Archive for dezembro, 2018

meu tio da américa

[seg] 10 de dezembro de 2018

peito em febre.

acordo cedo.

mate, chamego no cão, sofá e tevê.

aleatoriamente «mon oncle d’amérique». um filme francês de 1980, do gênero drama psicológico, dirigido por Alain Resnais. inspirado nas teorias do professor Henri Laborit, médico, biólogo e pesquisador do comportamento humano (behaviorista).

Roteiro: Henri LaboritJean Gruault

[PS leia a excelente crítica sobre o filme feita por Amanda Aouad Almeida do cinepipocacult]

meu-tio-da-america-03

«DOIS ANOS MAIS TARDE. QUINTA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 1979

Colocamos um rato numa gaiola… com dois compartimentos…  ou seja, um espaço separado|por uma divisória com uma porta… em que o chão está eletrificado, intermitentemente. E, antes que a eletricidade passe pelo chão, um sinal previne o animal… de que, em 4 segundos a corrente vai passar. A princípio ele não sabe… Percebe depressa, mas de início fica inquieto. Rapidamente vê a porta aberta e passa para a divisória ao lado. O mesmo volta a acontecer alguns segundos depois. Ele aprenderá também muito rapidamente… que pode evitar o pequeno choque elétrico nas patas… passando para o compartimento da gaiola, onde estava a princípio. Este animal, é submetido a esta experiência… durante uns 10 minutos por dia durante 7 dias seguidos… ao fim desse 7 dias… está em perfeitas condições.  Saúde perfeita. Pelo suave… pressão arterial normal. Ele evitou, através da fuga, a punição. Conseguiu prazer. E manteve o seu equilíbrio biológico.  O que é fácil para um  rato numa gaiola… é muito mais difícil para o Homem em sociedade. Certas necessidades foram criadas… por essa vida em sociedade, desde a infância. e raramente pode, para satisfazer essas necessidades… recorrer ao combate quando a fuga se revela ineficaz.  Quando dois indivíduos|têm objetivos diferentes… ou o mesmo objetivo… mas competem pelo mesmo objetivo… há um vencedor e um perdedor.  Se estabelecerá uma dominação… de um dos indivíduos sobre o outro. A procura da dominação num espaço a que chamamos… território… é a base fundamental… de todo o comportamento humano, embora não estejamos conscientes das motivações. Não há um instinto de propriedade, nem um instinto para dominar. Há apenas a aprendizagem, do sistema nervoso de um indivíduo… da necessidade de conservar à sua disposição um objeto ou um ser que seja desejado… invejado… por outro ser. Já dissemos que não|somos mais do que os outros. Uma criança selvagem, abandonada longe dos outros… nunca se tornará um homem. Nunca aprenderá a falar, ou a andar. Se comportará como um animalzinho. Através da linguagem, o Homem tem sido capaz de transmitir de geração em geração… toda a experiência que acumulou durante milhões de anos. Ele já não pode, há muito tempo, assegurar a sua sobrevivência por si próprio. Ele precisa de outros para poder viver. Ele não sabe fazer tudo, não é politecnista. (…) a sobrevivência do grupo está ligada… ao ensino desde criança… daquilo que é necessário para funcionar em sociedade. Ensinamos a não fazer cocô nas calças,|a fazer xixi na privada. Depois, rapidamente, ensinamos|como ele deve se comportar… para que a coesão do grupo possa existir. Ensinamos o que é belo, o que é bom… o que é mau, o que é feio. Dizemos o que deve fazer… e punimos ou recompensamos… independentemente da sua própria busca do prazer… punimos ou recompensamos… de modo que a sua ação… esteja conforme as necessidades de sobrevivência do grupo. Está quente… Cuidado! Vai se queimar. Vê como gira? Sente-se direito! Aperte a mão da senhora. – Repete comigo: “U.S: go home!”|- U.S. go home. Um, dois, segundo, três, quatro… tem quatro dedos!  Estamos começando a perceber como nosso sistema nervoso funciona. Só há uns 20 ou 30 anos… é que somos capazes de compreender. Como à partir de moléculas químicas que constituem a base… se estabelecem conexões nervosas, que serão programadas… }impregnadas, pelo condicionamento social. E tudo isso, num mecanismo inconsciente. Em outras palavras, os nossos impulsos e automatismos culturais… serão mascarados pela linguagem, pelo discurso lógico. “Morrer pelo país|é um destino tão grandioso… que legiões implorarão uma morte tão bela.” “A raça branca, a mais perfeita das raças humanas… habita sobretudo na Europa, na Ásia Ocidental… Norte de África e América.” Portanto…  15 francos por um primeiro lugar… 10 francos por um segundo… 5 francos por um terceiro… e a partir do quarto… um pontapé no traseiro! (…)  Assim, a linguagem ajuda a esconder a causa da dominância… para mascarar o mecanismo que estabelece essa dominância… e a convencer o indivíduo que, ao trabalhar para o coletivo social… realiza o seu próprio prazer. Embora geralmente não faça mais… do que manter posições hierárquicas… que se escondem por detrás de álibis linguísticos. Álibis fornecidos pela linguagem, que servem de desculpa.

Nessa segunda situação… a porta entre os dois compartimentos está fechada. O rato não pode fugir. Vai, portanto, passar por uma punição que não pode escapar. Esta punição vai provocar nele um comportamento de inibição. Ele aprende que qualquer ação é inútil, que não pode fugir nem lutar. Inibe-se. Esta inibição, acompanhada no Homem, pelo que chamamos de angústia… é também acompanhada, no seu organismo, por profundas perturbações biológicas. Se um micróbio está presente no ambiente… embora, normalmente,  as defesas funcionassem… estão inibidas, e ele pega uma infecção. Se há uma célula cancerosa, que, normalmente, seria destruída… vai produzir um câncer. E todas essas desordens biológicas desencadeiam… aquilo que chamamos de doenças da “civilização”, ou psicossomáticas. As úlceras no estômago, a pressão alta… a insonia, a fadiga… o mau-estar.

Na terceira situação… o rato não pode fugir. Irá receber a mesma punição… mas será confrontado com outro rato… que será seu adversário. Nesse caso, ele vai lutar. Este combate é absolutamente inútil… não permitirá evitar a punição. Mas ele vai agir. O sistema nervoso é feito para agir. Este rato não vai apresentar qualquer problema patológico… como os que vimos no caso anterior. Vai ficar em excelentes condições… embora tenha recebido a mesma punição. Mas, no caso do Homem… as leis da sociedade|normalmente proíbem… essa violência defensiva. O operário que vê diariamente… o encarregado que odeia… não pode lhe partir a cara. Acabaria na prisão. Não pode fugir, ficaria sem trabalho. E, todos os dias da semana, todas as semanas do mês… todos os meses, às vezes, durante anos… está impedido de agir. O Homem tem diversas  maneiras de lutar… contra este impedimento da ação. Pode recorrer à agressividade. A agressividade nunca é gratuita. É sempre uma resposta… ao impedimento da ação. No aliviamos, numa explosão agressiva… que raramente compensa, mas que, no funcionamento do sistema nervoso, é perfeitamente explicável.

(…) Assim, como dizíamos… uma pessoa, numa situação em que a ação é impedida…  se esta se prolonga, vai afetar a saúde… as perturbações biológicas consequentes… não causarão apenas… o aparecimento de doenças infecciosas… mas também o comportamento a que chamamos de “doenças mentais”. Quando a agressividade não se exprime contra os outros… pode ainda exprimir-se contra si próprio, de duas maneiras: somatizando, ou seja, dirigindo a agressividade sobre o estômago, deixando um buraco… uma úlcera… ou para o coração e as artérias, causando hipertensão arterial… por vezes, mesmo lesões agudas… que conduzem a doenças cardíacas brutais…. enfartes, hemorragias cerebrais; ou desenvolvendo alergias ou crises de asma. A outra forma de orientar a agressividade… contra si próprio, de uma forma ainda mais eficaz… é o suicídio!  Quando não podemos dirigir a agressividade para os outros… podemos ainda ser agressivos com nós mesmos.»

***

plano da tarde:

matear na praia, com a minha mãe e minha filha.

e tirar fotos

***

MATILDE CAMPILHO

Matilde Campilho
Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

PEDRA EXPLODIDA 
NA MÃO DO MONGE

Matilde Campilho

Penso em astronautas
não penso em árvores chinesas
penso na contagem dos cabelos
não penso em punhais
disfarçados de arma desportiva
Penso em camisas vermelhas
em minha camisa vermelha
com um pequeno buraco
na zona lombar
Penso no êxodo
dos vendedores de picolé
nas migrações pendulares
penso em garrafas vazias
penso em tanques de guerra
penso em jabuticaba & acarajé
Penso no rosto e nos braços
da cantora de Santo Amaro
penso em pipas e em meninos
soltando pipas.

