Archive for the 'Bráulio Tavares' Category

mr. do pandeiro… «o cansaço me atordoa enquanto eu ando para o além…»

[qua] 4 de outubro de 2017

..

dia longo. carona de fábio. conselho de classe. avaliando e digitando notas ainda…

 »

Zé Ramalho – Canta Bob Dylan

01 – Wigwam / Para Dylan – 00:00 02 – O Homem Deu Nome a Todos Animais – 5:05 03 – Tá Tudo Mudando – 10:35 04 – Como Uma Pedra a Rolar – 14:48 05 – Negro Amor – 21:13 06 – Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem – 26:16 07 – Rock Feeling Good – 30:49 08 – O Vento Vai Responder – 35:06 09 – Mr. Do Pandeiro – 39:12 10 – O Amanhã é Distante – 45:57 11 – If Not For You – 50:49 12 – Batendo Na Porta Do Céu II – 53:56

pela base

[sáb] 14 de março de 2015

 

 

hoje, como narrar o dia de hoje… essa inflamação na garganta, essa dor de cabeça, ouvidos que doem… essa sensação que vou ficar muito doente. talvez seja a chuva de terça-feira… esses dias todos que foram bem corridos e de péssima alimentação… muito tempo sem comer e concentrando tudo as 23h30 ou meia noite. esse estresse… esses choques térmicos… e posso dizer que com exceção de quinta-feira durante a tarde, todos os dias foram assim chatos, doloridos… nervosos… irritadiços. sexta-feira, por exemplo, foi um dia tão tenso… daqueles que nem você aguenta você mesmo… como se cada verbo que saísse de sua boca fosse um lamina afiada pronta para cortar tudo e todos. até o silêncio corta nestes dias.

mas hoje… apesar deste meu humor difícil… depois de alguns anos e eu volto a participar de uma reunião (para além daquelas profissionais e/ou educacionais)… para pensar o movimento… expor minhas posições, debater e me centralizar num coletivo. isto é algo importante… aquela fragilidade, aquela melancolia, aquele luto… adormeceram… e agora é luta. eu sou lento… mas estou andando.

*

ixcanul… fiquei curioso para ver este filme.

*

algumas passagens de leituras do dia, ou que estavam na fila de espera para serem digitas e arquivadas aqui:

#1. «diante de situações assim a gente percebe que o mundo se divide em o mundo e o meu mundo. há uma área imensa do mundo que ignora a nossa existência, que vai ficar para sempre invulnerável às nossas ações. como se fosse outro planeta, e não o planeta onde vivemos. mas há outro, o meu mundo, onde a nossa vida conta, nossas ações produzem resultados, nossa presença chama a atenção, nossa ausência deixará um vazio. quando somos jovens cheios de sonhos, de atrevimento, de esperança, achamos que um dia o meu mundo se confundirá totalmente com o outro. quando estamos na porta, nos preparamos para ir embora, é hora de esquecer o que está fora do nosso alcance, e de reconhecer que o meu mundo é pequeno, mas é tudo o que a gente tem» excerto de cronica de braulio tavares, citando indiretamente o pensamento de oliver sacks.

#2. «segundo schopenhauer, a felicidade nunca é atingida em sua totalidade, tendo os seres humanos apenas acesso a pequenos instantes de felicidade. uma vez que o filósofo alemão postula que, diante de todo o sofrimento, cada indivíduo deve tentar se aproximar da felicidade em meio a toda dor. mas ele nos lembra sempre que o esforço de alcançar a felicidade não é algo natural, na verdade é apenas ético. o que existe é apenas um esforço ético, porque não existe uma lei natural de que o mundo proporciona felicidade, tal como a lei de que, para sobrevivermos, temos que respirar. assim, ser feliz não é natural, mas depende da nossa vontade.» excerto do texto ‘sobre a doença de existir’ de mateus ramos cardoso

