píramo e tisbe

2019, março 31, domingo

Nada possuímos a não ser literalmente, nossa existência nua e crua (p. 29) Em Busca de Sentido – Um Psicólogo no Campo de Concentração

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tisbe1

Livro IV das Metamorfoses – por Publius Ovidius Naso (43 a.C./17 d.C.)

fragmento – tradução de Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho

“Píramo e Tisbe, ele o mais belo dos jovens, (55)
ela, a mais linda dentre as moças do Oriente,
tinham casas contíguas, contam, na cidade
que Semíramis fez de altos muros de adobe.
A vizinhança permitiu se conhecerem;
Com o tempo o amor cresceu. E núpcias haveria, (60)
mas os pais proibiram. Não puderam proibir
dois corações cativos de igualmente arderem.
Sem que soubessem, eles falam por sinais,
E quanto mais se oculta, mais fervia o fogo.
Numa parede-meia há uma fina greta, (65)
surgida enquanto as casas eram construídas.
Ninguém notara a falha, nesses longos séculos,
– o que não vê o amor? – Logo a vistes, amantes,
e abristes via com a voz e ali seguros
costumavam trocar ternos murmúrios mínimos. (70)
Sempre que Tisbe, de um lado e do outro Píramo,
notavam os seus mútuos suspiros, diziam:
“Invejosa parede, obstas por que os amantes?
Custava-te deixar-nos unir nossos corpos,
ou, ao menos, abrir-te para nos beijarmos! (75)
Ingratos não somos, a ti agradecemos
por levar a ouvido amigo o que dizemos”.
Depois de assim falar, de lugares contrários,
de noite adeus disseram e cada qual deu
beijos que não chegavam nunca ao outro lado. (80)
Após a aurora remover noturnos astros,
e o sol secar com raios ervas orvalhadas,
vinham à mesma greta. Então, à meia voz,
lamentam-se e decidem, na noite silente,
iludir os guardiões, saindo pelas portas, (85)
e fora já do lar, deixar mesmo a cidade;
e, para não errarem pelos vastos campos,
no túmulo de Nino, à sombra de uma árvore,
se encontrariam. Copa prenhe de alvos frutos,
alta amoreira havia junto à fonte gélida. (90)
Alegres com o pacto, fez-se longo o dia.
O sol se pôs no mar, de onde a noite saiu.
Hábil nas trevas, gira a fechadura Tisbe
E engana os seus, cobrindo o rosto com um véu,
chega ao túmulo e senta-se sob dita árvore. (95)
O amor audaz tornava-a. Eis que uma leoa
vem com a fuça suja de sangue de boi,
querendo aliviar a sede nessa fonte.
Sob os raios da lua, a babilônia Tisbe
a viu, e trêmula se esconde em gruta escura, (100)
e na fuga deixou cair do ombro o véu.
Quando a cruel leoa a sede aplacou n’água,
de volta à selva achou o fino véu sem dona
e o rasgou com a sua boca ensangüentada.
Chegando tarde, viu os vestígios seguros (105)
da fera na poeira espessa e ficou pálido
Píramo. Quando viu o véu tinto de sangue,
diz: “Uma só noite há de perder dois amantes,
dos dois, ela uma longa vida merecia,
pois sou culpado. Eu te danei, desgraçada, (110)
eu te chamei a vir de noite em ermo hórrido
e não cheguei primeiro. O meu corpo rasgai,
e devorai-me as vísceras com feros dentes,
ó quem quer que habitais nestas rochas, leões.
Mas é fraco quem quer morrer!” O véu de Tisbe (115)
ergue e o leva consigo para embaixo da árvore.
E após derramar lágrimas, beijando o véu:
“Recebe agora” diz “o hausto de meu sangue!”
E o ferro preso ao cinto enfiou na barriga,
logo o arrancando à chaga fervente, nas últimas. (120)
Caindo ao chão de costas, o sangue esguichou:
tal como quando um cano estragado de chumbo
se rompe, e, por um fino buraco, escapole
um longo jato de água, o ar cortando, estrídulo.
O fruto da árvore adquire a tez escura (125)
aspergido de sangue e a úmida raiz
tinge de cor purpúrea as amoras pendentes.
Com medo, mas temendo o engano do amante,
eis que ela volta e o busca com coração e olhos,
e anseia por narrar-lhe os perigos passados. (130)
Reconhece o lugar e o formato da árvore;
porém, a cor do fruto a deixa na incerteza.
Enquanto hesita, um corpo pulsando, vê, trêmula,
no chão sangrento, e retrocede e, tez mais pálida
que o buxo, estremeceu de horror, como a planura (135)
do mar que treme, quando a brisa leve a roça.
Mas, ao parar, reconheceu os seus amores,
os braços golpeou, com sonoros lamentos,
e arrancando os cabelos, abraçou o amado,
e as feridas encheu de lágrimas e ao sangue (140)
pranto mesclou, e o rosto gelado, beijando,
“Píramo”, diz, “que sina te afastou de mim?
Responde, Píramo; é Tisbe, a ti caríssima,
que te chama. Escuta e ergue-te, jazente!”
Os olhos já pesados de morte abriu Píramo, (145)
ao nome de sua Tisbe e, vendo-a, os fechou.
Quando viu o seu véu e a bainha vazia,
sem a espada, diz: “tua mão, e o teu amor,
te perdeu, infeliz. Tenho também mão forte,
e amor, que me dará força para ferir-me. (150)
Te seguirei morto e dirão que fui eu, mísera,
causa e sócia em teu fim. E tu, que só a morte
arrebatou de mim, na morte me terás.
Ouvi, porém, a prece que ambos fazemos,
ó infelicíssimos pais, meus e também dele, (155)
não negueis enterrar juntos num mesmo túmulo,
estes que amor sincero uniu na hora extrema.
Mas tu, árvore, que ora cobres, com teus ramos,
mísero corpo, logo a dois serve de teto,
guarda os sinais do sangue em negro fruto, apto (160)
ao luto: monumento de uma morte gêmea”.
Disse e, a ponta da espada pondo sob o peito,
deitou-se nela, ainda úmida de morte.
Os seus votos chegaram aos deuses e pais.
Pois, quando está maduro, a cor do fruto é negra; (165
e o que restou das piras, numa urna pousa”.
Fim;

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