Archive for the 'Berthold Brecht – Eugen Bertholt Friedrich Brecht' Category

lento pero avanzo

[qui] 11 de junho de 2015

há apenas uma tênue noção de que as coisas estão serenas… mesmo quando tu miras ao redor e tudo está completamente caótico – tuas contas, tua casa, teus planejamentos futuros, a fila de notas soltas esperando serem publicadas… as aulas por serem dadas, os teus horários.

talvez a grande sacada é que neste momento o que importa realmente não é ter tudo exatamente planejado, e catalogado… o que importa é o vir a ser sendo… o estar aqui agora de forma aberta.

o enfrentar o medo de viver… vivendo.

as vezes tu passas tempo demais duvidando de ti mesmo… e as pessoas batem a tua porta e dizem: acorda! e tu estás cansado demais.

neste momento eu estou desperto.

e para esta tarde, dois canções de renato que brotaram enquanto escrevia este verbo e um poema de brecht – que me inspirou a abrir uma janelinha e a escrever aqui.

«Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
Espero, acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu pra mim» Se fiquei esperando o meu amor passar. In: As quatro estações. 1989. Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo

***

«Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom (…)
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado» Soul Parsifal.  In: A tempestade ou O livro dos dias. 1996. Composição: Marisa Monte / Renato Russo.

***

«Ouvimos dizer. Por Bertold Brecht

Ouvimos dizer: Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado. Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá pra lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto, virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.

Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu:
Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

É assim:
Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados demais perdem a batalha.

extraído daqui: http://ocheirodailha.blogspot.com.br/2009/03/brecht-ainda-e-sempre.html

***

lento-pero-avanzo

esta imagem me sintetiza bem. quando eu era pequeno uma forma que meu pai tinha de atacar-nos, e a mim, principalmente, era verbalmente chamando-me de lento, é claro que ele não utilizava a palavra lento… mas sinônimos agressivos e extremamente nocivos para uma criança e adolescente. até o hoje, ele tenta, mas depois de anos de terapia, um faculdade de ciências sociais, de militar em movimentos políticos, e da poesia de manoel de barros… aprendi que a “lentidão” dos caracóis é sábia. e se as vezes, quase o tempo todo, eu sou como estes caracóis… esta é minha dádiva,

«Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas
na beira do rio até duas horas da tarde, ali
também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia
de ver aquele moço a catar caracóis na beira do
rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça
de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse
com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço
ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo
a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa
era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que
sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E
separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é
uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de
conversar bobagens profundas com as águas. Bocó
é aquele que fala sempre com sotaque das suas
origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É
alguém que constrói sua casa com pouco cisco.
É um que descobriu que as tardes fazem parte de
haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que
olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.
Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi
o que o moço colheu em seus trinta e dois
dicionários. E ele se estimou.» Bocó, por Manoel de Barros.

e vale a leitura deste texto aqui: Diálogo entre seres uma aproximação ontológica ao animal na poesia de Manoel de Barros, por Claudia Quiroga Cortez

***

notas soltas: Como Cortar um Chip Para Que Vire um MicroSIM; comentar também sobre o hambúrguer vegetariano de grão-de-bico. e montei minha cama… depois de cinco anos acampando dentro de meu humilde barraco, por opção emocional… agora tenho uma cama. estou me desentocando.

meu plano de carreira é socializar o amor até exterminar a dor

[seg] 23 de fevereiro de 2015

não sei se é a tela minúscula deste netbook [o único que se conecta com o mundo], mas estou me sentindo tão pequeno hoje.

é tanta coisa por fazer. tanta gente por ver. tantos gastos e investimentos. é acordar cedo, é ouvir impropérios do secretário da educação, é cozinhar por uma hora e meia num busão em pleno sol do dia, é saber que não te sobram nem meia hora… saber que há uma noite cheia de aulas pela frente, e de reuniões de pessoas desorganizadas, de coisas por fazer… e sentir-se tão só. mas vamos, porque não há lugar hoje no mundo para preguiça. vamos, vamos senhor vagner… vamos nos organizar e tocar em frente.

ps: ontem foi dia de assistir 12 anos de escravidão. e foi um filme que me fez chorar.

abaixo um poema de brecht [porque paulo andré esteve me visitando e devolveu um de meus livros – o de brecht, que nem lembrava onde estava].

De que Serve a Bondade
(Brecht)

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

Bertold Brecht

 

metadodia

[qui] 27 de março de 2014

chove.
e tal qual
os passarim,
aquieto.
descanso e
espero.

***

metadodia-matarcadernosdecampoeorganizarquartocomputadorfinançasplanejamentotarefasatrasadasdocursoeserpaitio.

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e quando a chuva passa e o sol-entre-nuvens ilumina a tarde abafada… os jovens ocupam a reitoria – viva a ousadia e a luta. e meu estômago fica enojado com as pessoas normais, tão velhas e caducas, e tão fascistas… e meu pelo arrepia e meu sangue ferve junto com a coragem da juventude que diante de um “tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,” sabe que “nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar“.