#3. «um índio dizia que um guerreiro a gente planta para que dê novas sementes. quem tomba na batalha a gente não deveria chorar, mas festejar. afinal, o exemplo de alguém que se doa totalmente é semente de uma multidão de militantes. é preciso ter orgulho de pessoas que oferecem sua vida para que o povo viva com dignidade. mas, com o mesmo ardor, é necessário recordar a memória de tanta gente anônima que sustenta o cotidiano da luta e garante o enraizamento do trabalho. cada militante, no seu território, deve comprometer-se em mobilizar um time de trabalhadores. estes, por sua vez, devem repartir os esclarecimentos com outras pessoas, em seus espaços de luta, de vida e de trabalho. sua missão é despertar a autoestima silenciada, estimular o protagonismo e convocar para a tarefa de ser capaz e ser feliz, coletivamente. assim, tece uma rede de resistência, pois a importância da árvore se mede pelo número de folhas que renova, e a importância da pessoa, pelo número de gente que reúne.» excerto de texto produzido pelo cepis, organizados por ranulfo peloso.

#4 «Não voltamos, contudo, à tese vulgar (aliás admissível, na perspectiva estreita em que se coloca), segundo a qual a magia seria uma modalidade tímida e balbuciante da ciência: pois nos privaríamos de todos os meios de compreender o pensamento mágico se pretendêssemos reduzi-lo a um momento ou a uma etapa da evolução técnica e científica. Mais como uma sombra que antecipa a seu corpo, ela é, num sentido, completa como ele, tão acabada e coerente em sua imaterialidade, quanto o ser sólido por ela simplesmente precedido. O pensamento mágico não é uma estréia, um começo, um esboço, parte de um todo ainda não realizado; forma um sistema bem articulado; independente, neste ponto, desse outro sistema que constituirá a ciência, exceto quanto à analogia formal que os aproxima; e que faz do primeiro uma espécie de expressão metafórica do segundo. Em lugar, pois, de opor magia e ciência, melhor seria colocá-las em paralelo, como duas formas de conhecimento, desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (pois sob este ponto de vista, é verdade que a ciência se sai melhor que a magia, se bem que a magia preforme a ciência no sentido de que triunfa também algumas vezes ), mas não pelo gênero de operações mentais, que ambas supõe, e que diferem menos em natureza que em função dos tipos de fenômenos a que se aplicam. Estas relações decorrem, com efeito, das condições objetivas em que surgiram o conhecimento mágico e o conhecimento científico. A história deste último é bastante curta para que estejamos bem informados a seu respeito; mas o fato de a origem da ciência moderna montar apenas há alguns séculos cria um problema, sobre o qual os etnólogos ainda não refletiram suficientemente; o nome paradoxo neolítico caber-lhe-ia perfeitamente.» excerto de ciência do concreto, capítulo um do livro o pensamento selvagem, do antropólogo claude lévi-strauss

#5 «Defeito 6. Esteticar (Estética do Plágio) // Composição: Tom Zé / Vicente Barreto / Carlos Rennó // interpretação de Tom Zé // Pense que eu sou um caboclo tolo boboca / Um tipo de mico cabeça-oca / Raquítico típico jeca-tatu / Um mero número zero um zé à esquerda / Pateta patético lesma lerda / Autômato pato panaca jacu / Penso dispenso a mula da sua ótica / Ora vá me lamber tradução inter-semiótica / Se segura milord aí que o mulato baião / (tá se blacktaiando) / Smoka-se todo na estética do arrastão / Ca esteti ca estetu / Ca esteti ca estetu / Ca esteti ca estetu / Ca esteti ca estetu / Ca estética do plágio-iê / Pensa que eu sou um andróide candango doido / Algum mamulengo molenga mongo / Mero mameluco da cuca lelé / Trapo de tripa da tribo dos pele-e-osso / Fiapo de carne farrapo grosso / Da trupe da reles e rala ralé» e «Ficha Técnica / O Terceiro Mundo tem uma crescente população. A maioria se transforma em uma espécie de “androides”, quase sempre analfabetos e com escassa especialização para o trabalho. Isso acontece aqui nas favelas do Rio, São Paulo e do Nordeste do país.E em toda a periferia da civilização. Esses androides são mais baratos que o robô operário fabricado em Alemanha e Japão. Mas revelam alguns “defeitos” inatos, como criar, pensar, dançar, sonhar; são defeitos muito perigoso para o Patrão Primeiro Mundo. Aos olhos dele, nós, quando praticamos essas coisas por aqui, somos “androides” COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO. Pensar sempre será uma afronta. Ter idéias, compor, por exemplo, é ousar. No umbral da História, o projeto de juntar fibras vegetais e criar a arte de tecer foi uma grande ousadia. Pensar sempre será .” Tom Zé».

