Archive for abril, 2017

reengenharia

[dom] 30 de abril de 2017

aqui fazendo anotações nas avaliações do estudantes… e as músicas no aleatório… de repente… reengenharia, itamar assumpção, genial.

Reengenharia – Itamar Assumpção (Música do disco “Pretobras – Por que não pensei nisso antes”, de 1998)

«Meu amor eu tive uma idéia genial / Que tal inserir nosso lar na economia global / É muito simples não tem filosofia / É só fazer a tal reengenharia / No mundo todo vai que é uma beleza / Por que não fazer igualzinho lá em casa, hein princesa / É só jogar no lixo o que não precisa / A tua mãe, por exemplo, a gente terceiriza / Não se preocupe com a culinária / Agora ficou chique comer porcaria / Ter urticária o que que há de mal afinal / É só um bocadinho de mesquinharia / Meu bem não vejo a hora de fazer economia de escala / O mala do nosso vizinho pegamos botamos fora / A mulher dele a gente incorpora / Vamos acabar com todo desperdício / Afinal qual é o mal é só a beira do precipício / Os amigos a gente elimina / E traz só de brinquedinho baratinho lá da China / Vamos criar um lar bem competitivo / Um lar que seja voltado só para um objetivo / Ente o ativo e o passivo / Vamos ver qual de nós dois ainda continua vivo / Vamos cair de boca no pragmatismo / Afinal qual é o mal, é só a beira do abismo / Querida vamos acabar com todo sossego / Dar um basta nos sentimentos e nos momentos de aconchego / Pulmão otimizado coração desativado no seguro desemprego / Nosso lar vai virar uma operação enxuta / Com muito mais inveja, com muito mais disputa / Afinal qual é o mal em ser só um tiquinho filho da puta / Vamos concentrar nossa vocação meu bem / Ficar querendo o que a gente não tem / Oh! Meu amor eu quero detonar o quarteirão o mundo o bairro / Só pra comprar nosso segundo carro / Oh! Meu amor quando tudo der certo / Ficaremos só nós dois num lindo deserto / Vai ser legal ser moderno aqui no meio do inferno / Poderemos gravar tudo isso em vídeo / Afinal qual é o mal é só um pouquinho de suicídio / Teu irmão eu aniquilo teu pai jogamos no asilo / É, só vamos comer por quilo»

e ao ligar o computador e adentrar a rede… todo mundo me dizendo que belchior morreu.

Belchior nos deixou.
Esse que foi um cantor e pensador da realidade brasileira, comprometido com o povo pobre e massacrado pelo capital, porque “amar e mudar as coisas nos interessa mais”.

Essa entrevista é preciosa: Belchior – MPB Especial (02/10/1974)

Durante a trabalhosa tentativa de emplacar seu primeiro LP, umas das várias aparições de Belchior foi no programa intimista “MPB Especial”, da TV Cultura, em 02 de Outubro de 1974. Nele, um Belchior ainda muito novo, aberto e relativamente zangado (como no depoimento ao fim do programa), se apresentava ao público através de um diálogo autobiográfico, provando que o novo sempre vem. Imagem e som restaurados. 720p e 60fps. TV Cultura, 1974.

 

monsters against empire

[sáb] 29 de abril de 2017

Meta do dia… finalizar correções, e digitar notas. encerrar o prof. online.

mas uma ansiedade absurda… não consigo sentar e terminar. procrastinação nível assustador.

tenho andado um bocado triste nas ultimas semanas.

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das citações:

“Como se comportam nessa companhia os personagens de Walser? E de onde vêm eles? Sabemos de onde vem o “homem que não servia para nada”. Ele vem dos bosques e vales da Alemanha romântica. O Zundelfrieder vem da pequena burguesia das cidades renanas, na virada do século. Os personagens de Hamsun vêm do mundo primitivo dos fjords: homens que se tornam andarilhos por nostalgia. E os de Walser? Talvez das montanhas de Glarner? Dos prados de Appenzel, onde nasceu? Não. Eles vêm da noite, quando ela está mais escura, uma noite veneziana, se se quiser, iluminada pelos precários lampiões da esperança, com um certo brilho festivo no olhar, mas confusos e tristes a ponto de chorar. Seu choro é prosa. O soluço é a melodia das tagarelices de Walser. O soluço nos mostra de onde vêm os seus amores. Eles vêm da loucura, e de nenhum outro lugar. São personagens que têm a loucura atrás de si, e por isso sobrevivem numa superficialidade tão despedaçadora, tão desumana tão imperturbável. Podemos resumir numa palavra tudo o que neles se traduz em alegria e inquietação: todos eles estão curados.”

