é preciso viver vivamente.

mas no saldo do dia foi tudo positivo, o ir e vir por alguém, e vários outros por mim. e o mais importante… eu por mim. e a noite foi toda cheio de dor, ou dopado, e sorvete e iogurte gelado. nem posso falar direito. amanhã é descanso total e calcular o gasto de hoje. mas só o fato de não precisar mais esconder o sorriso – que ainda virá… que ainda virá nos meus passos.

fragmento

2014, maio 27, terça-feira

faço apontamentos para não olvidar: não sou estoico, mas a apatheia é vigente – máxima contradição. e cotidianamente, a olho nu, tomo ciência que as coisas que deveriam ser feitas, e não são, vão avolumando-se… objetivando uma futura avalanche. e assim, no mínimo do mínimo, alimento-me – apenas o necessário; banho-me; durmo o máximo possível e um pouco mais; e assino o ponto necessário para manter o estado aparente, dialogando minimamente sobre temas mínimos. desta forma arrasto-me mecanicamente em idas e vindas ainda necessárias porque não desisti, ainda. é que aqui não há vontade para coisa alguma: nem sonhar, nem amar, nem morrer… apenas tédio existencial. em nada há sentido.

o sr. josé

2014, maio 23, sexta-feira

frio, chuva e vento. dois motores. um: vai, você tem obrigações econômicas-contratuais, e sobretudo, pedagógicas com 150 pessoas hoje. outro: não sinto vontade.

apenas retomo a leitura de todos os nomes. havia abandonado a quase dois meses.

***

 

«O Sr. José acelerou o passo, se ao chegar lá a casa tivesse desaparecido, se tivesse desaparecido com ela os verbetes e o caderno de apontamentos, nem queria imaginar uma tal desgraça, reduzidos assim a nada os esforços de semanas, inúteis os perigos por que havia passado. Estariam lá pessoas curiosas que lhe perguntariam se tinha perdido alguma coisa de valor no desastre, e ele responderia que sim, Uns papéis, e elas tornariam a perguntar, Acções, Obrigações, Títulos de crédito, é só no que se pensa a gente comum e sem horizontes de espírito, os seus pensamentos vão todos para os interesses e ganhos materiais, e ele tornaria a dizer que sim, mas dando mentalmente significados diferentes àquelas palavras, seriam as acções que cometera, as obrigações que assumira, os títulos de crédito que ganhara. » (p. 148-149). Todos os nomes. José Saramago. Cia das Letras.

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