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a fantasia de suicídio

[qui] 14 de junho de 2018

«Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha encontros diários com as suas contradições. Acho que essa freqüência nos desencontros ajudava o seu ver oblíquo. Falou por acréscimo que ela não contemplava as paisagens. Que eram as paisagens que a contemplavam. Chegou de ir no oculista. Não era um defeito físico falou o diagnóstico. Induziu que poderia ser uma disfunção da alma. Mas ela falou que a ciência não tem lógica. Porque viver não tem lógica – como diria a nossa Lispector. Veja isto: Rimbaud botou a Beleza nos joelhos e viu que a Beleza é amarga. Tem lógica? Também ela quis trocar por duas andorinhas os urubus que avoavam no Ocaso de seu avô. O Ocaso de seu avô tinha virado uma praga de urubu. Ela queria trocar porque as andorinhas eram amoráveis e os urubus eram carniceiros. Ela não tinha certeza se essa troca podia ser feita. O pai falou que verbalmente podia. Que era só despraticar as normas. Achei certo.» Manoel de Barros – Um olhar

 

há alguns rascunhos que não verão a luz tão cedo porque algumas palavras e pensamentos são patéticos demais. ando a sentir-me patético, preciso escrever para não implodir, por dentro, mas o que sai, é torpe, é besta, é ridículo. isto basta, escrevo e escondo, e pronto.

e a dúvida, de ontem, era, que argumento encontraria para justificar essa vontade de não sair de casa, de não fazer nada. da falta…

e eis, que acordo não conseguindo respirar direito… com uma dor física terrível… que ótima solução para não ir trabalhar, ficar doente fisicamente. e pouco importa se há atestado ou não, basta apenas que os outros saibam que você sofre por dentro. que a vida dói.

***

A fantasia de suicídio

«A fantasia de suicídio é indispensável. Nenhum ser humano pode prescindir dela, sobretudo na adolescência e naqueles que conservaram as qualidades da adolescência por toda a vida. Mas o fato de passar ao ato do suicídio é coisa completamente diferente, algo de neurótico, uma doença aguda e repentina, um pedido de socorro não atendido. Isso é o suicídio. É verdade que, se eu não tivesse tido idéias suicidas, não estaria plenamente viva. Todo o mundo, num momento ou noutro, tem idéias suicidas; quem não as teve ainda não passou a adolescência; mas terão, fiquem tranquilos… talvez com cinquenta anos! É necessário passar por isso; é um modo de entender os outros, que também passam por isso; um modo de não passar ao largo daqueles que clamam por socorro. 

É importante que os jovens que tiveram idéias suicidas possam contar aos outros. Não se deve dizer: ‘Faça o favor de não falar desse jeito, que está dizendo asneiras!’, mas sim: ‘É mesmo? Conte essa.’ Felizmente há avós (eles se angustiam menos que os pais) capazes de dizer: ‘É mesmo! Conte essa! Sabe, isso me lembra…’ Há mesmo os que se lembram de romances em que alguém acaba se suicidando. Há transferência, ou seja, uma relação muito rica com uma avó, por exemplo, que nos faça ler um bom texto sobre suicídio de Werther ou de outro, por que não? O suicídio faz parte dos condicionamentos do pensamento humano por causa de nosso orgulho em nos dar vida, e nos dar morte. Somos feitos assim, queremos dominar tudo. Enfrentar a fantasia de suicídio e sobreviver é fazer o luto da onipotência.

Às vezes um filho, descontente com os pais, diz só para contrariá-los: ‘Pois bem, vou me matar!’ Os pais ficam desvairados, em vez de dizerem ao filho: ‘Desse jeito você não vai ter ninguém mais para reclamar!’ Cabe à mãe responder: ‘Conte-me, o que vai acontecer quando você morrer?’ O filho: ‘Você vai ficar bem chateada.’ A mãe: ‘Vou ficar triste.’ Há mães que acham que é esperteza responder: ‘Que bom! Vou ficar livre.’ Elas estão erradas por não levarem a sério. Nem é sério nem deixa de ser. É uma fantasia tentadora no ser humano, que a criança pode expressar em se sentir culpada. Vai ver que essa fantasia existe em todo o mundo. Ajuda-se uma pessoa mostrando-lhe que não é um pária por pensar nisso. Ela achava que isso era ruim, mas vê que faz parte da cultura, que é exprimível, é o drama humano de todos.