Walter Benjamin, “Robert Walser” In: Mágia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura, vol. I, 1994 [1929], p. 52.

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Domsch, Sebastian: “Monsters against Empire. The Politics and Poetics of Neo-Victorian Metafiction in The League of Extraordinary Gentlemen.” In: Marie-Luise Kohlke und Christian Gutleben (Hrsg.): Neo-Victorian Gothic. Horror, Violence and Degeneration in the Re-Imagined Nineteenth Century. (Neo-Victorian Series, 3.) Amsterdam [etc.]: Rodopi, 2012, S. 97–122.

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Canal EntrePlanos. um dos melhores canais do youtube. Max Valarezo: Roteiro, direção e apresentação

greve geral

[sex] 28 de abril de 2017

#GreveGeral

a morte do velho garapuvu e outras notas aleatórias de um dia dolorido

[ter] 25 de abril de 2017

notas curtas e aleatórias.

nota #1 um exercício poético sobre um velho garapuvu arrancado da terra e maré que avança sobre a areia e as rochas.

a maré é cheia / a árvore desabou / sinto-me / raízes pra fora / canoa sobre rochas / não há vento / não há areia / não há como respirar // e a rainha do mar vem buscar / a velha árvore morta / futura canoa ainda sobre a terra… / aguardando / germinando / escavando / o homem a ser navegado.

nota #2 pensamentos da tarde. observe a dor alheia, para não enlouquecer com a sua própria dor. observe a tua dor no tempo, para não enlouquecer aqui e agora.

nota #3 dor absurda na cabeça pela tarde. dor aguda no peito pela noite.

nota #4 cuidado para não caires naquela sensação de odiar todos e tudo o tempo todo. cuidado.

nota #5 esqueci meu guarda-chuva no ônibus/linha 267.

nota #6 chá de camomila e refresco de maracujá. só assim pra aguentar a dor de existir. só assim para respirar.

só, somente só.

[seg] 24 de abril de 2017

 

“Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só! “Só! Só! Somente Só!

só porque passei 5 aulas (a noite toda) com esse refrão grudado na cabeça… e não conseguia lembrar do restante da música… nem de quem era. até que em um momento de lucidez… desbloquei e reconheci… moraes moreira… novos baianos… e ai…

Por minha cabeça não passava…
Só! Somente Só!
Assim vou lhe chamar
Assim você vai ser

ps: aleatoriedades… talvez porque dias atrás eu tenha passado um tanto perdido na bicondicionalidade lógica do “se e somente se”.

se e somente se

[sáb] 22 de abril de 2017

se somente se…

p ↔ q
(p → q ) e (q → p)
p se e somente se q.
p se e só se q.
se p então q e se q então p.
p somente se q e q somente se p.
p é condição suficiente para q e q é condição suficiente para p.
q é condição necessária para p e p é condição necessária para q.
todo p é q e todo q é p.
todo p é q e reciprocamente.

 

das coisas que pensei ontem, ou… sobre o médico e o monstro.

[qui] 20 de abril de 2017

sabe quando você começa
a entrar para dentro de si
como se tentesse encontrar
o fundo da caverna
e você se pega indo
até onde já não há mais luz natural
e a única coisa que alumia
é essa luzinha interior.

o caminho da escuridão é perigoso.do

é preciso respirar fundo, para não entrar em desespero.

***
transgressões.
a coisa mais dificil pra mim é a transgressão
sou cheio de cicatrizes pelos cortes da adestração
cada ato de ruptura, cada ato de fuga,
cada ato de subversão, cada ato de confrontação
vem acompanhado de um dor bestial¹
a dor do bicho domado,
do homem feito menos homem
do humano disciplinado, coisificado…

hoje faltei aos compromissos. precisava muito de mim.
as notas, o estado, os outros, essa vida de bosta que se foda.

