Archive for the 'Citação' Category

meia-vida radioativa… geleia de laranja.

[ter] 20 de novembro de 2018

[notas da madrugada… enquanto os cães latem e a minha ansiedade não passa]

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***

«Realismo crítico, relações sociais e defesa do socialismo

A Ilustração é a libertação do ser humano de uma tutela consentida. Tutela é a incapacidade de fazer uso de sua compreensão sem depender de outros. Consentida, quando suas causas devem-se, não à debilidade de razoamento, mas à falta de resolução e coragem para pensar por si mesmo. Sapere aude! Tem coragem para usar tua própria razão! Este é o lema da Ilustração. L.W. Beck

(…)

O reducionismo ontológico tem consequências especialmente daninhas quando é levado ao terreno do humano. Em perfeita consonância com o conceito empirista de ciência como uma resposta condutista aos estímulos de fatos dados, concebe-se a sociedade como um conjunto de indivíduos, motivados por certos desejos e associados mediante contrato, no melhor dos casos. A razão fica reduzida à habilidade de executar de maneira ótima ou satisfatória um cálculo e a liberdade consiste em seu exercício sem impedimentos. A associação permanente de fatos, que é a base do “novo realismo” – que é tão velho quanto o velho realismo empirista superficial – é, como disse Marx sobre o salário, “tão irracional como um logaritmo amarelo”. Concebida como uma associação permanente de fatos, a História fica congelada em seu eterno presente. História é o que já ocorreu ou acontece em outro lugar, mas não aqui e agora. Também podemos dizer dessa ilusão que é a associação permanente de fatos a mesma coisa que Marx disse a respeito do salário: “se a história não demorou muito tempo em chegar a descobrir seu próprio mistério (…) nada é mais fácil, por outro lado, que compreender o porquê e a necessidade desse fenômeno”. É a ideologia do mercado, da ordem estabelecida das coisas, do “não há alternativa”. Mas não podemos responder ao “não há alternativa” simplesmente com uma auto-afirmação satisfeita de nosso “grande movimento”. Precisamos de um trabalho intelectual sério, profundo, ajudados pelo realismo crítico, debruçado na prática política (orientada à transformação das relações sociais) para fazer do socialismo a razão de nossa época.» Por Roy Bhaskar (tradução: Grupo de Estudos em Antropologia Crítica – GEAC)

***

em 2016 o repasse foi de R$ 25 milhões; 2017 de R$ 18 milhões; em 2018 foram R$ 9 milhões e, por fim, em 2019, R$ 4,5 milhões…

***

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***

You Have NO Choice – George Carlin

[nota da tarde… falta, médico, mia couto, receita de saccharomyces boulardii e casa]

dieta: banana, gelatina, sono.