e para fechar…

#6. «nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas continuam de pé»

Paulo Leminski. do livro O ex-estranho.

*

ps: outro títulos possíveis e pensados para esta postagem são “ciência do concreto”; “paradoxo neolítico”; “defeito de fabricação”; “ex-estranho”; “dia da poesia”.

 

 

entre o sonho e a realidade

[dom] 25 de janeiro de 2015

os fatos do dia: invertendo horários. dormindo pela manhã e acordando pela tarde. e antes de levantar fui acordado duas vez:

#1 uma foi com izabel me acordando para perguntar sobre alguns brinquedos seus… e eu não sei se arbitrariamente os joguei fora ou se estão encaixotados na acumulação de trecos da mãe dela [lembrete: importante recordar que os adultos não são superpoderosos que podem mandar isto ou aquilo ou dar fim as coisas dos outros. é necessário respeitar o tempo alheio…]

#2 a outra é que a gata deu de dormir nos meus pés para ter certeza que a primeira coisa que eu faça quando acordar é dar ração nova para ela… já que a mesma anda a escolher qual parte da ração vai comer. ela até desenvolveu uma técnica terrível… começa com um chamego nos meus pés até o ponto que inavisadamente crava suas unhas. lembrete: não chutá-la.

***

e foi um dia de ócio. ler jornal, ver tevê e comer. eis um dia ganho.

dois programas vistos

black in latin america, cuba: the next revolutionno canal futura;

che, um hombre nuevo, no canal brasil;

e um texto lido, de braulio tavares, e extraído do jornal brasil de fato:

medo de errar

«Zé de Cazuza conta no livro Poetas Encantadores que encontrou com Pinto do Monteiro e na conversa Pinto falou que tinha feito uma cantoria dias atrás com Dimas Batista. Zé de Cazuza perguntou como tinha sido, e Pinto respondeu: “Uma merda. O homem tá com medo de errar”. E Zé de Cazuza: “Ah, sim. Ele formou-se em Direito.”

Dimas foi um dos primeiros cantadores de viola a ter curso superior. O episódio narrado por Zé mostra a falta de cerimônia entre esses grandes poetas, que conviveram durante a vida inteira, e mostra essa fase de transição entre os cantadores totalmente intuitivos, como Pinto, e os que começaram a se valer de estudo, erudição, educação formal. É a velha oposição entre Romano do Teixeira e Inácio da Catingueira: o desafio estava empatado até que Romano puxou o assunto de Mitologia Grega, coisa que o ex-escravo Inácio não tinha leitura para acompanhar.

É engraçado, mas isso me lembra Vanderlei Luxemburgo, o polêmico técnico atualmente no Flamengo. Ele diz: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”. Vanderlei tem uma porção de defeitos, mas ele usa para o futebol um raciocínio bastante correto. Diz ele que se um time empata 5 jogos ganha 5 pontos, sem ter perdido nenhum jogo; mas se ganha 2 jogos e perde 3, ganha 6 pontos. Melhor, portanto, partir pra cima sem medo de perder. Aliás, foi para incentivar essa busca pela vitória que a Fifa decidiu atribuir 3 pontos por vitória, fato relativamente recente, de 1994. (Até uns 20 anos atrás, em competições oficiais, uma vitória dava apenas 2 pontos.)