**

de hoje:
velhos pensamentos….
é preciso acreditar no que você está fazendo
porque só assim os outros acreditarão.

isso eu pensei ano passado. essas 40 horas em sala me cansam. 20 até vai. mas quarenta… mas com vinte não pago as contas, não me aposento…

mas calma… talvez este não seja o único caminho.

veja essas inflamações no seu corpo. uma fortuna para pagar, risco de morte… é, o tédio mata. o estresse mata aos poucos e pode matar de uma hora para outra. e você como uma mula de carga desiste do amor, da vida, dos sonhos… desiste de arriscar-se e encontrar todas as confusões de sentimentos. você se resigna a cumprir uma função, a dar o melhor que tens nessa função, mas sempre falta algo de ti ali… você se acostuma demais com pouco.

**

lá, quando criança, ou garoto, quantas vezes você pensou na morte. na sua morte… quantas vezes você desejou. você quase foi algumas vezes… e depois mais velhos, quantas vezes você voltou nesse caminho. não é uma opção lógica. mas talvez a falta de ferramentas para lidar com situações. de tempos em tempos me vejo nesses buracos, sem saber lidar… racionalmente sei, mas emocionalmente preso não sei sair e fazer o que a razão diz que deve ser feito. é tipo o pânico que tenho de cobra, e que outras pessoas tem… se você dominar as ferramentas e técnicas, se você lidar corretamente com a situação, tudo é inofensivo. mas se você entra em pânico… ratos se tornam elefantes. coisas simples se arrastam e se tornam monstruosamente incompreensíveis e inatingíveis.

eu preciso de terapia. preciso voltar. sozinho tá foda. ando querendo fugir dia desses…

**

pensamento a. ficar só me deixaria imune ao sofrimento (o tempo todo ando idealizando o mundo e a mim mesmo) pensamento b. falácia (a concretude do mundo, os outros e seus sentimentos, as relações, tudo continua ali, como um vendaval soprando sobre o teu castelo de cartas), e é preciso lidar com o sofrimento como algo inevitável. ele continua ali, com ou sem companhias. ele é parte significativa de você. vocé o médico e você é o monstro

**

¹ sou eu literalmente, ou simbolicamente, arrancando parte de mim – desse homem manso. mas as podas são necessárias para brotar coisa nova.

 

 

tudo é sistemático

[ter] 18 de abril de 2017

notas de terça-feira. estou destruido. ps: é apenas a manhã de uma terça-feira.

odeio esses dias em que não se pode respirar.

tudo é sistemático, os horários, das datas, as cobranças, o alarme do dispertador…  os pensamentos obsessivos… a compulsão. mas teu corpo não. tampouco o tempo para isto aqui. escrever é uma fuga, a unica fuga possível.

a ideia de…

e eis que o sistema volta te engolir e teus pensamentos estão arquitetando os minutos para isto e para aquilo e há as zonas esquecidas, aqueles documentos perdidos… aquilo que não se dará contaa: s suas pequenas mortes na guerra, os corpos que ficam, seminus, semicorpos… destroçados. tudo é sistemático. o entulho, os destroços, os estilhaços e cacos do tempo… até tua dificuldade de respirar. tua falta de tempo… tudo é sistemático.

e do fragmento de leitura desta manhã

“augusto, que tolice augusto. mas o homem é assim. ele ficou perturbado com as palavras de alice. incomodava-o aquelas vozes que lhe mostravam o óbvio ou que traziam algo novo, estranho, desconfortável para a narrativa. fatos, ou discursos, que contradiziam a sua autoimagem… ”

 

 

 

 

 

campo minado

[seg] 17 de abril de 2017

sinto como se houvesse uma bomba prestes a explodir.

queria que essa semana voasse… queria que essa semana passasse em slow motion. pra terminar, pra encaminhar… para fazer as coisas acontecerem. e rápido, para respirar.

efeito werther

[sáb] 15 de abril de 2017

Como isto tem o caráter de um bloco de notas. Segue abaixo, mais um nota, copiada e cola aqui. A autoria de é de Allan Kenji.

«Em 2000, a OMS publicou um documento orientando jornalistas sobre como noticiar os suicídios. Esse documento é intitulado “Prevenir o Suicídio: um guia para profissionais da mídia” (OMS, Genebra, 2000). Desde então, tornou-se senso comum que qualquer tratamento não eufemista para o suicídio seria responsável pelo “efeito Werther”.

O “efeito Werther” seria a imitação de uma cena suicida no interior de uma narrativa romantizada sobre esse tipo de morte.

A expressão foi cunhada por David Phillips em um artigo para a American Sociological Review, em 1974, intitulado “The influence os suggestion on suicide: substantive and theoretical implications of the Werther Effect”.