pensando em fechar esse canal. desapegar…

não é cair: é voar com estilo

[sex] 16 de novembro de 2018

«I was going to write you a poem, but then I didn’t. A week ago I wrote you a tiny telegram e dizia “I’ll be home soon. Do not cry, Princess.” Foi dura pra caramba essa distância, mas é bom saber que você se fez rainha e que o afastamento de dois corpos em muito contribuiu para isso. Doeu, mas foi. E os santos padroeiros ajudaram: Sebastião, António, Jorge e as multidões revolucionárias que andam às cabeçadas com a crise económica. Às vezes penso na fazenda do meu pai. É como aquela imagem do rosto do tigre que me vem às barbas, mas depois passa. Também escuto as canções do Tim Maia mas nada resolve muito bem. Só sei da fazenda do pai, da fronha do tigre, do choro do mendigo e… vá lá, vai… já é do caraças. Fiz-me poeta para dizeres “Ok, don’t you understand?”, como dizia o rapaz à chuva. “Don’t you?” Isto não é um videoclipe, esquece. Alguns monges andam procurando mirra nas extremidades dos grãos da terra, mas já sabemos que isso é um valente estado de ilusão. Ou então é fé, sabe-se lá. Tu deves saber. Tu sabes muito sobre escavação e oração. Esta noite escrevi o terceiro pedido de casamento, mas acho que já não vais na conversa. Faz tripas, coração mas sei muito bem que me amas pelos olhinhos e nunca pelas coisas que um dia morrem de podres, zonas internas e tal. Poemas… bah! Andas aí empenhada em saber por que raio é que escrevo em inglês mas… nem eu sei. Deve ser tão mais fácil mentir em estrangeiro, disse que isto de poesia era tudo verdade mas, não sei não. Também achei que o amor tinha muito menos mutação que um plátano, e agora fico aqui sentada na fazenda assistindo à transição das estações. Alguém fez disto uma enorme ilusão, e olha que nem sei o que é a morte. My bad, or my luck. Os olhos da avó ainda são azuis. Está tudo igual naquela sala, só puxaram os sofás um pouco mais pra frente. É da crise, sei lá. A Europa não parece querer ter outra palavra. Vi que na cidade um homem se suspende a troco de dinheiro e que fica na praça por horas e horas. Faz um cento e tal de euros por mês. Saudade do Real, my friend… Saudade de tudo aquilo que a gente foi um dia mas agora só existem os poemas, a mentira dos poemas e a tradução dos poemas feita por heróis que julgam…sei lá, amar a história que já morreu. Guarda o número sessenta mil. Pode ser que te dê sorte.» Matilde Campilho

***

3h27 calor dos infernos. mosquitos de toda a ordem e grau… zuuuuuneeeemmm… não consigo dormir. algo me engasga…

bandoli me apresenta essa pérola, matilde.

***

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Texturas.

Um dia foi semente,
um dia foi árvore.
Um dia foi parede,
noutro foi caixaria.
Hoje seus cortes suportam
a casa em construção…
guardam as marcas
do artífice e da arte.

***

tomar nota:

«(…) Uma coisa que me ajudou muito foi entender a diferença que Djamila Ribeiro faz entre opressão e sofrimento. Outra foi um entrevista de Talíria Petrone em que ela fala de territórios e representatividade na esquerda. Estou lendo o que a Bell Hooks fala sobre classe e etnia no feminismo. Existe uma dialética não tão óbvia quanto se deveria sobre o lugar de fala e o lugar de escuta. Na verdade a dificuldade em relação ao lugar de fala elucida uma dificuldade nos espaços de escuta. Eu creio que estes espaços são moldados por um sistema estrutural histórico fudido e cada vez mais desenvolvido tecnologicamente de opressão. Aqui tivemos o projeto de miscigenação que produz um mito de democracia racial perigoso e uma cultura de estupro latente. Lélia Gonzalez creio que trabalha bem a relação do racismo com o sexismo ao mesmo tempo que constrói o conceito de amerfricanidade. Então nós, mulheres brancas brasileiras, sobretudo as que, como eu, são dos estratos mais pobres da classe trabalhadora, provavelmente somos muito mais resultado da Redenção de Cam do que da descendência WASP. O colorismo é um debate super complexo, ainda mais numa sociedade em que a PM é racista e a miscigenação é pautada na cultura de estupro. A Angela Davis tem uma reflexão sobre a história dos direitos civis nas Américas bem bacana também em que faz uma revisão da questão de gênero, étnica e de classe e como foram tratadas na história moderna das Américas esses temas e nos movimentos sociais, como foram reprimidos, a importância da construção coletiva de solução em oposição aos acentuados conflitos nos níveis das experiências e reconhecimentos individuais. (…)» D. A.

***

4h17 upload… 297 de 779. é abril de 2011 ainda…

***

9h57 já tomei café, mas ainda continuo com sono. roberta respondeu meu email cinco minutos atrás, parece que tirei 7,25. ufa (respondi 9/10…).

mas meu peito está pesado ainda, talvez a poeira de ontem… ou da dúvida de sempre.

mentalizar… pensar positivo, aproveitar o dia de sol.

