Archive for julho, 2014

o filho de mil homens

[ter] 29 de julho de 2014

comecei na sexta-feira. aproveitando o recesso escolar… e os intervalos entre fazer café, almoço, lavar louça e roupa, limpar a casa, fazer compras para casa e para obra, cuidar das marias e mexer nas coisas necessárias da casa e do terreno… devorei as duzentas páginas… e cito [abaixo] algumas passagens finais do texto de valter hugo mae. belo texto, dialogou tanto com minhas ausências, silêncios e precipícios que de meus olhos verteram lágrimas em certos momentos…

 

«A Isaura surpreendia-se com esse pensamento. O Antonino por casa a contar-lhe como estavam as peripécias da sua vida e aquela emoção constante, e ela a achar que ele era delicado, a escolher sofrer meticulosamente por cada assunto (…) A Isaura chegou-se perto dele e investigou a expressão honesta do seu rosto. O modo como se expunha diante dela e a tratava como uma amiga. Ela nunca fora amiga de ninguém. Vivera encurralada entre os pais, o gado, as hortaliças e o amor dos infelizes. Via agora como se tornavam estranhas as pessoas que falavam de si, as pessoas que formulavam um discurso, as que diziam isto ou aquilo. Via agora como parecia elementar àquele homem que desabafasse aqueles segredos, que livrasse a boca das palavras, porque ao menos as palavras partiam e partiam de dentro do peito, aliviando o peito, fazendo-o pesar cada vez menos, como num certo milagre da confissão. Ao menos as palavras iam embora, desapareciam a cada instante, talvez metidas para uma liberdade que merecessem por terem tido a coragem de comparecer. [p. 157] (…) Mas não era um tristeza, era exatamente uma saudade de ter sofrido o que sofrera, o necessário para lhe ensinar a usufruir mais tarde, agora, a felicidade. Achava ele que se devia nutrir carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade. Deve nutrir-se carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade, repetiu muito seguro. Apenas isso. Nunca cultivar a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se assim for, não é necessário voltar atrás. A aprendizagem estará feita e o caminho livre para que a dor não se repita. Estava a crescer. O pescador crescia para ser um homem tremendo. [p. 172] (…) E ele riu-se muito, por que o mar era para toda a gente e ninguém haveria de o guardar só para si, e ele não imperava sobre coisa nenhuma e não daria herança mais do que uma casa pintada de azul. E ela serviu um pouco mais de chá e achou Crisóstemo delicado, feito de uma virilidade equilibrada pelos sentimentos mais humanos. A mulher disse: quem tanto pede o que lhe pertence assim o mundo convence. Ele saiu, voltou ao seu canto e esperou. Alguma melhor ideia teria de surgir. Algum sinal de que o seu instinto sabia o que estava a fazer. Aos quarenta anos, o Crisóstomo, com o seu inusitado entusisamo, mudou o mundo. [p.184] (…) O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tante gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós. [p. 188] (…). A Isaura, que ainda não sabia quase nada sobre o amor, achou que era já feliz, mais feliz do que havia sido os seus pais. Talvez pudesse começar a perder o medo. Talvez pudesse mudar. Poderia perder a tristeza lentamente. Disse que começaria a falar mais vezes sozinha até aprender a falar. Até aprender a verbalizar o que sentia. [p.196] (…)  De qualquer modo, já não precisavam falar. Pertenciam-se e comunicavam entre si pela intensidade dos sentimentos. Tinham inventado uma família. O Crisóstomo abraçou o Camio e repetiu: amo-te muito, meu filho. Era o que mais queria dizer: meu filho [p. 199]».

fim.

citações na contracapa do livro:

«you can buy me for the price of a sparrow» baby dee

«the pact – sharon olds

We played dolls in that house where Father staggered with the
Thanksgiving knife, where Mother wept at noon into her one ounce of
cottage cheese, praying for the strength not to
kill herself. We kneeled over the
rubber bodies, gave them baths
carefully, scrubbed their little
orange hands, wrapped them up tight,
said goodnight, never spoke of the
woman like a gaping wound
weeping on the stairs, the man like a stuck
buffalo, baffled, stunned, dragging
arrows in his side. As if we had made a
pact of silence and safety, we kneeled and
dressed those tiny torsos with their elegant
belly-buttons and minuscule holes
high on the buttock to pee through and all that
darkness in their open mouths, so that I
have not been able to forgive you for giving your
daughter away, letting her go at
eight as if you took Molly Ann or
Tiny Tears and held her head
under the water in the bathinette
until no bubbles rose, or threw her
dark rosy body on the fire that
burned in that house where you and I
barely survived, sister, where we
swore to be protectors.»

mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia para alguém ou alguma coisa que está dentro de nós.