Esse artigo, de 15 páginas, descreve a elevação das taxas de suicídio em diversos países após a publicação de “Os sofrimentos do jovem Werther” (Goethe, 1774). Argumentando que essa obra romantizou a morte da personagem e ofereceu uma saída fácil e covarde.

O artigo é uma peça cômica de estatística, mas não bastasse isso, ignora que a juventude europeia está massacrada pela ausência de perspectivas.

Se, em 1974, houvesse Wikipédia, Phillips saberia, por exemplo, que a revolução francesa ocorre 15 anos depois da primeira publicação da obra de Goethe.

Em 1846, a obra de Goethe já estava publicada há 72 anos e a já existia uma versão censurada desde 1787. Marx, que tinha 28 anos, publicou um pequeno texto chamado “Sobre o suicídio”, no qual, através das palavras de Jacques Peuchet diz o seguinte:

“Tudo o que se disse contra o suicídio gira em torno do mesmo círculo de ideias. Contra ele são postos os desígnios da Providência, mas a própria existência do suicídio é um notório protesto contra esses desígnios ininteligíveis. Falam-nos de nossos deveres para com a sociedade, sem que, no entanto, nossos direitos em relação a essa sociedade sejam esclarecidos e efetivados, e termina-se por exaltar a façanha mil vezes maior de dominar a dor ao invés de sucumbir a ela, uma façanha tão lúgubre quanto a perspectiva que ela inaugura. Em poucas palavras, faz-se do suicídio um ato de covardia, um crime contra as leis, a sociedade e a honra. Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? [..] O que dizer da indignidade de um estigma lançado a pessoas que não estão mais aqui para advogar suas causas? […] As medidas infantis e atrozes que foram inventadas conseguiram combater vitoriosamente as tentações do desespero? Que importam à criatura que deseja escapar do mundo as injúrias que o mundo promete a seu cadáver? Ela vê nisso apenas uma covardia a mais da parte dos vivos. Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens.” (Boitempo, 2006).

Jacques Peuchet não era revolucionário, muito menos socialista, mas trabalhando como diretor dos arquivos da polícia realizou um levantamento censitário na França e teceu duras críticas – ainda que românticas – à sociedade europeia.

Nós não temos censos confiáveis sobre o número de pessoas que se suicidam e o suicídio infantil é proibido de ser registrado como tal até mesmo nos atestados de óbitos, muito embora seja um sintoma dos mais duros sobre a irracionalidade de nosso modo de vida.

Por outro lado, não existe igualmente nenhum estudo substantivo sobre os efeitos da publicização do suicídio. Nós apenas ficamos proibidos de falar sobre isso. Talvez porque se nós soubéssemos quantos de nós adoece e morre em função das desgraças subjetivas inerentes ao capitalismo, a coisa ficaria feia.

Eu tenho a hipótese de que a ausência de debates sinceros sobre nossos pensamentos suicidas é uma das principais vias pelas quais eles são vividos subjetivamente como processos absolutamente individuais.

“[…] o suicídio não é mais do que um entre os mil e um sintomas da luta social geral, sempre percebida em fatos recentes, da qual tantos combatentes se retiram porque estão cansados de serem contados entre as vítimas ou porque se insurgem contra a ideia de assumir um lugar honroso entre os carrascos.” (MARX, 2006, p. 29)

Nós achamos patético que uma fábrica chinesa instale grades nas janelas para evitar que seus funcionários se matem durante a jornada de trabalho, e enquanto isso, evitamos nos perguntar sobre quantas pessoas se suicidaram em nosso campus apenas no último ano.

Não é porque algo é o sintoma da doença de uma sociedade, que seja sinal de doença do indivíduo. Eu trabalho muito todos os dias, desde a hora em que acordo até quase o momento de dormir. Fico feliz com as pequenas conquistas. Mas desde as férias escolares da oitava série, eu nunca mais me senti feliz por uma semana inteira. Desde então, todos os dias há esse dilema sobre “ganhar a vida” e esse sentimento permanente de despossessão. Acho que eu não conheço nenhuma pessoa da minha idade que se sinta agarrada verdadeiramente à vida sequer por uma dúzia dias. Acho que está na hora de nós nos reunirmos no mesmo dia, na mesma hora, e quebrar tudo. Allan Kenji»»

 
 
 
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