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invisíveis e insensíveis ao olho nu

[sáb] 8 de dezembro de 2018

das coisas sensíveis

deitar sem ter hora pra levantar.
andar sob o vento sul.
dormir quando o corpo pede.
perceber as coisas com outro olhar.
(se) desculpar ao outro –
ler a miséria do mundo…
do propósito da existência
e das dificuldades de se viver.

8/12 sambaqui.

***

«Penso no desencadeamento da violência gratuita nos estádios e em outros lugares, nos crimes racistas ou nos sucessos eleitorais dos profetas da calamidade, diligentes em explorar e amplificar as expressões mais primitivas do sofrimento moral que são gerados, tanto e mais que pela miséria e a “violência inerte” das estruturas econômicas e sociais, por todas as pequenas misérias e as violências brandas da vida cotidiana.
Para ir além das manifestações aparentes, a propósito das quais se engalfinham aqueles que Platão chamava de doxósofos, “técnicos de opinião que se julgam sábios”, sábios aparentes da aparência, é preciso evidentemente remontar aos verdadeiros determinantes econômicos e sociais dos inumeráveis atentados contra a liberdade das pessoas, contra sua legítima aspiração à felicidade e à autorrealização, que hoje exercem não somente as leis impiedosas do mercado de trabalho ou de moradia, mas também os veredictos do mercado escolar, ou as sanções abertas ou as agressões insidiosas da vida profissional. Para isso é preciso atravessar a tela das projeções geralmente absurdas, às vezes odiosas, atrás das quais o mal-estar ou o sofrimento se escondem tanto quanto se expressam.
Levar à consciência os mecanismos que tomam a vida dolorosa, inviável até, não é neutralizá-las; explicar as contradições não é resolvê-las. Mas, por mais cético que se possa ser sobre a eficácia social da mensagem sociológica, não se pode anular o efeito que ela pode exercer ao permitir aos que sofrem que descubram a possibilidade de atribuir seu sofrimento a causas sociais e assim se sentirem desculpados; e fazendo conhecer amplamente a origem social, coletivamente oculta, da infelicidade sob todas as suas formas, inclusive as mais íntimas e as mais secretas.
Esta contratação, apesar das aparências, não tem nada de desesperador. O que o mundo social fez, o mundo social pode, armado deste saber, desfazer. Em todo caso é certo que nada é menos inocente que o laisser-faire: se é verdade que a maioria dos mecanismos econômicos e sociais que estão no princípio dos sofrimentos mais cruéis, sobretudo os que regulam o mercado de trabalho e o mercado escolar, não são fáceis de serem parados ou modificados, segue-se que toda política que não tira plenamente partido das possibilidades, por reduzidas que sejam, que são oferecidas à ação, e que a ciência pode ajudar a descobrir, pode ser considerada como culpada de não assistência à pessoa em perigo.
Embora sua eficácia, e por isso sua responsabilidade, sejam menores e em todo caso menos diretas, acontece o mesmo com todas as filosofias hoje triunfantes que, geralmente em nome dos costumes tirânicos que podem ter sido feitos da referência à ciência e à razão, visam invalidar toda intervenção da razão científica em política: a alternativa da ciência não é entre a desmedida totalizadora de um racionalismo dogmático e a renúncia esteta de um irracionalismo niilista; ela se satisfaz com verdades parciais e provisórias que ela pode conquistar contra a visão comum e contra a doxa intelectual e que estão em condições de fornecer os únicos meios racionais de utilizar plenamente as margens de manobra deixadas para a liberdade, isto é, para a ação política.» Bourdieu, Pierre. Pós-escrito (pp. 735-736). In: A Miséria do mundo. Coord. Pierre Bourdieu. 7. ed.- Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

***

isto acima são coisas do começo da madrugada, que rementem diretamente ao final da sexta-feira… às discussões em sala de aula, ao meu estado físico e psicológico… ao meu cansaço e minha esperança… às conexões entre as minhas leituras e aulas de sociologia, enquanto docente e pesquisador, e as minhas leituras e aulas de estudos linguísticos, enquanto discente.

agora pela tarde… sinto aquela velha ansiedade e um incontrolável irritação. inexplicável.

preciso de vento, para aplacar essa fúria que sinto. ‘bora lagartear, com um mate… deixar o sol arder e o vento sul lavar meu corpo irritado.

