Archive for the '08' Category

refuse… resist… antifa

[seg] 8 de outubro de 2018

“E a gente raivava alto, para retardar o surgir do medo — e a tristeza em crú — sem se saber por que, mas que era de todos, unidos malaventurados.

[…]

Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se fôr… Existe é homem humano. Travessia.” João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

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notas avulsas sobre fascismo

«O fascismo não é uma forma de poder de Estado ‘que se coloca acima das classes – do proletariado e da burguesia’ como diz, por exemplo, Otto Bauer [dirigente social-democrata austríaco]. Não é a ‘revolta da pequena burguesia que capturou a máquina do Estado’, como declara o socialista britânico Brailsford. […] O fascismo é o poder do próprio capital financeiro». Jorge Cadima. Fascismo: passado e presente 

«O. Paxton, em Anatomia do fascismo ( 2007), da mesma forma que Togliatti, afirma que o fascismo assumirá sempre a formas do seu tempo e da sua cultura e, portanto, não é um fenômeno específico da Itália, alimentando-se do ressentimento (orientado para um inimigo) e um líder carismático e autoritário ( “um mito”) que seja obedecido pelas massas.» Homero Costa. A permanência do fascismo

«Um artigo publicado por Florestan Fernandes, em 1981 (“Notas sobre o Fascismo na América Latina”), parece retratar o Brasil de 2017. Ele fala da longa tradição de fascismo potencial na América Latina, para lembrar que o “uso estratégico do espaço político”, sob a capa de uma democracia republicana e constitucional, permite distorções que comprometem a possibilidade real de um exercício democrático.
É justamente o “aparato normal da democracia burguesa” que viabiliza o estado de exceção, através de leis de emergência, decretos e, sobretudo, mediante uso da força repressora do Estado contra qualquer tentativa de oposição. A pseudo democracia serve, portanto, para impedir a verdadeira transição para um regime democrático, no qual a maioria realmente tenha voz e vez» Valdete Souto Severo. A pilhagem aos direitos trabalhistas e o fascismo no Brasil de 2017

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nota avulsa sobre moral

«Moral é uma prática, não uma teoria. Ou seja, não tem fundamento metafisico, é definida historicamente, de acordo com culturas e sociedades diversas. Algumas regras morais são mais comuns, se repetem em diferentes culturas, mas nunca são universais, durante toda a história e independentes de qualquer coisa. Apesar disso, quase toda moral tenta se impor como verdade absoluta e transhistórica, normalmente apelando a um deus ou vários e negando outras morais divergentes, que fazem o mesmo. As pessoas não costumam gostar de relativismo moral como esse, mas a vida é um absurdo. Isso não significa que todas as regras socialmente aceitas devam ser quebradas, pois algumas delas já estão internalizadas pelas pessoas e constam em um código de leis existente antes do nascimento do individuo.» Henrique Carvalho

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e fechamos a noite com um 7 na prova de teoria literária e com uma bela sessão de:

HeptapodsAndScientists

00:53:57,969 –> 00:54:01,473
O 1º avanço foi descobrir que não há nenhuma correlação… entre o que um heptapod diz
e o que ele escreve. Ao contrário das línguas humanas escritas, a escrita deles é semasiográfica.
Ela transmite significado.
Ela não representa um som.

Talvez eles vejam a nossa forma de escrita como uma oportunidade desperdiçada… preterindo um 2º canal de comunicação.

Somos gratos aos amigos no Paquistão pelo estudo
de como os heptapods escrevem.

Porque, diferente da fala… um logograma não se prende ao tempo. Como sua nave ou seus corpos… sua língua escrita não tem uma direção para frente ou para trás.

Os linguistas chamam a isso de “ortografia não linear”.

O que suscita a pergunta:

É assim que eles pensam?

Se você quisesse escrever uma frase com as duas mãos a partir de ambas as direções… você teria que saber cada palavra que quisesse usar… bem como o espaço que elas ocupariam.

Um heptapod pode escrever uma frase complexa em dois segundos, sem esforço.

Levamos um mês para dar a resposta mais simples.

519
00:55:34,649 –> 00:55:35,650
Qual é o seu propósito na Terra?

[ Tradução: Monika Pecegueiro do Amaral ]

server error in ‘°∼°’ application.