E penso em embaubas e carambolas.

regras básicas de convivência

[dom] 28 de abril de 2013

mei me ajudou a pensar. paulo me ajudou a pensar. josé e pilar me ajudaram a pensar hoje. izabel e luiza me ajudaram a pensar. e pensei bastante… e tudo deve ser mais ou menos assim, levante a bunda da cadeira e vá fazer coisas… coisas incríveis. coisas mágicas… coisas de gente como tu assim boni-tá!

porque esse caminhão de coisas te pressionando estão só ai na tua imaginação.

e a cada dia tente poemas…

referências:

«Mas não celebremos apenas o sábio
Cujo nome resplandece no livro!
Pois primeiro é preciso arrancar do sábio a sua sabedoria.
Por isso, agradecimento também se deve ao aduaneiro:
Ele a extraiu daquele.»

bertold brecht

«Água mole em pedra dura: sobre um motivo taoísta na lírica de Brecht», por Marcus V. Mazzari

_____

Uma razão a mais para ser anticapitalista

“Te amo
e odeio tudo que te deixa triste.
Se o mundo com seus horários e famílias
e fábricas e latifúndios e missas
e classes sociais, dores e mais-valia
e meninas com hematomas
no lugar de sua alegria

insistir em te deixar triste,
apertando tua alma
com suas garras geladas,
teremos, então, que mudar o mundo.

Nenhum sistema que não é capaz
de abraçar com carinho a mulher que amo
e acolher generosamente minha amada classe
é digno de existir.

Está, então, decidido:
Vamos mudar o mundo,
transformá-lo de pedra em espelho
para que cada um, enfim, se reconheça.

Para que o trabalho não seja um meio de vida
para que a morte não seja o que mais a vida abriga
Para que o amor não seja uma exceção,
façamos agora uma grande e apaixonada revolução.”

Mauro Iasi

elogio da dialética

[qua] 29 de outubro de 2008

sentindo a poesia da vida em sintonia, para dar força neste dias nebulosos.

15 segundos.

—–

Elogio da Dialética

A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o “hoje” nascerá do “jamais”.

brecht, romano, gullar…

[qui] 1 de maio de 2008

Meus senhores, é mesmo um problema / Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos / Toda oportunidade / De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo / Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável / Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável / Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade / Dizer que é inexplicável / Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer / A confiança das massas / Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer / Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer / Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber / Com esse desemprego! / Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir / Esta opinião: o problema / Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego /Não será solucionado
Enquanto os senhores não / Ficarem desempregados!
” Bertold Brecht

—-

Eppur si muove

Não se pode calar um homem.
Tirem-lhe a voz, restará o nome.
Tiram-lhe o nome / e em nossa boca restará / a sua antiga fome…

Mente quem fala que quem cala consente.
Quem cala, às vezes, re-sente,
Por trás dos muros dos dentes,
edifica-se um discurso transparente…

A ausência da voz / é, mesmo assim, um discurso…
Ah, o silêncio é um discurso invertido / modo de falar alto / -proibido.

Se um silencio é demais,
quando é de dois, geminado,
mais que silêncio / -é perigo,
é uma forma de ruido.

Por isso que o silêncio / da consciência,
quando passa a ser ouvido / não é silêncio / -é estampido.

Affonso Romano de Sant’ Anna

Poema Obsceno

Façam a festa
cantem e dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo
como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente da Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a nossa festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
– e espreitam

(Na vertigem do dia)

Ferreira Gullar [ http://www.scipione.com.br/educa/oficinas/literatura/gullar/poesia.htm ]

sobre as peras e a vida e o caminho..

[sáb] 13 de outubro de 2007

“caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”

«Sobre as peras e a vida

Haverá lugar para a poesia? Affonso Romano de Sant’Anna se pergunta em seu longo poema A Grande Fala do Índio Guarani: “Onde lerei eu os poemas do meu tempo?” Onde estarão os Maiakoviski, os Brecht? Em que viela do destino se esconde o Rilke de hoje? Ou, em nossa América, em qual ventre amadurece o novo Vallejo? Em que lugar Benedetti ainda se pergunta: por que cantamos? Os poetas são filhos do tempo e se constroem no difícil amálgama do mundo e das pessoas insatisfeitas com as formas dadas. Lukács teria dito que a arte é, em parte, fruto da inadequação entre a alma e a ação, acabando por “introduzir no universo das formas a incoerência estrutural do mundo”. Insatisfação que foi expressa, por exemplo, quando Maiakoviski acreditou que seu mais eloqüente epitáfio pudesse ser: “Dize aos séculos futuros pelo menos isto: que eu estou em chamas”. Insatisfação como aquela das peras de Ferreira Gullar que “gastaram-se no fulgor de estarem prontas para nada”, e seu galo canta, pois “cantando o galo é sem morte”. Por isso cantamos, porque como as peras sabemos que o melhor da vida é a mordida.

Sobre a vida das peras
Uma pera
pode passar a sua vida
sob o domínio das folhas
colhendo os carinhos do vento
até despencar na podridão do humus

O que
uma
pera
realmente
sabe
da
vida
é o prazer
da
mordida»

[Mauro Iasi]

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