Archive for junho, 2014

olhos de onda

[seg] 30 de junho de 2014

notas: ouvir olhos de onda. buscar sobre coletânea de haikai. acordar e levantar, são dez para cinco. e o mundo gira e isto que os homens inventaram e deram nome de dia vem e vai passando, e nele há outra invenção, as horas, e nestas horas dispomos compromissos, que nos obrigam… ou nem tanto assim, posto que se não houvesse isto de obrigação morria-se no tédio sem fim.

ps: nesse frio dá vontade de nada. nem vontade dá. que tudo é uma desvontade. de sete dias, um é agitado. noutros seis é repouso absoluto.

ps: para lá.

Para Lá – Arnaldo Antunes (Ao Vivo no Estúdio)

o diálogo comigo mesmo no tempo

[qua] 25 de junho de 2014

ontem. ainda é ontem. da série aprendizado existencial no transporte ‘público’ florianopolitano: #1 às vezes é necessário arriscar-se e descer um ponto antes, mesmo que este seja desértico e escuro; preferir a tranquilidade de um terminal te fará perder o ônibus por menos de um minuto e ficarás em espera… parado na vida. #2 às vezes é melhor arriscar-se e ir a pé para casa, mesmo que seja três quilômetros e meio pela frente, ainda chegarás antes do que se estivesses lá esperando. lição: arrisque-se, é mais saudável. terminais são terminais – morre-se a conta gotas na espera. ps: e na pior das hipóteses terás que caminhar… oxigenar o cérebro, trabalhar a caixa torácica, movimentar estes músculos tão acomodados aos bancos, cadeiras e sofás. e na hipótese mais surpreendente, ganharás uma carona de algum conhecido ou desconhecido. a gentileza de alguém. e sobre a escola: foi um dia horripilante, sem planejamento claro, disperso e confuso… algumas coisas no improviso funcionaram, outras não. repensar… por favor, repense. e melhor, faça alguma coisa. mas o sentimento era: eu não queria estar ali. hoje, ainda é hoje. acordei cedo. o despertador as sete me chamou, e a gata, que pulou a janela, também fez questão de me convencer com sua insistência dramática por um pouco de ração. mas a sonolência e o friozinho da manhã me levaram para o colchão velho estirado ao chão. e havia ainda o recado de izabel, que viria as oito e precisava de ajuda para realizar os deveres. esperei, dormindo, ela chegar. ela chegou eram nove e meia. ajudei-a em sua pesquisa até as onze. ele foi para casa dela e eu voltei a cochilar. até sonhei… e só lá pelas duas da tarde levantei. e estou neste limbo deste então. são três e dez. trilha sonora de ontem: cartola, mordida. trilha sonora de hoje: beirut. lembrete para hoje, para agora [vai que de dentro deste corpo imóvel, moribundo, rasgando todas as amarras, surgirá o cara que vai fazer todo o trabalho que precisa ser feito e vai até sonhar em transformar a si e ao mundo que o cerca]: tenho que fechar notas de pelo menos 3 turmas hoje. finalizar diários de outras 3. e organizar as cinco intervenções de hoje. e ainda sair mais cedo já que haverá conselho deliberativo escolar as 18h. e para um registo meio perdido por cá, mas apenas meio, por é um cadinho motivado por estes pensamentos que me assomam diariamente sobre estas dificuldade de lidar com a docência, com a escolarização, e com o mundo como um todo. e noutro dia vi uma reprise de uma entrevista de ondjaki no entre programa umas palavras do canal futura, que falava sobre sua formação em licenciatura em ciências sociais e o caminho pela literatura. e parafraseando ele, já que não recordo suas palavras precisamente, mas que naquele momento em que ele falava me fizeram pensar em algo que eu já tenho consciência há muito tempo… era algo como: ‘eu não escolhi, não tive a sorte de saber desde pequeno o que queria fazer, apenas fui fazendo o que me aparecia, seguindo o caminho que me aparecia, neste sentido… eu não escolhi, as coisas da vida me escolheram’. e mais algumas coisas tem incomodado neste últimos dias: a falta de grana, a dependência de meus pais ainda, a instabilidade e precariedade… mas algumas coisas eu posso tentar mudar agora – e dai a necessária coragem para cambiar os ritmos –  e outras é necessário mais tempo – e dai a necessária paciência para aguentar a turbulência. enfim… este texto e as demais incursões/reflexões de hoje cessarão porque o que era para hoje, e para agora, já está ficando para amanhã… o dia de hoje se pinta com a tinta de ontem… agora é saber até quando?! até quando este diálogo surdo-mudo comigo mesmo no tempo?!