Voltando à história inicial. Eu não diria que Dimas (a acreditar na versão de Pinto) estava com medo de errar porque se formou em Direito. Acho mais possível que ele tenha se formado em Direito porque tinha medo de errar, e aí não falo daquela cantoria específica, mas do estilo de cada cantador. Existem cantadores reflexivos, que gostam de pensar as coisas bem direitinho, o que em princípio parece ser o contrário da cantoria. Dimas, pelo que já ouvi em gravações, era um daqueles poetas de cantoria lenta, cadenciada, mantendo sempre o embalo sob controle, escandindo as palavras com precisão. O contrário daqueles repentistas que pensam e cantam com tal rapidez que chegam a atropelar as palavras. São dois modos de pensar, dois perfis mentais diferentes, que se refletem no estilo do improviso. Perfeccionismo e cantoria não combinam. Gosto do jeitão de Dimas, que é o de Oliveira de Panelas, de Diniz Vitorino; e gosto de cantador arrojado, acelerado, que parece estar cantando sem pensar, como Louro Branco. Mas são estilos pessoais. Um não conseguiria cantar como o outro, mesmo que quisesse.»

 

azul gauguin

[sáb] 2 de outubro de 2010
isto é ficção. [edição de fragmentos. pintura]
13:50. cena um. chuva.  próximos ao mar. próximos a amar. um casal e o narrador-personagem. ao longe. ou perto, dentro de um close-up. ‘cê foi pega em flagrante. olhavas o quê? e o olhar era como uma gota lançada ao ar, quase espuma, sabe?! mas para ele devia fazer sentido, algum sentido. riam-se. é, para mim, porção indeterminada de vento era apenas espuma. ou gota fadada a morte. a ser mar. volto. eles se desprenderam de mim. errei.

14:02. cena dois. bar. dia frio. janelas, com vista ao mar. distantes. um casal e o narrador-personagem. perto. quase esbarrando, na mesma cena. vocês não conversaram. os olhos frente a frente fugiam. esquivavam-se mutuamente. tu era uma flor roxa… qual? penso… me falta… um botânico te decifraria. tu vai embora, enquanto prendo-me no movimento dos teus pelos soltos no ar, que delimitam o movimento do corpo e um desejo, que é no fundo uma falta.

em alguma hora da tarde. cena três. praia. silêncio. apenas “ouça barulho bravio das ondas que batem na beira do mar”. um homem caminha. alternado por uma praia vazia. transcorri pela praia como uma onda que insiste em partir-se na beira do mar. no fundo, insisto nisto. nesta poesia de partida e encontro.

15:08. cena quatro. sozinho. insisto. papel. bar. mesa. insisto e as palavras não vem. insisto. insisto. esqueço. é o mar azul.

segunda-feira. que virá. cena cinco. tarde. chuva. um barco, pequeno, parte para pesca, some no branco indeterminado do mar.

referências incidentais:
Aunque me llames / Aunque vayamos al cine / Aunque reclames / Aunque ese amor no camine / Aunque eran planes y hoy yo lo siento
Si casi nada quedó / Fue sólo um cuento / Fue nuestra historia de amor / Y no te voy a decir si fue lo mejor / Pues / Sólo quiero saber lo que puede dar cierto / No tengo tiempo a perder //
Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.

Fui tuyo, fuiste mía. ¿Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.

Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia donde voy.

… Desde tu corazón me dice adiós un niño.
y yo le digo adiós.

// Go Back / Composição de Sérgio Britto e Torquato Neto / Trecho do poema ‘farewell’ de Pablo Neruda.

