Archive for the 'Caio Fernando Abreu' Category

um poema, umas notas… algumas canções.

[dom] 21 de junho de 2015

o poema obscuro
mira-me no espelho.
uma miragem,
uma imagem
captada ao acaso:
a forja da palavra,
a dura lavra.

o poema
é uma passagem:
uma rocha
amorfa e muda,
um vegetal retorcido,
um verbo seco,
um instante ao vento.

o poema é nada além
de um desejo cego,
um corte, um rasgo,
uma dor surda,
uma dúvida latente.

o poema é
o que foi dito
e o devir,
desde o mais
profundo de teu ser

o poema
está entre
o imperceptível
e o que de nós,
possamos traduzir.
***

o mote do poema era: “dificuldade de escrever. estar seco neste vento frio”. e ao escrever e reescrever as imagens foram se sobrepondo e o poema tornou-se um poema. das pesquisas ao longo da escrita cai nesta citação, que faz todo o sentido:

«O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia enquanto forja o verso.»
Émile-Auguste Chartier Alain

***

e abaixo, algumas notas de coisas que li pela rede que achei interessantíssimas – essas coisas me tocam profundamente, alguma coisa delas me habita.

tanto a citação, de Caio Fernando Abreu, e a imagem, de Courtney Wirthit, compõe uma bela postagem, “das coisas inexplicáveis, necessárias” encontrada num interessantíssimo blogue: A PARTE E O TODO DE MIM

«Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas
como alegria ou fé ou esperança.
Mas só fico aqui parado, sem sentir nada,
sem pedir nada, sem querer nada.» Caio Fernando Abreu

l**

e das redes sociais… abaixo uma canção de caetano, o genial caetano.

«Disse que vinha, e veio, lá do Norte / O mar nos olhos / Era noite sem vento e eu nem cri na minha sorte / Houve curiosidade, um calmo susto, alguma palidez / Por trás do ouro do seu rosto / Quero ser justo / Mesmo que não pudéssemos manter a lua cheia acesa / Ou não, ainda, nem no seu nem no meu coração / Eu vi você / Uma das coisas mais lindas da natureza / E da civilização»

**

gradell imagem de daniel alonso, da revista Photographize.

**

e umas canções:

 

a quem interessar possa

[sex] 26 de setembro de 2014

perdi o texto. ele falava sobre a rotina. a decisão de faltar logo mais ao curso. como esta decisão gerará um efeito nocivo, psicologicamente falando. e como isto é recorrente, revelando todo um processo de auto-sabotagem e frustração. manifestando uma dificuldade de lidar com as contradições da vida… e causas são  profundas…

essa falta tem relação com dificuldade de acordar cedo, mas sobretudo com o não conseguir realizar a tarefa obrigatória, e acumularem-se as atividades de dois cursos nesta sexta-feira, e nesta quinta-feira, minha folga, eu ter dedicado a auxiliar as obras na casa… enfim, não fiz, não farei, nem dá tempo, faltarei, e terei que aguentar as consequências – emocionais disto – e que posso tentar… mas se não der… não era.

lembrei de um fragmento do texto que perdi: «é uma terra arrasada, ruínas, um deserto e silêncios»

