Archive for the 'Cecília Meireles – Cecília Benevides de Carvalho Meireles' Category

liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda

[qui] 4 de outubro de 2018

chegaram…
#O Uso da Poesia e o Uso da Crítica, T. S. Eliot
#Por que Apenas Nós? Linguagem e Evolução, Noam, Chomsky
#Gramática na Escola, Roberta Pires de Oliveira
***

do conselho de classe de hoje… valeu pelas narrativas, os exemplos… essas entregas. quando um professor se emociona ao falar sobre o processo pedagógico… quando a gente sente arrepiar a pele… só posso dizer que a jaque é uma pessoa linda.

e que eu sinto falta disso em mim.

pensava sobre isso quando voltava para casa… como esse é o primeiro ano em que eu não faço nada diferente…

***

«Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.» Jorge Furtado

ROMANCE XXIV OU DA BANDEIRA DA INCONFIDÊNCIA

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
– e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros,
mulheres e homens à espreita,
caras disformes de insônia
vigiando as ações alheias.
Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma das teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
brilham fardas e casacas,
junto com batinas pretas.
E há finas mãos pensativas,
entre galões, sedas, rendas,
e há grossas mãos vigorosas,
de unhas fortes, duras veias,
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns são reinóis, uns, mazombos;
e pensam de mil maneiras;
mas citam Vergílio e Horácio
e refletem, e argumentam,
falam de minas e impostos,
de lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e das colônias inglesas.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.

Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio…
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenha meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam…
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus – pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).

Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
– e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nimes
em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da Independência!
Liberdade – essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.

O Romanceiro da Inconfidência
CECÍLIA MEIRELES

virando sapo já…

[qua] 10 de janeiro de 2018

chuva.
chuva intensa
muita chuva
chuva o dia inteiro
chuva que não acaba
chuva que alaga
que nos ilha

***

anotações soltas que outras pessoas publicaram…

«Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!» Cecília Meireles

«Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.» Vinícius de Moraes. Excerto do poema «O Haver»

retroativo

[ter] 8 de novembro de 2016

Leia o poema de Adélia Prado

“Explicação de Poesia Sem Ninguém Pedir”.

“Um trem- de- ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.”

***

retroativo…

#umpoetaumpoemapordia #003

Lindolf Bell
(Timbó, 2 de novembro de 1938 – Blumenau, 10 de dezembro de 1998)

PROCURO A PALAVRA PALAVRA

Não é a palavra fácil
que procuro.
Nem a difícil sentença,
aquela da morte,
a da fértil e definitiva solitude.
A que antecede este caminho sempre de repente.
Onde me esgueiro, me soletro,
em fantasias de pássaro, homem, serpente.

Procuro a palavra fóssil.
A palavra antes da palavra.

Procuro a palavra palavra.
Esta que me antecede
E se antecede na aurora
De na origem do homem

Procuro desenhos
dentro da palavra.
Sonoros desenhos, tácteis,
Cheiros, desencantos e sombras.
Esquecidos traços. Laços.
Escritos, encantos re-escritos.
Na área dos atritos.

Dos detritos.
Em ritos ardidos da carne
e ritmos do verbo.
Em becos metafísicos sem saída.

Sinais, vendavais, silêncios.
Na palavra enigmam restos, rastos de animais,
Minerais da insensatez.
Distâncias, circunstâncias, soluços,
Desterro.

Palavras são seda, aço.
Cinza onde faço poemas, me refaço.

Uso raciocínio.
Procuro na razão.
Mas o que se revela, arcaico, pungente,
eterno e para sempre, vivo,
vem do buril do coração.

#umpoetaumpoemapordia #004
Oodgeroo Noonuccal
(3 November 1920 – 16 September 1993)

Aboriginal Charter Of Rights¹

We want hope, not racialism,
Brotherhood, not ostracism,
Black advance, not white ascendance:
Make us equals, not dependants.
We need help, not exploitation,
We want freedom, not frustration;
Not control, but self-reliance,
Independence, not compliance,
Not rebuff, but education,
Self-respect, not resignation.
Free us from a mean subjection,
From a bureaucrat Protection.
Let’s forget the old-time slavers:
Give us fellowship, not favours;
Encouragement, not prohibitions,
Homes, not settlements and missions.
We need love, not overlordship,
Grip of hand, not whip-hand wardship;
Opportunity that places
White and black on equal basis.
You dishearten, not defend us,
Circumscribe, who should befriend us.
Give us welcome, not aversion,
Give us choice, not cold coercion,
tatus, not discrimination,
Human rights, not segregation.
You the law, like Roman Pontius,
Make us proud, not colour-conscious;
Give the deal you still deny us,
Give goodwill, not bigot bias;
Give ambition, not prevention,
Confidence, not condescension;
Give incentive, not restriction,
Give us Christ, not crucifixion.
Though baptized and blessed and Bibled
We are still tabooed and libelled.
You devout Salvation-sellers,
Make us neighbours, not fringe-dwellers;
Make us mates, not poor relations,
Citizens, not serfs on stations.
Must we native Old Australians
In our land rank as aliens?
Banish bans and conquer caste,
Then we’ll win our own at last.

Nota 1: This poem was prepared for and presented to the 5th Annual General Meeting of the Federal Council for the Advancement of Aborigines and Torres Strait Islanders, held in Adelaide, Easter 1962.

more poems in http://www.poetrylibrary.edu.au/po…/noonuccal-oodgeroo/poems

#umpoetaumpoemapordia #005
Nico Fagundes
Antonio Augusto da Silva Fagundes (Alegrete, 4 de novembro de 1934 – Porto Alegre, 24 de junho de 2015)

Canto Alegretense

Não me perguntes onde fica o alegrete
Segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
E ouvirás toque de gaita e de violão
Pra quem chega de rosário ao fim da tarde
Ou quem vem de uruguaiana de manhã
Tem o sol como uma brasa que ainda arde
Mergulhado no rio Ibirapuitã

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí

E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer
E nos olhos vou levar o encantamento
Desta terra que eu amei com devoção
Cada verso que eu componho é um pagamento
De uma dívida de amor e gratidão

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí

https://www.youtube.com/watch?v=S0IsJO61Tns

#umpoetaumpoemapordia #006
Ella Wheeler Wilcox
(Johnstown, Wisconsin, 5 de novembro de 1850 – 30 de outubro de 1919)

THE SPEECH OF SILENCE
The solemn Sea of Silence lies between us;
I know thou livest, and thou lovest me;
And yet I wish some white ship would come sailing
Across the ocean, bearing word from thee.

The dead-calm awes me with its awful stillness.
No anxious doubts or fears disturb my breast;
I only ask some little wave of language,
To stir this vast infinitude of rest.

I am oppressed with this great sense of loving;
So much I give, so much receive from thee,
Like subtle incense, rising from a censer,
So floats the fragrance of thy love round me.

All speech is poor, and written words unmeaning;
Yet such I ask, blown hither by some wind,
To give relief to this too perfect knowledge,
The Silence so impresses on my mind.

How poor the love that needeth word or message,
To banish doubt or nourish tenderness;
I ask them but to temper love’s convictions
The Silence all too fully doth express.

Too deep the language which the spirit utters;
Too vast the knowledge which my soul hath stirred.
Send some white ship across the Sea of Silence,
And interrupt its utterance with a word.

Poems of Passion by Ella Wheeler
Chicago : Belford, Clarke & Co, 1883.
http://www.ellawheelerwilcox.org/pindex.htm

#umpoetaumpoemapordia #007
Sophia de Mello Breyner Andresen
(Porto, 6 de novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)

Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

[“As ilhas”, VI, Navegações]
https://www.youtube.com/watch?v=V4C5IiL1QxM
http://purl.pt/19841/1/galeria/indice-poemas.html

#umpoetaumpoemapordia #008
Cecília Meireles
(Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964)

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

– e um dia me acabarei

http://www.escritas.org/pt/t/1727/timidez

#umpoetaumpoemapordia #009
Teófilo Dias (Caxias, 8 de novembro de 1854 — São Paulo, 29 de março de 1889)

Aspiração

No espaço, em cada ser, que um centro atraia e prenda,
Há sempre o despontar de uma asa, que o suspenda.
Ascender! Ascender! — dizem todas as cousas,
As estrelas nos céus, os vermes sobre as lousas.
É o hino, que tudo, em sôfregos suspiros,
Canta: — férvida a fonte, em sinuosos giros,
Sobre pedras quebrando o trépido carinho,
A ave, inquieta e meiga, em volta do seu ninho,
O ninho sob o ramo, o ramo sob as flores,
As flores no perfume, — e a gruta nos vapores
Que em frouxas espirais às amplidões alteia.
A vida não se esgota, e vai perpetuamente
Do esboço às perfeições, harmônica, ascendente.
O imóvel não existe. A floresta pompeia
O luxo exuberante, a gala festival,
A verdura febril, do mundo vegetal.
Fixo? Não. Ei-lo em flor; — e em êxtases secretos
Dispersa-se em aroma, e voa nos insetos.
Enfim, por toda parte há íntimos palpites,
Ímpetos de romper barreiras e limites.

Fatal gravitação tolha-me embora os pés.
Hei de também subir dos mundos através,
Hei de também transpor os tempos e os espaços,
Na esperança de além colher-te nos meus braços,
A ti, que és para mim a força ascensional,
Oh Glória! — A aspiração! O porvir! O ideal!

Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.

In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196

http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/autores/?id=385

eu tocaria…

[ter] 18 de dezembro de 2012

Para registrar que:

Joguei o armário pela janela. Zerei a cabeça. Cortei a barba. Fui sozinho ao teatro. O botão da calça saltou. Engordei 20 quilos. O professor tem emprego para 2013. Quase de férias estou (estou?). Dormi uma semana na sala (porque o quarto virou depósito). E não sei o que te dizer (o que te dizer?!)… Tenho conselho de classe em sete horas e muitas coisas para rever.  E é como se fosse necessário me desfazer de algumas coisas (limpar os armários, a casa, o pelo) antes… Numa mania dos planos milimetricamente calculados balizando cada gesto, cada passo, cada momento. E aquele cara (opoetaproletaerevolucionarioamadoamanteamadorquesonhavaacordadoerealizava) ainda vai mais um tempo em modo de espera, enquanto sigo no piloto automático… rumo ao destino ignorado – ou até a cordilheira alcançar este monoplano.

da peça. dearaquecia.

M – Você me abraçaria? H – Eu tocaria a tua mão. M – Eu ficaria nua. H – Eu tocaria a tua mão.

Fim do registro.

Das coisas avulsas: Recado aos Amigos Distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1951)’

escolha o seu sonho

[ter] 13 de outubro de 1998

MEIRELES, Cecília. Escolha o seu sonho. 20. ed Rio de Janeiro: Record, 1996. 125 p.

17299 07/10/1998 13/10/1998
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