Paul GAUGUIN, “In The Waves”, 1889

memória

[seg] 13 de abril de 2009

E segue uma seqüência de fragmentos de poetas que criam um tecido aberto e pulsante. Falam sobre o amor-camarada, a memória, a ação, a semente-viva germinando neste vasto mundo…

«Todo o valor do ser humano está ligado à faculdade de se superar, de existir além de si mesmo, de existir no outro e para o outro.» Milan Kundera (Risíveis amores, Smêŝné Lásky no original)

«Los filósofos se han limitado a interpretar el mundo; mientras de lo que se trata es de transformarlo» Carlos Marx.

«Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos, ya no se endulzará junto a ti mi dolor. Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada y hacia donde camines llevarás mi dolor. Fui tuyo, fuiste mía. Qué más? Juntos hicimos un recodo en la ruta donde el amor pasó. Fui tuyo, fuiste mía. Tu serás del que te ame, del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo… » Pablo Neruda

A MÃO-LIVRE: [ou como vos disse ontem, somos um recorte profundo no ser e fazer deste mundo!] Assim, num recorte destes dias, onde a vida se aprofunda e o significado “intensifica-se”… e “o sem sentido apelo do não… [Mesmo com o livro ao lado, e sabendo do poema, fui buscar na rede algo mais e me deparo com isto aqui, que segue abaixo, que trás alguns elementos para reflexão, concordo com algumas coisas, outras não… E  não pensei tanto no poema sobre o amor-a-dois, mas no poema sobre a memória, sobre a história, sobre a consciência coletiva, sobre a realidade concreta, sobre o valor que o homem, a humanidade… Um exercício além.].

TEXTO ABAIXO DE Bráulio Tavares

«Amar o perdido!

Ler um poema é deduzir referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais simples, mas sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. É o poeminha “Memória” (em “Claro Enigma”), talvez um dos primeiros que li do poeta, pois aparecia manuscrito em fac-símile na Enciclopédia Delta-Larousse, que foi a Internet da minha infância. Diz o poema: “Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”.
Quatro estrofezinhas, cada uma com quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que CDA se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em “A Rosa do Povo”), que confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também em “Claro enigma”), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu era feliz e não sabia”.
Amar o perdido confunde o coração do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável – ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para continuar desejando por toda a Eternidade.

O verdadeiro desejo nunca é satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado, mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se desvalorizou em realidade.

Nada pode o olvido

A segunda estrofe do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em “Claro Enigma”) diz: “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa. Seu método criativo parece com o de Paul MacCartney, que dizia: “Eu pego uma idéia simples e vou complicando, vou complicando… Então, quando ela está bem complexa, eu começo a simplificar de novo”. É escusado dizer que a simplicidade que se obtém no final do processo é de caráter distinto da que o artista teve como ponto de partida.

Voltando ao poema, é preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi esse poema transcrito por aí com o absurdo erro de dizer: “Nada pode o ouvido…” É o típico caso da contaminação oral da pronúncia, agravado pelo fato de que, enquanto aqui no Nordeste a gente em geral pronuncia “ól-VI-do”, no Sudeste muita gente diz “ôl-VI-do”, o que ajuda a confundir.

Portanto, o Esquecimento nada pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. Eu sempre empanquei diante deste verso. Por mais que tente analisá-lo, nunca chego a fechar um resultado. É uma verdadeira dízima periódica poética, a gente pode continuar dividindo por todos os “século seculóro”, como diz o matuto, e nunca vai fechar a conta.

O Poeta parece estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência, todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo” do Não não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção de coisas relativas ao Não, mas… apelo? Posso explicar racionalmente o uso dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O “apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai pelo outro.

Mas enfim – o Poeta nos garante que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento, o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.

Analisar um poema desse jeito é uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh analisando a composição química das tintas. A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não estiver encaixando as frases, quando a conta não bater. Aí, vale parar e tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor entre uma linha e a seguinte.
As coisas tangíveis

A terceira estrofe do poema de Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa no uso desta imagem da “palma da mão”. Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo: “Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.

