chô, chuá…

2014, outubro 18, sábado

chô, chuá

*

nada do que eu possa dizer agora deve permanecer… tudo é assombro, desgosto e melancolia. que fiquemos com as profundas palavras de caetano e gil no disco Tropicália 2.

**

HAITI // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // Quando você for convidado pra subir no adro / Da fundação casa de Jorge Amado / Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos / Dando porrada na nuca de malandros pretos / De ladrões mulatos e outros quase brancos / Tratados como pretos / Só pra mostrar aos outros quase pretos / (E são quase todos pretos) / Como é que pretos, pobres e mulatos / E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados / E não importa se os olhos do mundo inteiro / Possam estar por um momento voltados para o largo / Onde os escravos eram castigados / E hoje um batuque, um batuque / Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária / Em dia de parada / E a grandeza épica de um povo em formação / Nos atrai, nos deslumbra e estimula / Não importa nada: / Nem o traço do sobrado / Nem a lente do fantástico, / Nem o disco de Paul Simon / Ninguém, ninguém é cidadão / Se você for ver a festa do pelô, e se você não for / Pense no Haiti, reze pelo… / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui / E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado / Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer / Plano de educação que pareça fácil / Que pareça fácil e rápido / E vá representar uma ameaça de democratização / Do ensino de primeiro grau / E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital / E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal / E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual / Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco / Brilhante de lixo do Leblon / E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo / Diante da chacina / 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos / Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres / E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos / E quando você for dar uma volta no Caribe / E quando for trepar sem camisinha / E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba / Pense no Haiti, reze pelo / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui .//

CINEMA NOVO // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // O filme quis dizer  / “Eu sou o samba” / A voz do morro rasgou a tela do cinema / E começaram a se configurar / Visões das coisas grandes e pequenas / Que nos formaram e estão a nos formar / Todas e muitas: Deus e o diabo, vidas secas, os fuzis / Os cafajestes, o padre e a moça, a grande feira, o desafio / Outras conversas, outras conversas sobre os jeitos do Brasil / Outras conversas sobre os jeitos do Brasil / A bossa nova passou na prova / Nos salvou na dimensão da eternidade / Porém aqui embaixo “A vida mera metade de nada” / Nem morria nem enfrentava o problema / Pedia soluções e explicações / E foi por isso que as imagens do país desse cinema / Entraram nas palavras das canções / Entraram nas palavras das canções / Primeiro foram aquelas que explicavam / E a música parava pra pensar / Mas era tão bonito que parece / Que a gente nem queria reclamar / Depois foram as imagens que assombravam / E outras palavras já queriam se cantar / De ordem e desordem de loucura / De alma a meia-noite e de indústria / E a Terra entrou em transe / E no sertão de Ipanema / Em transe é, no mar de monte santo / E a luz do nosso canto e as vozes do poema / Necessitaram transformar-se tanto / Que o samba quis dizer / O samba quis dizer: eu sou cinema / O samba quis dizer: eu sou cinema / Aí o anjo nasceu, veio o bandido meter o rango / Hitler terceiro mundo, sem essa aranha, fome de amor / E o filme disse: Eu quero ser poema / Ou mais: Quero ser filme e filme-filme / Acossado no limite da garganta do diabo / Voltar a Atlântida e ultrapassar o eclipse / Matar o ovo e ver a vera cruz / E o samba agora diz: Eu sou a luz / Da lira do delírio, da alforria de Xica / De toda a nudez de índia / De flor de macabéia, de asa branca / Meu nome é Stelinha é Inocência / Meu nome é Orson Antonio Vieira conselheiro de pixote / Superoutro / Quero ser velho de novo eterno, quero ser novo de novo / Quero ser Ganga bruta e clara gema / Eu sou o samba / viva o cinema. //

NOSSA GENTE (AVISA LÁ) // Compositor: Roque Carvalho // Avisa lá que eu vou chegar mais tarde, o yê / Vou me juntar ao Olodum que é da alegria / É denominado de vulcão / O estampido ecoou nos quatro cantos do mundo / Em menos de um minuto, em segundos / Nossa gente é quem bem diz é quem mais dança / Os gringos se afinavam na folia / Os deuses igualando todo o encanto toda a transa / Os rataplans dos tambores gratificam / Quem fica não pensa em voltar / Afeição a primeira vista / O beijo-batom que não vai mais soltar / A expressão do rosto identifica / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá que eu vou chegar mais tarde, o yê / Vou me juntar ao Olodum que é da alegria / É denominado de vulcão / O estampido ecoou nos quatro cantos do mundo / Em menos de um minuto, em segundos / Nossa gente é quem bem diz é quem mais dança / Os gringos se afinavam na folia / Os deuses igualando todo o encanto toda a transa / Os rataplans dos tambores gratificam / Quem fica não pensa em voltar / Afeição a primeira vista / O beijo-batom que não vai mais soltar / A expressão do rosto identifica / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô //

RAP POP CONCRETO  // Compositor: Caetano Veloso // Quem? //

WAIT UNTIL TOMORROW // Compositor: Jimi Hendrix // Well, I’m standing here, freezing, inside your golden garden / Uh got my ladder, leaned up against your wall / Tonight’s the night we planned to run away together / Come on Dolly Mae, there’s no time to stall / But now you’re telling me… / I think we better wait till tomorrow / Hey, yeah, hey / (I think we better wait till tomorrow) / Girl, what ‘chu talkin’ ‘bout ? / (I think we better wait till tomorrow) / Yeah, yeah, yeah / Got to make sure it’s right, so until tomorrow, goodnight. / Oh, what a drag. /  Oh, Dolly Mae, how can you hang me up this way ? / Oh, on the phone you said you wanted to run off with me today / Now I’m standing here like some turned down serenading fool / Hearing strange words stutter from the mixed mind of you / And you keep tellin’ me that ah… /  I think we better wait till tomorrow / What are you talkin’ ‘bout ? / (I think we better wait till tomorrow) / No, can’t wait that long / (I think we better wait till tomorrow) / Oh, no / Got to make sure it’s right, until tomorrow, goodnight, oh. / Let’s see if I can talk to this girl a little bit here… /  Ow ! Dolly Mae, girl, you must be insane / So unsure of yourself leaning from your unsure window pane / Do I see a silhouette of somebody pointing something from a tree ? / Click bang, oh what a hang, your daddy just shot poor me / And I hear you say, as I fade away… / We don’t have to wait till tomorrow / Hey ! / We don’t have to wait till tomorrow / What you say ? / (We don’t have to wait till tomorrow) / It must have been right, so forever, goodnight, listen at ‘cha. / (We don’t have to wait till tomorrow) / Ah ! Do I have to wait ? Don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / It’s a drag on my part / (We don’t have to wait till tomorrow) Don’t have to wait, uh, hmm ! Ah, no ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait, don’t have to wait, yeah ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait, don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / Oh, oh / I won’t be around tomorrow, yeah ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / Goodbye, bye bye ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Oh, what a mix up / Oh, you gotta be crazy, hey, ow! / Don’t have to wait till tomorrow //

TRADIÇÃO // Compositor: Gilberto Gil // Conheci uma garota que era do Barbalho / Uma garota do barulho / Namorava um rapaz que era muito inteligente / Um rapaz muito diferente / Inteligente no jeito de pongar no bonde / E diferente pelo tipo / De camisa aberta e certa calça americana / Arranjada de contrabando / E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde / Sempre rindo e sempre cantando / Sempre lindo e sempre, sempre, sempre, sempre, sempre / Sempre rindo e sempre cantando / Conheci essa garota que era do Barbalho / Essa garota do barulho / No tempo que Lessa era goleiro do Bahia / Um goleiro, uma garantia / No tempo que a turma ia procurar porrada / Na base da vã valentia / No tempo que preto não entrava no Bahiano / Nem pela porta da cozinha / Conheci essa garota que era do Barbalho / No lotação de Liberdade / Que passava pelo ponto dos Quinze Mistérios / Indo do bairro pra cidade / Pra cidade, quer dizer, pro Largo do Terreiro / Pra onde todo mundo ia / Todo dia, todo dia, todo santo dia / Eu, minha irmã e minha tia / No tempo quem governava era Antonio Balbino / No tempo que eu era menino / Menino que eu era e veja que eu já reparava / Numa garota do Barbalho / Reparava tanto que acabei já reparando / No rapaz que ela namorava / Reparei que o rapaz era muito inteligente / Um rapaz muito diferente / Inteligente no jeito de pongar no bonde / E diferente pelo tipo / De camisa aberta e certa calça americana / Arranjada de contrabando / E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde / Sempre rindo e sempre cantando / Sempre lindo e sempre, sempre, sempre, sempre, sempre / Sempre rindo e sempre cantando //