The ABC of Love, Léonce Perret, 1923.

[ps… no final do dia… a surpresa… mesmo eu tendo jogado a toalha e não feito uma das avaliações da disciplina… passei em teoria literária… no limite. estou devendo um semestre para meus colegas de grupo, principalmente o carlos, por terem deixado meu nome no trabalho, mesmo eu não tendo respondido nenhuma questão. ou a cláudia, prof, que arrendondou minha nota pra cima pelo meu desenvolvimento na metade final do semestre… mas enfim, não importa, o que importa é que alguém me salvou nesse jornada de cursar mais um semestre de teoria literária… ]

foco rapaz… faça por você e pelos outros… o que os outros tem feito por você.

 

atenção ao sábado

[seg] 10 de dezembro de 2018

certo, eu sei… já é segunda-feira. mas é que preciso registrar agora…

quem em sã consciência é picado por uma vespa as duas e meia da manhã enquanto toma banho, logo antes de ir dormir?

que dor horrível que estou sentido agora… e bem no peito esquerdo.

e como hoje é aniversário de clarice (… e antes que eu comece a passar mal, lá vai um trecho que fala dessa sensação, ou similar, que sinto agora:

ATENÇÃO AO SÁBADO

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.

Domingo de manhã também é a rosa da semana.

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Siciliano, 1992

extraído deste blogue interessante trecos & trapos

que pedrada… the miseducation of eunice waymon

[dom] 9 de dezembro de 2018

   que pedrada…

essa mescla-musical é absurdamente perfeita… que foda!

As obras de Nina Simone e Lauryn Hill se encontram em “The Miseducation Of Eunice Waymon”

«O cara dos mash-ups perfeitos, Amerigo Gazaway, está de volta em mais um episódio sonoro espetacular criando parcerias inusitadas e certeiras». por 

+info:
https://amerigo.bandcamp.com

1. 0:00 Nina Simone & Lauryn Hill – Feeling Good 04:59
2. 4:59 Nina Simone & Lauryn Hill – Ready Or Not feat. The Fugees 05:29
3. 10:28 Nina Simone & Lauryn Hill – Doo Wop (That Thing) 04:24
4. 14:52 Nina Simone & Lauryn Hill – To Zion feat. Carlos Santana 05:46
5. 20:38 Nina Simone & Lauryn Hill – Fu-Gee-La feat. The Fugees 04:57
6. 25:37 Nina Simone & Lauryn Hill – The Sweetest Thing feat. John Forté 05:19
7. 30:56 Nina Simone & Lauryn Hill – Take It Easy 04:37
8. 35:33 Nina Simone & Lauryn Hill – Peace Of Mind 04:20
9. 39:55 Nina Simone & Lauryn Hill – Lost Ones 04:45
10. 44:41 Nina Simone & Lauryn Hill – Killing Me Softly 06:04
11. 50:11 Nina Simone & Lauryn Hill – If I Ruled The World feat. Nas 03:49
12. 54:01 Nina Simone & Lauryn Hill – How Many Mics feat. The Fugees 05:01
13. 59:02 Nina Simone & Lauryn Hill – So High feat. John Legend 03:54
14. 1:02:56 Nina Simone & Lauryn Hill – Care For What 02:55
15. 1:05:51 Nina Simone & Lauryn Hill – Angel Of The Morning 03:41
16. 1:09:32 Nina Simone & Lauryn Hill – The Miseducation of Eunice Waymon 05:00
17. 1:14:32 Nina Simone & Lauryn Hill – Fu-Gee-La (Refugee Camp Remix) [Bonus Track] 05:35

1:19:55 The Miseducation of Eunice Waymon (Official Teaser Video) [Bonus Track]

doubles en nous mesmes: ficções e experimentos…

[dom] 9 de dezembro de 2018

pelas discussões dos últimos dias (sobre religião, humanidade, racionalidade, consciência, condição humana)…

começamos por aqui:

O PODER DA FICÇÃO NA SOCIEDADE

texto do vídeo abaixo disponível no excelente canal Casa do Saber

“Ficção: Poderosa Arma dos Homens” escrito por Claudia Feitosa-Santana baseado na seção sobre ficção do livro “Sapiens” de Yuval Noah Harari. Resumo: Quando o ponto de vista é compartilhado por todos nós, geralmente estamos falando de uma realidade objetiva como: água, floresta, baleia. Quando o ponto de vista é dificilmente compartilhado por todos, geralmente estamos falando de uma realidade subjetiva também conhecida como ficção. Quando uma realidade subjetiva é compartilhada por quase todo mundo, ela se parece com uma realidade objetiva. Dois exemplos: Deus e dinheiro, ficções aceitas pela maioria. Quanto mais gente acreditar numa realidade subjetiva, menos ela se parece com uma ficção. As ficções são extremamente necessárias para nossa organização em sociedade e nenhum outro animal no planeta tem a imaginação que nós temos: É difícil respeitar o direito alheio? Criamos a Lei. A vida nem sempre parece ter sentido? Criamos Deus. É difícil amar ao próximo como a si mesmo? Criamos a Religião. A vida é muito curta? Criamos a Vida Eterna e a Reencarnação. É difícil ter apenas um parceiro? Criamos o Casamento. As ficções partilhadas facilitam a cooperação. Dois evangélicos que não se conhecem podem juntos protestar contra o aborto e o casamento gay. Dois norte-americanos que nunca se viram vão para a guerra como irmãos em nome de sua nação. Dois funcionários de uma mesma corporação que não se conhecem são capazes de trabalhar num projeto juntos por meses e terminarem sem conhecer nada da vida pessoal um do outro. Realidade objetivas, fonte esgotável. Realidades subjetivas, fonte inesgotável de ficções. Nossas realidades subjetivas são muito mais poderosas que as objetivas e até mesmo a sobrevivência da água das florestas e das baleias depende da graça concedida por deuses, estados e corporações.

C

e pelo acaso, encontrar «experimenter» ou «o experimento de milgram», filme dirigido por Michael Almereyda (2015).

não peguei o começo e nem o final do filme, mas os poucos minutos que vi, despertou o desejo de vê-lo todo, e pesquisar mais sobre…

«Stanley Milgram (1933 – 1984) foi um psicólogo norte-americano  graduado da Universidade de Yale que conduziu a experiência dos pequemos mundos (a fonte do conceito dos seis graus de separação) e a Experiência de Milgram sobre a obediência à autoridade».

abaixo, uma citação do filme [01:06:04,059 –> 01:07:12,794]:

«Mas a obediência, a submissão, era mais comum. Eles dizem: “Não farei isso. Não farei mais isso.” Mas então, o que Montaigne dizia? “Somos duplos em nós mesmos. Não acreditamos no que acreditamos, e não podemos nos livrar do que condenamos.” Outro de meus experimentos. Hank, um estudante da graduação, era o chamado “cristal de massa”, olhando para um ponto fixo no espaço, olhando para “algo” não inexistente. Quando você aumenta as pessoas que olham para o alto, o número de pessoas que param e olham aumenta exponencialmente. Enquanto isso, Obediência à Autoridade foi traduzido para oito idiomas e indicado para um prêmio nacional.»

«Mais nous sommes, je ne sçay comment, doubles en nous mesmes, qui faict que ce que nous croyons, nous ne le croyons pas, et ne nous pouvons deffaire de ce que nous condammons.»  Idem, p. 619.

«Somos duplos em nós mesmos. Não acreditamos no que acreditamos, e não podemos nos livrar do que condenamos».

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Einige Kreise [several circles] / Schwarze Linien I [Black Lines]

Kandinsky – Chaos/Control

Da obediência ao consentimento: reflexões sobre o experimento de Milgram à luz das instituições modernas, por Sandra Leal de Melo Dahia

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A vida só pode ser compreendida para trás, mas tem que ser vivida para a frente.” Søren Kierkegaard

 

invisíveis e insensíveis ao olho nu

[sáb] 8 de dezembro de 2018

das coisas sensíveis

deitar sem ter hora pra levantar.
andar sob o vento sul.
dormir quando o corpo pede.
perceber as coisas com outro olhar.
(se) desculpar ao outro –
ler a miséria do mundo…
do propósito da existência
e das dificuldades de se viver.

8/12 sambaqui.