Essa imagem me lembra os versos de outro poema do mesmo livro (“Claro Enigma”), o belíssimo “Campo de Flores”, onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. / Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro…” E vejam com que delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”…

E tem mais. Observem o duplo sentido da palavra “insensível”. Insensível é aquilo que não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”). Portanto, as coisas que antes eram tocadas com as mãos já não são sentidas – nem sentem. A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que não podemos sentir também não nos sente.

É como a reciprocidade da dor, registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”: “Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate / a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas “coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se sentem mais uma à outra.
Mas as coisas findas

O poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (no livro “Claro Enigma”) se encerra com esta singela estrofezinha: “Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”. É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos, para fechar este poema sobre a perda e a ausência. Como falei no primeiro comentário, o poema tem quatro estrofes, cada estrofe três linhas, cada linha cinco sílabas. A contagem das sílabas métricas varia de leitor para leitor; eu as leio assim: “Amar o perdido (2-3) / deixa confundido (1-4) / este coração (1-4). // Nada pode o olvido (3-2) / contra o sem sentido (1-4) / apelo do Não (2-3). // As coisas tangíveis (2-3) / tornam-se insensíveis (1-4) / à palma da mão (2-3). // Mas as coisas findas (3-2) / muito mais que lindas (3-2) / essas ficarão (3-2).” A leitura métrica da última linha (que teoricamente seria 1-4, “es – sasficarão”) vira “essasfi-carão”, claramente influenciada pela das duas linhas anteriores, o que não ocorre com a última linha da segunda estrofe, quando isto forçaria um cacófato (“apelu-donão”).

É um poema minúsculo e de grande simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo descritas acima. A simetria é reforçada pela reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas. (Se eu fosse escrever um Decálogo para jovens poetas eu incluiria: “Economize a rima em “ÃO”, a qual, como as armas de fogo, só deve ser usada em casos de absoluta necessidade”).

O poeta fala da perda daquilo que foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas, terminadas. As coisas que acabaram, ficarão. Vejam que belo paradoxo! Nossa sensação intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram, despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória. Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão, eu ficarei”.

Que passarinho é este que fica? Maldo eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do meu “ABC de Ariano Suassuna” (e que examinei em maior detalhe nesta coluna: “A eternidade dos pássaros”, 8.9.2004). É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É a memória, que preserva em seu âmbar as coisas findas. Que na ficção científica foi assim definida por Frank Herbert (“Duna”): “Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque termina aqui”».

OU NÃO!

artigo transcrito do portal cronópios

e muito mais de Braulio Tavares em: Mundo Fantasmo

***

Carlos Drummond de Andrade por ele mesmo (Poemas)

0:00 Infância 2:47 Quadrilha 3:17 Os Ombros Suportam o Mundo 4:46 Mãos Dadas 5:47 Mundo Grande 8:29 José 10:19 Viajem na Família 14:10 Procura da Poesia 17:33 O Mito 24:56 O Lutador 27:36 Memória 28:05 Morte do Leiteiro 31:15 Confissão 32:13 Consolo na Praia 33:27 Oficina Irritada 34:19 Fazenda 35:05 Caso do Vestido 41:19 Estrambote Melancólico 42:11 O Enterrado Vivo 43:09 Destruição 44:00 Intimação 45:06 Alta Cirurgia 46:48 Para Sempre 47:40 Canto do Rio em Sol 50:54 Boitempo 52:16 Os Pacifistas 54:23 Cultura Francesa 55:02 Falta um Disco 57:54 Amor e Seu Tempo 58:45 Obrigado 1:00:08 Lira Romantiquinha 1:01:04 O Homem as Viagens 1:03:35 Essas Coisas 1:04:20 Parolagem da Vida 1:06:19 Declaração de Amor

DO PROJETO http://www.projetolivrolivre.com

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