Archive for junho, 2018

terapia

[qui] 28 de junho de 2018

das conquistas diárias…

6 km caminhados. e uma sessão terapêutica.

la nuit a dévoré le monde

[ter] 26 de junho de 2018

medicado (doze dias já). arredio, mais que o comum (mas conseguindo sair de casa). terapia começa quinta-feira.

esquivando-me dos pensamentos tristes, mas um ou outro me acerta, às vezes.

e o peito acelera, às vezes sufoca, como se o mundo comprimisse… mas ando conseguindo respirar por estes dias.

só para registrar, que a noite devorou o mundo, mas ainda estamos vivos.

no começo não foi o verbo: no início, era a relação

[seg] 18 de junho de 2018

travei. não consigo corrigir as tarefas. não consigo pensar uma aula. não consigo… sair dessa vontade de voltar para a cama.

mas tento ler… para ver se encontro a saída.

«Mills faculta encontros; encontros entre o leitor e outros que se escrevem; encontros com a reflexão que transcende os limites estreitos do ‘eu’ projetando-nos nas biografias e na história. A elegância e a forma ao mesmo tempo contundente com que questiona a produção do conhecimento, reforça a hipótese de que, possivelmente, no começo não foi o verbo: no início, era a relação. E então, com Mills e Moreno, finalizo imaginando que a vida seja toda feita de (re)encontros.»

A imaginação sociológica e questões críticas em C. Wright Mills: pontos de referência ao papel do educador, por Gastão Octávio Franco da Luz.
In: Educar em Revista no. 12 Curitiba Jan./Dec. 1996

cope

[sex] 15 de junho de 2018

escrever por vezes
parece ridículo.
um despropósito.
um descabimento…
pois como reclamar,
se inúmeras condições
objetivas te permitem
o contrário do que tu és
do que teus olhos te deixam ver
de tua imagem interna
disto por dentro da carne.

mas falar, tete à tete,
sobre a dor de dentro…

eu não sustento
os olhos nos olhos.
não seguro o embargo
e a lágrima.

há muita água represada…
preciso desaguar
todo sal
e todo sangue.

a fantasia de suicídio

[qui] 14 de junho de 2018

«Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha encontros diários com as suas contradições. Acho que essa freqüência nos desencontros ajudava o seu ver oblíquo. Falou por acréscimo que ela não contemplava as paisagens. Que eram as paisagens que a contemplavam. Chegou de ir no oculista. Não era um defeito físico falou o diagnóstico. Induziu que poderia ser uma disfunção da alma. Mas ela falou que a ciência não tem lógica. Porque viver não tem lógica – como diria a nossa Lispector. Veja isto: Rimbaud botou a Beleza nos joelhos e viu que a Beleza é amarga. Tem lógica? Também ela quis trocar por duas andorinhas os urubus que avoavam no Ocaso de seu avô. O Ocaso de seu avô tinha virado uma praga de urubu. Ela queria trocar porque as andorinhas eram amoráveis e os urubus eram carniceiros. Ela não tinha certeza se essa troca podia ser feita. O pai falou que verbalmente podia. Que era só despraticar as normas. Achei certo.» Manoel de Barros – Um olhar

 

há alguns rascunhos que não verão a luz tão cedo porque algumas palavras e pensamentos são patéticos demais. ando a sentir-me patético, preciso escrever para não implodir, por dentro, mas o que sai, é torpe, é besta, é ridículo. isto basta, escrevo e escondo, e pronto.

e a dúvida, de ontem, era, que argumento encontraria para justificar essa vontade de não sair de casa, de não fazer nada. da falta…

e eis, que acordo não conseguindo respirar direito… com uma dor física terrível… que ótima solução para não ir trabalhar, ficar doente fisicamente. e pouco importa se há atestado ou não, basta apenas que os outros saibam que você sofre por dentro. que a vida dói.

***

A fantasia de suicídio

«A fantasia de suicídio é indispensável. Nenhum ser humano pode prescindir dela, sobretudo na adolescência e naqueles que conservaram as qualidades da adolescência por toda a vida. Mas o fato de passar ao ato do suicídio é coisa completamente diferente, algo de neurótico, uma doença aguda e repentina, um pedido de socorro não atendido. Isso é o suicídio. É verdade que, se eu não tivesse tido idéias suicidas, não estaria plenamente viva. Todo o mundo, num momento ou noutro, tem idéias suicidas; quem não as teve ainda não passou a adolescência; mas terão, fiquem tranquilos… talvez com cinquenta anos! É necessário passar por isso; é um modo de entender os outros, que também passam por isso; um modo de não passar ao largo daqueles que clamam por socorro. 