hac hora

[ter] 24 de junho de 2014

lançamentos na conta corrente: dois gestos solidários, uma imprudência e uma omissão. e para débito futuro: cuidar-se mais, e ser mais solidário. saldo: adiando o inevitável – reproduzindo o mesmo padrão emocional de negligência, não realização e vitimização – todavia sem o foda-se em modo on ainda… há um fio finíssimo de esperança em voltar a respirar. mas por hora é juntar esse ar mínimo e começar esse trabalho colossal AGORA. porque já é terça e a madrugada é rápida, logo amanhecerá.

ps: pesquisar: inteligência emocional; registrar passagens do texto de saramago, de sahlins, e de clastres; estabelecer roteiros de metas para junho/julho.

ps2: balanço para o fluxo do caixa não zerar: menos madrugadas solitárias e mais manhãs esportivas/estudantes. menos prostração e mais jardinagem. menos repressão/depressão e mais coragem/paciência [velhos lemas mirados, agora só falta realizá-los]

das coisas perdidas

[seg] 23 de junho de 2014

ao fundo: drexler.

nos pés: frio.

na madrugada: solidão.

no pc: faxina

nesta postagem: alguns rascunhos perdidos pelo disco-duro. salvei-os entre tantos e estes outros, mais que trinta. foram deletados.

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1. [título – sem título] [momento de inspiração – umas das inúmeras discussões de minha vó com minha mãe] [data: 10.4.2014] [situação – anotações soltas, rascunho]

a balança para pesar a desilusão
a sonoridade de um cão
a porta que adentra o portão

em terra estranha

estreito-largo

a dureza aprende-se com as pedras.

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2. [título – broto concreto] [momento de inspiração – não recordado] [data: 12.4.2014] [situação – duas estrofes. exercício inacabado, rascunhos]

avisto um broto vivo
irrompendo
desse chão duro demais
tão armado em concreto aparente e bruto.

nesse chão duro demais
tão armado em concreto
tão aparente que é bruto
irrompe, como uma cicatriz viva,
um broto

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3. [título – dente quebrado] [momento de inspiração – não recordado] [data: 18.2.2013 – 13:51] [situação – rascunho]

de repente
você tropeça,
arranca a tampa do dedo
quebra um dente
e descobre que as coisas não
estão tão calmas assim
de repente
você descobre
que terá uma hora a menos
e que tudo é mais confuso
do que você imaginava…

de repente são imagens novas
colorindo estas velhas entranhas

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4. [título – exercício sobre a não-hora] [momento de inspiração – eventos da semana] [data: 2.1.2014] [situação – rascunho]

manhã-depois (ou o exercício sobre a não-hora)

e as horas amanhecem
é sol intenso, é escuro, é ouro-fogo
é chumbo, é o crepúsculo-aurora,
é… já não importa qual hora.

e se se perde a noção destas
voltas sem ponteiros, destes dias inteiros
no mais do mesmo, destes anos passando
entre leitos e leituras, às turras.

é no acordo-durmo de um ao outro,
bem no meio-todo, indefinido,
e só – sem artíficios, nem fogo,
sem desejo, nem sonho,
escondido,
fazendo conta que é vivo.

e no interim, sem somar,
apenas no passar e trespassar
o espaço-gente, tudo-todos,
num ontem, no anteontem,
e já trasantontem,

e nestas retinas vidradas
o mundo passa, lá,
no olho morto da gata branca
antes do enterro
no olho medroso do gamba filhote
antes do aconchego
no desejo estranho que aceite, a nova terra
e vingue, o garapuvu pequeno,
e também o abacateiro, transplantado,
há um par de horas.

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5. [título – sono] [momento de inspiração – a luta contra o sono numa noite qualquer]  [data: 14.12.2013] [situação – rascunho]

o sono chega
e ele resiste
não vê sentido
é só um colchão velho
estirado no chão duro
o sono chega
e ele resiste
não sabe sentir
é só um coração velho
esquecido no chão duro
o sono chega
ele desiste
como um pão velho
mofa no chão duro.

