você consegue?!

[qua] 26 de setembro de 2018

«Quando refletimos sobre a Natureza em geral, ou sobre a história da humanidade, ou sobre nossa própria atividade intelectual, vemos em primeiro lugar a imagem de um incessante emaranhado de relações e reações, de permutações e combinações, nas quais nada permanece o-quê, onde e como era, mas nas quais tudo se move, toma forma e passa. Vemos portanto em primeiro plano a imagem de um todo, com suas partes ainda mais ou menos mantidas ao fundo; observamos os movimentos, as transições, as conexões, em vez das das coisas que movem e combinam e estão ligadas. Esta concepção do mundo primitivo, naif, porém intrinsecamente correta, é a mesma da filosofia grega antiga, e foi formulada pela primeira vez com clareza por Heráclito: tudo é e não é, porque tudo é fluido, está constantemente mudando, constantemente tomando forma e passando.» Friedrich Engels (Anti-Dürhring)

o texto acima, foi a primeira imagem que me apareceu ontem, depois do cochilo que dei pela manhã. uma velha amiga deve estar a ler o livro de Shulamith Firestone – A Dialética do Sexo.

***

e eu estou com uma revolta na altura do estômago… tenho ânsia… fico dando voltas e mais voltas e não saio do lugar… não comecei a estudar para a prova desta quarta-feira.

joguei fora cinco dias… agora só falta meio. e há textos que nem li ainda…

por quê?

***

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo. 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que venho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

é uma composição que Fernando Pessoa assinou com o seu heterônimo Álvaro de Campos

***

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