É importante que os jovens que tiveram idéias suicidas possam contar aos outros. Não se deve dizer: ‘Faça o favor de não falar desse jeito, que está dizendo asneiras!’, mas sim: ‘É mesmo? Conte essa.’ Felizmente há avós (eles se angustiam menos que os pais) capazes de dizer: ‘É mesmo! Conte essa! Sabe, isso me lembra…’ Há mesmo os que se lembram de romances em que alguém acaba se suicidando. Há transferência, ou seja, uma relação muito rica com uma avó, por exemplo, que nos faça ler um bom texto sobre suicídio de Werther ou de outro, por que não? O suicídio faz parte dos condicionamentos do pensamento humano por causa de nosso orgulho em nos dar vida, e nos dar morte. Somos feitos assim, queremos dominar tudo. Enfrentar a fantasia de suicídio e sobreviver é fazer o luto da onipotência.

Às vezes um filho, descontente com os pais, diz só para contrariá-los: ‘Pois bem, vou me matar!’ Os pais ficam desvairados, em vez de dizerem ao filho: ‘Desse jeito você não vai ter ninguém mais para reclamar!’ Cabe à mãe responder: ‘Conte-me, o que vai acontecer quando você morrer?’ O filho: ‘Você vai ficar bem chateada.’ A mãe: ‘Vou ficar triste.’ Há mães que acham que é esperteza responder: ‘Que bom! Vou ficar livre.’ Elas estão erradas por não levarem a sério. Nem é sério nem deixa de ser. É uma fantasia tentadora no ser humano, que a criança pode expressar em se sentir culpada. Vai ver que essa fantasia existe em todo o mundo. Ajuda-se uma pessoa mostrando-lhe que não é um pária por pensar nisso. Ela achava que isso era ruim, mas vê que faz parte da cultura, que é exprimível, é o drama humano de todos.

A solidão é inevitável, a angústia não é tão evitável, as fantasias de suicídio não são evitáveis. Todos temos de passar por isso. Não é nem bom nem mau. É a condição humana. Então, podemos colaborar uns com os outros. É viver. Que nem sempre se consegue, é verdade.» DOLTO, Françoise. Solidão. Ed. Martins Fontes, SP; 1998

textos para leitura posterior… algum dia, quando houver calma.

Quando estamos sós e deprimidos, não conseguimos ir em direção aos outros
A eterna dança da solidão
Um caso de histeria. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos – Sigmund Freud
O que eu me tornei para mim mesmo? O homem sem qualidades, e o caráter predatório da modernidade tardia / Maria Thereza Waisberg. – 2008
,

milágrimas

[ter] 12 de junho de 2018
hoje rastejei…
ando assim por esses tempos…
e agora cheio de salompas

ando a acreditar que as dores comigo trocam de lugar

sano um ponto, elas migram para outro, cá

no mais… continuo adiando o inadiável.
há uma montanha de papel por corrigir…
há tantas coisas em modo espera…
mas não desanimar, pensar positivo, achar qualquer coisa boa, não deixar a mente negar tudo… ver o mundo como terra devastada.
*

Itamar Assumpção

“Milágrimas” (Itamar Assumpção e Alice Ruiz)

Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo

Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto esqueça o seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas
Sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

 

ocean’s eight

[dom] 10 de junho de 2018

adaptação. e é como se esse cara aqui, não fosse o cara de dez anos atrás. em alguns momentos pareço mais o cara de vinte anos atrás… é hora de crescer.

mas mesmo com uma dificuldade monstra para sair… encontrando mil desculpas em off para não mover-se… rompemos (eu e meus medos) a barreira da inércia e vamos ao cinema, com a filha, e só porque é a filha…

mas me sinto num safári… me sinto deslocado em ambientes com multidões…

e a dor me persegue… dificuldade de respirar, atravessa-me da escapula ao peito… como se houvesse um dor percorrendo o corpo. sano uma parte, ela escorre para outra parte do corpo.

 

1 x 0

[sáb] 9 de junho de 2018

aos 122 minutos de jogo, no estádio das laranjeiras, el tigre, friedenreich fazia o gol. era 29 de maio de 1919. brasil campeão.

tempos depois, pixinguinha e benedito lacerda fariam esse choro, aqui interpretado por baden powell.

1964 – Baden Powell – Um a Zero (1X0) (Choro de 1946)

***

e essa semana foi boa. mesmo o sol estando na casa 2, e a lua na casa 11.

a ferida

[sex] 8 de junho de 2018

Memórias de Saigon.