***

«Penso no desencadeamento da violência gratuita nos estádios e em outros lugares, nos crimes racistas ou nos sucessos eleitorais dos profetas da calamidade, diligentes em explorar e amplificar as expressões mais primitivas do sofrimento moral que são gerados, tanto e mais que pela miséria e a “violência inerte” das estruturas econômicas e sociais, por todas as pequenas misérias e as violências brandas da vida cotidiana.
Para ir além das manifestações aparentes, a propósito das quais se engalfinham aqueles que Platão chamava de doxósofos, “técnicos de opinião que se julgam sábios”, sábios aparentes da aparência, é preciso evidentemente remontar aos verdadeiros determinantes econômicos e sociais dos inumeráveis atentados contra a liberdade das pessoas, contra sua legítima aspiração à felicidade e à autorrealização, que hoje exercem não somente as leis impiedosas do mercado de trabalho ou de moradia, mas também os veredictos do mercado escolar, ou as sanções abertas ou as agressões insidiosas da vida profissional. Para isso é preciso atravessar a tela das projeções geralmente absurdas, às vezes odiosas, atrás das quais o mal-estar ou o sofrimento se escondem tanto quanto se expressam.
Levar à consciência os mecanismos que tomam a vida dolorosa, inviável até, não é neutralizá-las; explicar as contradições não é resolvê-las. Mas, por mais cético que se possa ser sobre a eficácia social da mensagem sociológica, não se pode anular o efeito que ela pode exercer ao permitir aos que sofrem que descubram a possibilidade de atribuir seu sofrimento a causas sociais e assim se sentirem desculpados; e fazendo conhecer amplamente a origem social, coletivamente oculta, da infelicidade sob todas as suas formas, inclusive as mais íntimas e as mais secretas.
Esta contratação, apesar das aparências, não tem nada de desesperador. O que o mundo social fez, o mundo social pode, armado deste saber, desfazer. Em todo caso é certo que nada é menos inocente que o laisser-faire: se é verdade que a maioria dos mecanismos econômicos e sociais que estão no princípio dos sofrimentos mais cruéis, sobretudo os que regulam o mercado de trabalho e o mercado escolar, não são fáceis de serem parados ou modificados, segue-se que toda política que não tira plenamente partido das possibilidades, por reduzidas que sejam, que são oferecidas à ação, e que a ciência pode ajudar a descobrir, pode ser considerada como culpada de não assistência à pessoa em perigo.
Embora sua eficácia, e por isso sua responsabilidade, sejam menores e em todo caso menos diretas, acontece o mesmo com todas as filosofias hoje triunfantes que, geralmente em nome dos costumes tirânicos que podem ter sido feitos da referência à ciência e à razão, visam invalidar toda intervenção da razão científica em política: a alternativa da ciência não é entre a desmedida totalizadora de um racionalismo dogmático e a renúncia esteta de um irracionalismo niilista; ela se satisfaz com verdades parciais e provisórias que ela pode conquistar contra a visão comum e contra a doxa intelectual e que estão em condições de fornecer os únicos meios racionais de utilizar plenamente as margens de manobra deixadas para a liberdade, isto é, para a ação política.» Bourdieu, Pierre. Pós-escrito (pp. 735-736). In: A Miséria do mundo. Coord. Pierre Bourdieu. 7. ed.- Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

***

isto acima são coisas do começo da madrugada, que rementem diretamente ao final da sexta-feira… às discussões em sala de aula, ao meu estado físico e psicológico… ao meu cansaço e minha esperança… às conexões entre as minhas leituras e aulas de sociologia, enquanto docente e pesquisador, e as minhas leituras e aulas de estudos linguísticos, enquanto discente.

agora pela tarde… sinto aquela velha ansiedade e um incontrolável irritação. inexplicável.

preciso de vento, para aplacar essa fúria que sinto. ‘bora lagartear, com um mate… deixar o sol arder e o vento sul lavar meu corpo irritado.

***

ps: se eu for esperto troco minha compulsão em colecionar livros por colecionar pdfs. queria a vida toda para ler… e tomar notas.

Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres

(Trecho)
E Lóri continuou na sua busca do mundo.
Foi à feira de frutas e legumes e peixes e flores: havia de tudo naquele amontoado de barracas, cheias de gritos, de pessoas se empurrando, apalpando o material a comprar para ver se estava bom – Lóri foi ver a abundância da terra que era semanalmente trazida numa rua perto de sua casa em oferenda ao Deus e aos homens. Sua pesquisa do mundo não humano, para entrar em contato com o neutro vivo das coisas que, estas não pensando, eram no entanto vivas ela passeava por entre as barracas e era difícil aproximar de alguma, tantas mulheres trafegavam com sacos e carrinhos.
Afinal viu: sangue puro e roxo escorria de uma beterraba esmagada no chão. Mas seu olhar se fixou na cesta de batatas. Tinham formas diversas e cores nuancizadas. Pegou uma com as duas mãos, e a pele redonda era lisa. A pele da batata era parda, e fina como a de uma criança recém-nascida. Se bem que, ao manuseá-la, sentisse nos dedos a quase insensível existência interior de pequenos brotos, invisíveis a olho nu. Aquela batata era muito bonita. Não quis comprá-la porque não queria vê-la emurchecer em casa e muito menos cozinhá-la.
Batata nasce dentro da terra.
E isso era uma alegria que ela aprendeu na hora: a batata nasce dentro da terra. E dentro da batata, se a pele é retirada, ela é mais branca do que uma maçã descascada.
A batata era a comida por excelência. Isso ela ficou sabendo, e era de uma leve aleluia.
Esgueirou-se entre as centenas de pessoas na feira e isso era um crescimento dentro dela. Parou um instante junto da barraca dos ovos.
Eram brancos.
Na barraca dos peixes entrefechou os olhos aspirando de novo o cheiro de maresia dos peixes, e o cheiro era a alma deles depois de mortos.
As pêras estavam tão repletas delas mesmas que, nessa maturidade elas quase estavam em seu sumo. Lóri comprou uma e ali mesmo na feira deu a primeira dentada na carne da pêra que cedeu totalmente. Lóri sabia que só quem tinha comido uma pêra suculenta a entenderia. E comprou um quilo. Não era talvez para comer em casa, era para enfeitar, e para olha-las mais alguns dias.
Como se ela fosse um pintor que acabasse de ter saído de uma fase abstracionista, agora, sem ser figurativista, entrara num realismo novo. Nesse realismo cada coisa da feira tinha uma importância em si mesma, interligada a um conjunto – mas qual era o conjunto? Enquanto não sabia, passou a se interessar por objetos e formas, como se o que existisse fizesse parte de uma exposição de pintura e escultura. O objeto então que fosse de bronze – na barraca de bugigangas para presentes, viu a pequena estátua mal feita de bronze – o objeto que fosse de bronze, ele quase lhe ardia nas mãos de tanto gosto que lhe dava lidar com ele. Comprou um cinzeiro de bronze, porque a estatueta era feia demais.
E de repente viu os nabos. Via os nabos. Via tudo até encher-se de plenitude e de visão e do manuseio das frutas da terra. Cada fruta era insólita, apesar de familiar e sua. A maioria tinha um exterior que era para ser visto e reconhecido. O que encantava Lóri. Às vezes comparava-se às frutas, e desprezando sua aparência externa, ela se comia internamente, cheia de sumo vivo que era. Ela estava procurando sair da dor, como se procurasse sair de uma realidade outra que durara sua vida até então.

Retirado de: Lispector, Clarice. Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres. 18 ed. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1991. Pp. 144-6.

O SER E A LINGUAGEM EM UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES: um estudo sobre a obra de Clarice Lispector, por Luciana de Barros Ataide

ANA MIRANDA, LEITORA DE CLARICE LISPECTOR, por Taíse Neves Possani

O SENTIDO DA RELACAO ENTRE EDUCADOR E EDUCANDO NA CONSTITUICAO DE GRUPOS INTERDISCIPLINARES, por Vanessa Marques D Albuquerque

CARTAS DE CLARICE LISPECTOR:ENCONTROS MARCADOS E “MOVIMENTOS SIMULADOS”, por Fátima Cristina Dias Rocha

A ESCRITA DE SI NA CORRESPONDÊNCIA DE CLARICE LISPECTOR, por Fátima Cristina Dias Rocha

***

e às vezes tô clarice

«É pena que não possa dar o que se sente, porque eu gostaria de dar a vocês o que
sinto como uma flor» – Clarice Lispector

mas noutras… sou belchior

«Se você vier me perguntar por onde andei 
No tempo em que você sonhava 
De olhos abertos lhe direi 
Amigo eu me desesperava 
(…)
Eu quero é que esse canto torto feito faca 
Corte a carne de vocês…
Eu quero é que esse canto torto feito faca 
Corte a carne de vocês…»