A solidão é inevitável, a angústia não é tão evitável, as fantasias de suicídio não são evitáveis. Todos temos de passar por isso. Não é nem bom nem mau. É a condição humana. Então, podemos colaborar uns com os outros. É viver. Que nem sempre se consegue, é verdade.» DOLTO, Françoise. Solidão. Ed. Martins Fontes, SP; 1998

textos para leitura posterior… algum dia, quando houver calma.

Quando estamos sós e deprimidos, não conseguimos ir em direção aos outros
A eterna dança da solidão
Um caso de histeria. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos – Sigmund Freud
O que eu me tornei para mim mesmo? O homem sem qualidades, e o caráter predatório da modernidade tardia / Maria Thereza Waisberg. – 2008
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el sueño del caimán

[seg] 14 de maio de 2018
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Fragmento de um poemas de José Santos Chocano
numa aquarela de Romulo Andrade.

jose_santos_chocano6

José Santos Chocano Primicias de Oro de Indias Poemas neo-mundiales: Tomo I. 
Tierras mágicas; Las mil una noches de América;
 Alma de Virrey. Corazón aventurero

 Ilustraciones de Luis Meléndez y Quelén. 
Santiago de Chile: Impr. Siglo  XX, 1934?  385 p.  ilus. p&b

Sucedió en el Perú: José Santos Chocano

***

El sueño del caimán

Enorme tronco que arrastró la ola,
yace el caimán varado en la ribera;
espinazo de abrupta cordillera,
fauces de abismo y formidable cola.

El sol lo envuelve en fúlgida aureola;
y parece lucir cota y cimera,
cual monstruo de metal que reverbera
y que al reverberar se tornasola.

Inmóvil como un ídolo sagrado,
ceñido en mallas de compacto acero,
está ante el agua estático y sombrío,

a manera de un príncipe encantado
que vive eternamente prisionero
en el palacio de cristal de un río.

(1906) 

José Santos Chocano

mais em:

https://www.vianegativa.us/2015/06/five-translators-one-poem-dreaming-about-caimans-with-jose-santos-chocano/

https://boni.wordpress.com/2018/05/14/196/

http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/peru/jose_santos_chocano.html

you help me along makin’ me strong

[sáb] 14 de abril de 2018
Drift Away // Dobie Gray // Day after day I’m more confused / Yet I look for the light in the pouring rain / You know that’s a game that I hate to lose / I’m feelin’ the strain, ain’t it a shame / Oh, give me the beat, boys, and free my soul / I wanna get lost in your rock and roll and drift away / Oh, give me the beat, boys, and free my soul / I wanna get lost in your rock and roll and drift away / (Won’t you take me away?) / Beginning to think that I’m wastin’ time / I don’t understand the things I do / The world outside looks so unkind / I’m countin’ on you to carry me through / And when my mind is free / You know a melody can move me / And when I’m feelin’ blue / The guitar’s comin’ through to soothe me / Thanks for the joy that you’ve given me / I want you to know I believe in your song / Rhythm and rhyme and harmony / You help me along makin’ me strong / Compositor: Mentor R. Williams
https://www.youtube.com/watch?v=xV6gNpMb-N4
(e há essa outra versão: https://garapuvu.wordpress.com/2002/07/28/swan/)
e a ideia era ver a nova série da netflix,

Perdidos no Espaço 

mas, ideia abortada… porque foi dia de lidar com as questões familiares, com as loucuras dos outros e as cobranças. mas unidos somos mais e melhores.
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