***

ps: se eu for esperto troco minha compulsão em colecionar livros por colecionar pdfs. queria a vida toda para ler… e tomar notas.

Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres

(Trecho)
E Lóri continuou na sua busca do mundo.
Foi à feira de frutas e legumes e peixes e flores: havia de tudo naquele amontoado de barracas, cheias de gritos, de pessoas se empurrando, apalpando o material a comprar para ver se estava bom – Lóri foi ver a abundância da terra que era semanalmente trazida numa rua perto de sua casa em oferenda ao Deus e aos homens. Sua pesquisa do mundo não humano, para entrar em contato com o neutro vivo das coisas que, estas não pensando, eram no entanto vivas ela passeava por entre as barracas e era difícil aproximar de alguma, tantas mulheres trafegavam com sacos e carrinhos.
Afinal viu: sangue puro e roxo escorria de uma beterraba esmagada no chão. Mas seu olhar se fixou na cesta de batatas. Tinham formas diversas e cores nuancizadas. Pegou uma com as duas mãos, e a pele redonda era lisa. A pele da batata era parda, e fina como a de uma criança recém-nascida. Se bem que, ao manuseá-la, sentisse nos dedos a quase insensível existência interior de pequenos brotos, invisíveis a olho nu. Aquela batata era muito bonita. Não quis comprá-la porque não queria vê-la emurchecer em casa e muito menos cozinhá-la.
Batata nasce dentro da terra.
E isso era uma alegria que ela aprendeu na hora: a batata nasce dentro da terra. E dentro da batata, se a pele é retirada, ela é mais branca do que uma maçã descascada.
A batata era a comida por excelência. Isso ela ficou sabendo, e era de uma leve aleluia.
Esgueirou-se entre as centenas de pessoas na feira e isso era um crescimento dentro dela. Parou um instante junto da barraca dos ovos.
Eram brancos.
Na barraca dos peixes entrefechou os olhos aspirando de novo o cheiro de maresia dos peixes, e o cheiro era a alma deles depois de mortos.
As pêras estavam tão repletas delas mesmas que, nessa maturidade elas quase estavam em seu sumo. Lóri comprou uma e ali mesmo na feira deu a primeira dentada na carne da pêra que cedeu totalmente. Lóri sabia que só quem tinha comido uma pêra suculenta a entenderia. E comprou um quilo. Não era talvez para comer em casa, era para enfeitar, e para olha-las mais alguns dias.
Como se ela fosse um pintor que acabasse de ter saído de uma fase abstracionista, agora, sem ser figurativista, entrara num realismo novo. Nesse realismo cada coisa da feira tinha uma importância em si mesma, interligada a um conjunto – mas qual era o conjunto? Enquanto não sabia, passou a se interessar por objetos e formas, como se o que existisse fizesse parte de uma exposição de pintura e escultura. O objeto então que fosse de bronze – na barraca de bugigangas para presentes, viu a pequena estátua mal feita de bronze – o objeto que fosse de bronze, ele quase lhe ardia nas mãos de tanto gosto que lhe dava lidar com ele. Comprou um cinzeiro de bronze, porque a estatueta era feia demais.
E de repente viu os nabos. Via os nabos. Via tudo até encher-se de plenitude e de visão e do manuseio das frutas da terra. Cada fruta era insólita, apesar de familiar e sua. A maioria tinha um exterior que era para ser visto e reconhecido. O que encantava Lóri. Às vezes comparava-se às frutas, e desprezando sua aparência externa, ela se comia internamente, cheia de sumo vivo que era. Ela estava procurando sair da dor, como se procurasse sair de uma realidade outra que durara sua vida até então.

Retirado de: Lispector, Clarice. Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres. 18 ed. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1991. Pp. 144-6.

