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poema à boca fechada

[sex] 1 de junho de 2018

não direi:
que o silêncio me sufoca e amordaça.
calado estou, calado ficarei,
pois que a língua que falo é de outra raça.

palavras consumidas se acumulam,
se represam, cisterna de águas mortas,
ácidas mágoas em limos transformadas,
vaza de fundo em que há raízes tortas.

não direi:
que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
palavras que não digam quanto sei
neste retiro em que me não conhecem.

nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
nem só animais bóiam, mortos, medos,
túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
no negro poço de onde sobem dedos.

só direi,
crispadamente recolhido e mudo,
que quem se cala quando me calei
não poderá morrer sem dizer tudo.

(José Saramago. Poema à boca fechada. In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

a casa de astérion

[ter] 1 de maio de 2018

Cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouço seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para procurá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após o outro, caem, sem que eu ensanguente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles profetizou, na hora da morte, que um dia chegaria meu redentor. Desde esse momento a solidão não me magoa, porque sei que vive meu redentor e que por fim se levantará do pó. Se meu ouvido alcançassem todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? – me pergunto. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem? Ou será como eu?
O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não restava qualquer vestígio de
sangue.
– Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu. – O minotauro mal se defendeu.

A casa de Astérion. In: O Aleph, de Jorge Luis Borges. Tradução de Flávio José Cardozo

***

ando sentindo-me meio bosta. só para constar. tem sido difícil respirar neste últimos dias. vai, levanta, ou rasteje, mas mova-se.

«é que andei levando a vida quase morto…»

[dom] 1 de abril de 2018

ñ penso. canto.

enquanto a procrastinação é absoluta… paulinho embala a maré da tarde.

e eu sou o meu avesso/meu antagonista/um antipaulinho.

deixei a música tocar livre… não consegui mover um dedo… vontade de sair correndo, dar um tempo, dizer chega. ficar quieto… e dos cinco quilos que perdi no ultimo mês, devorei tudo hoje. ando a explodir.

Karina Buhr - O patrão nosso de cada dia e outras...
Paulinho da viola - Meu Mundo é hoje (Eu sou assim) e outras...

e preciso fazer o resumo dos livros de literatura portuguesa. preciso corrigir as duas dezenas de trabalhos. preciso finalizar o planejamento anual… preciso estudar para a prova de quarta-feira… mas…

estou aqui me achando um incompetente para qualquer coisa (com medo da prova, com medo de dar passos, com dificuldade de respirar). argh… de tanto me achar, vou me encontrar num enorme zero, cão sem dono, mordendo a própria coda. incompetente para amar, para viver, para ter coragem.

e aquilo que estava divertido… virou essa coisa. mas engraçado, que de coisas simples, faço virar essas coisas, que dão nó e angustiam tanto. bosta.

bem que podia ser só esse meu sol em oposição à lua natal, quem derá.

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