Archive for setembro, 2014

uma natureza indócil

2014, setembro 29, segunda-feira

[pré-post] 0:59

Dissidência ou a arte de dissidiar – Mauro Iasi – Presidente – 21 «Há hora de somar  / E hora de dividir.  / Há tempo de esperar  / E tempo de decidir.  / Tempos de resistir.  / Tempos de explodir.  / Tempo de criar asas, romper as cascas  / Porque é tempo de partir.  / Partir partido,  / Parir futuros,  / Partilhar amanheceres  / Há tanto tempo esquecidos.  / Lá no passado tínhamos um futuro  / Lá no futuro tem um presente  / Pronto pra nascer  / Só esperando você se decidir.  / Porque são tempos de decidir,  / Dissidiar, dissuadir,  / Tempos de dizer  / Que não são tempos de esperar  / Tempos de dizer:  / Não mais em nosso nome!  / Se não pode se vestir com nossos sonhos  / Não fale em nosso nome.  / Não mais construir casas  / Para que os ricos morem.  / Não mais fazer o pão  / Que o explorador come.  / Não mais em nosso nome!  / Não mais nosso suor, o teu descanso.  / Não mais nosso sangue, tua vida.  / Não mais nossa miséria, tua riqueza.  / Tempos de dizer  / Que não são tempos de calar  / Diante da injustiça e da mentira.  / É tempo de lutar  / É tempo de festa, tempo de cantar  / As velhas canções e as que ainda vamos inventar.  / Tempos de criar, tempos de escolher.  / Tempos de plantar os tempos que iremos colher.  / É tempo de dar nome aos bois,  / De levantar a cabeça  / Acima da boiada,  / Porque é tempo de tudo ou nada.  / É tempo de rebeldia.  / São tempos de rebelião.  / É tempo de dissidência.  / Já é tempo dos corações pularem fora do peito  / Em passeata, em multidão  / Porque é tempo de dissidência  / É tempo de revolução  // Mauro Iasi»

 

1:04′ o texto aguarda o caracteres…

1:22′ legendas…

«01:14:09,620 –> 01:14:40,780 Sofrimento é parte da vida. Nós sabemos disso. Ivy é motivada por esperança. Deixe-a ir. Se este lugar for meritório, ela terá sucesso em sua busca. / Como você pôde mandá-la? Ela é cega. / Ela é mais capaz que muitos nesta vila e é motivada por amor.  O mundo se move por amor.»

1:43′

O Patrão Nosso de Cada Dia /// Eu quero o amor  / Da flor de cactus  / Ela não quis  // Eu dei-lhe a flor  / De minha vida  / Vivo agitado  // Eu já não sei se sei  / De tudo ou quase tudo  / Eu só sei de mim  / De nós  / De todo o mundo  // Eu vivo preso  / A sua senha  / Sou enganado  // Eu solto o ar  / No fim do dia  / Perdi a vida  // Eu já não sei se sei  / De nada ou quase nada  // Eu só sei de mim  / Só sei de mim  / Só sei de mim  // Patrão nosso  / De cada dia  / Dia após dia  /// Compositor: João Ricardo – Secos E Molhados.

2:13′ dizem que faz bem…

2:21′ o exercício…

«Depois de ver o filme, vocês devem relacioná-lo com o caderno 3 e 4, tendo como norte a seguinte questão: Uma metáfora para pensarmos sobre o nosso isolamento no interior de nossas disciplinas: quais os desafios que parecem existir ao tentarmos dialogar com as outras disciplinas (nossas vilas)?»

?

2:24′ leitura…

«Freudenthal escreveu: “a prova torna-se um objetivo; o que sai na prova, um programa; o ensino da matéria para a prova, um método”. (…) Como diria o Iturra: “A cultura letrada que organiza o ensino não tem sido capaz de romper com o modelo imperante de eficácia econômica e incorporar a prática social como mediadora entre o saber da experiência controlada e o saber que provém da experiência provada”

2:59′ Linha reta e linha curva – de Machado de Assis

3:01′ A Infância, os adultos e a ilusão de um futuro. 

