a luz do céu de outono

[sex] 13 de abril de 2018

parte de mim não quer voltar. quer ficar aqui, insistir, lutar, mesmo que a cabeça pesada e o corpo cambaleante estejam endurecidos como a terra torrificada. e não haja sentido neste vagar desvairado dos pensamentos em pensamentos nesta mente que anseia. 1h24

[o texto das treze horas não foi salvo]

e neste ponto é impossível reconstruir o texto. perdi. mas era algo no limite do sono, de quando a gente está indo embora e o corpo ficando, aquele desencontro, o etéreo, a brisa que não esfria, que não sustenta a cabeça, e nem liberta o corpo dos destroços, do cansaço extremo, da fadiga. eu sei que não era isso, que havia outra ideia. mas os documentos não foram salvos. veio a vaga, e a onda andou. como a espuma, que pertence ao corpo, mesmo estranha a ele, mas pertence e perenemente retorna a sua condição aquática.

que dor perder o texto, a fala.

e você me convida para o silêncio.

vamos ao sol.

16h24

***

o vento lava meu rosto. o vento rasga a minha cara. a chuva que vem atinge meus ossos e músculos. me lava. e eu, homem do subsolo, espero logo mais lhe encontrar. queria esfriar por dentro. não ter essa febre por dentro. e não amar. nunca mais amar. não ser terra, subsolo, essa coisa vulcânica que provoca terremotos, que abala a terra alheia, que alimenta sementes, raízes e fungos. mais fácil, talvez, seria ser água ou gelo. queria cortar como corta o teu gelo.

17h15

dobro o papel, anoto fim da passagem i, inicio ii.

ela, humana, tem os olhos de outdoor, e tenta dormir. quanto mais quero olhá-la, e como uma mania infantil, foge o meu olhar. quanto mais quero, mais fujo o olhar. jeito atravessado, inverso. [——–] censuro palavras, imagens. queria estar entre tuas pálpebras cerradas, na imagem projetada. tolice, você, ela, tenta dormir, ou apenas esquece essa espera lotada, repleta de gente. ninguém vê. ninguém se olha. todo fogem ao olhar alheio. não somos nada, nem coletivo. somos o silêncio em desespero.

17h37

iii

somos o silêncio em desespero. hoje não quero estar em lugar algum, apenas sinto um fluxo vertiginoso, esse volume de sensações, de sentidos. não é necessário contar um estória, nem ser linear. encontrar um ponto focal, um nexo causal, nesse amontoado de emoções.

iv

há um excesso de azul, na tinta sobre o papel, no céu, no cabelo, na roupa desses outros passageiros, na noite, nos meus olhos, no reflexo do asfalto. no filtro da fotografia.

mas o engarrafamento vai tingindo a dor da espera de vermelho. às vezes, esquecemos que nossos corpos são vermelhos, rubi, mortais como o mercúrio.

256fff1c83168ea2dfcd990d48a1a1df.jpg

queria ser o alimento cru que teu corpo devora… tu, imensa flor, carnívora, engolindo-me, queria agora essa dor, essa gozo, essa morte. nada dessa espera, nesse mormaço, imagino meus pelos nos teus pelos, pele em pele. fricção, atrito, fluxo, língua, saliva, lábios, ácido e salgado, quente, teu gosto, me excita, escrevo, desenho em ti esse versos.

4ufdjyn50jx8ihnvlr6

18h24

v

pessoas insensíveis, formais demais.

18h30

vi

uma sexta-feira, treze, meias e tênis, molhados. e não há rua ou calçada. há apenas um volumoso fluxo de água… a chuva torrente transforma o caminho em rio. salto, quase mergulho por dentro da chuva… me equilibro sobre o meio fio. e encharco meus pés.

te desejo feliz aniversário. falas sobre o céu de outono e sua luz. votamos mais cedo. não consigo te expressar minha angústia. estou cansado… me sinto perdido, um bocado, e apenas cumprimos horário. meu trabalho não me encanta… não encanto ninguém, e sinto-me exausto. queria ter dado um abraço demorado, lento… silencioso, desses que levam a noite, ou uma vida. nos meus olhos vejo a chuva que embala a noite… a chuva dos meus olhos. a noite termina cedo.

21h30

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: