Archive for the 'Carlos Drummond de Andrade' Category

tudo o que não surge como consciência… retorna como destino

[qui] 15 de novembro de 2018

feriado. dia da república.

acordo com a sensação de perda – do amor que não terei coragem de viver, dos livros que nunca conseguirei terminar de ler… dos lugares que nunca irei… sinto como se fosse uma corrida contrarrelógio, e eu nunca fosse chegar, pois ainda não larguei… sempre perdido em mim, neste emaranhado cheio de nós atados e cegos que sou.

no final da tarde, olhando para os meus, pensei… a gente herda a dor e o sofrimento, mas no meio disto tudo, eu ainda tenho uma leveza em alguma parte de mim. ainda podemos ser flor nessa terra deserta.

no final da noite… algo arranha minha garganta. sensação angustiante.

***

«It Didn’t Start With You: How Inherited Family Trauma Shapes Who We Are and How to End the Cycle.»

***

«Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

(...) Porém meus olhos 
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode 
é sério, simples e forte. 
Quase não conversa. 
Tem poucos, raros amigos»

Trecho do Poema de sete faces. 
De Alguma poesia (1930)
Carlos Drummond de Andrade

o poema da página 186 e algumas notas alheias de uma aula de 2006/2

[seg] 5 de novembro de 2018

«Que terra de comer,
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.

Descubra em seu movimento as
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de voo.

Prazer de ouvir música;
Sobre o papel para que uma mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
alguns objetos, diferentes a nova luz.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como viver, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instante
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem um certo cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estatua: é um torso
de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.

drummond - assina

Os últimos dias. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. 5a ed. Rio de Janeiro: Record, 1988. p. 186-190.

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[madrugada]

Fui reler o poema da página 186. Descubro que ele foi arrancado. O único que falta, mas eis que encontra essa anotação no meio do livro. De uma aula de 2006. Ps: a letra não é minha. Será q o ser humano que deixou essa folha levou o poema?

[tarde]

gripado. febre ainda. dor pelo corpo inteiro. vontade de nada. enrolando… tem tarefa para hoje. oito horas ainda. ops… é para dia sete, ou seja, tempo restante: 2 dias 6 horas.

[noite]

matar aula. não tem aula, nem da cláudia, nem da roberta. fiquei em casa. chá de avenca, com assa-peixe e e folha de ameixa amarela (nêspera), para aliviar.

drénto ao singular nu

[qua] 31 de outubro de 2018

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o homem caído, escultura em bronze, do norueguês Fredrik Raddum

foi um dia insuportável… peito doendo e pesado, ansiedade e tristeza, vontade de fugir, faltei novamente.

tomei nota de todas as dores e confusões… narrar na próxima sessão.

mas consegui sair (lá pelas 19h10) e ir até a aula de revisão (20h20-22h00). são desse momento as notas abaixo, exceto caio f. e drummond, que foram lidas no dia, aliás, dia da poesia.

dobras e redobras: do singular nu no português brasileiro – costurando a semântica entre as línguas

o singular nu e a sentença genérica no português brasileiro (PB), por Andréia de Fátima Rutiquewiski Gomes

«Pelé vai chutá, vai tentá ponhá a bola no gor, chutô. A bola tá drento tá lá drento. É gor!» Rubens Oliveira Bisson

drénto, Veneto.  Avverbio dentro;  Preposizione all’interno di, dentro

«(i) a gramática normativa versa sobre a língua que não é a nossa (escrita) (…) O problema é o professor simplesmente não se dar conta que o aluno está aprendendo uma segunda língua, e para piorar, avalia como errada a língua do aluno, que não é a língua que ele (o professor) mesmo fala. [p.24] (ii) a visão de língua perpetuada por esse tipo de gramática não contribui para um entendimento científico da linguagem humana – A linguística ao por a língua sob o foco naturalista pode contribuir para mudar esses estado de coisas. olhar científico permite entender a língua que falamos (e que somos) para aprendermos outras línguas. Essa visão naturalista nos dá ferramentas para entendermos as coisas, no caso, a língua, livre de preconceitos e imposições normativas.» [p.26] Basso, Renato Miguel; Pires de Oliveira, Roberta. Feynman, a linguística e a curiosidade, revisitado. In: matraga, rio de janeiro, v.19, n.30, jan./jun. 2012

***

por Caio Fernando Abreu

«(…) Tanto tempo pela frente e o que acontecerá? Ando achando muito difícil sobreviver – essa coisa aparentemente simples, você dorme hoje, acorda amanhã, come, trabalha, faz coisas, depois dorme amanhã, acorda depois de amanhã, assim por diante. Esse encadeamento tão natural que deveria ser quase automático, e portanto sem emoção nem sustos, eu ando achando cheio de solavancos, derrapagens, sim, cheio de sustos. Por isso preciso de tempo, dizem que tempo resolve.

(…) As manhãs são brancas, parecem feitas mais para se olhar as coisas do que para se dizer algo sobre elas. Além disso, preciso ter cuidado. Um amigo me avisou que exponho demais fragilidades, fiquei preocupado. Talvez expor fragilidades seja o único jeito de ser que eu tenho, então não sei se isso tem solução.

Andei sonhando um pouco, também. Ainda não é proibido, mas tem preço. Depois andei tentando não sonhar, mas isso também tem preço. Não tenha expectativas, me disseram. Fiquei tentando não ter expectativas – essa coisa que amolda e desenha o futuro? Me pareceu tão seco. Estou tentando me mexer, agora, dentro desta manhã branca, no meio desse branco que não dá forma nem cor ao futuro. Tive vontade de deixar na secretária eletrônica um recado mais ou menos assim: “Fui viajar. Não vou voltar”. Só para preocupar um pouco os outros. (…)

Nos últimos dias, não vi nenhum filme. Não ouvi nenhuma música. Foi um tempo branco, também. Mas recebi um poema de Renata Pallotini, e dois versos dele ficaram dando voltas na minha cabeça: “Olha garoto fica combinado assim: perdemos só está batalha, e não a guerra”. Às vezes fico parado repetindo: “Perdemos só esta batalha, e não a guerra”.

Acho que com o ano terminando e tudo isto aqui com este sabor de despedida, mesmo provisória, eu deveria dizer uma porção de coisas pelo menos um pouco animadoras, essas coisas que se dizem nos finais de ano. Desculpa, não estou conseguindo.  (…) Preciso que esse tempo passe e me leve dentro dele, porque até lá, honestamente e sem nenhuma espécie de modéstia, estou mesmo meio burro. (…)» Crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo dia 16/12/1987

***

Parolagem da Vida

«Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.

Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.

Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!»

Carlos Drummond de Andrade

starship one

[seg] 29 de outubro de 2018

2h58. Já é outro dia… A música é um easter egg de Jogador Nº 1.

«On a night when bad dreams become a screamer
When they’re messin’ with a dreamer
I can laugh it in the face
Twist and shout my way out
And wrap yourself around me
‘Cause I ain’t the way you found me
And I’ll never be the same oh yeah» 

3h37 dormir?

10h30 meu velho quebra o dedo. não se desesperar, é preciso acalmar o peito.

17h32 penso em desistir. me atraso. caminho. vou, mas meu coração anda pesado. essa carcaça parece não conte-lo. sou um farrapo de homem com um coração pesado.

20h35 Eliza Morenno apresenta “A Flor e a Náusea”, poema de Carlos Drummond de Andrade.

A Flor e a Náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas, / vou de branco pela rua cinzenta. / Melancolias, mercadorias espreitam-me. / Devo seguir até o enjôo? / Posso, sem armas, revoltar-me? / Olhos sujos no relógio da torre: / não, o tempo não chegou de completa justiça. / O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. / O tempo pobre, o poeta pobre / fundem-se no mesmo impasse. / Em vão me tento explicar, os muros são surdos. / Sob a pele das palavras há cifras e códigos. / O sol consola os doentes e não os renova. / As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. / Uma flor nasceu na rua! / Vomitar esse tédio sobre a cidade. / Quarenta anos e nenhum problema / resolvido, sequer colocado. / Nenhuma carta escrita nem recebida. / Todos os homens voltam para casa. / Estão menos livres mas levam jornais / e soletram o mundo, sabendo que o perdem. / Crimes da terra, como perdoá-los? / Tomei parte em muitos, outros escondi. / Alguns achei belos, foram publicados. / Crimes suaves, que ajudam a viver. / Ração diária de erro, distribuída em casa. / Os ferozes padeiros do mal. / Os ferozes leiteiros do mal. / Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. / Ao menino de 1918 chamavam anarquista. / Porém meu ódio é o melhor de mim. / Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima. /  Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. / Uma flor ainda desbotada / Ilude a polícia, rompe o asfalto. / Façam completo silêncio, paralisem os negócios / garanto que uma flor nasceu. / Sua cor não se percebe. / Suas pétalas não se abrem. / Seu nome não está nos livros. / É feia. Mas é realmente uma flor. / Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde / e lentamente passo a mão nessa forma insegura./ Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. / Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. / É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 

20h44 Zygmunt Bauman e a pós-modernidade |Luiz Felipe Pondé

21h15… sou um poste. por trinta segundos perdi o trem. ganhei trinta minutos de espera…

frequência insuficiente

[seg] 23 de abril de 2018

notas do dia:

abandonei o semestre.

pontuei as atividades do estudantes e digitei notas no professor online -> agora só falta organizar o trabalho de recuperação paralela de nota.