***

23h43 dia longo. vasos, pias, portas e janelas… aos poucos a casa nova vai ganhando seu contorno. e nessa que habito provisoriamente… um ninho de formigas em mudança resolveu se alojar ao meu lado, no quarto… assim não vai dar, vou cortar relações.

tudo o que não surge como consciência… retorna como destino

[qui] 15 de novembro de 2018

feriado. dia da república.

acordo com a sensação de perda – do amor que não terei coragem de viver, dos livros que nunca conseguirei terminar de ler… dos lugares que nunca irei… sinto como se fosse uma corrida contrarrelógio, e eu nunca fosse chegar, pois ainda não larguei… sempre perdido em mim, neste emaranhado cheio de nós atados e cegos que sou.

no final da tarde, olhando para os meus, pensei… a gente herda a dor e o sofrimento, mas no meio disto tudo, eu ainda tenho uma leveza em alguma parte de mim. ainda podemos ser flor nessa terra deserta.

no final da noite… algo arranha minha garganta. sensação angustiante.

***

«It Didn’t Start With You: How Inherited Family Trauma Shapes Who We Are and How to End the Cycle.»

***

«Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

(...) Porém meus olhos 
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode 
é sério, simples e forte. 
Quase não conversa. 
Tem poucos, raros amigos»

Trecho do Poema de sete faces. 
De Alguma poesia (1930)
Carlos Drummond de Andrade

bélgica do congo

[qua] 14 de novembro de 2018

A CLASSE MÉDIA NO ESPELHO | JESSÉ SOUZA

«Quem não sabe quem é nunca aprende; quem nunca aprende repete.» Jessé Souza

«Faz escuro, mas eu canto por que amanhã vai chegar» Thiago de Mello

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Las manos de la protesta – Oswaldo Guayasamín

*

 «Raza, clase y nación» Immanuel Wallerstein e Etienne Balibar

*

«Dois poemas de Friedrich Hölderlin: “Coragem de poeta” (Dichtermut), “Timidez” (Blödigkeit)». Walter Benjamin. Tradução: Mário Luiz Frungillo

*

Patrice Lumumba presente!

*

«O filósofo do direito Silvio Almeida, responsável pela revisão técnica do livro “A nova segregação: racismo e encarceramento em massa“, de Michelle Alexander, reflete neste segundo vídeo sobre o livro sobre a delicada e necessária questão do ressentimento dos brancos pobres frente às políticas de ações afirmativa».

*

dia corrido… sol infernal, suor… carona da natália salvadora, fila… suor, escola-forno, péssima aula… e para fechar, perco o busão e não vou saber o resultado da prova que fiz segunda. mas amanhã é feriado.

o deserto dos meus olhos

[dom] 11 de novembro de 2018

eu paralisei. meu peito anda pesado. insisto em ser triste e vago.

ainda estou doente.

e amanhã tem prova e eu não consigo estudar. nem consigo sentar e corrigir/planejar as atividades docentes. essa ansiedade toda tem me paralisado…

***

abaixo uma colagem de referências sobre imagem e palavras

na semana que passou usei fragmentos deste programa [imagem da palavra] em sala de aula:

ontem vi words and pictures

e as primeiras palavras que li hoje, foram:

«Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem».
«O medo cega (…) são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos (…) Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara». José Saramago.

***

o que me fez lembrar de uma passagem do filme kasper hauser

«Vejo uma caravana que vem pelo deserto atravessando a areia, guiada por um velho berbere. E este velho é cego. A caravana parou, alguns acreditam que eles se perderam, pois se depararam com as montanhas. Eles não conseguem seguir a bússola. Então o guia cego pega um punhado de areia e a come, como se fosse uma comida. ‘Meus filhos’, diz o cego, vocês estão errados, isto diante de nós não são montanhas, e sim , apenas sua imaginação. Prosseguiremos para o norte’. E então, sem discutirem, eles prosseguiram adiante e chegaram na cidade. E lá a história continua. Mas a história nesta cidade, eu não sei. Eu agradeço por terem ouvida minha história. Estou cansado agora» (Werner Herzog)

e na busca pelo filme, acabei no excelente vídeo abaixo [«o espaço nos fala», do canal prelúdios de Leon Idris Azevedo] e anotei aqui, porque, coincidência, mês passado, em sala, quando da aula sobre foucault, conversamos sobre esse debate… Noam Chomsky & Michel Foucault – Full debate on Human Nature

