Archive for setembro, 2016

a liberdade de ver os outros

[sex] 23 de setembro de 2016

«Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: – Bom dia, meninos. Como está a água? Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:  – Água? Que diabo é isso? Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude – mas é fato que, nas trincheiras do dia-adia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte. Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos. Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser. Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente. Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva. Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós. Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha. Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima. Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos. De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal. É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares. Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal. Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão. Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.   Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação. Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas. Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem. Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser  e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado. No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante. O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha. Omundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos. Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita. Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.” É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.» David Foster Wallace. Este texto foi tirado do discurso de David Foster Wallace como paraninfo para formandos do Kenyon College.

inicio da primavera e a contra-reforma da educação

[qui] 22 de setembro de 2016

ontem, no final do dia fui na upa (de canas) e tomei uma doce na veia de antiinflamatório. e do meu recorrente pavor de agulhas… pela primeira fez meu braço tremia.

hoje, não fui no ato-assembleia fecha a ponte.

fiquei em casa curtindo minha dolor.

e é o inicio da primavera,

e da contra-reforma da educação

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il dolce far niente… e os antiinflamatórios

[seg] 19 de setembro de 2016

«A desumanização implantada pelo processo capitalista de produção negou aos trabalhadores todos os pressupostos para a formação e, acima de tudo, o ócio (Adorno, 2003, p. 06).»

“ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio do ponto na manhã seguinte (1986, p. 123)”

burn burn burn

[dom] 18 de setembro de 2016

sugestões e citações d@s camaradas

«Interessante passagem de Angela Davis, em seu livro “Mulheres, raça e classe” (Boitempo), na qual ela mostra como desde o nascimento do capitalismo, nos EUA, as questões de gênero, escravidão e classe se misturam de forma contraditória.

“Na época em que começaram as primeiras tentativas de industrialização no Sul, antes da Guerra Civil, o trabalho escravo complementava o trabalho livre – e frequentemente competia com ele. Industriais que possuíam escravos empregavam homens, mulheres e crianças da mesma maneira, e quando os proprietários de terras e fazendeiros arrendavam a força de trabalho de suas escravas e escravos, percebiam que as mulheres e as crianças eram tão solicitadas quanto os homens.

As mulheres não eram ‘femininas’ demais para o trabalho nas minas de carvão e nas fundições de ferro, tampouco para o corte de lenha e a abertura de valas. (…) [p. 22-23]

Quando as tentativas pré-Guerra Civil de estabelecer o sistema fabril nos Estados Unidos deram espaço a uma aposta agressiva na industrialização, a experiência de realizar um trabalho produtivo foi roubada de muitas mulheres brancas. As fábricas têxteis tornaram obsoletas suas máquinas de fiar. A parafernália que usavam para fazer velas se tornou acervo de museu, assim como várias outras ferramentas que as ajudavam a produzir os artigos necessários à sobrevivência de sua família. À medida que a ideologia da feminilidade – um subproduto da industrialização – se popularizou e se disseminou por meio das novas revistas femininas e dos romances, as mulheres brancas passaram a ser vistas como habitantes de uma esfera totalmente separada do mundo do trabalho produtivo. A clivagem entre economia doméstica e economia pública, provocada pelo capitalismo industrial, instituiu a inferioridade das mulheres com mais força do que nunca. Na propaganda vigente, ‘mulher’ se tornou sinônimo de ‘mãe’ e ‘dona de casa’, termos que carregavam a marca fatal da inferioridade. Mas, entre as mulheres negras escravas, esse vocabulário não se fazia presente. Os arranjos econômicos da escravidão contradiziam os papéis sexuais hierárquicos incorporados na nova ideologia. Em consequência disso, as relações homem-mulher no interior da comunidade escrava não podiam corresponder aos padrões da ideologia dominante.” [p. 24-25].»