***

pesquisas: http://blog.brasilacademico.com/2016/01/memoscorm-jogo-de-memoria-gratuito-para.html

***

Idioma Desconhecido

Produzido por: Ninguém Filmes Direção:José Marques de Carvalho Jr

Difícil Ser Funcionário, Poema de João Cabral de Melo Neto, e declamação de Patrícia Kalil

Difícil ser funcionário

João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

O poema acima, escrito em 29-09-1943, revela a decisiva influência de Carlos Drummond de Andrade nas primeiras produções do autor. Inédito, foi extraído dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, nº. 01, publicado pelo Instituto Moreira Salles em Março de 1996, pág.60.

***

[anotar aqui o poema feito hoje]

[anotação feita, terça-feira, 11h24]

exercício sobre o pulsar do corpo estelar // o sol encara o olhos nus / como é duro resistir / e não desatar-se / nesta irradiação / que alimenta e devora // e toda dor humana nesta terra / e tal empatia / e o dilema constante / e a utopia / nada podem / não acessam os códigos deste outro idioma.

[ps 1: e achei isto aqui abaixo… quando transcrevia/recriava o exercício acima]

Onde quer que você esteja
Em Marte ou Eldorado
Abra a janela e veja
O pulsar quase mudo
Abraço de anos-luz
Que nenhum sol aquece
E o oco escuro esquece

Composição: Augusto De Campos / Caetano Veloso

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«Video realizado para la exposición de Augusto de Campos / Despoemas en Buenos Aires, 2014. Inspirado no videoclip de Paulo Barreto de 1984» Gonzalo Aguilar.

[ps 2: O que é um PULSAR]

leda m’and’eu!

[ter] 3 de abril de 2018

não escrevo. não durmo. tenho sono.

meu resumo ainda não feito [e que talvez nem seja… e cada minuto que passa,  uma nova desistência, e vai se confirmando: não faço.] será algo assim:

dos trovadores da ocitânica, góticos [de godos… que absurdo, como é tão óbvio isso… em que mundo eu habitei até então], a literatura cortesã, lírica, em romance, até as cantigas de amigo e escárnio, passando pelos goliardos…

e eu rabisco coisas assim na lateral dos textos:

gorjeiam [do francês gorge] primaverais estes pássaros, e o amor não estaciona / tão pouco tem estação.

palavras… cortesão, vilanesco, dona… jogos de olhares, desejo de morte… tesão, queria tanto te comer. deslizar pela tua pele nua encharcada pelo meu suor. encaixar… gozar… me faz gozar em ti.

e busco referências… devia estudar. preciso estudar… um curso não se faz assim, correndo contra o tempo, fugindo dos textos… fatigado. toma um café comigo, me tira dessa zona… de cara sério, me deixa fugir… eis minha vilania.

pois estou a me enrolar no final das contas.

2h27. chega por hora… mas eis ainda uma alba de Nuno Fernandes Torneol.

«Seis Cantigas de Amigo»*1967 – “Leda M’and’eu” de Nuno F.Torneol, por José Mário Branco.

***

nota incidental nessa bagaça: «Bwana Bwana / Me chama que eu vou / Sou tua mulher robô / Teleguiada pela paixonite… / Que não tem cura / Que não tem culpa / Pela volúpia / [..] Adeus sarjeta / Bwana me salvou / Não quero gorjeta / Faço tudo por amor…»

e o algorítimo… que algo… Jorge Ben Jor – Que pena… «Ela já não gosta mais de mim
Mas eu gosto dela mesmo assim / Que pena, que pena / Ela já não é mais a minha / pequena / Que pena, que pena…»

e aqui, Gal Costa e Caetano Veloso – Tá Combinado. «… E eu acredito num claro futuro / de música, ternura e aventura / Pro equilibrista em cima do muro… »

3h08

***

e o sono? foi… e enquanto me observava ontem, indo para o trabalho no final da tarde, tentando captar o fluxo de pensamentos… e abismado, constatava, é quase irracional, eu como um desejo volumoso e incontrolável, indo, existindo, e isto não faz nenhum sentido. um silencioso estrondo a deriva, perdido…

«[..] Só não se esquece que eu também te amo Só não se esquece Não se endurece que eu também te amo Não se endurece Como se faz Pra ter o teu carinho Poder ganhar teu colo E ter felicidade? Não quero mais Viver assim sozinha Eu vou fugir de casa Você vai ter saudade.» Letra e música: Mallu Magalhães Voz: Gal Costa

3h23

***

drummond

«Entre uvas meio verdes, / meu amor, não te atormentes. / Certos ácidos adoçam / a boca murcha dos velhos / e quando os dentes não mordem / e quando os braços não prendem / o amor faz uma cócega / o amor desenha uma curva / propõe uma geometria.»