[ps: o título desta postagem é de um livro que acabo de descobrir e será minha próxima aquisição/leitura… livro de Leon Idris Azevedo]

vídeo, finalizado com esse belo poema «Quintanices» de Regina Dayeh

«Segui teu conselho
abri uma janela

palavras

dançam nas ruas estreitas
pelas avenidas
grafitam nos muros
ocupam espaços
correm na areia

entre rios e pontes
entre vagas ideias
as letras as frases
escapam pulando
em cores

na boca
no sangue
na mão

chega o poema
e junto o poeta
e vem o convite,
à festa folia
brincar de poesia
os sons
toda a luz.
arejam a casa
alegram a casa
habitam em mim.»

Publicado pela Miró Editorial, em 2013.

ʻoumuamua

[qui] 8 de novembro de 2018

[ʔouˌmuəˈmuə]

«ʻOumuamua (/ˌməˈmə/ (About this sound listen)) is the first interstellar object detected passing through the Solar SystemFormally designated 1I/2017 U1, it was discovered by Robert Weryk using the Pan-STARRS telescope at Haleakala Observatory, Hawaii, on 19 October 2017, 40 days after it passed its closest point to the Sun. When first seen, it was about 33,000,000 km (21,000,000 mi; 0.22 AU) from Earth (about 85 times as far away as the Moon), and already heading away from the Sun. (…) Hawaiian term for scout»

pela manhã, no caminho do trabalho, faço um poema, diante do espanto… de ver uma nuvem minúscula e sozinha sobre o mar… e isto me lembrar do filme arrival… as imagens abaixo são apenas alguns fragmentos dos pensamentos desta manhã

exercício sobre a nuvem-nave (arrival)

a riba
a nuvem baixa
e só
sobre o mar
imagem etérea
lapso
memória
a nuvem nave
e se
sempre
(não importa o tempo)
‘tão ali
na nossa língua
o signo da chegada
uma rede
a linguagem
a nau
a pesca
o só e sempre margem
movimento
fóto(n)
retina
sinapse
sol
a nuvem riba,
fragmento
é o outro eu
a mesma poeira
de estrela
(uni)verso.

14h30 visita do fukuta.

22h05 aula terminada. por hoje…

«Conta-nos Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala que havia um ditado corrente no Brasil patriarcal a respeito das mulheres: “Branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar” [1], que revela o pensamento masculino de então no qual a mulher é vista preconceituosamente como um objeto útil. No caso das brancas, úteis para interpretar o papel de mãe, mulher e dona de casa, relevantes para dar à família um status oficial e continuidade à linhagem familiar, devendo estar dentro dos modelos patriarcais; quanto às mulatas, principalmente aquelas mais bem feitas, mais bonitas, mais dóceis, o papel de coadjuvantes no cotidiano da vida patriarcal, dentro das casas-grandes, atuando como mucamas, submetidas muitas vezes a repasto sexual do senhor ou como iniciadoras das práticas sexuais dos filhos deste e também, não raras vezes, como vítimas das sinhás, que transplantavam o ódio de sua submissão à ordem masculina sobre as mucamas. Às mulheres negras, sem os predicados que as tornassem passíveis de agradarem sexualmente o senhor patriarcal, cabiam exercer o papel de animais de carga, o de suportar tarefas extenuantes, o de se esfalfar nas cozinhas sob os gritos das sinhás-donas, o de suar nas tarefas diárias das fazendas e dos engenhos». BRANCA PARA CASAR, por Marcos Hidemi de Lima (UEL-PG)

[1] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. São Paulo: Círculo do livro, s/d, p. 48.

e a sugestão:

Poetisas No Topo (letra) Mariana Mello, Nabrisa, Karol De Souza, Azzy, Souto, Bivolt, Drik Barbosa

lección de gramática e malinculia

[qua] 7 de novembro de 2018

9h58 talvez eu tenha tido uma ideia.