lembrei de uma fala de caio fernando abreu: a quem interessar possa

«Eu não tenho culpa. Não fui eu quem fez as coisas ficarem assim desse jeito que não entendo, que não entenderia nunca. Você também não tem culpa, vou chamá-lo de você porque ninguém nunca ficará sabendo, nem era preciso, a culpa é de todos e não é de ninguém. Não sei quem foi que fez o mundo assim horrível, às vezes quando ainda valia a pena eu ficava horas pensando que podia voltar tudo a ser como antes muito antes dos edifícios dos bancos da fuligem dos automóveis das fábricas das letras de câmbio e então quem sabe podia tudo ser de outra forma depois de pensar nisso eu ficava alegre quem sabe quem sabe um dia aconteceria mas depois pensava também que não ia adiantar nada e tudo começaria a ficar igual de novo no momento que um homem qualquer resolvesse trocar duas pedras por um pedaço de madeira porque a madeira valia mais e de repente outra vez iam existir essas coisas duras que vejo da janela na televisão no cinema na rua em mim mesmo e que eu ia como sempre sair caminhando sem saber aonde ir sem saber onde parar onde pôr as mãos os olhos e ia me dar aquela coisa escura no coração e eu ia chorar chorar durante muito tempo sem ninguém ver é verdade tenho pena de mim e sou fraco nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me doo agora mas ao menos nesse agora eu quero ser como eu sou e como nunca fui e nunca seria se continuasse me entende eu não conseguiria não você não me entendeu nem entende nem entenderia você nem sequer soube sabe saberá amanhã você vai ler esta carta e nem vai saber que você poderia ser você mesmo e ainda que soubesse você não poderia fazer nada nem ninguém eu já não acredito nessas coisas por isso eu não te disse compreende talvez se eu não tivesse visto de repente o que vi não sei no momento em que a gente vê uma coisa ela se torna irreversível inconfundível porque há um momento do irremediável como existem os momentos anteriores de passar adiante tentando arrancar o espinho da carne há o momento em que o irremediável se torna tangível eu sei disso não queria demonstrar que li algumas coisas e até aprendi a lidar um pouco com as palavras apesar de que a gente nunca aprende mas aprende dentro dos limites do possível acho não quero me valorizar não sou nada e agora sei disso eu só queria ter tido uma vida completa elas eram horríveis mas não quero falar nisso podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces não me importo de ser vulgar não me importa o lugar-comum dizer o que outros já disseram não tenho mais nada a resguardar um momento à beira de não ser eu não sou mais tudo se revelou tão inútil à medida em que o tempo passava tudo caía num espaço enorme amar esse espaço enorme entre mim e você mas não se culpe deixa eu falar como se você não soubesse não se culpe por favor não se culpe ainda que esse som na campainha fosse gerada pelos teus dedos eu não atenderia eu me recuso a ser salvo e é tão estranho o entorpecimento começa pelos pés aquela noite eu ainda esperava quase digo sem querer teu nome digo ou escrevo não tem importância vou escrevendo e falando ao mesmo tempo com o gravador ligado é estranho me desculpa saí correndo no parque e me joguei na água gelada de agosto invadi sem ter direito a névoa dos canteiros destaquei meu corpo contra a madrugada esmaguei flores não nascidas apertei meu peito na laje fria do cimento a névoa e eu o parque e eu a madrugada e eu costurado na noite cerzido no escuro porque me dissolvia à medida em que me integrava no ser do parque e me desintegrava de mim mesmo preenchendo espaços aqueles enormes espaços brancos terrivelmente brancos e você não teve olhos para ver que o parque era você a água você a névoa você a madrugada você as flores você os canteiros você o cimento você não teve mãos para mim só aquela ternura distraída a mesma dos edifícios e das ruas mas eles me desesperavam você me desesperava eu não quero falar nelas mas elas estão na minha cabeça como os meus cabelos e as vejo a todo instante cantando aquela canção de morte a minha carne dilacerada e eu ridículo queria ter uma vida completa você não se parecia com Denise tinha os olhos de mangaba madura os mesmos que tive um dia e perdi não sei onde não sei por que e de repente voltavam em você nos cabelos finos muito finos