«Na ‘Lección XXXIV’, Freud afirma, por oposição ao ideário pedagógico hegemônico no início do século XX, que a educação deve “buscar seu caminho entre o ‘laisser-faire’ e a frustração”, bem como que a “missão” da “educação psicanalítica” é fazer do educando um “homem sadio e eficiente” com vistas a que não acabe se colocando “ao lado dos inimigos do progresso”. Assim, estabelece uma diferença substancial entre o que deveria ser o fruto da, assim chamada, “aplicação da psicanálise” e, por outro lado, a educação de sua época, implementada à luz de uma pedagogia religioso-moral. Nessa oportunidade, Freud não faz mais do que recuperar a diferença já assinalada em ‘El porvenir de una ilusión’ entre, por um lado, a natureza “irreligiosa” da “educação para a realidade”, promovida pela psicanálise, e, por outro, o “programa pedagógico” da época centrado na “demora da evolução sexual e a precocidade da influência religiosa”, responsável pela coerção da atividade e curiosidade intelectuais. A ‘educação para a realidade’ adquire sentido por oposição àquela promovida pela pedagogia religiosa. A realidade para Freud está longe de ser a dita realidade cotidiana e, portanto, o seu anseio não deve ser entendido num sentido psicológico-adaptacionista. A realidade cotidiana, produto das ilusões religiosas, não é outra coisa que uma espécie de grande “neurose coletiva” – objeto de um futuro estudo sobre a “patologia das comunidades culturais”. Assim sendo, educar para a realidade é sinônimo de ‘educar para o desejo’ ou, se preferirmos, de educar com vistas a possibilitar ‘o reconhecimento’ da impossível realidade do ‘desejo’ – ou seja, o caráter artificialista de seu estofo -, aquela que, precisamente, as ilusões mascaram.»

3:19′ diz ai…

«Viver apenas num andar é viver bloqueado. Uma casa sem sótão é uma casa onde se sublima mal; uma casa sem porão é uma morada sem arquétipos. Bachelard, 2003, p. 76 »
3:29′ o sono chegando…
«um trabalho que não visa apenas à assimilação de conteúdos, e sim, que o educador traga dentro de si, um grande amor pela humanidade e crença em uma sociedade mais justa e solidária, que passa a ser um mediador no processo de construção do conhecimento e que principalmente se sinta incomodado com a situação da educação brasileira…»
3:55′ escola-bairro «não é a comunidade que tem que ser parceira da escola. é a escola que deve ser parceira da comunidade (…) a escola tem que desenvolver essa sensibilidade que ela tem que atuar para além das suas paredes… a escola deveria assumir a liderança… » Braz Rodrigues Nogueira

mapa conceitual…

2014, setembro 28, domingo

ponderações de uma noite chuvosa de domingo: oquei. domingo passou. eu não passei. todas essas coisas fora do lugar me deixaram levemente irritado pela manhã… tentei alguma força e mexi uma ou outra coisa, mas tudo segue fora do lugar. a louça segue por ser lavada; o quarto por ser arrumado; os cadernos/livros por serem lidos; as avaliações por serem corrigidas; os exercícios por serem feitos; vida por ser organizada… tudo está fora do lugar. mas que lugar? enfim… fiquei mexendo-me hoje, longe do computador… mas também longe de tudo. tive um dia bom com meu pai. alguns conselhos para minha filha. e só… o dia foi evaporando…

mas há qualquer coisa de insatisfação aqui.

e das reflexões de sábado de curso/reunião: dormir pouco, ler bastante… curso de formação continuada para professores [parte do pacto nacional pelo fortalecimento do ensino médio]¹ e o filme ‘a vila‘; “fundamentalismo pedagógico”; “traços de fundamentalismo pedagógico na formação de professores“; “democracia na escola“; “o problema é o fundamentalismo pedagógico”. mas o que ficou é a percepção dos demais professores de que devemos parar mais para planejar mais e atuar de forma mais coletiva… a escola como vai… vai caduca, fragmentada, hierarquizada, enfadonha.

¹ «No site do Observatório do Ensino Médio você encontrará as transcrições das palestras e vídeos do I Seminário Nacional do Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio e os Cadernos de Formação da I Etapa. Boas leituras!»

ps: dias assim é melhor quedar em silêncio.

a quem interessar possa

2014, setembro 26, sexta-feira

perdi o texto. ele falava sobre a rotina. a decisão de faltar logo mais ao curso. como esta decisão gerará um efeito nocivo, psicologicamente falando. e como isto é recorrente, revelando todo um processo de auto-sabotagem e frustração. manifestando uma dificuldade de lidar com as contradições da vida… e causas são  profundas…

essa falta tem relação com dificuldade de acordar cedo, mas sobretudo com o não conseguir realizar a tarefa obrigatória, e acumularem-se as atividades de dois cursos nesta sexta-feira, e nesta quinta-feira, minha folga, eu ter dedicado a auxiliar as obras na casa… enfim, não fiz, não farei, nem dá tempo, faltarei, e terei que aguentar as consequências – emocionais disto – e que posso tentar… mas se não der… não era.