À PALO SECO – BELCHIOR

ALUCINAÇÃO, 1976

part of the machine, autopsicografia e outras notas aleatórias

[sex] 7 de dezembro de 2018

decidi não mais escrever. como se eu tivesse qualquer certeza. oscilo. talvez a solidão seja tão vasta que se eu não tomar nota por cá, talvez eu me perca neste emaranhado de melancolia e desrazão. estou muito confuso. e oscilo. no trabalho jane repara na minha magreza. sequei nos últimos meses… pedem dicas e segredos… tergiverso… fujo… minha nova compulsão… é apenas efeito colateral da medicação. quando me olho no espelho, lembro que samanta brinca toda vez que me vê nas terças ou quarta-feiras… diz ela que cada vez é maior minha cara de maluco. eu sei… a pele, as olheiras, o cabelo desgrenhado, o aspecto cansado… pois não há vontade de nada… eu apenas saio, quando consigo sair, e meu corpo vai estando… eu oscilo. nessa quinta-feira estive entre a raiva, o desespero e uma vontade de derramar meu pranto por nada, eu não me controlo bem por estes dias. no máximo eu tento dizer coisas com as minhas camisetas, coisas como, «quero que este canto torto feito faca corte a carne de vocês», ou «deixe me ir, preciso andar…» ou ainda, «O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente».

***

registro coisas escritas por estes dias:

exercício pela manhã

pela manhã
os barcos guardam o mar,
as nuvens o sol,
e um cão
os escombros.

30/10/2018 Sambaqui->Vargem Pequena

exercício pela tarde

capturar o movimento da palavra
no mergulho da ave,
na revoada, no bando,
no ninho repleto,
e nos teus olhos abertos
no instante preciso.

há qualquer coisa de pássaro nas palavras
um pena, uma asa,
eu preso(,)
(em) você passarinho.

06/12/2018 Sambaqui->Santo Antônio de Lisboa

***

notas sobre coisas aleatórias destes dias

#1 Bô Jornal -> http://bojornal.pt/

#2 Part of the machine, de Michael Marczewski

 

#3 Roteiro sentimental para o trabalho de campo

«Estejam abertos ao imprevisto, o que Malinowski (1997) chama de o imponderável da vida social, aquilo que escapa ao nosso planejamento, nos faz mudar de rota e acaba sendo revelador. Como na vida, não tentem direcionar demais o curso das águas, deixem a vida nos levar e tentem aproveitar os momentos de incerteza para perguntar aos nativos o que está acontecendo! Dificilmente o antropólogo escapa da pecha de chato, inconveniente ou louco. Chato porque pergunta sobre tudo, como a criança nas idades dos por quês. Inconveniente porque força as pessoas a se questionarem sobre o que é tido como naturalizado. E, louco, justamente, porque parece desconhecer as verdades inquestionáveis.
Não tenham medo do ridículo, espelhem-se no ofício dos palhaços que riem da sua própria miséria e, ao saberem-se ridículos, enfrentando sua vergonha, cumprem seu papel» PIRES, FLÁVIA FERREIRA. Roteiro sentimental para o trabalho de campo. In: cadernos de campo, São Paulo, n. 20, p. 143-148, 2011

minha metralhadora cheia de mágoas

[qui] 6 de dezembro de 2018

Travei. Palavra alguma vai traduzir o quão bosta estou me sentindo nessa espiral suicida, de autossabotagem, em que despenquei. Quando acho que vi o fundo do poço… lá vou afundarme um pouco mais neste lodo… numa imagem Münchhauseniana, da fuga de um pântano ao puxar a si mesmo pelos próprios cabelos… Eu afundo.

Faltei aula. Faltei terapia. E essa é a minha única fuga de hoje. Pois o tempo não para… e só me resta minha metralhadora cheia de mágoas.

brutti, sporchi e cattivi

[qua] 5 de dezembro de 2018

Acordei pensando nisto: de onde vem essa necessidade/mania de autossabotagem. Quando as coisas vão bem, ou mesmo não tão ruim assim… vem esse desejo de morte e de dor.