[qua] 8 de agosto de 2018

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não digitei o que devia ter digitado. não li o que devia ter lido. não preparei o que devia ter preparado. não dormi na hora que devia ter dormido. não acordei na hora que deveria acordar… agora há uma montanha de coisas.

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Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
(Oswald de Andrade)

«A comparação entre o primeiro e o último versos exemplifica uma das muitas diferenças existentes entre a língua que a gramática normativa considera correta e a língua efetivamente falada pela maioria das pessoas. Para se comunicar, o falante não precisa dominar as regras da gramática escolar. Ele utiliza, mesmo sem ter consciência disso, uma gramática natural, que admite a construção “me dá um cigarro”, mas não admite, por exemplo, a construção “me cigarro um dá” [agramatical]. Ou seja, essa gramática natural também possui um sistema de regras que formam a estrutura da língua, e que os falantes interiorizam ouvindo e falando». Maria Lúcia Marangon

a ferida

[sex] 8 de junho de 2018

Memórias de Saigon.

“Já estava acostumado aos amputados, às vitimas do agente laranja, aos famintos, pobres, garotos de rua de seis anos de idade que você encontra às três da madrugada gritando “Feliz ano novo! Olá! Bye-Bye!” em inglês, e depois aponta para suas bocas e faz “bum bum?”. Estou ficando quase indiferente aos garotos famintos, sem pernas, sem braços, cobertos de cicatrizes, desesperançados, dormindo no chão, em triciclos, na beirada do rio. Mas não estava preparado para o homem sem camisa, com um corte de cabelo a la forma de pudim, que me detém na saída do mercado, estendendo a mão. No passado ele sofreu queimaduras e tornou-se uma figura humana quase irreconhecível, a pele transformada numa imensa cicatriz sob a coroa de cabelos pretos. Da cintura para cima (e sabe Deus até onde), a pele é uma cicatriz só; ele não tem lábios, nem nariz, nem sobrancelha. Suas orelhas são como betume, como se tivesse mergulhado e moldado num alto-forno, sendo retirado pouco antes de derreter por completo. Mexe seus dentes como uma abóbora de Halloween, mas não emite um único som através do que foi um dia, uma boca. Sinto um murro no estômago. Minha animação exuberante dos dias e horas anteriores desmorona. Fico paralisado, piscando e pensando na palavra napalm, que oprime cada batida do meu coração. De repente nada mais é divertido. Sinto vergonha. Como pude vir até esta cidade, até este país por razões tão fúteis, cheio de entusiasmo por algo tão…sem sentido, como sabores, texturas, culinária? A famíla daquele homem deve ter sido pulverizada, ele mesmo transformado num boneco desgraçado, como um modelo de cera de madame Tussaud, a pele escorrendo como vela pingando. O que estou fazendo aqui? Escrevendo um livro de merda? Sobre comida? Fazendo um programinha leve e inútil de tevê, um showzinho de bosta? A ficha caiu de uma vez e fiquei me desprezando, odiando o que faço e o fato de estar ali. Imobilizado, piscando nervosamente e suando frio, sinto que todo mundo na rua está me observando, que irradio culpa e desconforto, que qualquer passante vai associar os ferimentos daquele homem a mim e ao meu país. Dou uma espiada nos outros turistas ocidentais que vagueiam por ali com suas bermudas da Banana Republic e suas camisas pólo da Land´s End, suas confortáveis sandálias Weejun e Bierkenstock, e sinto um desejo irracional de assassiná-los. Parecem malignos, comedores de carniça. O Zippo com a inscrição pesa no meu bolso, deixou de ser engraçado, virou uma coisa tão pouco divertida quanto a cabeça encolhida de um amigo morto. Tudo o que comer terá gosto de cinzas daqui pra frente. Fodam-se os livros. Foda-se a televisão. Nem mesmo consigo dar algum dinheiro ao coitado. Tenho as mãos trêmulas, estou inutilizado, tomado pela paranoia… Volto correndo ao quarto refrigerado do New World Hotel, me enrosco na cama ainda desfeita, fico olhando para o teto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de digerir ou entender o que presenciei e impotente para fazer qualquer coisa a respeito. Não saio nem como nada pelas 24 horas seguintes. A equipe de tevê acha que estou tendo um colapso nervoso.
Saigon…Ainda em Saigon.
O que vim fazer no Vietnã?”

«A Ferida», texto de Anthony Bourdain, no livro «Em Busca do Prato Perfeito»

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