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meu tio da américa

2018, dezembro 10, segunda-feira

peito em febre.

acordo cedo.

mate, chamego no cão, sofá e tevê.

aleatoriamente «mon oncle d’amérique». um filme francês de 1980, do gênero drama psicológico, dirigido por Alain Resnais. inspirado nas teorias do professor Henri Laborit, médico, biólogo e pesquisador do comportamento humano (behaviorista).

Roteiro: Henri LaboritJean Gruault

[PS leia a excelente crítica sobre o filme feita por Amanda Aouad Almeida do cinepipocacult]

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«DOIS ANOS MAIS TARDE. QUINTA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 1979

Colocamos um rato numa gaiola… com dois compartimentos…  ou seja, um espaço separado|por uma divisória com uma porta… em que o chão está eletrificado, intermitentemente. E, antes que a eletricidade passe pelo chão, um sinal previne o animal… de que, em 4 segundos a corrente vai passar. A princípio ele não sabe… Percebe depressa, mas de início fica inquieto. Rapidamente vê a porta aberta e passa para a divisória ao lado. O mesmo volta a acontecer alguns segundos depois. Ele aprenderá também muito rapidamente… que pode evitar o pequeno choque elétrico nas patas… passando para o compartimento da gaiola, onde estava a princípio. Este animal, é submetido a esta experiência… durante uns 10 minutos por dia durante 7 dias seguidos… ao fim desse 7 dias… está em perfeitas condições.  Saúde perfeita. Pelo suave… pressão arterial normal. Ele evitou, através da fuga, a punição. Conseguiu prazer. E manteve o seu equilíbrio biológico.  O que é fácil para um  rato numa gaiola… é muito mais difícil para o Homem em sociedade. Certas necessidades foram criadas… por essa vida em sociedade, desde a infância. e raramente pode, para satisfazer essas necessidades… recorrer ao combate quando a fuga se revela ineficaz.  Quando dois indivíduos|têm objetivos diferentes… ou o mesmo objetivo… mas competem pelo mesmo objetivo… há um vencedor e um perdedor.  Se estabelecerá uma dominação… de um dos indivíduos sobre o outro. A procura da dominação num espaço a que chamamos… território… é a base fundamental… de todo o comportamento humano, embora não estejamos conscientes das motivações. Não há um instinto de propriedade, nem um instinto para dominar. Há apenas a aprendizagem, do sistema nervoso de um indivíduo… da necessidade de conservar à sua disposição um objeto ou um ser que seja desejado… invejado… por outro ser. Já dissemos que não|somos mais do que os outros. Uma criança selvagem, abandonada longe dos outros… nunca se tornará um homem. Nunca aprenderá a falar, ou a andar. Se comportará como um animalzinho. Através da linguagem, o Homem tem sido capaz de transmitir de geração em geração… toda a experiência que acumulou durante milhões de anos. Ele já não pode, há muito tempo, assegurar a sua sobrevivência por si próprio. Ele precisa de outros para poder viver. Ele não sabe fazer tudo, não é politecnista. (…) a sobrevivência do grupo está ligada… ao ensino desde criança… daquilo que é necessário para funcionar em sociedade. Ensinamos a não fazer cocô nas calças,|a fazer xixi na privada. Depois, rapidamente, ensinamos|como ele deve se comportar… para que a coesão do grupo possa existir. Ensinamos o que é belo, o que é bom… o que é mau, o que é feio. Dizemos o que deve fazer… e punimos ou recompensamos… independentemente da sua própria busca do prazer… punimos ou recompensamos… de modo que a sua ação… esteja conforme as necessidades de sobrevivência do grupo. Está quente… Cuidado! Vai se queimar. Vê como gira? Sente-se direito! Aperte a mão da senhora. – Repete comigo: “U.S: go home!”|- U.S. go home. Um, dois, segundo, três, quatro… tem quatro dedos!  Estamos começando a perceber como nosso sistema nervoso funciona. Só há uns 20 ou 30 anos… é que somos capazes de compreender. Como à partir de moléculas químicas que constituem a base… se estabelecem conexões nervosas, que serão programadas… }impregnadas, pelo condicionamento social. E tudo isso, num mecanismo inconsciente. Em outras palavras, os nossos impulsos e automatismos culturais… serão mascarados pela linguagem, pelo discurso lógico. “Morrer pelo país|é um destino tão grandioso… que legiões implorarão uma morte tão bela.” “A raça branca, a mais perfeita das raças humanas… habita sobretudo na Europa, na Ásia Ocidental… Norte de África e América.” Portanto…  15 francos por um primeiro lugar… 10 francos por um segundo… 5 francos por um terceiro… e a partir do quarto… um pontapé no traseiro! (…)  Assim, a linguagem ajuda a esconder a causa da dominância… para mascarar o mecanismo que estabelece essa dominância… e a convencer o indivíduo que, ao trabalhar para o coletivo social… realiza o seu próprio prazer. Embora geralmente não faça mais… do que manter posições hierárquicas… que se escondem por detrás de álibis linguísticos. Álibis fornecidos pela linguagem, que servem de desculpa.

Nessa segunda situação… a porta entre os dois compartimentos está fechada. O rato não pode fugir. Vai, portanto, passar por uma punição que não pode escapar. Esta punição vai provocar nele um comportamento de inibição. Ele aprende que qualquer ação é inútil, que não pode fugir nem lutar. Inibe-se. Esta inibição, acompanhada no Homem, pelo que chamamos de angústia… é também acompanhada, no seu organismo, por profundas perturbações biológicas. Se um micróbio está presente no ambiente… embora, normalmente,  as defesas funcionassem… estão inibidas, e ele pega uma infecção. Se há uma célula cancerosa, que, normalmente, seria destruída… vai produzir um câncer. E todas essas desordens biológicas desencadeiam… aquilo que chamamos de doenças da “civilização”, ou psicossomáticas. As úlceras no estômago, a pressão alta… a insonia, a fadiga… o mau-estar.

Na terceira situação… o rato não pode fugir. Irá receber a mesma punição… mas será confrontado com outro rato… que será seu adversário. Nesse caso, ele vai lutar. Este combate é absolutamente inútil… não permitirá evitar a punição. Mas ele vai agir. O sistema nervoso é feito para agir. Este rato não vai apresentar qualquer problema patológico… como os que vimos no caso anterior. Vai ficar em excelentes condições… embora tenha recebido a mesma punição. Mas, no caso do Homem… as leis da sociedade|normalmente proíbem… essa violência defensiva. O operário que vê diariamente… o encarregado que odeia… não pode lhe partir a cara. Acabaria na prisão. Não pode fugir, ficaria sem trabalho. E, todos os dias da semana, todas as semanas do mês… todos os meses, às vezes, durante anos… está impedido de agir. O Homem tem diversas  maneiras de lutar… contra este impedimento da ação. Pode recorrer à agressividade. A agressividade nunca é gratuita. É sempre uma resposta… ao impedimento da ação. No aliviamos, numa explosão agressiva… que raramente compensa, mas que, no funcionamento do sistema nervoso, é perfeitamente explicável.

(…) Assim, como dizíamos… uma pessoa, numa situação em que a ação é impedida…  se esta se prolonga, vai afetar a saúde… as perturbações biológicas consequentes… não causarão apenas… o aparecimento de doenças infecciosas… mas também o comportamento a que chamamos de “doenças mentais”. Quando a agressividade não se exprime contra os outros… pode ainda exprimir-se contra si próprio, de duas maneiras: somatizando, ou seja, dirigindo a agressividade sobre o estômago, deixando um buraco… uma úlcera… ou para o coração e as artérias, causando hipertensão arterial… por vezes, mesmo lesões agudas… que conduzem a doenças cardíacas brutais…. enfartes, hemorragias cerebrais; ou desenvolvendo alergias ou crises de asma. A outra forma de orientar a agressividade… contra si próprio, de uma forma ainda mais eficaz… é o suicídio!  Quando não podemos dirigir a agressividade para os outros… podemos ainda ser agressivos com nós mesmos.»

***

plano da tarde:

matear na praia, com a minha mãe e minha filha.

e tirar fotos

***

MATILDE CAMPILHO

Matilde Campilho
Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

PEDRA EXPLODIDA 
NA MÃO DO MONGE

Matilde Campilho

Penso em astronautas
não penso em árvores chinesas
penso na contagem dos cabelos
não penso em punhais
disfarçados de arma desportiva
Penso em camisas vermelhas
em minha camisa vermelha
com um pequeno buraco
na zona lombar
Penso no êxodo
dos vendedores de picolé
nas migrações pendulares
penso em garrafas vazias
penso em tanques de guerra
penso em jabuticaba & acarajé
Penso no rosto e nos braços
da cantora de Santo Amaro
penso em pipas e em meninos
soltando pipas.

The ABC of Love, Léonce Perret, 1923.

[ps… no final do dia… a surpresa… mesmo eu tendo jogado a toalha e não feito uma das avaliações da disciplina… passei em teoria literária… no limite. estou devendo um semestre para meus colegas de grupo, principalmente o carlos, por terem deixado meu nome no trabalho, mesmo eu não tendo respondido nenhuma questão. ou a cláudia, prof, que arrendondou minha nota pra cima pelo meu desenvolvimento na metade final do semestre… mas enfim, não importa, o que importa é que alguém me salvou nesse jornada de cursar mais um semestre de teoria literária… ]

foco rapaz… faça por você e pelos outros… o que os outros tem feito por você.

 

atenção ao sábado

2018, dezembro 10, segunda-feira

certo, eu sei… já é segunda-feira. mas é que preciso registrar agora…

quem em sã consciência é picado por uma vespa as duas e meia da manhã enquanto toma banho, logo antes de ir dormir?

que dor horrível que estou sentido agora… e bem no peito esquerdo.

e como hoje é aniversário de clarice (… e antes que eu comece a passar mal, lá vai um trecho que fala dessa sensação, ou similar, que sinto agora:

1884027ATENÇÃO AO SÁBADO

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.

Domingo de manhã também é a rosa da semana.

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Siciliano, 1992

extraído deste blogue interessante trecos & trapos

does time work differently in different languages?

2018, outubro 10, quarta-feira

Prelúdio da gota d’água de chopin

Chopin Prelude Op.28 No.15 (Horowitz)

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Coca-Cola no deserto

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Debateboca

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Does time work differently in different languages? – Hopi Time

Relearn the Linguistic World in “Arrival”: An Interview with Jessica Coon