Archive for maio, 2018

soneto número doze

2018, maio 31, quinta-feira

APAGUEI.

tá tudo coçando aqui, e eu não me aguento mais,

mas vamos fechar com um soneto:

sonnet_12_1609

when I do count the clock that tells the time,
and see the brave day sunk in hideous night;
when i behold the violet past prime,
and sable curls all silver’d o’er with white;
when lofty trees i see barren of leaves
which erst from heat did canopy the herd,
and summer’s green all girded up in sheaves
borne on the bier with white and bristly beard,
then of thy beauty do i question make,
that thou among the wastes of time must go,
since sweets and beauties do themselves forsake
and die as fast as they see others grow;

and nothing ‘gainst time’s scythe can make defence
save breed, to brave him when he takes thee hence.
william shakespeare

ou são três?

tradução de  ivo barroso

quando a hora dobra em triste e tardo toque
e em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
quando vejo esvair-se a violeta, ou que
a prata a preta têmpora assedia;

quando vejo sem folha o tronco antigo
que ao rebanho estendia a sombra franca
e em feixe atado agora o verde trigo
seguir no carro, a barba hirsuta e branca;

sobre tua beleza então questiono
que há de sofrer do tempo a dura prova,
pois as graças do mundo em abandono

morrem ao ver nascendo a graça nova.
contra a foice do tempo é vão combate,
salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

e tradução de thereza christina roque da motta

quando conto as horas que passam no relógio,
e a noite medonha vem naufragar o dia;
quando vejo a violeta esmaecida,
e minguar seu viço pelo tempo embranquecida;

quando vejo a alta copa de folhagens despida,
que protegiam o rebanho do calor com sua sombra,
e a relva do verão atada em feixes
ser carregada em fardos em viagem;

então, questiono tua beleza,
que deve fenecer com o vagar dos anos,
como a doçura e a beleza se abandonam,

e morrem tão rápido enquanto outras crescem;
nada detém a foice do tempo,
a não ser os filhos, para perpetuá-lo após tua partida

aqui existo de uma maneira longínqua

2018, maio 30, quarta-feira

4h23

meu rosto está desfigurado.
em carne viva.
infinitas escamas.
meu corpo arde.
tenho febre nos dedos.
ando suspenso.
tenho sonhos ao sol.
não os lembro.
vago imóvel pela madrugada.
abandono a poesia.
desnudo poemas.

e os pelos brancos me assaltam a cara

.
.
.
.
.
.

***

5h06 das notas mentais… acabei, terminei, editei a última postagem atrasada, pus em dia a série de poemas e poetas do #umpoetaumpoemapordia. e seria coisa inútil, se não fosse o prazer da descoberta poética…

«nos meus pensamentos sempre
as palavras lutam duas a duas pela verdade
palavras se metem dentro
de outras palavras querendo idéias
sou uma caixa de vários lados
com vários cantos
com duas sombras
uma escura que nasce da clara
outra clara que nasce da escura
a luz cintila e a sombra dorme
a sombra estatela-se e a luz ergue-se
nasce cada palavra dentro de outra palavra»
FERNANDO LEMOS

5h48 é o horário do segundo trem. hora que devo sair de casa. perícia médica. torcer para voltar antes das oito. e dormir o dia inteiro… ou viver.

23h13. e logo depois voltei, depois de perder uma hora esperando pelo busão que não veio… planos do dia zero a um para a falta de busão. reagendar compromissos e voltar a dormir, dormir mal. e na tarde, na volta do curativo, caminhei os três quilômetros (falta de busão, dois a zero?)… e tenho dor, mas rascunhei esse exercício abaixo:

fixação pelo verbo
oxidação do ferro
a água que invade
a gravidade deixa
a dança das conchas
entre a espuma e areia
o sol
o vento terral
a face
a tarde inteira
nada resiste

à necessidade da palavra
vagner boni, sambaqui, 30/05/2018

terra imóvel

2018, maio 29, terça-feira

o dia amanhece, os pássaros cantam. eu vou dormir, em busca do silêncio da noite… não respondo ninguém. deixo os compromissos esperarem, as pessoas no vácuo. e quando a noite chega… acordo, levanto…

e da série #umpoemaumpoetapordia, pondo em dia…

O poema

I
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontando ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

II
Piso do poema
chão de areia

Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira

o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se ateia

ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome.

Terra Imóvel (1964)

Luiza Neto Jorge 

“O Poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada e subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós numa homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge 

«Como responder o que é a poesia?» Raquel Menezes