Sugestão de filme:

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filmes vistos no final de semana:

domingo

Burn, Burn, Burn  (2015) Direção: Chanya Button

sábado

The Words (2012) Direção: Brian Klugman , Lee Sternthal

Six Degrees of Separation (1993) Direção: Fred Schepisi
Thanks for Sharing (2012) Direção: Stuart Blumberg

In My Dreams  (2014) Direção: Kenny Leon

 

e dia 13/9 – terça-feira

Up in the Air (2014) Direção: Jason Reitman

 

a viagem do elefante pelo rio chamado tempo até a casa chamada terra no atlas de nuvens

[sáb] 17 de setembro de 2016
04h03 num ato impulsivo… ATLAS DE NUVENS (por apareceu na minha linha do tempoo… e eu esperava há um tempo já pelo lançamento porque quero muito ler este livro.  e eu até achei interessante o filme; IDEOLOGIA E CONTRAIDEOLOGIA (porque ando as voltas com o tema e com o autor, alfredo bosi); A VIAGEM DO ELEFANTE (e porque é preciso um de literatura… e não li todos os saramagos… que é um autor que me mobiliza) e UM RIO CHAMADO TEMPO – UMA CASA CHAMADA TERRA (porque é mia couto…
e a fnac me acusa… POESIA RUSSA MODERNA foi minha ultima compra na loja (06/09/2013 21:24).
os russos chegaram no dia 17. três anos atrás.
ps: só publico isto aqui pois há uma coincidência, uma curiosidade.
04h07 minha filha faz doze anos anos. eu já tenho trinta e quatro. minha mãe cinquenta e dois e meu pai cinquenta e sete. as árvores estão crescendo…
04h11 e eu resolvi aumentar a casa. uma forturna para erguer a cozinha… e nessa grana não entra mão de obra, acabamentos e mobiliário da mesma… é só teto em concreto e parede armada.
04h12 e ainda tenho que inscrever-me no vestibular… letras? será… mas essa vida de professor é bem insegura… ministro golpista querendo acabar com sociologia no ensino médio… e ai? o que eu vou fazer? mas no calculo de agora são 125 conto de inscrição.
e este texto continuará…

a pré-história da sociedade humana

[sex] 16 de setembro de 2016

 

Notas de rodapé do dia:

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«O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. […] E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. […] A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagônica do processo social de produção, antagônica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos indivíduos. As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no selo da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo. Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana.» Karl Marx, Prefácio – Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política

sob o signo de cam

[qui] 15 de setembro de 2016

fazendo leituras e organizando minhas aulas de hoje. dia de repor aulas não dadas.

ontem pensava sobre isto de dar aulas… como nessa semana estou mais disposto, mais vivo… interessado. em vários momentos deste ano eu estive tão cansado que deliberadamente não quis ir para escola. mas não era só um cansaço fisico e mental.. era um cansaço moral, de saber que não havia preparado o material de forma adequada e precisava cumprir aquela carga horária… que seriam horas inúteis. e que seria uma carga.

dar aula não é, e nem pode ser, algo mecânico. é necessário paixão, encantamento, é necessário algo mágico… é necessário certa emoção em uma aula, sobretudo eu, enquanto professor e pessoa, preciso estar amando o que estou fazendo para poder irradiar e encantar, tocar, atingir, enlaçar outros nestas aulas… sem emoção a razão desaba e torna-se mera formalidade – e isto é um tanto inócuo.

 

temáticas de hoje: (202) ideologia, hegemonia e industria cultural; (301, 302 e 303) cidadania e direitos humanos no brasil.

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El Abecedario de Gilles Deleuze – P de Profesor

«SOB O SIGNO DE CAM (pp. 246-72) (1) O original de Heine pertence ao ciclo Gedichte, 1853-54. Os parênteses com sic são do tradutor brasileiro. Comenta Augusto Meyer comparando o texto de Heine, primeiro com “Les nègres et les marionettes” de Béranger, e depois com o poema de Castro Alves: “Heine tratou o tema com uma objetividade realista que não se observa nos outros. Para ele a questão do escravo integrava-se na questão das relações de classe e da estrutura econômica do capitalismo. Já num escrito de 1832, coligido em Franzõsische Zustade, ao criticar o liberalismo inócuo de certos círculos da nobreza alemã, representados no caso pelo conde Moltkc, dizia o poeta: “O conde Moltke certamente considera a escravidão o grande escândalo da nossa época, e uma aberta monstruosidade. Mas, na opinião de Myn Heer van der Null, traficante de Rotterdam, o comércio de escravos é uma atividade natural, justificada; o que, pelo contrário, lhe parece monstruoso, são os privilégios da aristocracia, os títulos e bens de herança, o absurdo preconceito da nobreza de sangue” (A. Meycr, “Os três navios negreiros”, in Correio da Manhã, 19/8/67). Agradeço a Marcus Vinícius Mazzari a gentileza de ter-me obtido a tradução e o artigo de Augusto Meycr.» Nota de rodapé. Alfredo Bosi. Dialética da Colonização. 