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Feios, sujos e malvados. É um puta filme… provavelmente vi em 2006/2007. Não me recordo se foi recomendação de sander (videobeta) ou de rafa (cineparedao). Mas desde então é um referência presente no meu imaginário. Assim como várias outras lições aprendidas com Rafaela e Sander.

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Hoje preciso ir trabalhar, porque se faltar mais um dia, tudo, além da implosão, explodira na cara de todos e a aparente normalidade desabara e serei descaradamente só destroços  e ruínas. Essa coisa disforme, retorcida e quebrada, sem nenhum véu.

Coleto questões para o jogo sociológico:

Leia o que disse João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, sobre a função de seus textos:

Falo somente com o que falo: a linguagem enxuta, contato denso; falo somente do que falo: a vida seca, áspera e clara do sertão; falo somente por quem falo: o homem sertanejo sobrevivendo na adversidade e na míngua. Falo somente para quem falo: para os que precisam ser alertados para a situação da miséria no Nordeste.”

A sociologia brasileira surgiu no nordeste como forma de analisar os principais problemas que afligiam brasileiros a partir da chamada Herança colonial

Para João Cabral de Melo Neto, no texto literário entrando no campo da sociologia,

  1. a linguagem do texto deve refletir o tema, e a fala do autor deve denunciar o fato social para determinados leitores.

  2. a linguagem do texto não deve ter relação com o tema, e o autor deve ser imparcial para que seu texto seja lido.

  3. o escritor deve saber separar a linguagem do tema e a perspectiva pessoal da perspectiva do leitor.

  4. a linguagem pode ser separada do tema, e o escritor deve ser o delator do fato social para todos os leitores.

  5. a linguagem está além do tema, e o fato social deve ser a proposta do escritor para convencer o leitor

E colo um TRECHO DO POEMA DE FERREIRA GULLAR.

images

19h08. tenho mais cinquenta minutos para responder algo… eu literalmente travei, não consigo sair do lugar. parte de mim diz: desiste, não vai dar… parte ainda diz… tenta, qualquer coisa é melhor que não tentar, você só precisa de duas… mas você não terminou de ler os textos…

19h12. joguei os dados. e nem essa trilha de fundo para manter foco, concentração e memória vai ajudar. desisto.

agora preciso segurar meu humor… não me devorar por dentro.

19h47 eu aqui projetando o futuro sem conseguir dar conta das coisas do cotidiano. um perdido.

Devo vários pedidos de desculpas.

conversa fiada… do you speak bristol?

[ter] 4 de dezembro de 2018

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ever noticed how Bristolians put an L on the end of their words? 

[só pq estava aqui nos rascunhos… há dias… perdi o dia, mas esse acento é interessante…]

***

«Se fiamos num bem, que a mente cria,

                  Que outro remédio há aí senão ser triste?    

Antero de Quental, Sonetos»

resfriado. cansado. eu até tentei, mas não consigo sair dessa cama hoje. nem desse labirinto dos últimos dias… não consigo fazer coisas básicas.

[_] questões de teoria literária [função discente]
[_] questões para o jogo sociológico [função docente]
[_] preencher diários [função docente]
[_] ir trabalhar [sobrevivência]
[_] ajudar na construção da casa [família]
[x] estar com família [vida]
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levantei… depois que insistiram, mas faltei.
e podei árvores… pra me distrair de ficar pensando nessas coisas que tenho que fazer e não faço. cravei um espinho no dedo, pra lembrar dele pelo resto da semana… tudo está doendo.
mas vi o sol branco [fff5f2] se pôr num céu rosa-azul, com uma borda tipo efeito 3D [anáglifo]. eu sei, as cores não eram essas… eu apenas estava fritando meus olhos ao expor meus fotorreceptores cruamente, sem filtro algum, por dois minutos enquanto o sol desaparecia.

spellbound

[seg] 3 de dezembro de 2018

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Spellbound (braQuando Fala o CoraçãoprtA Casa Encantada) é um filme estadunidense de 1945, do gênero suspense, dirigido por Alfred Hitchcock.

Exibir palavras-chave (podem conter spoilers)
esquizofreniamemóriapsicanálise

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jardinei as folhas velhas… cortei o dedo no fio da pedra. nas linhas do tempo não escrevi nenhuma linha além destas… fui de um silêncio estrondoso. seco como a espera. permaneci, comprimido.

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