[seg] 28 de julho de 2014

que tal um mergulho no tempo? nesse vazio, que no fundo não é tão vazio assim… senti vontade de uma trilha sonora dos meus dezesseis… ouça no volume máximo.

«quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui»

***

estou a ler o filho de mil homens – como a casa está mais vazia, já que meu primo viajou pois sua mãe está hospitalizada e algum dos filhos precisa cuidar dela. e estou de recesso. entre cuidar das marias (filha e sobrinha) – e como é profundo o abraço e o riso de uma criança. é tempo sem pressão… calmo estou a esperar… e nenhuma das passagens [selecionadas nos livros] anotarei por cá… nem do findo saramago ou do veloz hugo-mae. colo abaixo imagens retiradas da rede. ótima história.

notas

[qua] 23 de julho de 2014

notas do dia:

ontem, noite, conselho de classe. “conselhos de classe me deprimem… há alguma coisa muito doentia quando o sentimento geral é de impotência. e as alternativas são levantar um muro, colocar mais seguranças… quem sabe uma cerca elétrica…”

ontem, noite, ônibus. “e aquela paixão rapaz… por si e pela vida? evaporou. a vida tornou-se uma prisão monótona de lá para cá. outrxs até tentam me salvar… mas falta-me gana”

ontem, noite, ônibus. “é preciso convencer-se de que é preciso… porque as desculpas para não mexer em nada são inúmeras… são tantas… são absurdamente (omni)presentes.

 

hoje, manhã, casa. “Zzzzz”

hoje, agora… 14:02

hoje, mais tarde… “alô, oi, sim… irei, mas vou chegar um pouco atrasado…”

hoje, seis e dez… chego… apenas uma hora e meia de atraso.

hoje, fim do dia… enfim, 10 dias de férias… ou não. a lista de atividades já está enorme…

barbarismo

[ter] 22 de julho de 2014

barbarismo
«um ganesh na coxa…
um habitué»
um esquife negro
uma pá de pensamentos tristes

e não há ordem às palavras,
imagens sobrepõem-se
pelos dias, horas, semanas
tudo é incerto
exceto a dor derivada
do incomunicado
do nó emaranhado
dessa estranha película impermeável
dos substantivos prefixados

onde o nome já não é o que era
e o amor é algo primitivo…
eu sou apenas um prefixo mudo e distante.
escrevo palavras erradas,
realizo a impossibilidade,
o não poema duma epopeia,
toda palavra desconexa,
o vil verme, o val enlevado,
a vã espera, o homem subnegado,

o doce e o amargo na língua
e dos vícios desta linguagem – isso das coisas que significam, eu, ente, coisa consciente, reifico…
coisifico, essa história, esses meus dias secos e sigo a sina, o fado, a fuga de toda e qualquer possibilidade de amar e desamar
habito esta terra morta, pertenço a este povo triste.

sobre a educação diária

[qui] 17 de julho de 2014

10h49′ «foco bicho… foco. agora o inverso – tentando interpretar o caminho percorrido pelo piloto automático…»

11h22′ ler isto, e isto e isto também.

17h30′ o demolidor. uma marreta e um cortador de ferro. e o que era uma caixa de concreto velha e abandonada virará em breve um tanque de peixes.

ãba’ib

[ter] 15 de julho de 2014

ontem cedo. passeio na praia com marias, com direito a castelo de areia. tarde… faltou tempo e ficou aquela sensação de correr contra o tempo…  e a noite de trabalho foi cansativa.

hoje, cedo, dispersão, bebendo um mate solito e uma caminhada com os cães pela rua.

e uma lista para próxima semana

1. Varal [medir e comprar cordão]
2. Cortar bananeiras
3. Esvaziar Baldes com Material Orgânico
4. Amarrar árvores [amora, ipê e acássia]
5. Jardim [Azaléias e terra]
6. Conseguir muda de Embaúba-Vermelha [Cecropia glaziovii]
7. Comprar tênis para correr.
8. Forro pvc!
9. Um pessegueiro?