«A religião dos filhos de Cam” era uma das terminologias empregadas para caracterizar as práticas religiosas dos africanos e seus descendentes no Brasil no período da Colônia e Império, quando a religião oficial era a Católica Apostólica Romana. A partir da República, houve a liberdade de culto, embora o Código Penal (1890), anterior à Constituição republicana (1891), continuasse a criminalizar o Espiritismo, o curandeirismo, e a capoeiragem, dentre outras práticas culturais e religiosas praticadas pelos descendentes dos escravos e ex-escravos. As perseguições deram-se de diversas formas durante todo o regime republicano: sob a égide da higienização, da ciência médica (combate às doenças mentais), do combate ao charlatanismo etc. No tempo presente, notamos que o grupo que mais persegue e discrimina as práticas religiosas de matriz africana no Brasil são os denominados evangélicos pentecostais. Tal perseguição exige intervenções jurídicas do Estado Brasileiro e a organização dos vitimados por tais práticas.» José Silva. Sob o signo de Cam: as lutas da tradição religiosa de matriz africana contra a intolerância no Brasil republicano.

up in the air

[ter] 13 de setembro de 2016

sob a pele

[seg] 12 de setembro de 2016

manhãs:

dividido em três momentos (dias… 1/4+1/4+1/2), consegui concluir sob a pele (Under The Skin, 2013) do diretor Jonathan Glazer. O começo não me pegou… Insisti… Desisti, mas ficou ali… Sinalizando que havia um filme por terminar… Insisti novamente, e ai… Fui fisgado. Fotografia, Trilha sonora… E aquela sensação angustiante/excitante de o que será que vai acontecer…

ontem, conclui também Ginger & Rosa (2012), filme de  Sally Potter.

tardes:

ontem jardinei. ouvi caetano.

hoje, tenho que por em dia planos de aulas e atividades. dia de trabalho.

futuro:

lista de coisas para estudar/aprofundar:

Michelangelo Antonioni

Andrei Tarkovsky

Nicolas Roeg

procura-se um amigo para o fim do mundo

[dom] 11 de setembro de 2016

 

envelopes vermelhos.

como um espectador projeta-se nas emoções alheias, aquelas de cinema. tudo que pensa é na sua contradição. como é sentir todas as emoções, por extensão, compartilhar os encontros e desencontros de cada personagem… ele ri, ele, as vezes, chora. na fantasia sente-se como um personagem cinematrográfico. mas o mundo interno é um caos, um sobrevivente… e o exterior uma procrastinação, aleatoriedades… uma couraça.

tem andando muito tempo noutra dimensão. mas não está triste, apesar de um tristeza recorrente, aparecer dia sim dia não. encarar o mundo, as vezes é pesado… é dificil sair desse local. desse ponto que ninguém além dele mesmo tem acesso. ás vezes na solidão há uma segurança, uma certa paz.

mas, compartilhando esse universo de emoções alheias, há um gosto doce.. ele gosta de filmes doces. mas, as vezes há um amargo… uma melancolia.

***

‘bora começar um dia, além do filme matinal. sem sonhos hoje, apenas um dia solitário, e grato, pelas companhias que o dia me dará, apenas por hoje.

«Sometimes, all I need is the air that I breathe»

 

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«Quem pode ser alguém neste vazio funcional? Quantos salários vão calar a sua opinião? Normas de conduta, sem respirar… Acomode a angústia só mais uma vez. Quando controlado, esconde a frustração, Mas em controle impõe as mesmas condições» Dead Fish

«…instituição como órgão regulador, que canaliza as ações humanas quase da mesma forma como os instintos canalizam o comportamento animal. Em outras palavras, as instituições proporcionam métodos pelos quais a conduta humana é padronizada, obrigada a seguir por caminhos considerados desejáveis pela sociedade. E o truque é executado ao se fazer com que esses caminhos pareçam ao indivíduo como os únicos possíveis.» (BERGER, Peter; A perspectiva sociológica – A sociedade no homem; p. 96; 1976). citações extraídas de MOSTRA DE PROTOCOLOS VERBO-IMAGÉTICOS

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