 

el infranqueable cerrojo

[seg] 16 de junho de 2014

#11:28

de repente acordo
emaranhado sob os tentáculos
dos pensamentos pesados e sombrios.

a consciência armada e emaranhada,
a contrastar com o solito que se vai a brilhar ali fora.

e quando o dia tende a esquentar…
mergulho mais e mais na profundidade gélida
de minha obscuridade

permaneço inerte –
neste movimento uniforme.

como se a força gravitacional
deste buraco negro em meu peito
fosse maior que este úni(co)verso.

e fim.

o guardador de rebanhos

[dom] 15 de junho de 2014

#1 não tirei os pontos ainda. não entreguei o poster-explicativo. não toquei em nenhum material produzido pelos alunos. não fiz um monte de coisas necessárias. apenas rastejo lentamente entre os escombros diários. tudo me distrai… não há foco (ou coragem para subverter-se); e  indicando alguns livros ao meu primo, colega de casa, encontrei, posto que andava perdido,  em um livro de alberto caeiro (o ponto de partida desta postagem) um recado carinhoso dobrado que dizia assim:

«A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos. ou dedo nas pontas das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção vem de um duplo contato; de um lado, toda uma atividade de discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é “eu te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza ao tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.» Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso.

#2 o pensar:

e mergulho no tempo… ontem, ouvindo skank, mergulhei 15 anos no tempo. hoje, 6 – lendo este bilhete. assim a vida segue… fragmentária, aleatória, ordinária… não sou a promessa de 8 anos atrás – o jovem que se lançava apaixonadamente num universo novo… tampouco sou o sonho de 16 anos atrás – rebelde e infantil. sou apenas o labirinto caduco e sempre marginal, aislado, incapaz de estabelecer relações profundas e duráveis… «no fundo uma eterna criança que não sabe amadurecer…» sempre escapando de qualquer ser humano. e eu que já fiz terapia, já percorri intelectual e emocionalmente – mesmo que de forma momentânea e parcial – este caminho… que já visualizei a quantidade de feridas abertas, medos, traumas, violências sofridas e guardadas… tenho auto-consciência, mas me faz falta uma força, uma gana para emergir, para abrir-me. e essa vida é um simulacro, um espelho, nada é profundo… destarte os atrasos e os silêncios, este habitus.

#3 memórias afetivas incidentais:

Sofrer é outro nome / do ato de viver. Carlos Drummond de Andrade..

Una noche se acuestan con la muerte / en el lecho del mar… Pablo Neruda

Three o’clock in the morning / It’s quiet and there’s no one around
Just the bang and the clatter / As an angel runs to ground… U2

pas de problème

[seg] 9 de junho de 2014

3:30 por que esse ofício? a escolha é um abismo. e são tantas dúvidas… tantas questões. e cadê as citações do marshall sahlins? e o texto do pierre clastres? e aquela passagem perdida de saramago sobre a pele? e no plano pragmático falta a grana… e opera-se assim no negativo. e nesse turbilhão oscilante, às vezes, quase o tempo todo, o mundo e as escolhas aparentam uma “absurdidade”, aleatórias, caóticas.

*

«e não existe problema que não tenha solução e se não tiver solução não é problema» sotigui kouyaté.

***

14:08 agora, horas depois do texto acima. identificando que tenho pelo menos dois cistos sinoviais, que o pelos brancos diários já sinalizam juba a fora, e fico cá a pensar: e se me faltassem as mãos ou os olhos? se me faltasse o que suponho ter? e lá do fundo da memória me salta a ideia de um potlach… e no meio do caminho da tarde à deriva um poema [exercício de ser criança] de manoel de barros.

«No aeroporto o menino perguntou:
– E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
– E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais
carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo.» BARROS, Manoel de. Exercícios de Ser Criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.

acorda professor…

[seg] 2 de junho de 2014

depois de uns dias de molho, no fundo do poço, surdo-mudo para o mundo, e enjoado pela medicação, é hora de acordar professor. ‘bora fechar os papéis, entregar os diários e melhorar essas aulas medíocres – se é possível melhorar tal coisa.

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