O SER E A LINGUAGEM EM UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES: um estudo sobre a obra de Clarice Lispector, por Luciana de Barros Ataide

ANA MIRANDA, LEITORA DE CLARICE LISPECTOR, por Taíse Neves Possani

O SENTIDO DA RELACAO ENTRE EDUCADOR E EDUCANDO NA CONSTITUICAO DE GRUPOS INTERDISCIPLINARES, por Vanessa Marques D Albuquerque

CARTAS DE CLARICE LISPECTOR:ENCONTROS MARCADOS E “MOVIMENTOS SIMULADOS”, por Fátima Cristina Dias Rocha

A ESCRITA DE SI NA CORRESPONDÊNCIA DE CLARICE LISPECTOR, por Fátima Cristina Dias Rocha

***

e às vezes tô clarice

«É pena que não possa dar o que se sente, porque eu gostaria de dar a vocês o que
sinto como uma flor» – Clarice Lispector

mas noutras… sou belchior

«Se você vier me perguntar por onde andei 
No tempo em que você sonhava 
De olhos abertos lhe direi 
Amigo eu me desesperava 
(…)
Eu quero é que esse canto torto feito faca 
Corte a carne de vocês…
Eu quero é que esse canto torto feito faca 
Corte a carne de vocês…»

À PALO SECO – BELCHIOR

ALUCINAÇÃO, 1976

ʻoumuamua

[qui] 8 de novembro de 2018

[ʔouˌmuəˈmuə]

«ʻOumuamua (/ˌməˈmə/ (About this sound listen)) is the first interstellar object detected passing through the Solar SystemFormally designated 1I/2017 U1, it was discovered by Robert Weryk using the Pan-STARRS telescope at Haleakala Observatory, Hawaii, on 19 October 2017, 40 days after it passed its closest point to the Sun. When first seen, it was about 33,000,000 km (21,000,000 mi; 0.22 AU) from Earth (about 85 times as far away as the Moon), and already heading away from the Sun. (…) Hawaiian term for scout»

pela manhã, no caminho do trabalho, faço um poema, diante do espanto… de ver uma nuvem minúscula e sozinha sobre o mar… e isto me lembrar do filme arrival… as imagens abaixo são apenas alguns fragmentos dos pensamentos desta manhã

exercício sobre a nuvem-nave (arrival)

a riba
a nuvem baixa
e só
sobre o mar
imagem etérea
lapso
memória
a nuvem nave
e se
sempre
(não importa o tempo)
‘tão ali
na nossa língua
o signo da chegada
uma rede
a linguagem
a nau
a pesca
o só e sempre margem
movimento
fóto(n)
retina
sinapse
sol
a nuvem riba,
fragmento
é o outro eu
a mesma poeira
de estrela
(uni)verso.

14h30 visita do fukuta.

22h05 aula terminada. por hoje…

«Conta-nos Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala que havia um ditado corrente no Brasil patriarcal a respeito das mulheres: “Branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar” [1], que revela o pensamento masculino de então no qual a mulher é vista preconceituosamente como um objeto útil. No caso das brancas, úteis para interpretar o papel de mãe, mulher e dona de casa, relevantes para dar à família um status oficial e continuidade à linhagem familiar, devendo estar dentro dos modelos patriarcais; quanto às mulatas, principalmente aquelas mais bem feitas, mais bonitas, mais dóceis, o papel de coadjuvantes no cotidiano da vida patriarcal, dentro das casas-grandes, atuando como mucamas, submetidas muitas vezes a repasto sexual do senhor ou como iniciadoras das práticas sexuais dos filhos deste e também, não raras vezes, como vítimas das sinhás, que transplantavam o ódio de sua submissão à ordem masculina sobre as mucamas. Às mulheres negras, sem os predicados que as tornassem passíveis de agradarem sexualmente o senhor patriarcal, cabiam exercer o papel de animais de carga, o de suportar tarefas extenuantes, o de se esfalfar nas cozinhas sob os gritos das sinhás-donas, o de suar nas tarefas diárias das fazendas e dos engenhos». BRANCA PARA CASAR, por Marcos Hidemi de Lima (UEL-PG)

[1] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. São Paulo: Círculo do livro, s/d, p. 48.

e a sugestão:

Poetisas No Topo (letra) Mariana Mello, Nabrisa, Karol De Souza, Azzy, Souto, Bivolt, Drik Barbosa

refuse… resist… antifa

[seg] 8 de outubro de 2018

“E a gente raivava alto, para retardar o surgir do medo — e a tristeza em crú — sem se saber por que, mas que era de todos, unidos malaventurados.

[…]

Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se fôr… Existe é homem humano. Travessia.” João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

***

notas avulsas sobre fascismo

«O fascismo não é uma forma de poder de Estado ‘que se coloca acima das classes – do proletariado e da burguesia’ como diz, por exemplo, Otto Bauer [dirigente social-democrata austríaco]. Não é a ‘revolta da pequena burguesia que capturou a máquina do Estado’, como declara o socialista britânico Brailsford. […] O fascismo é o poder do próprio capital financeiro». Jorge Cadima. Fascismo: passado e presente 

«O. Paxton, em Anatomia do fascismo ( 2007), da mesma forma que Togliatti, afirma que o fascismo assumirá sempre a formas do seu tempo e da sua cultura e, portanto, não é um fenômeno específico da Itália, alimentando-se do ressentimento (orientado para um inimigo) e um líder carismático e autoritário ( “um mito”) que seja obedecido pelas massas.» Homero Costa. A permanência do fascismo

«Um artigo publicado por Florestan Fernandes, em 1981 (“Notas sobre o Fascismo na América Latina”), parece retratar o Brasil de 2017. Ele fala da longa tradição de fascismo potencial na América Latina, para lembrar que o “uso estratégico do espaço político”, sob a capa de uma democracia republicana e constitucional, permite distorções que comprometem a possibilidade real de um exercício democrático.
É justamente o “aparato normal da democracia burguesa” que viabiliza o estado de exceção, através de leis de emergência, decretos e, sobretudo, mediante uso da força repressora do Estado contra qualquer tentativa de oposição. A pseudo democracia serve, portanto, para impedir a verdadeira transição para um regime democrático, no qual a maioria realmente tenha voz e vez» Valdete Souto Severo. A pilhagem aos direitos trabalhistas e o fascismo no Brasil de 2017

***

nota avulsa sobre moral

«Moral é uma prática, não uma teoria. Ou seja, não tem fundamento metafisico, é definida historicamente, de acordo com culturas e sociedades diversas. Algumas regras morais são mais comuns, se repetem em diferentes culturas, mas nunca são universais, durante toda a história e independentes de qualquer coisa. Apesar disso, quase toda moral tenta se impor como verdade absoluta e transhistórica, normalmente apelando a um deus ou vários e negando outras morais divergentes, que fazem o mesmo. As pessoas não costumam gostar de relativismo moral como esse, mas a vida é um absurdo. Isso não significa que todas as regras socialmente aceitas devam ser quebradas, pois algumas delas já estão internalizadas pelas pessoas e constam em um código de leis existente antes do nascimento do individuo.» Henrique Carvalho

***

e fechamos a noite com um 7 na prova de teoria literária e com uma bela sessão de:

HeptapodsAndScientists

00:53:57,969 –> 00:54:01,473
O 1º avanço foi descobrir que não há nenhuma correlação… entre o que um heptapod diz e o que ele escreve. Ao contrário das línguas humanas escritas, a escrita deles é semasiográfica. Ela transmite significado. Ela não representa um som.

Talvez eles vejam a nossa forma de escrita como uma oportunidade desperdiçada… preterindo um 2º canal de comunicação.

Somos gratos aos amigos no Paquistão pelo estudo de como os heptapods escrevem.

Porque, diferente da fala… um logograma não se prende ao tempo. Como sua nave ou seus corpos… sua língua escrita não tem uma direção para frente ou para trás.

Os linguistas chamam a isso de “ortografia não linear”.

O que suscita a pergunta:

É assim que eles pensam?

Se você quisesse escrever uma frase com as duas mãos a partir de ambas as direções… você teria que saber cada palavra que quisesse usar… bem como o espaço que elas ocupariam.

Um heptapod pode escrever uma frase complexa em dois segundos, sem esforço.

Levamos um mês para dar a resposta mais simples.

519
00:55:34,649 –> 00:55:35,650
Qual é o seu propósito na Terra?

[ Tradução: Monika Pecegueiro do Amaral ]

server error in ‘°∼°’ application.

[qua] 8 de agosto de 2018

the remote server returned an error: (500) internal server error. (-10001)
description: an unhandled exception occurred during the execution of the current web request. please review the stack trace for more information about the error and where it originated in the code.

***

não digitei o que devia ter digitado. não li o que devia ter lido. não preparei o que devia ter preparado. não dormi na hora que devia ter dormido. não acordei na hora que deveria acordar… agora há uma montanha de coisas.

***

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
(Oswald de Andrade)

«A comparação entre o primeiro e o último versos exemplifica uma das muitas diferenças existentes entre a língua que a gramática normativa considera correta e a língua efetivamente falada pela maioria das pessoas. Para se comunicar, o falante não precisa dominar as regras da gramática escolar. Ele utiliza, mesmo sem ter consciência disso, uma gramática natural, que admite a construção “me dá um cigarro”, mas não admite, por exemplo, a construção “me cigarro um dá” [agramatical]. Ou seja, essa gramática natural também possui um sistema de regras que formam a estrutura da língua, e que os falantes interiorizam ouvindo e falando». Maria Lúcia Marangon

a ferida

[sex] 8 de junho de 2018

Memórias de Saigon.

“Já estava acostumado aos amputados, às vitimas do agente laranja, aos famintos, pobres, garotos de rua de seis anos de idade que você encontra às três da madrugada gritando “Feliz ano novo! Olá! Bye-Bye!” em inglês, e depois aponta para suas bocas e faz “bum bum?”. Estou ficando quase indiferente aos garotos famintos, sem pernas, sem braços, cobertos de cicatrizes, desesperançados, dormindo no chão, em triciclos, na beirada do rio. Mas não estava preparado para o homem sem camisa, com um corte de cabelo a la forma de pudim, que me detém na saída do mercado, estendendo a mão. No passado ele sofreu queimaduras e tornou-se uma figura humana quase irreconhecível, a pele transformada numa imensa cicatriz sob a coroa de cabelos pretos. Da cintura para cima (e sabe Deus até onde), a pele é uma cicatriz só; ele não tem lábios, nem nariz, nem sobrancelha. Suas orelhas são como betume, como se tivesse mergulhado e moldado num alto-forno, sendo retirado pouco antes de derreter por completo. Mexe seus dentes como uma abóbora de Halloween, mas não emite um único som através do que foi um dia, uma boca. Sinto um murro no estômago. Minha animação exuberante dos dias e horas anteriores desmorona. Fico paralisado, piscando e pensando na palavra napalm, que oprime cada batida do meu coração. De repente nada mais é divertido. Sinto vergonha. Como pude vir até esta cidade, até este país por razões tão fúteis, cheio de entusiasmo por algo tão…sem sentido, como sabores, texturas, culinária? A famíla daquele homem deve ter sido pulverizada, ele mesmo transformado num boneco desgraçado, como um modelo de cera de madame Tussaud, a pele escorrendo como vela pingando. O que estou fazendo aqui? Escrevendo um livro de merda? Sobre comida? Fazendo um programinha leve e inútil de tevê, um showzinho de bosta? A ficha caiu de uma vez e fiquei me desprezando, odiando o que faço e o fato de estar ali. Imobilizado, piscando nervosamente e suando frio, sinto que todo mundo na rua está me observando, que irradio culpa e desconforto, que qualquer passante vai associar os ferimentos daquele homem a mim e ao meu país. Dou uma espiada nos outros turistas ocidentais que vagueiam por ali com suas bermudas da Banana Republic e suas camisas pólo da Land´s End, suas confortáveis sandálias Weejun e Bierkenstock, e sinto um desejo irracional de assassiná-los. Parecem malignos, comedores de carniça. O Zippo com a inscrição pesa no meu bolso, deixou de ser engraçado, virou uma coisa tão pouco divertida quanto a cabeça encolhida de um amigo morto. Tudo o que comer terá gosto de cinzas daqui pra frente. Fodam-se os livros. Foda-se a televisão. Nem mesmo consigo dar algum dinheiro ao coitado. Tenho as mãos trêmulas, estou inutilizado, tomado pela paranoia… Volto correndo ao quarto refrigerado do New World Hotel, me enrosco na cama ainda desfeita, fico olhando para o teto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de digerir ou entender o que presenciei e impotente para fazer qualquer coisa a respeito. Não saio nem como nada pelas 24 horas seguintes. A equipe de tevê acha que estou tendo um colapso nervoso.
Saigon…Ainda em Saigon.
O que vim fazer no Vietnã?”

«A Ferida», texto de Anthony Bourdain, no livro «Em Busca do Prato Perfeito»

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a função do gozo na sua economia psíquica

[ter] 8 de maio de 2018
isto aqui está parecendo uma coleção de frases
**
no meio de um sonho, um telefonema, acordei. ainda em meio aquela bruma que oniricamente misturava-me em imagens e sensações [que remetem ao último seriado que vi] de campos e montanhas, com frio, geada, casa familiar [de pessoas consideradas como parentes de quarto grau], e saltos de bicicleta. Acordei ali, a um passo de saltar montanha abaixo.
e sabe aquela sensação que se você tivesse aguardado mais um instante… pelo trem que passaria, ele teria passado realmente e você estaria nele. mas em tua ânsia… você se foi, caminhou muito. e ele vai passando por você, sem poderes parar.
mas certos caminhos… e certo caminhar é necessário, e por vezes é até bonito, noutras tudo é devastador… mas, enfim, é necessário, seguir.
***
do mundo real, ligaram avisando que a minha cirurgia foi agendada. amanhã. passar no posto para pegar a requisição.
***

Como a histeria se manifesta no homem, vídeo de Christian Dunker
Personalidade borderline, vídeo de Christian Dunker
A economia de gozo e a constituição do sujeito, artigo de Isabela Santoro Campanário e Jeferson Machado Pinto
A perversão comum: viver juntos sem outro, resenha de William José Batista
Goze! Notas sobre a Nova Economia Psíquica, ensaio de Urias Arantes

abaixo uma citação deste texto:
«Para Melman, o patriarcado (transmissão com a castração) e o matriarcado (transmissão sem a castração) são estruturas numa relação dialética: o enfraquecimento da primeira exige que a atenção se volte para a segunda, o funcionamento e os efeitos de uma esclarece os efeitos e o funcionamento da outra. Com a erosão da figura do pai, “promotor do desejo,” (MELMAN, 2002, p. 26) é um mundo inteiro que desmorona: o recalque e o desejo cedem lugar ao gozo e à perversão, a representação à presentação ; intervém a abolição da diferença dos sexos, a predominância de práticas sem autoridade fundadora; a política não tem mais sentido e cede lugar à gestão. Novas formas de sociabilidade horizontal se desenvolvem. É a grande liberação, o que significa que o pensamento se esteriliza, posto que pensar só é possível para um sujeito dividido. Abrem-se as portas do “fascismo voluntário” (MELMAN, 2002, p. 46). A psicanálise nada pode fazer diretamente, mas apenas mostrá-lo, fazê-lo aparecer (MELMAN, 2002, p. 44), o que quer dizer, clinicamente, “fazer existir (….) esse lugar vazio que permite ao sujeito organizar sua palavra, sem o qual ela torna-se incoerente, o que é seu sofrimento” (MELMAN, 2002, p. 221)»

***
notas aleatórias do conselho de classe
de ontem:

«’hackearam’ a cabeça do menino»

«parece um ser paralelo»

«a comida é pouca. mas é o contrato. o contrato é mesquinho – e adendo, o capital é mesquinho, e que garanta-se o lucro da corporação»

of monster and men

[dom] 8 de abril de 2018

continuo só, em casa. pensando coisas… elena me habita. peguei o livrinho do freud, pra ler. tomei banho de sol… nu.

penso em várias coisas aleatórias… esse meu estranhamento em relação ao mundo, como se muitas vezes, como elena, eu estivesse atuando. e como é difícil estabelecer conexões com outras pessoas…

como um fruto de minha época, pensei neste auto-exílio… no fugir das relações por não me achar o suficiente, por me envolver nesta bruma pesada, e travar… ficar preso e não crescer.

mas precisarei crescer esse ano. afinal… como viver? como amar? como terminar essa graduação? e minha casa?

e amanhã? o que farei?

Of Monsters And Men – Love Love Love // Composição: Nanna Bryndis Hilmarsdottir // Well, maybe I’m a crook for stealing your heart away / Yeah, maybe I’m a crook for not caring for it / Yeah, maybe I’m a bad, bad, bad, bad person / Well, baby, I know / And these fingertips / Will never run through your skin / And those bright blue eyes / Can only meet mine across the room filled with people that are less important than you / All ‘cause you love, love, love / When you know I can’t love / You love, love, love / When you know I can’t love / You love, love, love / When you know I can’t love you / So I think it’s best we both forget before we dwell on it / The way you held me so tight / All through the night / ‘Til it was near morning / ‘Cause you love, love, love / When you know I can’t love / You love, love, love / When you know I can’t love / You love, love, love / When you know I can’t love you / All ‘cause you love, love, love / When you know I can’t love / You love, love, love / When you know I can’t love / You love, love, love / When you know I can’t love you

***

li este texto outro dia na timeline de um amiga, colo aqui:

Decreto da autorresponsabilidade

Escolho não colocar o peso de meu abandono infantil em meu relacionamento afetivo. Escolho não deixar a rejeição cortante da infância desfazer o laço do amor.
Se a relação está feliz ou triste, vou lidar com meu lado adulto, são coisas da vida. Minha criança ferida não chorará suas lágrimas por cima de meu bem. Chorará em meu colo de acolhimento em momentos apropriados. 

Escolho não ser dominada pela ganância faminta de minha criança no momento de usar o dinheiro que ganho com meu trabalho. Já sei que essa fome não cessa, que não há medida de satisfação. Aprendi que dinheiro é minha colheita e é sagrado, e não desvalorizo mais o valor do que dou ao mundo com meu serviço e ofício. Criança não trabalha e não lida com dinheiro.

Escolho não deixar nas mãos de minha criança ferida a decisão do que e quando comer, me alimentar. Sei que ela sente que açúcar, alcool e glúten vão finalmente preencher seu vazio de não ter sido vista, ouvida e considerada. Já compreendi que o que alimenta esse buraco é sentir plenamente minha dor, tomando essa responsabilidade em minhas mãos, com pulso firme e de forma amorosa. No entanto, escolho comer com prazer, desde que seja comer sabores para comer sabores, e não para entorpecer o desespero da solidão.

Escolho não fazer sexo e dar meu corpo para receber segurança de qualquer tipo, atenção ou aprovação. Essas são as necessidades infantis não satisfeitas, e não são razão para fazer sexo. Compreendi que criança não faz sexo e escolho fazê-lo para compartilhar de mim e de meu prazer, sem trocas escusas e camufladas. Sexo é poder, energia vital e felicidade. Eu dou, sou, estou e, assim também recebo de quem tem o mesmo tamanho que eu.

Dou quando escolho dar, recebo quando me abro, determino e ponho em ação o meu ser objetivamente no mundo.

Escolho parar de reclamar e dar de mim para a vida. E o passo fundamental é a autorresponsabilidades que tomo pelas minhas faltas e meus ais. Admito que já recebi tudo de meus pais, e o que ainda me falta, eu mesma vou buscar. O que é de meu pai e o que é de minha mãe, deixo com eles. Fico com o que é meu. Essa é a valiosa tarefa de discernir.

Vou para a Vida de mãos dadas com minha criança e sou a melhor mãe ou pai que ela poderia ter. Aceito as dificuldades da vida e escolho crescer com elas. Assim é.

Agradecendo aos ensinos, aos professores e à Vida, sigo. Texto: Andrea Quirino de Luca

outro filme visto, e que ainda estou digerindo… La Patota.

carta a el-rei

[qui] 8 de março de 2018

ou você deixa a expectativa lá no topo, e fica imobilizado por não dar conta do você “espera” de você mesmo.

e não escreve…

e aguenta a ressaca por sentir-se “menos” na manhã seguinte.

ou você joga o pudor, e todo esse saco de quinquilharia de medos, orgulhos e coisas bestas pela janela…

e escreve.

escreve o que der e pronto, feito.

***

e algo me diz que vai faltar tempo,

e que não terei mais tempo para gastar não sendo pragmático.

16h48

***

edit. defini a estrutura, rascunhei a resenha… só faltou uma meia hora para finalizar. não consegui. e ainda estou exausto… física e psicologicamente. amanhã tem ressaca.

ossos de sépia

[qui] 8 de fevereiro de 2018

SESSÃO NOTAS

7h30 nota mental #1 desafio de hoje… reverter o revés… negociei tanto que posso vir a perder seis aulas, reduzindo de 34/40 para 28/30.

7h55 nota mental #2 desafio da vida… sair no horário. e mais um dia eu vou perdendo as horas… e vou atrasado demais nessa vida… mais uma hora, mas um dia.

8h55 nota mental #3 não fui. não vou. não sei quanto há de liberdade e quanto há de prisão, mas sou um desviante, a marginalia me atrai muito mais que o status quo.

SESSÃO POESIAS

7h40 poemas colhidos pela manhã

“(…) Como então petrifico em tua frente,
mar, porém não mais digno
me creio hoje da solene advertência
do teu alento. Logo me disseste
que o diminuto fermento
do meu coração era só um momento
do teu; que em mim estava no fundo
tua arriscada lei: ser vasto e diverso
e fixo ao mesmo tempo:
e esvaziar-me assim de todo dejeto
como fazes tu que atira nas bordas
com cortiças algas astérias
os destroços do teu abismo (…)” (p.115)

*

“(…) Dissipa se o quiseres
a minha vida débil que se queixa,
como um apagador o traço
efêmero dum quadro-negro
Espero retornar ao teu círculo,
cumpra-se o meu desbarato passar.
A minha vinda era um testemunho
de ordem que na viagem esqueci,
juram fidelidade essa palavras
a um fato impossível, e o ignoram.
Mas sempre que logrei
ouvir teu doce refluxo nas margens
fui presa de um espanto
como a quem sendo falto de memória
voltasse a recordar a sua terra.
Minha lição aprendi
mais que em tua glória
manifesta, no arfar
quase que insonoro
de um desolado meio-dia dos teus;
a ti humilde me rendo. Não sou
mais que fagulha de um tirso. Bem sei:
queimar, outro não é meu significado.”

Eugenio Montale, “Mediterrâneo” In: Ossos de sépia, 2002 [1924], p. 129.

SESSÃO LINKS E CITAÇÕES OUTRAS

8h46 «As massas nunca se revoltarão espontaneamente, e nunca se revoltarão apenas por serem oprimidas. Com efeito, se não se lhes permitir ter padrões de comparação, nem ao menos se darão conta de que são oprimidas.» (George Orwell, em 1984)

«Ahora uno se explota a sí mismo y cree que está realizándose»

«En la orwelliana 1984 esa sociedad era consciente de que estaba siendo dominada; hoy no tenemos ni esa consciencia de dominación» (Byung-Chul Han)

«Me ha permitido percatarme de la alteridad de la tierra: la tierra tenía peso, todo lo hacía con las manos; lo digital no pesa, no huele, no opone resistencia, pasas un dedo y ya está… Es la abolición de la realidad; mi próximo libro será ese: Elogio de la tierra. El jardín secreto. La tierra es más que dígitos y números.» (Byung-Chul Han)

***

8h26 O Mar Invisível, por Simon Christen

soledad barret viedma

[seg] 8 de janeiro de 2018

Mãe, me entristece te ver assim
o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta.
Mãe, não sofras se não volto
me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!
no olhar de uma criança feliz
de um jovem que estuda
de um camponês em sua terra
de um operário em sua fábrica
do traidor na forca
do guerrilheiro em seu posto
sempre, sempre me encontrarás!
Mãe, não fiques triste,
tua filha te quer.

Soledad Barrett Viedma

«No dia 8 de janeiro de 2018, completam-se 45 anos de um dos mais brutais crimes políticos cometidos no Brasil. Trata-se do monstruoso assassinato da poetisa e intelectual paraguaia Soledad Barrett Viedma, ela foi cruelmente torturada e morta pela Ditadura Militar aqui mesmo em Pernambuco. » Leia mais aqui… http://desacato.info

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