“Já estava acostumado aos amputados, às vitimas do agente laranja, aos famintos, pobres, garotos de rua de seis anos de idade que você encontra às três da madrugada gritando “Feliz ano novo! Olá! Bye-Bye!” em inglês, e depois aponta para suas bocas e faz “bum bum?”. Estou ficando quase indiferente aos garotos famintos, sem pernas, sem braços, cobertos de cicatrizes, desesperançados, dormindo no chão, em triciclos, na beirada do rio. Mas não estava preparado para o homem sem camisa, com um corte de cabelo a la forma de pudim, que me detém na saída do mercado, estendendo a mão. No passado ele sofreu queimaduras e tornou-se uma figura humana quase irreconhecível, a pele transformada numa imensa cicatriz sob a coroa de cabelos pretos. Da cintura para cima (e sabe Deus até onde), a pele é uma cicatriz só; ele não tem lábios, nem nariz, nem sobrancelha. Suas orelhas são como betume, como se tivesse mergulhado e moldado num alto-forno, sendo retirado pouco antes de derreter por completo. Mexe seus dentes como uma abóbora de Halloween, mas não emite um único som através do que foi um dia, uma boca. Sinto um murro no estômago. Minha animação exuberante dos dias e horas anteriores desmorona. Fico paralisado, piscando e pensando na palavra napalm, que oprime cada batida do meu coração. De repente nada mais é divertido. Sinto vergonha. Como pude vir até esta cidade, até este país por razões tão fúteis, cheio de entusiasmo por algo tão…sem sentido, como sabores, texturas, culinária? A famíla daquele homem deve ter sido pulverizada, ele mesmo transformado num boneco desgraçado, como um modelo de cera de madame Tussaud, a pele escorrendo como vela pingando. O que estou fazendo aqui? Escrevendo um livro de merda? Sobre comida? Fazendo um programinha leve e inútil de tevê, um showzinho de bosta? A ficha caiu de uma vez e fiquei me desprezando, odiando o que faço e o fato de estar ali. Imobilizado, piscando nervosamente e suando frio, sinto que todo mundo na rua está me observando, que irradio culpa e desconforto, que qualquer passante vai associar os ferimentos daquele homem a mim e ao meu país. Dou uma espiada nos outros turistas ocidentais que vagueiam por ali com suas bermudas da Banana Republic e suas camisas pólo da Land´s End, suas confortáveis sandálias Weejun e Bierkenstock, e sinto um desejo irracional de assassiná-los. Parecem malignos, comedores de carniça. O Zippo com a inscrição pesa no meu bolso, deixou de ser engraçado, virou uma coisa tão pouco divertida quanto a cabeça encolhida de um amigo morto. Tudo o que comer terá gosto de cinzas daqui pra frente. Fodam-se os livros. Foda-se a televisão. Nem mesmo consigo dar algum dinheiro ao coitado. Tenho as mãos trêmulas, estou inutilizado, tomado pela paranoia… Volto correndo ao quarto refrigerado do New World Hotel, me enrosco na cama ainda desfeita, fico olhando para o teto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de digerir ou entender o que presenciei e impotente para fazer qualquer coisa a respeito. Não saio nem como nada pelas 24 horas seguintes. A equipe de tevê acha que estou tendo um colapso nervoso.
Saigon…Ainda em Saigon.
O que vim fazer no Vietnã?”

«A Ferida», texto de Anthony Bourdain, no livro «Em Busca do Prato Perfeito»

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as cidades e a memória

[seg] 4 de junho de 2018

«Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

– Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta altura a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: – Você viaja para reencontrar o seu futuro?

E a resposta de Marco: – Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.»

As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. pág. 28-29

***

é chegaram… A poesia soviética [Poesia Soviética. Lauro Machado Coelho. Algol Editora 656 páginas. Ano: 2007] e os dois de Italo Calvino [Por que ler os clássicos (Edição de bolso). Italo Calvino. Tradução: Nilson Moulin. Companhia de Bolso] e As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. Companhia das Letras, 2017, 2ª edição, 21ª reimpressão. Tradução Diogo Mainardi].

***

depois de dez dias em casa… segunda é dia de trabalho. e aquele dilema, aquela dificuldade de sair para o mundo real… ver pessoas, fazer uma cara sociável… cumprir horários.

tem sido tenso viver nesse último mês, nesses últimos anos.

programei postagem para a semana toda, no outro blogue [assim esqueço].

nota importante… se eu não tiver forças para viver por mim, que eu tenha por izabel. hoje, ela me contou que está triste, profundamente triste, mortalmente triste…

contei pra ela do sonho que tive ontem. acordei ainda com sua reminiscência, eu engolia um copo cheio de areia, e me via triste e engasgando, e meu pai, de carro, chegou, e pensei, preciso de ajuda, preciso dizer para ele, que sozinho eu não consigo sair dessa, olha meu estado... e subitamente acordei, ainda engasgado.

[tenho estado engasgado por muito tempo já. é um engasgar na garganta, no peito, nos sonhos…]

e foi simbólico. precisamos de ajuda. terapia, mas sobretudo, mudança de rotinas e hábitos.

***

depois de quase cinco meses em sala, hoje, as coisas começaram a fazer sentido. acorda raimundo [Curta-metragem. Drama/ficção. Brasil. 1990. Direção e roteiro: Alfredo Alves]…

lembrar de Adorno, e sua educação contra a barbárie.

lembrar Marcuse

lembrar Florestan

 

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