Archive for abril, 2015

el valle de las leñas amarillas

2015, abril 29, quarta-feira

das coisas de ontem:

ouvindo muito moreno veloso, moreno e caetano. e como é bonita a relação entre eles. fiquei encantado. engraçado que esse negócio de relação pai/filho foi sempre algo que mexeu comigo, é um buraco aqui – de engasgar e até chorar vendo tv. acho que ainda não consegui me desvencilhar dessas frustrações que foi a vida de meus pais, enquanto seres humanos que nunca se realizaram individualmente e enquanto casal que nunca se amou. os filhos pagaram a conta, com as neuroses.

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e das constatações o relógio biológico está invertido. a internet tem falhado todos os dias… e as professoras e os professores, lutadores organizados e em greve fizeram um grande ato pela manhã e ocuparam a assembleia legislativa.

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o do pertencer a família: meu velho, pai queria te dizer que há dias em que tu consegues ferrar a cabeça da gente. sei que tu tenta todos os dias, e se estamos desatentos e desarmados, este teu jeito abrupto e violento de fazer com que a gente se sinta pior que merda funciona… consegues nos atingir. e eu nem sei se tens consciência ou não de tua estupidez, mas já nem importa tanto. eu sou adulto e deveria já estar calejado, feito armadura, usando toda a minha racionalidade contra tua violência… mas as vezes escapa e tu atinge a gente em cheio. de ti conto na ponta dos dedos os gestos de atenção, mas já perdi a conta dos transtornos e do terrorismo psicológico diário.

e nestes dias de desatenção… quando a gente percebe já está ferrado… e ai eu sinto, todo aquele ódio e medo, e aquela vontade de morrer. e ai eu fico depois imaginando… por que há tanto ódio dentro de ti? por que precisas machucar tanto os outros? isto que você fazia diariamente com a gente, e até hoje ainda tenta, é o que sentes por dentro?

dias assim eu penso eu mandar tudo a merda. se não fosse minha filha, e toda essa situação enrolada, de regularização do nome, e da moradia, eu já teria ido embora faz tempo. e talvez eu nunca tivesse voltado. mas o fato é que estou aqui, no mesmo terreno, teu espaço. e brigar é só alimentar a estupidez. melhor é respirar fundo e se desfazer dessa dor. amanhã é outro dia e não irás mudar.

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planos para amanhã. acampar na alesc. sair de casa.

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e como antídoto para a dor: el valle de las leñas amarillas, drexler.

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nota: provocações; morreu ontem abujamra.

a desumanização

2015, abril 28, terça-feira

lendo esta aqui… caiu a ficha. já que eu estou cansado de não fazer nada porque chove direto ou porque durmo durante metade do dia… e busco desesperadamente fugas que me entorpeçam (tv, war online, leituras sobre coisas aleatórias e inúteis…). chegou a hora de ler algo interessante, e nada melhor do que revisitar valter hugo mãe.

então fiz assim, já que eu era obrigado a sair de casa e ir até a escola assinar uns documentos e sabedor que haveria fila, pela interminável duplicação da sc-403, decidi ler. a ida e a volta, algo totalizando duas horas, e lá se foram 40 páginas. como o anterior, o filho de mil homens, a leitura/escrita de valter é muito boa. vontade de devorar o livro rápido. aproveitei e fiz notas de algumas passagens que me chamaram atenção.

a desumanização mae

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«o inferno não são os outros, pequena halla. eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. a humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. sem ninguém no presente nem no futuro, o individuo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. perece como uma coisa qualquer. [p.15]

(…) aprender a solidão não é senão  capacitarmo-nos do que representamos entre todos. talvez não representemos nada, o que me parece impossível. qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. e se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. estamos sempre à conversa com deus. a solidão não existe. é uma ficção das nossas cabeças.  [p.15]

(…) quando for grande, halla, não quero ser cozinheira das baleias. não vou ficar aqui encalhada a fazer doces para que elas se consolem. quando for grande, quer ser de outra maneira. quero ser longe. eu respondia: ninguém é longe. as pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. a minha irmã dizia: são. algumas pessoas são longe. quando for grande quero ser longe. [p. 22]

(…) sobre a beleza o meu pai também explica: só existe a beleza que se diz. só existe a beleza se existir interlocutor. a beleza da lagoa é sempre alguém. porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. a beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. ele afirmava: o nome da lagoa é halla, é sigridur. ainda que as palavras sejam débeis. as palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. usamo-lo por pura ilusão. deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. para que um veja e o outro ouça. sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. a esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança.é o que todos almejamos. que acreditem em nós. dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente. [p.27]

(…) quando falo, não entrego nada. deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. quando falo, o que faço é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. como se falando pudéssemos fazer tudo. o que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. não podemos navegar numa palavra. não podemos ir embora. falar é ficar. se falo é porque ainda não fui. ainda aqui estou. preciso de me calar, pai. preciso de aprender a calar-me. quero muito fugir. [p. 34]»

leia o livro você também: a desumanização. valter hugo mãe. editora cosac naify. 2014.

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a trilha de fundo desta postagem é o disco Kassin+2 – Futurismo.

configurações de esquecimento

2015, abril 27, segunda-feira

«configurações de esquecimento, memórias alheias…»

quando aquele cara falou isto eu fui obrigado a pegar o pedaço de papel e a caneta mais próxima para anotar. guardei… só não guardei o nome do artista plástico.

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ontem, fiz a poda de algumas plantas. e ganhei um cisco no olho. meu olho vermelho arde.

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trilha de fundo:

 

Metá Metá – Man Feriman (METAL METAL)

Juçara Marçal — voz Kiko Dinucci — voz, violão, guitarra e percussão Thiago França — sax, flaura e EWI Marcelo Cabral – baixo Sergio Machado — bateria Samba Sam — percussão

e a busca por traduzir isto aqui:

Ô IÊ IÊ XORO ODÔ OLOMI AIÊ feriman
Omanfe xorodô.

talvez isto aqui [Dicionário Yoruba-Portugues – 5a. ed.] me ajude.

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sair de casa é tão difícil. tenho que ir até a escola hoje.