drénto ao singular nu

[qua] 31 de outubro de 2018

fredrikraddum fredradd.jpg

o homem caído, escultura em bronze, do norueguês Fredrik Raddum

foi um dia insuportável… peito doendo e pesado, ansiedade e tristeza, vontade de fugir, faltei novamente.

tomei nota de todas as dores e confusões… narrar na próxima sessão.

mas consegui sair (lá pelas 19h10) e ir até a aula de revisão (20h20-22h00). são desse momento as notas abaixo, exceto caio f. e drummond, que foram lidas no dia, aliás, dia da poesia.

dobras e redobras: do singular nu no português brasileiro – costurando a semântica entre as línguas

o singular nu e a sentença genérica no português brasileiro (PB), por Andréia de Fátima Rutiquewiski Gomes

«Pelé vai chutá, vai tentá ponhá a bola no gor, chutô. A bola tá drento tá lá drento. É gor!» Rubens Oliveira Bisson

drénto, Veneto.  Avverbio dentro;  Preposizione all’interno di, dentro

«(i) a gramática normativa versa sobre a língua que não é a nossa (escrita) (…) O problema é o professor simplesmente não se dar conta que o aluno está aprendendo uma segunda língua, e para piorar, avalia como errada a língua do aluno, que não é a língua que ele (o professor) mesmo fala. [p.24] (ii) a visão de língua perpetuada por esse tipo de gramática não contribui para um entendimento científico da linguagem humana – A linguística ao por a língua sob o foco naturalista pode contribuir para mudar esses estado de coisas. olhar científico permite entender a língua que falamos (e que somos) para aprendermos outras línguas. Essa visão naturalista nos dá ferramentas para entendermos as coisas, no caso, a língua, livre de preconceitos e imposições normativas.» [p.26] Basso, Renato Miguel; Pires de Oliveira, Roberta. Feynman, a linguística e a curiosidade, revisitado. In: matraga, rio de janeiro, v.19, n.30, jan./jun. 2012

***

por Caio Fernando Abreu

«(…) Tanto tempo pela frente e o que acontecerá? Ando achando muito difícil sobreviver – essa coisa aparentemente simples, você dorme hoje, acorda amanhã, come, trabalha, faz coisas, depois dorme amanhã, acorda depois de amanhã, assim por diante. Esse encadeamento tão natural que deveria ser quase automático, e portanto sem emoção nem sustos, eu ando achando cheio de solavancos, derrapagens, sim, cheio de sustos. Por isso preciso de tempo, dizem que tempo resolve.

(…) As manhãs são brancas, parecem feitas mais para se olhar as coisas do que para se dizer algo sobre elas. Além disso, preciso ter cuidado. Um amigo me avisou que exponho demais fragilidades, fiquei preocupado. Talvez expor fragilidades seja o único jeito de ser que eu tenho, então não sei se isso tem solução.

Andei sonhando um pouco, também. Ainda não é proibido, mas tem preço. Depois andei tentando não sonhar, mas isso também tem preço. Não tenha expectativas, me disseram. Fiquei tentando não ter expectativas – essa coisa que amolda e desenha o futuro? Me pareceu tão seco. Estou tentando me mexer, agora, dentro desta manhã branca, no meio desse branco que não dá forma nem cor ao futuro. Tive vontade de deixar na secretária eletrônica um recado mais ou menos assim: “Fui viajar. Não vou voltar”. Só para preocupar um pouco os outros. (…)

Nos últimos dias, não vi nenhum filme. Não ouvi nenhuma música. Foi um tempo branco, também. Mas recebi um poema de Renata Pallotini, e dois versos dele ficaram dando voltas na minha cabeça: “Olha garoto fica combinado assim: perdemos só está batalha, e não a guerra”. Às vezes fico parado repetindo: “Perdemos só esta batalha, e não a guerra”.

Acho que com o ano terminando e tudo isto aqui com este sabor de despedida, mesmo provisória, eu deveria dizer uma porção de coisas pelo menos um pouco animadoras, essas coisas que se dizem nos finais de ano. Desculpa, não estou conseguindo.  (…) Preciso que esse tempo passe e me leve dentro dele, porque até lá, honestamente e sem nenhuma espécie de modéstia, estou mesmo meio burro. (…)» Crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo dia 16/12/1987

***

Parolagem da Vida

«Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.

Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.

Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!»

Carlos Drummond de Andrade

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