11h49 “parte de mim desesperadamente quer ficar em casa…”

13h00 ça va… ou saravá... vamos lá.

vou de Casa Grande [2014 ‧ Drama/Romance ‧ 1h57m Direção: Fellipe Gamarano Barbosa Sinopse: Um retrato atual da mudança social brasileira a partir de uma família burguesa falida, onde o preconceito social prevalece]

e Casa-Grande e Senzala – edição para aula

20h01 múltiplas janelas abertas… em multiplataformas… áudios, aulas, entrevistas, textos, gramáticas, bloco de notas…

«Yo estoy, tú estás
y ella está y él también;
y todos los que estaban, estuvieron
y están muy bien.
Estamos, estaremos
nosotros; ella y él
estarán lado a lado y yo, que estuve,
estaré.
Y si acaso estuviera
alguien que no haya estado alguna vez,
¡bienvenido!, que estar es lo importante
–y que todos estén»

Lección de gramática, de David Chericián.

22h08 adormeci chapado pelo antialérgico, acordei angustiado lesado, jantei macarrão com salada panc, as lindas capuchinhas, e tomei uma caneca de café quente para acordar. eu posso… eu vou terminar essa bagaça. hoje? sei não…

23h05 é, acho que não vai rolar hoje… e vou ficar devendo para a minha dupla a minha parte das tarefas…

mas do estudo vai um trecho do poema de Antonino Sales, «Malinculia»

«Malinculia, Patrão, É um suspiro maguado Qui nace no coração! É o grito safucado Duma sodade iscundida Qui nos fala do passado Sem se torná cunhicida! É aquilo qui se sente Sem se pudê ispricá! Qui fala dentro da gente Mas qui não diz onde istá! (…)

BAGNO, Marcos. “A Língua de Eulália: Uma Novela Sociolinguística»

o poema da página 186 e algumas notas alheias de uma aula de 2006/2

[seg] 5 de novembro de 2018

«Que terra de comer,
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.

Descubra em seu movimento as
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de voo.

Prazer de ouvir música;
Sobre o papel para que uma mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
alguns objetos, diferentes a nova luz.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como viver, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instante
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem um certo cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estatua: é um torso
de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.

drummond - assina

Os últimos dias. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. 5a ed. Rio de Janeiro: Record, 1988. p. 186-190.

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[madrugada]

Fui reler o poema da página 186. Descubro que ele foi arrancado. O único que falta, mas eis que encontra essa anotação no meio do livro. De uma aula de 2006. Ps: a letra não é minha. Será q o ser humano que deixou essa folha levou o poema?

[tarde]

gripado. febre ainda. dor pelo corpo inteiro. vontade de nada. enrolando… tem tarefa para hoje. oito horas ainda. ops… é para dia sete, ou seja, tempo restante: 2 dias 6 horas.

[noite]

matar aula. não tem aula, nem da cláudia, nem da roberta. fiquei em casa. chá de avenca, com assa-peixe e e folha de ameixa amarela (nêspera), para aliviar.

ramphastos dicolorus

[dom] 4 de novembro de 2018

7h39 #tucano-de-bico-verde  #ramphastosdicolorus

16h31 gripei. tudo [es]tá dolorido. dora tomou banho hoje.

«(…) Ângela é doida. Mas tem uma lógica matemática na sua doidice aparente. E se diverte muito a escandalosa. Aguça-se demais e depois não sabe o que fazer de si. Que se dane. Entre o “sim” e o “não” só há um caminho. Escolher. Ângela escolheu “sim”. Ela é tão livre que um dia será presa.
– Presa por quê?
– Por excesso de liberdade.
– Mas essa liberdade é inocente?
– É. Até mesmo ingênua.
-Então por que a prisão?
-Porque a liberdade ofende.” 
C. Lispector – “Um Sopro de Vida».

