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[qua] 8 de agosto de 2018

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não digitei o que devia ter digitado. não li o que devia ter lido. não preparei o que devia ter preparado. não dormi na hora que devia ter dormido. não acordei na hora que deveria acordar… agora há uma montanha de coisas.

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Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
(Oswald de Andrade)

«A comparação entre o primeiro e o último versos exemplifica uma das muitas diferenças existentes entre a língua que a gramática normativa considera correta e a língua efetivamente falada pela maioria das pessoas. Para se comunicar, o falante não precisa dominar as regras da gramática escolar. Ele utiliza, mesmo sem ter consciência disso, uma gramática natural, que admite a construção “me dá um cigarro”, mas não admite, por exemplo, a construção “me cigarro um dá” [agramatical]. Ou seja, essa gramática natural também possui um sistema de regras que formam a estrutura da língua, e que os falantes interiorizam ouvindo e falando». Maria Lúcia Marangon

a ferida

[sex] 8 de junho de 2018

Memórias de Saigon.

“Já estava acostumado aos amputados, às vitimas do agente laranja, aos famintos, pobres, garotos de rua de seis anos de idade que você encontra às três da madrugada gritando “Feliz ano novo! Olá! Bye-Bye!” em inglês, e depois aponta para suas bocas e faz “bum bum?”. Estou ficando quase indiferente aos garotos famintos, sem pernas, sem braços, cobertos de cicatrizes, desesperançados, dormindo no chão, em triciclos, na beirada do rio. Mas não estava preparado para o homem sem camisa, com um corte de cabelo a la forma de pudim, que me detém na saída do mercado, estendendo a mão. No passado ele sofreu queimaduras e tornou-se uma figura humana quase irreconhecível, a pele transformada numa imensa cicatriz sob a coroa de cabelos pretos. Da cintura para cima (e sabe Deus até onde), a pele é uma cicatriz só; ele não tem lábios, nem nariz, nem sobrancelha. Suas orelhas são como betume, como se tivesse mergulhado e moldado num alto-forno, sendo retirado pouco antes de derreter por completo. Mexe seus dentes como uma abóbora de Halloween, mas não emite um único som através do que foi um dia, uma boca. Sinto um murro no estômago. Minha animação exuberante dos dias e horas anteriores desmorona. Fico paralisado, piscando e pensando na palavra napalm, que oprime cada batida do meu coração. De repente nada mais é divertido. Sinto vergonha. Como pude vir até esta cidade, até este país por razões tão fúteis, cheio de entusiasmo por algo tão…sem sentido, como sabores, texturas, culinária? A famíla daquele homem deve ter sido pulverizada, ele mesmo transformado num boneco desgraçado, como um modelo de cera de madame Tussaud, a pele escorrendo como vela pingando. O que estou fazendo aqui? Escrevendo um livro de merda? Sobre comida? Fazendo um programinha leve e inútil de tevê, um showzinho de bosta? A ficha caiu de uma vez e fiquei me desprezando, odiando o que faço e o fato de estar ali. Imobilizado, piscando nervosamente e suando frio, sinto que todo mundo na rua está me observando, que irradio culpa e desconforto, que qualquer passante vai associar os ferimentos daquele homem a mim e ao meu país. Dou uma espiada nos outros turistas ocidentais que vagueiam por ali com suas bermudas da Banana Republic e suas camisas pólo da Land´s End, suas confortáveis sandálias Weejun e Bierkenstock, e sinto um desejo irracional de assassiná-los. Parecem malignos, comedores de carniça. O Zippo com a inscrição pesa no meu bolso, deixou de ser engraçado, virou uma coisa tão pouco divertida quanto a cabeça encolhida de um amigo morto. Tudo o que comer terá gosto de cinzas daqui pra frente. Fodam-se os livros. Foda-se a televisão. Nem mesmo consigo dar algum dinheiro ao coitado. Tenho as mãos trêmulas, estou inutilizado, tomado pela paranoia… Volto correndo ao quarto refrigerado do New World Hotel, me enrosco na cama ainda desfeita, fico olhando para o teto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de digerir ou entender o que presenciei e impotente para fazer qualquer coisa a respeito. Não saio nem como nada pelas 24 horas seguintes. A equipe de tevê acha que estou tendo um colapso nervoso.
Saigon…Ainda em Saigon.
O que vim fazer no Vietnã?”

«A Ferida», texto de Anthony Bourdain, no livro «Em Busca do Prato Perfeito»

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a função do gozo na sua economia psíquica

[ter] 8 de maio de 2018
isto aqui está parecendo uma coleção de frases
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no meio de um sonho, um telefonema, acordei. ainda em meio aquela bruma que oniricamente misturava-me em imagens e sensações [que remetem ao último seriado que vi] de campos e montanhas, com frio, geada, casa familiar [de pessoas consideradas como parentes de quarto grau], e saltos de bicicleta. Acordei ali, a um passo de saltar montanha abaixo.
e sabe aquela sensação que se você tivesse aguardado mais um instante… pelo trem que passaria, ele teria passado realmente e você estaria nele. mas em tua ânsia… você se foi, caminhou muito. e ele vai passando por você, sem poderes parar.
mas certos caminhos… e certo caminhar é necessário, e por vezes é até bonito, noutras tudo é devastador… mas, enfim, é necessário, seguir.
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do mundo real, ligaram avisando que a minha cirurgia foi agendada. amanhã. passar no posto para pegar a requisição.
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Como a histeria se manifesta no homem, vídeo de Christian Dunker
Personalidade borderline, vídeo de Christian Dunker
A economia de gozo e a constituição do sujeito, artigo de Isabela Santoro Campanário e Jeferson Machado Pinto
A perversão comum: viver juntos sem outro, resenha de William José Batista
Goze! Notas sobre a Nova Economia Psíquica, ensaio de Urias Arantes

abaixo uma citação deste texto:
«Para Melman, o patriarcado (transmissão com a castração) e o matriarcado (transmissão sem a castração) são estruturas numa relação dialética: o enfraquecimento da primeira exige que a atenção se volte para a segunda, o funcionamento e os efeitos de uma esclarece os efeitos e o funcionamento da outra. Com a erosão da figura do pai, “promotor do desejo,” (MELMAN, 2002, p. 26) é um mundo inteiro que desmorona: o recalque e o desejo cedem lugar ao gozo e à perversão, a representação à presentação ; intervém a abolição da diferença dos sexos, a predominância de práticas sem autoridade fundadora; a política não tem mais sentido e cede lugar à gestão. Novas formas de sociabilidade horizontal se desenvolvem. É a grande liberação, o que significa que o pensamento se esteriliza, posto que pensar só é possível para um sujeito dividido. Abrem-se as portas do “fascismo voluntário” (MELMAN, 2002, p. 46). A psicanálise nada pode fazer diretamente, mas apenas mostrá-lo, fazê-lo aparecer (MELMAN, 2002, p. 44), o que quer dizer, clinicamente, “fazer existir (….) esse lugar vazio que permite ao sujeito organizar sua palavra, sem o qual ela torna-se incoerente, o que é seu sofrimento” (MELMAN, 2002, p. 221)»

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notas aleatórias do conselho de classe
de ontem:

«’hackearam’ a cabeça do menino»

«parece um ser paralelo»

«a comida é pouca. mas é o contrato. o contrato é mesquinho – e adendo, o capital é mesquinho, e que garanta-se o lucro da corporação»

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