3h36

***

e outras notas: “Eu sei, mas não devia” de Marina Colasanti recitado por Antônio Abujamra no Provocações https://www.youtube.com/watch?v=ruN_LR60ZfQ

e porque o livrinho do freud tá ali me olhando…

CLARICE LISPECTOR: A VIDA É UM SOCO NO ESTÔMAGO | MARIA LÚCIA HOMEM

e a ruína da imagem narcísica do meu eu.

4h22.

***

parei.

18h42

congresso internacional do medo

[qua] 24 de janeiro de 2018

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, depois morreremos
de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade, no livro “Sentimento do Mundo”. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1940.

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madeixas… or how to run naked and directionless through the dark endless woods

[dom] 17 de dezembro de 2017

enquanto mateio,

lembro da noite, da caminhada de logo cedo pelo quintal e olho algumas fotos… dela.

e deixo as palavras escorrerem nuas e sem direção através do arvoredo noturno e denso, das folhas em branco sobre o tempo, das coisas que não sei o nome, da língua por se traduzir ou verter-se.

 

comecei mais um poema sobre a resistência, sobre as plantas que irrompem cotidianamente o chão de concreto, que brotam dos vãos, das coisas duras para existir… resistir.

ps: o título vem das coisas aleatórias que foram incorporadas na construção do poema.. que tá aqui nos rascunhos… quando ficar pronto, vomito por cá.

**

duas obras e uma performance.

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade,
em A Rosa do Povo

dia nacional da poesia

[seg] 31 de outubro de 2016
das coisas cotidianas - e um exercício sobre as raízes.

minha agenda reclamava, havia uma reunião de formação com articuladores… ofertada pela sed [secretaria de educação]… mas eu precisava de um tempo só. precisava me demorar fazendo quase nada… dentro de mim, todo o meu ser alertava: hoje não é dia pra se correr. e talvez o nariz trancado, a dificuldade alérgica de respirar… talvez a falta das horas adequadas de sono… ou mesmo por segunda-feira, o dia mais dificil de todos. mandei um recado à direção avisando que não poderia ir. e voltei a dormir.

hoje, é o dia nacional da poesia¹, e não há melhor momento para começar uma ideia²

#umpoetaumpoemapordia

Hoje comemora-se o aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, e é dele o poema que colo abaixo

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer.

Esse amanhecer
mais noite que a noite.

***

e agora algumas palavras minhas…

exercício sobre as raízes

por vezes eu preciso de gente.
por vezes eu preciso de solidão.
por vezes solitudo soliente,

noutras gentidão,

vasto, do maior que o ão.

 

 

notas de rodapé
1. DIA NACIONAL DA POESIA
Lei 13.131/2015, que criou oficialmente o Dia Nacional da Poesia.
Dia 31/10 é data de aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.
Até 2015 extraoficialmente era comemorado no dia 14 de março.
Era uma homenagem ao Castro Alves.]

2. UM POEMA POR DIA
inspirada num blogue que encontrei pela rede há um tempo... 
http://poemadia.blogspot.com.br/
e outros espaços como este
https://www.facebook.com/um-poema-por-dia-195108683859502/ 
mas, sobretudo, para alimentar minha página de poemas,
já que não escrevo um poema por dia...
e ainda fazer o exercício de ler
e pesquisar mais sobre poesia.

ilhas perdem o homem

[qui] 19 de maio de 2016

nessa terra gelada…

de fusos aleatórios…

meu corpo paga pela cansaço.

e eu não consigo produzir nenhuma apresentação para as aulas. só sei do improviso… que é correr com os olhos vendados sobre uma corda bamba no trigésimo terceiro andar de edifício.

e porque em plena madrugada, ela, em minha timeline, me rememora:

Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.

E do indizível, você falou, Drummond?

 

ou o próprio drummond

0:00 Infância 2:47 Quadrilha 3:17 Os Ombros Suportam o Mundo 4:46 Mãos Dadas 5:47 Mundo Grande 8:29 José 10:19 Viajem na Família 14:10 Procura da Poesia 17:33 O Mito 24:56 O Lutador 27:36 Memória 28:05 Morte do Leiteiro 31:15 Confissão 32:13 Consolo na Praia 33:27 Oficina Irritada 34:19 Fazenda 35:05 Caso do Vestido 41:19 Estrambote Melancólico 42:11 O Enterrado Vivo 43:09 Destruição 44:00 Intimação 45:06 Alta Cirurgia 46:48 Para Sempre 47:40 Canto do Rio em Sol 50:54 Boitempo 52:16 Os Pacifistas 54:23 Cultura Francesa 55:02 Falta um Disco 57:54 Amor e Seu Tempo 58:45 Obrigado 1:00:08 Lira Romantiquinha 1:01:04 O Homem as Viagens 1:03:35 Essas Coisas 1:04:20 Parolagem da Vida 1:06:19 Declaração de Amor

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