lembrei de um fragmento do texto que perdi: «é uma terra arrasada, ruínas, um deserto e silêncios»

lembrei de uma fala de caio fernando abreu: a quem interessar possa

«Eu não tenho culpa. Não fui eu quem fez as coisas ficarem assim desse jeito que não entendo, que não entenderia nunca. Você também não tem culpa, vou chamá-lo de você porque ninguém nunca ficará sabendo, nem era preciso, a culpa é de todos e não é de ninguém. Não sei quem foi que fez o mundo assim horrível, às vezes quando ainda valia a pena eu ficava horas pensando que podia voltar tudo a ser como antes muito antes dos edifícios dos bancos da fuligem dos automóveis das fábricas das letras de câmbio e então quem sabe podia tudo ser de outra forma depois de pensar nisso eu ficava alegre quem sabe quem sabe um dia aconteceria mas depois pensava também que não ia adiantar nada e tudo começaria a ficar igual de novo no momento que um homem qualquer resolvesse trocar duas pedras por um pedaço de madeira porque a madeira valia mais e de repente outra vez iam existir essas coisas duras que vejo da janela na televisão no cinema na rua em mim mesmo e que eu ia como sempre sair caminhando sem saber aonde ir sem saber onde parar onde pôr as mãos os olhos e ia me dar aquela coisa escura no coração e eu ia chorar chorar durante muito tempo sem ninguém ver é verdade tenho pena de mim e sou fraco nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me doo agora mas ao menos nesse agora eu quero ser como eu sou e como nunca fui e nunca seria se continuasse me entende eu não conseguiria não você não me entendeu nem entende nem entenderia você nem sequer soube sabe saberá amanhã você vai ler esta carta e nem vai saber que você poderia ser você mesmo e ainda que soubesse você não poderia fazer nada nem ninguém eu já não acredito nessas coisas por isso eu não te disse compreende talvez se eu não tivesse visto de repente o que vi não sei no momento em que a gente vê uma coisa ela se torna irreversível inconfundível porque há um momento do irremediável como existem os momentos anteriores de passar adiante tentando arrancar o espinho da carne há o momento em que o irremediável se torna tangível eu sei disso não queria demonstrar que li algumas coisas e até aprendi a lidar um pouco com as palavras apesar de que a gente nunca aprende mas aprende dentro dos limites do possível acho não quero me valorizar não sou nada e agora sei disso eu só queria ter tido uma vida completa elas eram horríveis mas não quero falar nisso podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces não me importo de ser vulgar não me importa o lugar-comum dizer o que outros já disseram não tenho mais nada a resguardar um momento à beira de não ser eu não sou mais tudo se revelou tão inútil à medida em que o tempo passava tudo caía num espaço enorme amar esse espaço enorme entre mim e você mas não se culpe deixa eu falar como se você não soubesse não se culpe por favor não se culpe ainda que esse som na campainha fosse gerada pelos teus dedos eu não atenderia eu me recuso a ser salvo e é tão estranho o entorpecimento começa pelos pés aquela noite eu ainda esperava quase digo sem querer teu nome digo ou escrevo não tem importância vou escrevendo e falando ao mesmo tempo com o gravador ligado é estranho me desculpa saí correndo no parque e me joguei na água gelada de agosto invadi sem ter direito a névoa dos canteiros destaquei meu corpo contra a madrugada esmaguei flores não nascidas apertei meu peito na laje fria do cimento a névoa e eu o parque e eu a madrugada e eu costurado na noite cerzido no escuro porque me dissolvia à medida em que me integrava no ser do parque e me desintegrava de mim mesmo preenchendo espaços aqueles enormes espaços brancos terrivelmente brancos e você não teve olhos para ver que o parque era você a água você a névoa você a madrugada você as flores você os canteiros você o cimento você não teve mãos para mim só aquela ternura distraída a mesma dos edifícios e das ruas mas eles me desesperavam você me desesperava eu não quero falar nelas mas elas estão na minha cabeça como os meus cabelos e as vejo a todo instante cantando aquela canção de morte a minha carne dilacerada e eu ridículo queria ter uma vida completa você não se parecia com Denise tinha os olhos de mangaba madura os mesmos que tive um dia e perdi não sei onde não sei por que e de