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2019, março 30, sábado

HAMLET, ATO I, Cena V

Outra parte da esplanada.
Entram o Fantasma e Hamlet.HAMLET: Para onde me conduzes? Não darei mais um passo. FANTASMA: Ouve-me!HAMLET: Isso é o que desejo.FANTASMA: Já está perto o momento em que é forçoso que de novo me entregue às labaredas sulfúreas
do tormento.HAMLET: Pobre espírito!

FANTASMA: Não me lastimes; ouve com atenção o segredo que passo a revelar-te.

HAMLET: Fala, que estou obrigado a dar-te ouvidos.

FANTASMA: E também a vingar-me, após ouvires-me.

HAMLET: Como!?

FANTASMA: Sou a alma de teu pai, por algum tempo condenada a vagar durante a noite, e de dia a jejuar na chama ardente, até que as culpas todas praticadas em meus dias mortais sejam nas chamas, alfim, purificadas. Se eu pudesse revelar-te os segredos do meu cárcere, as menores palavras dessa história te rasgariam a alma; tornar-te-iam, gelado o sangue juvenil; das órbitas fariam que saltassem, como estrelas, teus olhos; o penteado desfar-te-iam, pondo eriçados, hirtos os cabelos, como cerdas de iroso porco-espinho. Mas essa descrição da eternidade para ouvidos não é de carne e sangue. Escuta,
Hamlet! Se algum dia amaste teu carinhoso pai…

HAMLET: Ó Deus!

FANTASMA: Vinga o seu assassínio estranho e torpe.

HAMLET: Assassínio?

FANTASMA: Sim, assassínio torpe, como todos; mas esse é estranho, vil e inconcebível.

HAMLET: Conta-me, a fim de que eu, com asas rápidas como a meditaçáo ou os pensamentos de amor,
possa vingar-te.

FANTASMA: Acho que podes. Mais lerdo do que a espessa planta que nas margens do Letes apodrece, se isso não te abalasse. Escuta, Hamlet! Contaram que uma cobra me picara, quando, a dormir, eu no jardim me achava. Assim, foi ludibriado todo o ouvido da Dinamarca por uma notícia falsa de minha morte. Mas escuta, nobre mancebo! A cobra que peçonha lançou na vida de teu pai, agora cinge a coroa dele.

HAMLET: Oh minha alma profética! Meu tio!

FANTASMA: Sim, esse monstro adúltero e incestuoso. Com o feitiço pessoal e com presentes – ó dotes maus, ó brindes, que tal força tendes de sedução! – pôde a vontade da rainha conquistar, que parecia tão virtuosa, dobrando-a para o vício. Que queda, Hamlet! Do meu amor, que tinha tal pureza que andava a par com o voto que eu fizera no nosso casamento – a um miserável que em confronto comigo nada vale! Mas se a virtude é firme, ainda que o vício sob a forma do céu vá cortejá-la, a luxúria, conquanto a um
anjo presa, num leito celestial cedo se enfara, sonhando com carniça. Mas, devagar! Pressinto o ar da manhã. Serei breve. Ao achar-me adormecido no meu jardim, na sesta cotidiana, teu tio se esgueirou por minhas horas de sossego, munido de um frasquinho de meimendro e no ouvido despejou-me o líquido leproso, cujo efeito de tal modo se opõe ao sangue humano, que corre pelas portas e caminhos do corpo, tão veloz como o mercúrio, fazendo coagular com vigor súbito o sangue puro e fino, como o leite quando o ácido o conturba. Assim, comigo: no mesmo instante impingens me nasceram, qual se eu fosse outro Lázaro, nojentas, pelo corpo macio. Adormecido, desta arte, me privou o irmão, a um tempo, da vida, da coroa e da rainha, morto na florescência dos pecados, sem óleos, confissão nem sacramentos, sem ter prestado contas, para o juízo enviado com o fardo dos meus erros. É horrível, sim, horrível, multo horrível! Se sentimento natural tiveres, não suportes tal coisa. Não consintas que o leito real da Dinamarca fique como catre de incesto e de luxúria. Contudo, se nesse ato te empenhares, não te manches. Que tua alma não conceba nada contra tua mãe; ao céu a entrega, e aos espinhos que o peito lhe compungem. Deles seja o castigo. E agora, adeus! Mostra-me o pirilampo da madrugada; já seu fogo inativo empalidece. Adeus, Hamlet! Lembra-te de mim.

(Sai.)

HAMLET: Legiôes do céu! Ó terra! Que mais, ainda? Invocarei o inferno? Firme, firme, coração! Não fiqueis velhos de súbito, músculos; agüentai-me! Que me lembre de ti? Sim, pobre fantasma, sim, enquanto tiver sede a memória neste globo conturbado. Lembrar-me? Sim; das tábuas da memória hei de todas as notícias frívolas apagar, as vãs sentanças dos livros, as imagens, os vestígios que dos anos e a experiência aí deixaram. Essa tua ordem, só, há de guardar-se no volume e no livro do meu cérebro, sem
mais escórias. Sim, pelo alto céu, ó mulher perniciosa! Vilão, vilão que ri! Vilão maldito! Meu canhenho… Preciso tomar nota que o homem pode sorrir e ser infame. Sei que ao menos é assim na Dinamarca.

(Escreve.)

Aí vou, meu tio. Agora minha senha vai ser: Adeus, recorda-te de mim. Assim jurei.

HORÁCIO: (dentro) – Milorde Hamlet!

MARCELO (dentro) – Príncipe!

HORÁCIO (dentro) – Que o céu o ampare.

MARCELO (dentro) – Amém.

HORÁCIO: Olá! Olá! Senhor!

HAMLET: Olá, menino! Vem, meu passarinho! (Entram Horácio e Marcelo.)

MARCELO: Que aconteceu, senhor?

HORÁCIO: Que houve, senhor?

HAMLET: Extraordinário!

HORÁCIO: Bom senhor, contai-nos.

HAMLET: Não, que o revelaríeis.

HORÁCIO: Eu, não, senhor; por Deus!

MARCELO: Nem eu, tampouco.

HAMLET: Que julgais? A alma humana poderia concebê-lo? Jurais não revelá-lo?

HORÁCIO E MARCELO: Pelo céu o juramos, meu senhor.

HAMLET: Não há em toda a Dinamarca um biltre que possa ser tratante mais chapado.

HORÁCIO: Não era necessário que nos viesse do outro mundo um fantasma dizer isso.

HAMLET: Está bem, está bem; tendes razão. Desse modo, sem mais formalidades, apartemos as mãos e dispersemo-nos. Vós, para onde os negócios e os pendores vos levarem – que todos os possuem, sejam quais forem. – Quanto à minha pobre parte… Ora vede: vou rezar.

HORÁCIO: São palavras sem nexo, meu senhor.

HAMLET: Em verdade, compunge-me ofender-vos. De coração.

HORÁCIO: Não há ofensa, príncipe.

HAMLET: Por São Patrício, há ofensa, Horácio, e grande, quanto à visão de há pouco. Só vos digo que é um fantasma honesto. Mas, quererdes saber o que passou entre mim e ele, não pode ser; sofreai-vos como for. E agora, bons amigos – sim, que o somos, companheiros de escola e de caserna – concedei-me um favor.

HORÁCIO: Que pode ser, meu príncipe? Está feito.

HAMLET: Não contar o que vistes esta noite.

HORÁCIO E MARCELO: Nada diremos.

HAMLET: Bem; então, jurai-o.

HORÁCIO: Sob palavra de honra, serei mudo.

MARCELO: Eu também; sob palavra.

HAMLET: Em minha espada.

HORÁCIO: Já o juramos, senhor.

HAMLET: Bem, mas agora jurai sobre esta espada.

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Olá, garoto! Estás aí, valente. Ouvistes que da adega ele nos fala. Prestai o juramento.

HORÁCIO: Formulai-o.

HAMLET: Jamais falar de quanto presenciastes. Sobre esta espada

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Hic et ubique? Mudemos de lugar. Aqui, senhores. Ponde as mãos novamente sobre a espada. Não falareis jamais sobre o que vistes. Jurai por minha espada.

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Bravo, velha toupeira! E como furas a terra, bom mineiro! Ainda mais longe, meus amigos.

HORÁCIO: Ó dia e noite! É estranho!

HAMLET: Recebamo-lo, então, como a estrangeiro. Há multa coisa mais no céu e na terra, Horácio, do que sonha a nossa pobre filosofia. Vinde novamente. Jurai de novo, assim Deus vos ajude, por mais que eu me apresente sob aspecto extravagante, tal como em futuro é possível que eu venha a comportar-me, que jamais – se me virdes alguma hora cruzar assim os braços, ou a cabeça sacudir deste jeito, ou dizer frases sem nexo: “Muito bem”, ou “Poderíamos se o quiséssemos”, ou “Vontade tenho de falar”, ou discursos desse gênero – mostrareis saber algo. Que a divina Graça e a Misericórdia vos amparem.

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Sossega, alma penada! E agora, amigos, com todo o meu amor me recomendo. E tudo o que um pobre homem como Hamlet possa fazer, no empenho de agradar-vos, não faltará, querendo-o Deus. E vamo-nos. Peço silêncio; os dedos sobre os lábios. Dos gonzos saiu o tempo. Maldição! Ter vindo ao mundo para endireitá-lo! Partamos juntos. Vamo-nos.

(Saem.)

***

“Todo aquele que assume uma responsabilidade política acabará sempre por chegar a uma ocasião em que dirá como Hamlet:

“O tempo saiu dos gonzos: Que maldição
que me deu ter por missão reordená-lo!”

Reordenar o tampo significa renovar o mundo, e é uma coisa que podemos fazer, porque todos nós aparecemos, numa época ou noutra, como recém-chegados a um mundo que já lá estava antes de nós e aí continuará a estar depois de nos irmos, depois de termos deixado o seu encargo aos que nos sucederem.”

“Responsabilidade e Juízo” (Hannah Arendt)

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