finos como cabelos finos ‘minto que me bastaria tocá-los para que tudo fosse outra vez mas não toquei eu não tocaria nunca na carne viva e livre eles me rotularam me analisaram jogaram mil complexos em cima de mim problemas introjeções fugas neuroses recalques traumas e eu só queria uma coisa limpa verde como uma folha de malva aquela mesmo que existiu ao lado do telhado carcomido do poço e da paineira mas onde me buscava só havia sombra eu me julgava demoníaco mas não pense que estou disfarçando e pensando como-eu-sou-bonzinho-porque-ninguém-me-ama eu me achava envilecido me sentia sórdido humilhado uma faixa de treva crescia em mim feito um câncer a minha carne lacerada estou dentro dessa carne lacerada que anda e fala inútil a carne conjunta das xifópagas e o vento um vento que batia nos ciprestes e me levava embora por sobre os telhados as cisternas as varandas os sobrados os porões os jardins o campo o campo e o lago e a fazenda e o mar eu quero me chamar Mar você dizia e ria e ríamos porque era absurdo alguém querer se chamar Mar ah mar amar e você dizia coisas tolas como quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos você não vai muito além desses príncipes pequenos suas palavras todas não tenho culpa não tenho culpa eram de quem pedia cativa-me eu já não conseguiria bem lento eu não conseguiria eu não sei mais inventar. a não ser coisas sangrentas como esta a minha maneira de ser um momento à beira de não mais ser não me permite um invento que seja apenas um entrecaminho para um outro e outro invento mesmo a destruição tem que ser final e inteira qualquer coisa tem que ser a última uma era inteira e a outra nascia da cintura e existia só da cintura para cima como um ipsilone mole esponjosa uma carne vil uma carne preparada por toda uma estrutura de guerras epidemias pestes ódios quedas eu me sentia culpado ao vê-Ias assim nosso podre sangue a humanidade inteira nelas que não riam e cantavam aquela sombria canção de morte brutalmente doce elas cantavam e minhas costas doíam como se eu sozinho as sustentasse e não uma à outra mas eu eu com este sangue apodrecido que assassina crianças de fome droga adolescentes bombardeia cidades e também você e todos nós grudados indissoluvelmente grudados nojentos mas me recuso a continuar ninguém sofrerá por mim sem mim chorar ninguém entende nem precisa nem você nem eu o anel que tu me deste sobre a folha que me contém sem compreender sem compreender que você carrega toda uma culpa milenar e imperdoável a História como concreto sobre os teus meus nossos ombros Cristo sobre nossos ombros todas as cruzes do mundo e as fogueiras da inquisição e os judeus mortos e as torturas e as juntas militares e a prostituição e doenças e bares e drogas e rios podres e todos os loucos bêbados suicidas desesperados sobre os teus meus nossos ombros leves os teus porque não sabes sim sim eu tenho culpa não é de ninguém esse desgosto de lâmina nas entranhas não é de ninguém esse sangue espantado e esse cosmos incompreensível sobre nossas cabeças não posso ser salvo por ninguém vivo e os mortos não existem a fita está acabando começo a ficar tonto a dormência chegou quem sabe ao coração talvez eu pudesse eu soubesse eu devesse eu quisesse quem sabe mas não chore nem compreenda te digo enfim que o silêncio e o que sobra sempre como em García Lorca solo resta el silêncio un ondulado silêncio os espaço de tempo a nos situar fragmentados no tempoespaçoagora não sei onde fiquei onde estive onde andei nada compreendi desta travessia cega a mesma névoa do parque outra vez a mesma dor de não ser visto elas gritam sua canção de morte este sangue nojento escorrendo dos meus pulsos sobre a cama o assoalho os lençóis a sacada a rua a cidade os trilhos o trigo as estradas o mar o mundo o espaço os astronautas navegando por meu sangue em direção a Netuno e rindo não não quebres nunca os teus invólucros as tuas formas passa lentamente a mão do anel que eu te dei e era vidro depois ri ri muito ri bêbado ri louco ri ate te surpreenderes com a tua não dor até te surpreenderes com não me ver nunca mais e com a desimportância absoluta de não me ver nunca mais e com minha mão nos teus cabelos distante invisível intocada no vento. Perdida a minha mão de espuma abrindo de leve esta porta assim.
(In “O Inventário do Ir-remediável”)

está se sentindo normal hoje?

[qua] 24 de setembro de 2014

«Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.» — Caio Fernando Abreu. Existe sempre alguma coisa ausente, in: Pequenas Epifanias

***

muquém as escuras. 10 horas sem energia e nada por parte do estado… no fim… alunos e professores para casa. escola fechada. e posso rever um vídeo sobre caio fernando abreu.

***

isto foi ontem. hoje… Texto/poema do camarada Fábio Aquino, que traduz esse sensação aqui dentro que tenho

«Ai você acorda e olha para os lados, é o momento em que nota que é o ultimo passageiro (consideravelmente embriagado) a descer do ônibus madrugadão norte numa terça-feira.
De qualquer modo a noite borrará algumas memórias
O dia seguinte jogará de novo o peso da vida em suas costas.
Como se fosse normal
O sol se levantará e homens e mulheres despertarão com apitos de relógios e irão trabalhar fora como se fosse normal.
Tomarão o transporte público como se fosse normal
Crianças irão para a escola como se fosse normal
Pessoas tomarão decisões por você como se fosse normal
Você não pensará nisso como se fosse normal
Você tentará ser normal
Desejará a normalidade
Rir, amar, odiar e transar sendo normal
Irá fugir como se fosse normal
E a violência será normal
O desprezo, a indiferença
A polícia, os juízes, os senhores
O ódio normal, o medo normal
E por fim
Sem que ninguém note
Morreremos todos
Afogados no mar da normalidade

Está se sentindo normal hoje?»

***

compilação de intuições… ando com uma dificuldade tremenda em escrever poesia. tudo é um tanto insuficiente. como falar da beleza ou da coragem se não sinto-me tão pouco bonito ou nenhum pouco corajoso. e como falar do amor… se exausto e descrente não me permito ousar? e amar-te… e como falar da revolta… que não materializada em ação coerente torna-se impotente, cínica, queixa… lamúria… lamento. e neste pântano putrefato da vida nenhuma poesia brota… elas apodrecem cá dentro antes de sentirem o sol. ontem, quase… quase… tentava versar sobre esse sensação de não ser um bom moço, um homem respeitável, um pai de família, um cidadão bem sucedido… e que só há um revolta cega e louca que me devora por dentro… como se eu precisasse não me prender a ninguém e vomitar minha existência disforme, errante, precária na normalidade alheia. normalidade tão estúpida e violenta. então sinto-me profundamente conectado com todos os que são marginalizados, violentados, invisibilizados, alienados cotidianamente… mas o poema/revolução não sai. estou trancado.

fábio traduziu com sua narrativa esse espírito presente de estranhamento e e necessária desnaturalização da nossa barbárie cotidiana, essa normalidade a que estamos submetidos.

a linguagem indireta e as vozes do silêncio

[sex] 4 de julho de 2014

«O primeiro desenho nas paredes das cavernas fundava uma tradição porque recolhia uma outra: a da percepção. A quase eternidade da arte confunde-se com a quase eternidade da existência humana encarnada e por isso temos, no exercício de nosso corpo e de nossos sentidos, com que compreender nossa gesticulação, que nos insere no tempo.» Maurice Merleau-Ponty

«A criatividade nasce de ações inseguras. Na insegurança máxima, você consegue atingir o máximo criatividade. Se ficar na esfera do seguro, fará mediocridades. (…) Trabalho para ser livre. E, para ser livro preciso me envolver em um projeto. Aí me libero do quê? Dos meus complexos, da minha preguiça, das minhas dúvidas de ser ou não criativo, inteligente o suficiente para fazer determinado trabalho. Temos que nos livrar dos complexos. Não é como dizer: vou sair de férias para ficar livre… De férias você não é livre! Você volta com ainda mais raiva do que antes, porque tem tempo para refletir sobre a falta de tempo livre. »
Oliviero Toscani.

e este: Sobre sete ondas verdes espumantes, de Bruno Polidoro e Cacá Nazario.

E o Brasil passou.

núncaras

[ter] 12 de abril de 2011
primeiro: parte do texto estava cá nos rascunhos aguardando a sua hora de publicação. segundo: não gosto de texto sem origem, sem fonte… e cá encontrei.
terceiro: sinto-sentido nisto tudo ai abaixo…

[…] No tengo a quien rezarle pidiendo luz, / Ando tanteando el espacio a ciegas. / No me malinterpreten, / No estoy quejándome. / Soy jardinero de mis dilemas […] No tengo a quien culpar / Que no sea yo, / Con mi reguero de cabos sueltos. / No me malinterpreten, / Lo llevo bien,o por lo menos / Hago el intento […] Hermana duda, / Pasarán los discos, / Subirán las aguas, / Cambiarán las crisis / Y pagarán los mismos / Y ojalá que tú / Sigas mordiendo mi lengua […] Hermana duda, / Pasarán los años, / Cambiarán las modas, / Vendrán otras guerras, / Perderán los mismos / Y ojalá que tú / Sigas teniéndome a tiro […] Jorge Drexler. Hermana Duda.

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EXTREMOS DA PAIXÃO – Caio Fernando Abreu

“Não, meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo…”

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” – perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro (a) mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo (a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo (a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: “Se você não me amar, eu matarei o presidente”. E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George – se não houver algo de publicitário nisso – é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira:compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe,berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolos em face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: “É para você, para você que eu escrevo” – dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que – se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor – depois do não, depois do fim – reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa – muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, “o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras”. E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

Caio Fernando Abreu
O Estado de S. Paulo, 8/7/1986

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AMAR-AMARO

Por que amou por que a!mou
se sabia
p r o i b i d o   p a s s e a r   s e n t i m e n t o s
ternos ou sodarepsesed
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula ev
idente?
ah PORQUEAMOU
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos nos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,o) retrato espéculo por que amou?

se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indagação do achado e aguda espostejação
da carne do conhecimento, ora vejapermita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me revele
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de núncaras.
Carlos Drummond de Andrade
Antologia Poética. p. 180.

não quero me afogar. quero beber tua água. não te negues, minha sede é clara

[qua] 27 de janeiro de 2010
três dias (e que dias… lindos) visitando meus papéis guardados buscando organizar um pouco as palavras, selecionando poemas publicáveis, e corrigindo erros deste meu precário português aliado a minha mui atenta escrita. aproveito e publico também um pouco de papéis de 2003, 2004 e 2005, quando abandonei o computador e aderi a um mundo não tão virtual com muita experimentação poética e uma máquina de escrever. desfiz-me de mais de quilo de papel nessa revisão. e ao poucos vou anotando por cá, neste bloco de notas este passado não tão recente, pra mode d’eu não não esquece ô.
e a respeito desta lonjura… ligo assim que tiver linha ou alguma grana, assim saberemos endereços mútuos e ouvimos essas vozes ao pé do ouvido. por cá aproveitando as boas coisas da vida… experimentando-me vou.

.

E por falar… Encontrei teu desenho laranja azul e grafite. E dizia assim, em cor azul: “não quero me afogar. Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara”. CFA.

.

b. desculpa a impulsividade. Obrigado pela companhia. Deixo algum cheiro espalhado por aqui e levo um pouco deste cheiro comigo. Beijos. p.

.

Houve esse também,

.

Sou agora um cão sem dono
sem ninguém a procurar
ocupo minhas mãos
ora com as cinzas
ora com as palavras
de um desespero qualquer
ansiei por ti alguma das
muitas horas do meu dia
procurei-te como caço palavras
e tinta para pintá-las
e tudo que não consigo
é apagar-te de mim
somos sim suor e gozo
somos o acordar ao meio-dia
de um domingo
uma chamada à cobrar
sem sentido nem custo
de uma ligação incompleta.

.

Sou destas sentada
numa praça cheia
a mesma que me lembra
teu gosto e teu cheiro
me disperso e quando volto à mim
quero dizer-te tudo novamente
embolo-me as letras
e os pensamentos e vos digo
sem exitar que quero deitar-me
IN-CON-SE-QUEN-TE-MEN-TE
no desconhecido que é você.
um poema de Parreiras Gomes, 2007.

…………………………………………………………………………………………………

[ando me sentindo vivo e com uma vontade enorme de viver!]

um dia longo (praia da solidão)

[sáb] 23 de janeiro de 2010

das coisas

[02:06] “saudade de você mofando do meu lado” dissera um texto antigo. se tivera grana, ligara. se tivera grana estivera ai. se tivera grana degustara caio fernando ao pé do ouvido. {cadê a carta deste aqui?}

e das horas aproximadas…

[07:00] anotações para realizar durante a semana, algo como finalizar um filme, ser pai, arrecadar fundos para um livro, trabalhar… (destas coisas enormes da vida!)

[07:35] aqui sentado. esperando o mundo, digo “é carlos, gauche“.é esse meu fatal peito esquerdo que cresce a cada dia quando leva um pedaço de alguém… e assim vai se partindo. chego a conclusão que, por hora, já há matéria para uma árvore, uma filha, um livro de poesia; eles crescem neste mineral.

[08:12] uma aula sobre a emocionalidade construída sobre as regras de uma língua… “café e pão café e pão café e pão café e pão” ou “muita força muita força muita força muita força” … ou a quinta de beethoven.

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda.
manuel bandeira, in: Estrela da Tarde (1963).

[08:30] sobre essa tal identidade. nesse exato instante meu pai faz casa, concreta a vida. e eu ainda experimentando as palavras… tingindo colores, gravando sons. há um certo amargo nesse fato de o que me sustenta não me alimenta e o que me alimenta não sustenta. levanta e vai!

[09:03] talvez seja um pouco disto, deste faça você mesmo porque aqui ninguém vai te ensinar. é tudo berro. que me faz querer diferente, ser diferente disto tudo.

[13:07] um outsider. ou não.

[13:31] na estrada. mente rápida demais para um livro ou para poesia. descanso das ideias em desenhos-exercícios feitos no caderno. rostos e mãos. e um corpo moreno. qual será teu nome?

[13:58] ainda no caminho; perco-me. admiro as nuvens. queria estes três mil e quatrocentos pés que me separam de ti. só assim mergulharia nesta nuvem imensa que descansa a face.

[14:40] estrada rozália paulina ferreira, ainda trago minha bicicleta aqui.

[19:00] um mergulho nas quedas da solidão. uma chuva fina em açores. amigos no caminho e aqui dentro, certa saudade.

[20:33] não quero assim, apenas estes dois olhos sobre mim. espreitando, cobiçando essa minha carne, o osso, ou talvez os poemas que transarei… pois nem sou belo tão pouco bruto. quereria só o corpo colado um riso aberto um outro olho que cobiça mas já cúmplice diz: vem, somos tudo. até o que nem sabemos.

[22:10] quase tudo anoto aqui. só ficou de fora por enquanto o poema que começa assim: ” quero tu em terreno neutro, nua, narrando em tua língua todas as estórias dos tempos futuros de guerra…”

mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver

[ter] 17 de março de 2009

Nesses mundos paralelos me perco e me acho há um bom tempo. Um copicola para registrar um momento dentre tantos deste meu momento agitado e agitador… de corações, de forças, de vidas. Um beijo à luisa, tão conhecida e tão desconhecida pela poesia vivida e pelas palavras destes quase dez anos.

[Uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço….

[…]

Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender.
Para uma avenca partindo – Caio Fernando Abreu

ainda não lido na sua integra.

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