repente voltavam em você nos cabelos finos muito finos finos como cabelos finos ‘minto que me bastaria tocá-los para que tudo fosse outra vez mas não toquei eu não tocaria nunca na carne viva e livre eles me rotularam me analisaram jogaram mil complexos em cima de mim problemas introjeções fugas neuroses recalques traumas e eu só queria uma coisa limpa verde como uma folha de malva aquela mesmo que existiu ao lado do telhado carcomido do poço e da paineira mas onde me buscava só havia sombra eu me julgava demoníaco mas não pense que estou disfarçando e pensando como-eu-sou-bonzinho-porque-ninguém-me-ama eu me achava envilecido me sentia sórdido humilhado uma faixa de treva crescia em mim feito um câncer a minha carne lacerada estou dentro dessa carne lacerada que anda e fala inútil a carne conjunta das xifópagas e o vento um vento que batia nos ciprestes e me levava embora por sobre os telhados as cisternas as varandas os sobrados os porões os jardins o campo o campo e o lago e a fazenda e o mar eu quero me chamar Mar você dizia e ria e ríamos porque era absurdo alguém querer se chamar Mar ah mar amar e você dizia coisas tolas como quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos você não vai muito além desses príncipes pequenos suas palavras todas não tenho culpa não tenho culpa eram de quem pedia cativa-me eu já não conseguiria bem lento eu não conseguiria eu não sei mais inventar. a não ser coisas sangrentas como esta a minha maneira de ser um momento à beira de não mais ser não me permite um invento que seja apenas um entrecaminho para um outro e outro invento mesmo a destruição tem que ser final e inteira qualquer coisa tem que ser a última uma era inteira e a outra nascia da cintura e existia só da cintura para cima como um ipsilone mole esponjosa uma carne vil uma carne preparada por toda uma estrutura de guerras epidemias pestes ódios quedas eu me sentia culpado ao vê-Ias assim nosso podre sangue a humanidade inteira nelas que não riam e cantavam aquela sombria canção de morte brutalmente doce elas cantavam e minhas costas doíam como se eu sozinho as sustentasse e não uma à outra mas eu eu com este sangue apodrecido que assassina crianças de fome droga adolescentes bombardeia cidades e também você e todos nós grudados indissoluvelmente grudados nojentos mas me recuso a continuar ninguém sofrerá por mim sem mim chorar ninguém entende nem precisa nem você nem eu o anel que tu me deste sobre a folha que me contém sem compreender sem compreender que você carrega toda uma culpa milenar e imperdoável a História como concreto sobre os teus meus nossos ombros Cristo sobre nossos ombros todas as cruzes do mundo e as fogueiras da inquisição e os judeus mortos e as torturas e as juntas militares e a prostituição e doenças e bares e drogas e rios podres e todos os loucos bêbados suicidas desesperados sobre os teus meus nossos ombros leves os teus porque não sabes sim sim eu tenho culpa não é de ninguém esse desgosto de lâmina nas entranhas não é de ninguém esse sangue espantado e esse cosmos incompreensível sobre nossas cabeças não posso ser salvo por ninguém vivo e os mortos não existem a fita está acabando começo a ficar tonto a dormência chegou quem sabe ao coração talvez eu pudesse eu soubesse eu devesse eu quisesse quem sabe mas não chore nem compreenda te digo enfim que o silêncio e o que sobra sempre como em García Lorca solo resta el silêncio un ondulado silêncio os espaço de tempo a nos situar fragmentados no tempoespaçoagora não sei onde fiquei onde estive onde andei nada compreendi desta travessia cega a mesma névoa do parque outra vez a mesma dor de não ser visto elas gritam sua canção de morte este sangue nojento escorrendo dos meus pulsos sobre a cama o assoalho os lençóis a sacada a rua a cidade os trilhos o trigo as estradas o mar o mundo o espaço os astronautas navegando por meu sangue em direção a Netuno e rindo não não quebres nunca os teus invólucros as tuas formas passa lentamente a mão do anel que eu te dei e era vidro depois ri ri muito ri bêbado ri louco ri ate te surpreenderes com a tua não dor até te surpreenderes com não me ver nunca mais e com a desimportância absoluta de não me ver nunca mais e com minha mão nos teus cabelos distante invisível intocada no vento. Perdida a minha mão de espuma abrindo de leve esta porta assim.
(In “O Inventário do Ir-remediável”)