agora pela tarde… buena vista social club e corrigir provas, fechar notas. argh

 

don’t be a victim

[seg] 14 de julho de 2014

uma e dezoito desta madruga plena de um breu intenso e apenas a voz densa de uma pedra habita meus ouvidos. há tantas canções e poemas gloriosos, iluminados, ensolarados… mas aqui dentro, e no entorno, há apenas um frio que quebra os ossos e sopra leve, o suficiente, para não deixar nenhuma faísca vingar. a boca não ousa cantar canção alguma – das belas e alegres não sente-se digna, das tristes sente-se patética por demais, então sobra apenas silenciar [vai que o mundo esquece o que é amar… e todos ficam frios]

uma e vinte e seis e a «self-pity is easily the most destructive of the nonpharmaceutical narcotics».

e das série de anotações para uma micro-histórica… dia 13 a alemanha ganhou a copa, e enfim ela acabou. chega de enrolar… é hora de mudar. nem que seja ao menos essa rotina de procrastinação, mas talvez seja isso mesmo… a rotina. e é fim de bimestre, pilhas de notas por produzir em provas por aplicar nesta segunda e terça, e disto pilhas de notas e médias por produzir, e o lado positivo é que não há nenhuma aula expositiva à vista até dia 31. chega a hora de arrumar a bagunça, desfazer essa letargia… cumprir os tramites pedagógicos e burocráticos até dia vinte e pouco… e começar um terceiro bimestre positivo em agosto. estudar para começar novos projetos, focar no trabalho, praticar atividades físicas, reconstruir relações afetivas… fazer parte de alguma coisa, qualquer coisa… fazer parte…

porque por agora… esse jogar a toalha cotidiano, essa sensação que ferra, de que não estou fazendo o certo, não estou tendo a coragem para mergulhar neste profundo mar… estou perdendo… estou fugindo… estou enfraquecendo-me… definhando… matando-me de medo. e nem pena de mim posso ter… só eu posso… será que posso? não tenho essa força vital porque não tenho a fé?… ou a fé é inexistente porque no fundo não há esse suposta força para transformar esse mundo caduco?!

mas viver de faz de conta é coisa para garoto. preciso crescer – isto parecem meus textos de dez anos atrás -, mas do que vale deixar isto registrado cá… e amanhã continuar no mesmo ponto?! perdido no espaço-tempo sem saber para onde ir e como desfazer esses nós cá dentro.

uma e quarenta… «and if your heart is locked and you can’t find the key». é hora de dormir. porque essa semana vai ser pesada e não esqueça meu caro: «don’t let the future blow your mind».

duas e dez. canção após canção. verso após verso, como balas que perfuram sem se poder desviar-se, não sendo o escolhido e, sim, apenas um corpo ferido, que insiste em sobreviver vazando essa condição mortal…  quando perder é a regra quebrar a banca não faz parte do jogo. «i know we’re only human, only made with flesh and blood, i shouldn’t have such expectations».

duas e vinte e três. os pés estão congelando. e a sensação que se erra é mais presente que há um minuto atrás. ousar não é parte do habitus. e estas páginas, e a virtualidade alimentam o hábito de ser um pretender. e nesse mergulho neste emaranhado, it’s got me trapped, relembrando as sessões de terapia… percebo que eu ainda não entendi este filme aqui.

«ele se apresentava imune à dor e com a resistência de uma bactéria, sendo visto como um “extra” terrestre. sua presença causava estranhamento e repugnância. era como se pertencesse a outra realidade; ficava ausente para as pessoas e objetos que o cercavam e que, para ele, eram como que transparentes, desprovidos de sentido.»

pear-tree-1903

Gustav Klimt pear-tree-1903

três e um. ir. dormir. acordar as sete.

porque hoje é sábado

[sáb] 12 de julho de 2014

o povo acordou cedo. criança em casa dá nisso [meu primo, colega de casa, recebendo seus filhos]. sete horas e todo mundo está de pé…

porque hoje é sábado.

ps: e fui lá na estante e abri na página 145 da antologia poética, publicada pela companhia das letras, e relendo o poema, lembrei que já anotei ele por cá: o dia da criação.

o tempo passa e algumas coisas parecem não mudar. outras mudam tanto. e enquanto tomo coragem para ir ai fora mexer nas coisas… anoto por cá, porque hoje é sábado.

só porque eu falei não quer dizer que eu não posso estar errado

[sáb] 12 de julho de 2014

SOU VOLÚVEL (Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Dadi Carvalho)

missão cumprida

[qui] 10 de julho de 2014

11:23 …

17:35 missão cumprida.

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