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**

na tevê toca aquelas músicas antigas…

Queen – I want to break free // I want to break free / I want to break free / I want to break free from your lies / You’re so self satisfied I don’t need you / I’ve got to break free / God knows, God knows I want to break free / I’ve fallen in love / I’ve fallen in love for the first time / And this time I know it’s for real / I’ve fallen in love, yeah / God knows, God knows I’ve fallen in love / It’s strange but it’s true / I can’t get over the way you love me like you do / But I have to be sure / When I walk out that door / Oh how I want to be free, baby / Oh how I want to be free / Oh how I want to break free / But life still goes on / I can’t get used to living without, living without / Living without you by my side / I don’t want to live alone, hey / God knows, got to make it on my own / So baby can’t you see / I’ve got to break free / I’ve got to break free / I want to break free, yeah / I want, I want, I want, I want to break free / Compositor: John Deacon

Lulu Santos – Sincero // Você não pode me odiar / Só porque eu falei a verdade / Pior seria te iludir o tempo todo / Não vejo vantagem / Você precisa entender meu jeito de te querer / Pode até não ser como você imaginou / Mas eu te quero, eu te venero / Eu te adoro, só não vou te enganar / Porque eu sou sincero / Baby eu sou sincero / Você não pode me estranhar / Depois que eu falei a verdade / Pior seria te iludir o tempo todo / Não vejo vantagem / Você precisa entender meu jeito de te querer / Pode até não ser assim do jeito que você imaginou / Mas eu te quero, eu te venero / Eu te adoro, só não vou te enganar / Porque eu sou sincero / Baby eu sou sincero / Sou sincero / Sou sincero / Compositor: Lulu Santos

**

não fiz nada. ansiedade em modo on… e evoluindo.

to put it in a nutshell: os enigmas da singularidade.

[sex] 2 de novembro de 2018

tomar nota: assim, do nada, mais tristeza e um cansaço absoluto. hoje, alterno entre a vontade de chorar e a de dormir.

***

«CAPITÃO: Falo de minha própria experiência. A verdade, nada mais que a verdade. Nenhuma ficção.
SR. MARTIN: Isso mesmo. A verdade nunca é encontrada em livros, somente na vida.» A CANTORA CARECA. Eugène Ionesco

***

«ilusão mecanicista da nossa inteligência que filma o devir» BERGSON, H. Creative evolution. London: MacMillan and Co, Limited, 1922, p. 274

***

«Para Arendt (1995), o ponto crucial é (“to put it in a nutshell”): “a necessidade da razão não é inspirada pela busca da verdade, mas pela busca do significado. E verdade e significado não são a mesma coisa” (p. 14).» Vanessa Sievers de Almeida, em «A distinção entre conhecer e pensar em Hannah Arendte sua relevância para a educação»

***

«Neste contexto, a necessidade de considerar as diferentes exposições, fatores biológicos e comportamentais no desenvolvimento de pesquisas epidemiológicas ocasionou o surgimento de um novo conceito – o expossoma. Este termo é relativamente recente e foi desenvolvido por Wild⁷ (2005), que o considera como a totalidade das exposições humanas durante toda a vida, desde o momento da concepção até a morte. Miller e Jones ⁸(2014) refinaram o conceito do expossoma como a medida cumulativa de influências ambientais e respostas biológicas associadas, incluindo exposições do ambiente, dieta, comportamento e processos endógenos, ao longo da vida. Ele se desenvolve, concomitantemente, em três domínios. Os fatores internos são aqueles únicos dos indivíduos, como fisiologia, idade, morfologia corporal e o genoma do indivíduo; os fatores externos gerais incluem nível educacional, condição socioeconômica, fatores sociodemográficos e local de residência; e os fatores externos específicos englobam dieta, exposições ambientais, ocupacionais e estilo de vida, por exemplo.¹ ⁴» Kelly Polido Kaneshiro Olympio et al. «O expossoma humano desvendando o impacto do ambiente sobre a saúde: promessa ou realidade?»

***

acima, uma mapa, um itinerário, da pouca leitura fragmentada e caótica de hoje… começando pelo expossoma humano, passando por fragmentos de «Autismo – a cada um seu genoma» de François Ansermet e Ariane Giacobino, e pelas demais citações. e sobre meu humor e fisicalidade… estive exausto o dia inteiro.

 

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