AS COISAS // Compositores: Arnaldo Antunes e Gilberto Gil //  As coisas têm peso  / Massa, volume, tamanho / Tempo, forma, cor / Posição, textura, duração / Densidade, cheiro, valor / Consistência, profundidade / Contorno, temperatura / Função, aparência, preço / Destino, idade, sentido / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas têm peso / Massa, volume, tamanho / Tempo, forma, cor / Posição, textura, duração / Densidade, cheiro, valor / Consistência, profundidade / Contorno, temperatura / Função, aparência, preço / Destino, idade, sentido / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz /

ABOIO // Compositor: Caetano Veloso // Urba imensa / Pensa o que é e será e foi / Pensa no boi / Enigmática máscara boi / Tem piedade / Megacidade / Conta teus meninos / Canta com teus sinos / A felicidade intensa / Que se perde e encontra em ti / Luz dilui-se e adensa-se / Pensa-te //

DADA // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // A Deus / Deus a / A…fro…di…te /De ti / Ti ve / Vi da / Da da / A Deus / A Deus / A Deus / Deus a / A…fro…di…te / De ti / Ti ve / Vi da / Da da / A Deus / A Deus / A Deus / Deus a / A…..fro…..di…..te /De ti / Ti ve / Vida / Da da / A Deus /

CADA MACACO NO SEU GALHO (CHÔ, CHUÁ)  // Compositor: Riachão (Clementino Rodrigues) // Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chuá / O seu é em outro lugar / Chô, Chuá / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia /Chô, Chuá / O seu é em outro lugar / Não se aborreça moço da cabeça grande / Você vem não sei de onde / Fica aqui não vai pra lá / Esse negócio da mãe preta ser leiteira / Já encheu sua mamadeira / Vá mamar noutro lugar / Chô, Chua / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chua / O seu é em outro lugar / Não se aborreça moço da cabeça grande / Você vem não sei de onde / Fica aqui não vai pra lá / Esse negócio da mãe preta ser leiteira / Já encheu sua mamadeira / Vá mamar noutro lugar / Chô, Chua / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá /Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chua / O seu é em outro lugar / Chô, Chuá /Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chua / O meu galho é na Bahia / Chô, Chuá /

BAIÃO ATEMPORAL // Compositor: Gilberto Gil // No último pau de arara de ira…rá / Um da família Santana viajará / No último pau de arara de ira…rá / Um da família Santana viajará / Levará uma semana até chegar / Junto com mais dois ou três outros cabras que / Estarão lá / No último pau de arara de ira…rá / Se essa viagem comprida fosse um cordel / Seria boa saída acabar no céu / Se essa viagem comprida fosse um cordel / Seria boa saída acabar no céu / Só que este conto que eu canto é pra lá de zen / Não tem sentido, não serve pra nada e é /Pra ninguém / Pra ninguém botar defeito e não ter porém / Basta pensar que irará poderá não ser / Que os paus de arara de lá já não tem porque / Basta pensar que irará poderá não ser / Que os paus de arara de lá já não tem porque / Porque os tempos passaram e passarão / Tudo que começa acaba e outros cabras seguirão / Cruzando o atemporal do tão do baião //

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA // Compositor: Caetano Veloso // A tristeza é senhora,  / Desde que o samba é samba é assim  / A lágrima clara sobre a pele escura,  / a noite e a chuva que cai lá fora  / Solidão apavora,  / tudo demorando em ser tão ruim  / Mas alguma coisa acontece,  / no quando agora em mim  / Cantando eu mando a tristeza embora  / (Repete tudo acima)  / O samba ainda vai nascer,  / O samba ainda não chegou  / O samba não vai morrer,  / veja o dia ainda não raiou  / O samba é o pai do prazer,  / o samba é o filho da dor  / O grande poder transformador.

***

vertigens incidentais: #1 beba coca, cloaca. decio_pignatari_2#2 um bate papo com o luis antônio… preciso disso, conversar com gente bacana; e deixar a casa mais arrumada… meu barraco é uma bagunça. #3 pesquisar mais sobre o novo cinema pernambucano. #4 floripa teatro – 21º festival isnard azevedo

ps: #1 se amanhã fizer um dia bonito vou mexer na terra. #2 e das leituras e conversas de hoje: Abayomis, a boneca negra; Für Elise, de Beethoven; e “macacos me mordam, batman…“, porque há muito fascismo ali do lado… #AécioNever

%d blogueiros gostam disto: