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as cidades e a memória

[seg] 4 de junho de 2018

«Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

– Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta altura a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: – Você viaja para reencontrar o seu futuro?

E a resposta de Marco: – Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.»

As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. pág. 28-29

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é chegaram… A poesia soviética [Poesia Soviética. Lauro Machado Coelho. Algol Editora 656 páginas. Ano: 2007] e os dois de Italo Calvino [Por que ler os clássicos (Edição de bolso). Italo Calvino. Tradução: Nilson Moulin. Companhia de Bolso] e As Cidades Invisíveis. Italo Calvino. Companhia das Letras, 2017, 2ª edição, 21ª reimpressão. Tradução Diogo Mainardi].

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depois de dez dias em casa… segunda é dia de trabalho. e aquele dilema, aquela dificuldade de sair para o mundo real… ver pessoas, fazer uma cara sociável… cumprir horários.

tem sido tenso viver nesse último mês, nesses últimos anos.

programei postagem para a semana toda, no outro blogue [assim esqueço].

nota importante… se eu não tiver forças para viver por mim, que eu tenha por izabel. hoje, ela me contou que está triste, profundamente triste, mortalmente triste…

contei pra ela do sonho que tive ontem. acordei ainda com sua reminiscência, eu engolia um copo cheio de areia, e me via triste e engasgando, e meu pai, de carro, chegou, e pensei, preciso de ajuda, preciso dizer para ele, que sozinho eu não consigo sair dessa, olha meu estado... e subitamente acordei, ainda engasgado.

[tenho estado engasgado por muito tempo já. é um engasgar na garganta, no peito, nos sonhos…]

e foi simbólico. precisamos de ajuda. terapia, mas sobretudo, mudança de rotinas e hábitos.

***

depois de quase cinco meses em sala, hoje, as coisas começaram a fazer sentido. acorda raimundo [Curta-metragem. Drama/ficção. Brasil. 1990. Direção e roteiro: Alfredo Alves]…

lembrar de Adorno, e sua educação contra a barbárie.

lembrar Marcuse

lembrar Florestan

 

outra forma de ver é devorar

[sex] 4 de maio de 2018
00:01
John Cage: 4'33" for piano (1952)
John Cage: Ocean of Sounds
John Cage: In a landscape (1948)
John Cage: Amores (1943)
John Cage: A Book of Music (1944)
John Cage: Five
John Cage: Daughters of the Lonesome Isle (1945)
John Cage: Mysterious Adventure
John Cage: Forever and Sunsmell (1942)
John Cage: A Flower (1950)
John Cage: Forever and Sunsmell (1942)
John Cage: Variations II (1961)
John Cage: Cheap Imitation (1969)
John Cage: Bacchanale (1938/1940)
John Cage: Second Construction (1940)
John Cage: The Seasons, Ballet in one Act (piano version) (1947)
John Cage: First Construction (1939)
John Cage: Summer
John Cage - Primitive
John Cage - Litany for the Whale (1980)
John Cage: Living room music (1940)
Chet Baker - Almost blue

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«Almost blue / Almost doing things we used to do / There’s a girl here and she’s almost you / Almost / All the things that you promised with your eyes / I see in hers too / Now your eyes are red from crying / Flirting with this disaster became me / It named me as the fool who only aimed to be / Almost blue / It’s almost touching it will almost do / There’s a part of me that’s always true…always / Not all good things come to an end now it is only a chosen few / I’ve seen such an unhappy couple»  Compositor: Elvis Costello

1h17. tive uma sacada…
vou tocar o terror, virar a madrugada, corrigir tudo que falta, digitar tudo que falta. tirar da cartola uma aula e ir. porque se eu for dormir… não vou mais uma vez, e o estrago será absurdo.

Mordida – Previsível + Açucar

e foi essa canção, lá atrás [olha a minha cara de clint eastwood], no filme do Wellington Sari, que me levou até essa ótima banda.

abaixo, trabalho solo de Paulo de Nadal, vocalista da banda. Paulo De Nadal – A carta de Caminha, Paulo De Nadal – Mais Flores Que Espinhos, entre outras…

Outra forma de ver, é devorar
outra forma de cor, é decorar
outra forma de sim, dissimular
outra de vento, aventurar
outra forma de rua, arruinar
outra forma de água, é aguardar
outra forma de dor, adormecer
outra forma de reta, derreter,
e outra ainda é arretar
outra forma de ser é esquecer
e quantas formas devem ter
de se gostar, de se querer,
de se gostar de si
outra forma de circo é circular
outra forma de som é assombrar
outra forma de luz, alucinar
outra forma de disco, discordar
outra forma de uva, enviuvar
outra forma de voo, trovoar
outra forma de crer é escrever
outra forma de sol, absolver,
e se preferir soluçar
outra forma de furo, enfurecer
e quantas formas devem ter
de se gostar, de se querer,
de se gostar de si

***

23h00 nota adicional. consegui, sobrevivi. mas foi apavorante entrar em sala… um aperto no peito, uma apatia, e carreguei uma tonelada de peso, sobre as costas e sobre o peito.

e na correção das avaliações…

duas músicas vieram quando lia as seguintes palavras «será» e «ninguém é igual a ninguém»

em transição

[qua] 4 de abril de 2018

ouço minha respiração, como é estranho. sou pesado como o ar no meu peito. e essa quantidade irascível de palavras tem relação com o silêncio da minha boca. a sede que seca. e ser e aprender sendo mais peripatético, talvez. preciso descer, e é isso. chega mais perto de mim… e o que os outros estão a falar… sei lá eu, todo esse negócio de definição de identidade… é fachada fechada. apenas vou ficar por cá, em paz com o meu caos. e amanhã, cedo, a gente se encontra noutra batida do mar, na mudança do vento. quando esse garapuvu cair. pois não vim aqui para impressionar, mas eu devia não esquecer dos meus defeitos. dar um viva a vaia e sacar, que se é apenas isso aí, que mal se vê, esse monte de b e s t e i r a s / d e s p r o p ó s i t o s / p e r a l t a g e n s / i n u t i l i d a d e s / d e l í r i o s. amanhã a lua, o sol, estarão em outras casas… e os planetas poderão até se achegar.

«O poeta pôde falar por metáforas, como por exemplo em: “Todos os outros, deuses e guerreiros, dormiam a noite inteira“; e logo a seguir diz: “quando olhava para a planície de Troia… o ruído das flautas e das siringes“. Seguramente, “todos” está em lugar de “muitos” por metáfora, pois o termo “todo” contém a ideia de “muito”. Também: “a única que não se deita”, deve-se entender por metáfora, pois o mais conhecido é o que está só.» Arte Poética – Aristóteles

***

01 – Nada em vão – 00:00 02 – Hourglass – 03:06 03 – Mon nom – 06:39 04 – Irene – 10:48 05 – Mana – 14:06 06 – Fall asleep – 16:46 07 – The ribbon – 20:06 08 – O cometa – 24:56 09 – Cavalo – 27:49 10 – I’m ready – 30:25 11 – Tardei – 34:16

Nada em vão / No espaço entre eu e você / No silêncio um grito / O sim e o não / Eis então / Que o pedaço de mim / Que é só teu / É intento sem / Tanto intenção / Quando eu vejo você / Me olhando assim / Vendo em mim / O que eu vejo em ti / Qual razão / É medir o imenso da sede / Se cede o senso / À sensação / Ilusão / É a veste que / Faz-te volver / Que me envolve e verte / Afeto e afã / Quando eu vejo você / Me olhando assim / Vendo em mim / O que eu vejo em ti / Compositor: Rodrigo Amarante De Castro Neves
***

e incidental: Little Joy – Little Joy

isto a cima foi salvo há dez horas atrás…

e abaixo… há poucos segundos, antes de trocar o nome do blogue, ao abrir o google, um doodle que homenageia maya angelou:

Still I Rise

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I’ll rise.
Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
’Cause I walk like I’ve got oil wells
Pumping in my living room.
Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I’ll rise.
Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?
Does my haughtiness offend you?
Don’t you take it awful hard
’Cause I laugh like I’ve got gold mines
Diggin’ in my own backyard.
You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.
Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I’ve got diamonds
At the meeting of my thighs?
Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I’m a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.
Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.
Maya Angelou, “Still I Rise” from And Still I Rise: A Book of Poems.  Copyright © 1978 by Maya Angelou

 

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